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MOS MILAGROSAS
Konsalik
CRCULO DE LEITORES
Traduo de: ROGRIA CRUZ
Ttulo original: DIE STRAHLENDEN HANDE
Copyright by Hestia Verlag, Bayreuth, 1984
Impresso e encadernado por Printer Portuguesa no ms de Dezembro de 
1989
Nmero de edio: 2594
Depsito legal nmero: 27563189

captulo primeiro

Assim que o comboio parou diante da pequena estao, aps um ltimo 
chiar de traves, levantou-se do banco estofado e forrado de tecido 
cinzento, tal como o compartimento em que viajara sozinha. Conforme 
Stefan, seu marido, exigira que fizesse naquele dia, dado ele no 
poder lev-la de carro nem fazer-lhe companhia na cidade, tinha 
comprado um bilhete de 1.a classe. De p, debruou-se um pouco para 
examinar o rosto durante longos segundos no espelho rectangular que 
se encontrava fixo por cima do assento em frente.
No, no se via nada. Os seus traos no haviam mudado, nem to-pouco 
os seus olhos, que eram de um castanho to escuro que mais parecia 
preto e se rasgavam em duas fendas oblquas - olhos em forma de 
amndoa, dizia Stefan. Tambm eles tinham conservado um brilho de 
juventude que parecia provir de uma fonte inesgotvel de fora vital 
e de sade. No entanto, uma hora antes, ela julgara necessrio 
esconder com um pouco de p-de-arroz levemente ocre as duas manchas 
avermelhadas que, sob o efeito da excitao, lhe tinham aparecido nas 
mas do rosto, o que constitura, alis, uma precauo intil visto 
terem desaparecido por si mesmas.
Calmamente, meneou a cabea para a direita e depois para a esquerda, 
voltou a pr no seu lugar alguns pequenos caracis de cabelos negros, 
humedeceu a ponta dos dedos para melhor alisar as sobrancelhas e, 
antes de se afastar, dirigiu ao seu reflexo um leve sorriso de 
aprovao: "No ests nada mal, hem, para os teus sessenta e um anos! 
Quase parece incrvel que uma mulher da tua idade tenha um ar to 
jovem!" Mas o mesmo sucedera com seu pai: quando j tinha cinquenta e 
muitos anos ainda o tomavam por um homem de trinta, em pleno vigor. E 
o seu av, j com mais de oitenta anos, ainda montava um fogoso 
garanho para ir caar lobos nos retiros selvagens que rodeiam o lago 
de Tchalkinskoie. Ela tinha-o ouvido dizer em diversas ocasies: "Se 
um homem vier a viver mais de duzentos anos, h-de ser aqui na 
Grusnia." Tambm tinha o hbito de proclamar: "As doenas s existem 
para que se lhes no preste ateno alguma!   fora de pensar nelas 
e de falar delas que se fica realmente doente." Da mesma maneira, 
ficara igualmente muito surpreendido quando o seu filho David 
Semionovitch tomou a deciso de estudar medicina em Tifis e de se 
instalar em Poti, no litoral do mar Negro. Com efeito, o av no 
tinha morrido nem de velhice nem de doena. Os Alemes fuzilaram-no 
em 1944, depois de o terem surpreendido a colocar uma carga explosiva 
na via-frrea Tifis-Batum.
"Faamos, pois, como o av", pensou ela ainda sorrindo. Saiu do 
compartimento. No tinha bagagem, trazia apenas a mala de mo 
habitual e um pacote da grande padaria Sclimoldes, de M'nster. A 
Sclimoldes tinha a reputao de vender o melhor po e os melhores 
bolos da cidade e de cada vez que um membro da famlia Doerinck se 
deslocava a M'nster voltava obrigatoriamente de l com vrias 
qualidades de po e de bolos.
Ao abrir a porta do vago, descortinou Corina, que estava  espera 
dela na plataforma e que de imediato levantou a mo num grande gesto 
de acolhimento. Correspondeu tambm levantando a sua e mostrando, 
simultaneamente, o grande pacote com po e bolos.

- Eis-te finalmente de regresso, mamuchka!
Ao dizer isto, Corina encarregou-se do pacote, desembaraando dele a 
me, que desceu com vivacidade os dois altos degraus, saltando para 
terra com a agilidade de uma rapariga.
- Porqu "finalmente"?! Sabiam muito bem que eu devia voltar neste 
comboio. O teu pai ainda est l para a sua conferncia?
- Ainda, me. Mas, e tu, como  que ests?
Corina fixou na me um olhar interrogativo. Um casal que ia na sua 
direco saudou-as com a mxima cortesia. Quem  que no conhecia os 
Doerinck na pequena cidade de Hellenbrand? Primeiro o professor, 
recentemente promovido a vice-reitor, premiado dois anos de seguida 
no concurso de atiradores, chefe do coro da igreja, vice-presidente 
do clube de jogadores de malha e temvel jogador de xadrez aquando 
das reunies regulares do crculo no albergue As Armas de Vesteflia! 
A seguir, a sua mulher, que tinha o estranho nome de Ludinila, uma 
russa, imaginem, o que toda a gente em Hellenbrand tinha dificuldade 
em perceber, apesar dos vinte e seis anos que j tinha passado desde 
a sua chegada. E havia tambm a filha deles, Corina, quase to 
"extica" como a me, apesar de ter nascido na Alemanha e ter criado 
em Hellenbrand uma empresa de fiao de tapetes artsticos bem 
sucedida.
- Como  que estou? Mas como  que queres que esteja? Estou 
lindamente!
Saiu da estao a passos largos e dirigiu-se para o pequeno carro da 
filha. Tal como nas outras cidades importantes da provncia de 
M'nster, a estao de Hellenbrand tinha sido construda fora da 
localidade, num lugar quase isolado no meio dos campos e dos bosques, 
ligada s primeiras casas do burgo atravs de uma larga avenida 
ladeada por altas btulas. Alm disso, Hellenbrand possua trs txis 
e o itinerrio do servio de autocarros estava organizado de maneira 
a fazer coincidir as suas trs paragens dirias na estao com as 
passagens do comboio-correio de M'nster.
De p, perto do carro, Corina insistiu:
- O que  que disse o mdico, mamuchka?
- Dir-te-ei mais tarde, minha querida.
- Porqu mais tarde? Se soubesses quanto nos preocupmos, o pai e 
eu...
Ludmila tinha parado  espera que a filha lhe abrisse a porta do 
carro.
- Deixa-me respirar um pouco. Contar-vos-ei tudo em pormenor quando o 
teu pai voltar da sua conferncia. Bem sabes que detesto repetir as 
mesmas coisas.
- S uma palavra, me. Est tudo bem?
- Deixa isso para mais tarde, por favor.

Subindo rapidamente para o pequeno carro, sentou-se e esperou que a 
filha se instalasse ao lado dela. Que deveria dizer? "Se ao menos", 
pensou de repente, "estas malditas manchas vermelhas no reaparecerem 
nas minhas faces. Talvez que a nuvem de p que pusera j se tivesse 
dissipado... Esto inquietos, naturalmente. No esto habituados a 
que eu esteja doente. Durante todos estes longos anos nunca tiveram 
razes para se inquietarem por minha causa.  evidente que de vez em 
quando tambm tinha tido uma bronquite, uma constipao sria, uma 
pequena crise de citica, uma inflamao nervosa duma articulao 
qualquer e, desde h trs anos para c, dores reumticas no ombro 
direito." Mas, pensando no seu av Arkadievitch Assanurian ("As 
doenas so para desprezar!"), nunca tinha ficado na cama mais de 
trs dias seguidos. At  data tudo se tinha passado sempre bem. At 
 data...
Percebeu que Corina a observava e que ainda no tinha posto o carro a 
trabalhar. Ludinila nada deixou transparecer e continuou a contemplar 
a paisagem atravs do vidro. Dir-se-ia que a via pela primeira vez. E 
nem sequer voltou a cabea quando a filha, utilizando outro tom, 
retomou a conversa:
- Me, em toda a tua vida nunca soubeste mentir. O que  que se 
passa?
- Por favor, Corina, arranca... - Cumprimentou Witkopp, o dono do 
talho, que tinha ido buscar a sua mulher  estao. - No vais 
comear a portar-te como um beb, agora que tens quase trinta anos.
- Ora, h qualquer coisa que no est bem, no , me?
- Tudo est a correr como  normal que corra na minha idade.
- Isso no  resposta.
- O que  que queres que te diga?
- Quero saber se ests ou no doente.
- Visto que mo perguntas, respondo-te que no estou doente... - Pegou 
no pacote, inclinou-se e respirou profundamente. - Como cheira bem! 
No h dvida de que no h melhor padeiro em M'nster do que o 
Sclunoldes! Faz um po como mais ningum sabe fazer. E os seus bolos 
so deliciosos... A propsito, foram buscar o presunto?
- Fomos...
Finalmente, Corina arrancara com o carro. Da estao at Hellenbrand 
eram quase dez minutos, se se atravessasse o burgo sem parar, e 
levava-se exactamente doze minutos at  casa delas. Durante metade 
do trajecto no trocaram palavra. Sentadas uma ao lado da outra, 
muito direitas, olhavam a estrada ladeada de btulas. Witkopp, o dono 
do talho, ultrapassou-as, fazendo acompanhar o seu toque de buzina 
com um alegre aceno. Um mal-estar inexplicvel pairava sobre elas.
De repente, Ludmila ps-se a falar e havia na sua voz qualquer coisa 
de infantil que Corina detectou imediatamente.
- Estas btulas! No lugar onde vivia a minha tia Djuna eram 
exactamente iguais, brancas, altas, estilizadas e igualmente belas. A 
minha tia possua uma casa de campo em Bosserov, na Ucrnia. Era mais 
do que uma quinta; era, na realidade, uma espcie de manso. Pertence 
agora ao sovkhoze Construir, mas na altura a tia Djuna vivia l 
sozinha. Passei l frequentemente as minhas frias escolares. Ia 
guardar cabras. Para mim, eram as melhores frias possveis, pois em 
Poti, em casa do meu pai, eu era a filha do mdico, uma menina que 
tinha obrigao de se mostrar fina! Era extraordinrio deixar-me 
ficar sentada numa clareira de btulas com o rebanho de cabras  
minha volta...
Interrompeu-a uma paragem brutal. Corina tinha sado da estrada para 
enveredar por um caminho arenoso que cortava um campo de tremoos. 
Parou quase imediatamente. Ludmila tinha apertado contra si o pacote 
do po e dos bolos como se se agarrasse a uma bia de salvao.
- Porque  que paraste? - perguntou. - E porqu aqui, neste desvio?

- Eis-nos completamente sozinhas, me... - Tinha-se inclinado para 
trs no assento e fixara os olhos no tejadilho, num ponto por cima do 
pra-brisas. - Estamos ss, compreendes... Por isso podes dizer-me a 
verdade.
- Ora bem, o doutor Willbreit examinou-me a fundo, e quando digo a 
fundo quero dizer em todos os sentidos e de todas as maneiras... - 
Estava a brincar, mas havia na sua voz qualquer coisa que soava falso 
e no conseguia enganar a filha. -  verdade, ocuparam-se de mim 
cinco mdicos: radiografias, electrocardiograma, hemogramas, 
ultra-sons, tudo! At me injectaram uma soluo com rdio e a seguir 
radiografaram-me de novo. E tudo isso desde as oito da manh at s 
trs da tarde...
Tambm ela se inclinou para trs e fechou os olhos. "Ser que as duas 
manchas vermelhas j voltaram?", pensou. "Tenho a impresso de ter as 
mas do rosto a arder. Se retiver a respirao, talvez as impea de 
voltar... "
- Cora, Corinha, estou cansada, no compreendes? No gostaria de ter 
de repetir duas vezes a mesma coisa.
- Mas que disse o doutor Willbreit no fim desses exames todos?
- Pouca coisa. No fundo, at nem disse nada. Estava apenas satisfeito 
com o diagnstico que acabara de fazer! "Tudo fica claro daqui para a 
frente", declarou ele. "No achas que  extremamente tranquilizador? 
E pelo menos j  alguma coisa... Agora leva-me para casa, Cora!"
Sem uma palavra, Corina voltou a pr o carro a trabalhar. Era intil 
obstinar-se. Recuou at  estrada ladeada de btulas e atravessou o 
burgo sem parar. No momento em que alcanava a vivenda em que 
moravam, descortinou o pai, que voltava da conferncia dos 
professores. Os dois carros imobilizaram-se quase ao mesmo tempo, um 
ao lado do outro. Stefan Doerinck precipitou-se imediatamente para 
abrir a porta a Ludmila.
- Ento, Milachka? - exclamou, ajudando-a a sair do carro. - Que dia! 
No parei de pensar em ti. Creio que nem ouvi metade de tudo o que 
foi dito. "Agora esto a fazer-lhe radiografias", pensava. "Agora 
fazem-na engolir uma sonda, e eu no estou com ela, ela est 
sozinha!" Houve momentos, Milachka, em que fiquei completamente 
absorto...
- Tudo isso  consequncia de vos ter habituado mal. Nunca estive 
doente! Nunca me queixei. Foi preciso que a Corina insistisse para eu 
ir fazer este exame completo  clnica de M'nster. E o nosso caro 
doutor Hambach deu-lhe razo. De tal maneira que l fui eu para 
M'nster esta manh e eis-me s agora de volta! Visto isto, porque 
ests to agitado, Stefan?
- E o resultado?
Stefan Doerinck ainda aconchegava a mulher nos braos. Tinha 
depositado um beijo sobre cada um dos olhos enquanto esperavam que 
Corina lhes abrisse a porta da frente.

Eram o exemplo acabado de uma famlia feliz cuja vida decorria numa 
ordem e harmonia perfeitas. Os pais tinham suportado uma guerra 
terrvel, durante a qual, no entanto, se haviam encontrado e amado. 
Agora possuam a sua casa e, por trs desta, um jardim onde em cada 
Primavera floresciam duas macieiras, duas pereiras e uma ameixoeira. 
As latadas estavam nessa altura a cobrir-se de groselhas vermelhas e 
brancas. Tambm havia macios de alfaces diversas e de couves-flores, 
de feijo de todas as qualidades, de tomate, de cebolas e de alhos. 
Uma pequena parte do jardim era consagrado s flores e sobretudo aos 
girassis. Quando as suas grandes flores se balanavam ao vento sob o 
sol, Ludmila parava acocorada no meio delas e o seu olhar perdia-se 
ao longe. Eram os momentos em que Stefan a deixava s. Voltava ento 
a ser a criana que se escondia nos campos de girassis da tia Djuna. 
A eterna alma russa despertava do seu torpor uma vez por ano; uma 
saudade lancinante do seu pas apunhalava Ludmila onde quer que se 
encontrasse e por mais perfeita que fosse a sua felicidade. Nada lhes 
faltava, nada faltava a ambos. Depois de tudo o que tinham suportado, 
podiam folhear sem inveja as pginas das revistas ilustradas e olhar 
para as fotografias da alta sociedade: as jias das mulheres, os 
fatos feitos por medida dos homens, as suas moradias, os seus iates e 
os seus automveis de sonho. Sentados num banco de madeira nas 
traseiras da casa contemplavam o voo dos cisnes no cu vermelho do 
crepsculo e o balanar cadenciado das flores de girassol sob o 
vento. H trinta e cinco anos que sabiam que os parasos desta terra 
no tm necessidade de brilhar nem de serem dourados e que as portas 
que se abrem para a felicidade no tm fechos incrustados de 
diamantes.
- Tenho uma destas fomes, tenho mesmo uma fome terrvel! - declarou 
Ludmila. - Tive de ir completamente em jejum por causa das 
radiografias. Vou preparar imediatamente uma boa fatia de po com 
manteiga, desse bom po da padaria Schinoldes, e pr por cima um bom 
pedao de presunto. E tenho uma destas vontades de tomar um caf. 
Podes faz-lo bem forte, Stefan? Fica sempre melhor quando s tu a 
faz-lo.
Stefan Doerinck desapareceu imediatamente na cozinha. Bem no fundo de 
si mesmo, s agora voltava a respirar. Ento felizmente no era nada! 
Ela estava to alegre. No  possvel estar-se doente quando se est 
habitado por uma tal alegria. E, alm disso, ela tem ar de estar de 
perfeita sade. "E conservou-se to bonita! Se no a conhecesse, acho 
que me voltaria a apaixonar por ela e que me casaria com ela, apesar 
dos seus sessenta e um anos. Ningum lhe d esta idade e ningum 
acredita que j a tenha. Ludmila Davidovria Assanurian... E pensar 
que tudo comeou entre ns h trinta e seis anos, no Cticaso, nas 
margens de um pequeno lago de Paleostomi." Um tenente alemo 
vislumbrou ento uma rapariga maravilhosa que se banhava 
completamente nua...
Stefan Doerinck tinha aberto o pacote da padaria Sclimoldes. A parte 
interior do po ainda estava quente e o seu cheiro era quase 
inebriante. Resistiu  vontade de morder o canto. Era o privilgio de 
Ludinila. Isso fazia parte das pequenas e grandes alegrias da sua 
existncia.
Ainda estava a cheirar o po quando Corina entrou na cozinha. O seu 
rosto parecia tenso.
- No notas nada, pai?
- Sim, naturalmente... - replicou ele rindo. (Designava o po com o 
dedo.) - No comi o canto. Continua no stio!
Tratava-se de mais uma das brincadeiras habituais deles.
- Estou a falar da me. H qualquer coisa que no est bem nela.
- Mas o que  que tens de h tempos para c que s vs tudo negro?

j estava a tratar da cafeteira. Aps ter colocado no interior o 
filtro de papel, tirou da prateleira a caixa do caf modo e em 
seguida ps-se  procura da colher que servia para medir as pores. 
 claro que, como sempre, no estava no stio! Um dia tinha acabado 
por a encontrar meia enterrada na fcula de batata. Nada conseguia 
irrit-lo mais. Era um homem de ordem e de princpios! Por isso 
explicava sem cessar aos seus alunos: "Uma comunidade onde no reina 
a harmonia acaba por mergulhar na anarquia." Tambm lhe tinham 
proposto vrias vezes que tomasse posio publicamente antes das 
eleies e se inscrevesse no partido que parecia corresponder s suas 
declaraes, o partido da ordem, naturalmente. Stefan Doerinck 
recusara energicamente. "Quando era adolescente", explicava, "dei por 
mim inscrito num partido que desencadeou uma catstrofe mundial que 
quase destruiu a Alemanha. Pois bem, se nenhum de vocs quer que isso 
se repita, eu ainda menos." A sua resposta desencadeara risos e 
aplausos. Assim, o vice-reitor era o nico membro do colgio dos 
professores que no estava inscrito em nenhum partido.
De momento continuava a procurar ao acaso a pequena colher das 
pores nas gavetas e nas caixas, esquecendo os seus princpios de 
ordem e de mtodo. Foi num tom cada vez mais furioso que retomou a 
conversa enquanto a filha assistia  sua agitao sem mexer um dedo.
- O que  que se passa outra vez contigo? Foste tu que meteste na 
cabea da tua me que ela tinha alguma coisa e o doutor Hambach, que 
est certamente a ficar senil deu-te razo. Consequentemente, a tua 
me deslocou-se a M'nster. Examinaram-na dos ps  cabea. E qual foi 
o resultado? A sua sade  to perfeita como a tua ou a minha. De 
momento ela tem fome e quer uma fatia de po barrado com manteiga e 
presunto. E caf! Meu Deus, onde estar essa colher?
- porque no utilizas uma colher de ch qualquer?
- E evidente que o posso fazer! Mas quando se tem uma colher especial 
para medir as pores de caf, uma pessoa deve servir-se dela. No, 
no  possvel! Ei-la no doce de laranja!
- Fui eu, pai.
- Naturalmente! Com trinta anos, do ponto de vista domstico, ficaste 
sempre um beb de mama! - Finalmente satisfeito, Stefan Doerinck 
lavou a colher debaixo da torneira de gua quente e limpou-a. - 
Ento, o que  que se passa com a tua me?
- No nos disse a verdade.
- Sabes perfeitamente que ela nunca mente.
- Geralmente, no. Mas hoje nota-se que est a mentir. Eu noto, pelo 
menos. Est a representar. As coisas no devem ter-se passado to bem 
em M'nster. como ela nos quer fazer crer. Por isso deves telefonar ao 
doutor Willbreit, pai...
Tinha-se apoiado contra a porta da cozinha e ele notou que cruzara 
nervosamente as suas longas mos, muito belas, sobre o peito, como se 
fosse para o conter.
- Pai, eu sei que h qualquer coisa de errado com a me.
- Que  que queres dizer com isso de "eu sei"?
Contava cuidadosamente as colheradas de caf: uma por
chvena e uma suplementar...
- Oito, nove, dez... "Vai ficar bom, este caf, e bem forte. Alis, a 
gua de Hellenbrand  excelente, quimicamente pura, e ns temos o 
nosso prprio poo. No h nenhuma mistura com guas industriais como 
nas cidades dos arredores."
- O que  que sabes disso? No s mdica. Recusaste-te a
continuar os teus estudos de medicina.
- Por favor, pai, no estejas sempre a censurar-me. j no dava...

-  natural! Desde o primeiro ano que quiseste saber mais do que os 
teus professores!
- E tinha sempre razo, o que nunca dizes! Descobri ao todo nove 
diagnsticos falsos e tiveram de o reconhecer posteriormente. E isso 
nenhum membro de uma faculdade de medicina consegue suportar da parte 
dum estudante. Fale-me tambm da senhora Reinhardt. Aps quatro anos 
de tratamento a uma gastrite crnica, depois de ter ingurgitado 
quilos de medicamentos, ela continuava sempre na mesma, no  
verdade? S com o dinheiro dela o farmacutico pde refazer
a fachada da sua farmcia! Em dez sesses comigo ficou curada. E sabe 
bem como... - Projectou para a frente as duas mos, com as palmas bem 
abertas na direco dele, e f-lo to bruscamente que ele pensou ter 
sentido o choque. - Com as minhas mos!
Stefan Doerinck deitava metodicamente a gua no recipiente de vidro 
da cafeteira.
- E desde esse milagre, o nosso venervel doutor Hambach, o nosso 
distinto mdico de clnica geral, passa a vida atrs de ti a agitar a 
cauda?
- Que grosseiro, pai.
- Reconheo-o, minha filha. Queria dizer que ele se baba de admirao 
perante os teus dons de bruxa!
Assim que tapou a cafeteira, endireitou-se com o esprito finalmente 
liberto. Cortar o presunto e o po, assim como barrar este, era o 
trabalho de Ludmila. Corina, como sempre, encarregar-se-ia da loua e 
dos talheres e poria a mesa. Se se esquecesse de o fazer, Doerinck 
pregar-lhe-ia mais uma vez o seu grande sermo: " coisa assente que 
possuis mos especiais que emitem raios que ningum v. Fala-se de 
magnetismo, de campo de foras, etc. Por tua causa tive de engolir 
alguns livros sobre o assunto. Depois da histria da Sra. Reinhardt, 
quis perceber o que se passava. Mas apesar de toda a minha boa-f, 
tenho um esprito demasiado terra-a-terra, gosto das coisas claras e 
as vossas explicaes no so suficientemente slidas. Segundo elas, 
cada corpo humano e animal emitiria uma irradiao. Isso  pura 
loucura! Tu, minha filha, ests rodeada de irradiaes invisveis. E 
eu, ento? E a tua me?" Nesta altura, Doerinck abandonava a ironia 
para adoptar um tom muito grave: "No que toca  tua me, eu 
compreend-lo-ia. Se h ser humano que tenha algo de anjo,  sem 
dvida ela. Mas tu, com o teu carcter,  difcil admiti-lo!"
- Pai, j te deste conta de que idolatras a me?
- No se fazem perguntas dessas ao prprio pai. Mas visto que j o 
fizeste, vou responder-te: j.
- Pois bem, a me est doente, muito doente, pai...
- Cora, peo-te que te cales! - De repente, comeou a respirar 
profundamente. Sim, sentia nos pulmes e  volta do corao a mesma 
presso que sempre o tinha acompanhado durante a interminvel guerra. 
Pensava que a tinha feito desaparecer e, no entanto, ela j voltara 
uma vez mais, quando Ludmila tinha tido uma perda de sangue na casa 
de banho. - Pe a mesa! - Apercebeu-se de que a sua voz ficara rouca 
e esforou-se por se dominar designando com o dedo o aparador onde 
ela tinha arrumado a loia. - A tua me vai contar-nos o dia que teve 
e no mentir. Porque o faria? Basta um telefonema da tua parte ou da 
minha para ficarmos a saber toda a verdade. Meu Deus, olha para ela! 
Parece sair dum anncio para um elixir da juventude! Toda a gente s 
lhe d quarenta anos, no mximo.

Durante esta rpida discusso entre o marido e a filha, Ludinila 
tinha-se retirado para o seu quarto a fim de tomar um duche. Antes de 
se voltar a vestir tinha-se imobilizado com ar grave diante do 
espelho COM ps que lhe devolvia a sua imagem. Sessenta e um anos. 
"Este corpo, este corpo que ainda se conserva belo, vive desde h 
sessenta e um anos.  incrvel que tenha conseguido manter-se to 
jovem! As pernas no engrossaram e a carne das coxas no tem uma 
nica prega. No tenho uma nica variz e a minha barriga continua 
quase lisa e a sua pele, esticada, parece quase juvenil. Apesar
de j ter uma filha com trinta anos!  claro que os seios j foram em 
tempos mais altos e mais rijos, mas ainda posso fazer concorrncia a 
milhares, que digo?, a milhes de raparigas. Qualquer pessoa que 
visse este corpo e pretendesse que se
tratava do corpo de uma mulher com mais de sessenta anos seria 
acusada por toda a gente de mentir e talvez mesmo espancada por 
aqueles que ficariam irritados por verem que mantinha a sua 
afirmao. E, no entanto... a verdade  que este corpo no passa de 
uma fachada. Um cenrio como os que Potenikine erigiu por onde ia 
passar a czarina para lhe fazer crer que havia aldeias florescentes 
onde s se erigiam paliadas pintadas, por trs das quais se estendia 
uma terra nua e em pousio. E assim o teu corpo, Ludmila Davidovna, 
uma
fachada ainda bela. E como  que lhes vou dizer o que se passa por 
trs dela sem me ir abaixo repentinamente?"
Uma vez mais, deu uma volta completa sobre si mesma, observando 
longamente o jogo dos msculos e da luz do Sol sobre a pele firme e 
brilhante. Pensou em Stefan, que a amava como h trinta e seis anos e 
que continuava a sentir-se atrado por este corpo... Com um grande 
arrepio, agarrou o
ventre com as mos crispadas e a seguir afastou-se do espelho para ir 
buscar roupa limpa e se vestir.
Quanto tempo tero durado os cenrios de Poternizine sem se 
deteriorarem nem carem? Talvez mais tempo do que o
corpo humano.
Penteou-se - no tinha nem um cabelo a ficar branco na cabeleira, que 
era dum negro luzidio -, espalhou no rosto uma camada discreta de 
base, sublinhou as plpebras com um trao azul e passou sobre os 
lbios um pincel com bton num tom vermelho-alaranjado-brilhante. 
"Mas porqu?", pensou. Porqu? Porque  preciso. At um palhao 
esconde as lgrimas sob o riso desenhado por uma pintura espessa, 
pois  assim que o pblico o quer ver. Se se pusesse a chorar todos 
partiriam...  preciso morrer bela... aguentar at ao dia em que 
deixar verdadeiramente de ser possvel faz-lo.
Escovou de novo o cabelo. Usava um penteado jovem. Depois saiu do 
quarto para se dirigir  casa de jantar, onde Stefan e Corina se 
encontravam j  mesa, esperando-a. O cheiro do caf, s por si, agiu 
sobre ela como um estimulante. As fatias de po que tinha pedido 
estavam dispostas num grande tabuleiro de madeira. Havia um segundo 
tabuleiro com a manteigueira, a melhor parte do presunto, com o osso, 
e uma faca com o gume comprido e afiado. O presunto da Vesteflia vem 
sempre acompanhado com uma garrafa de aguardente vincola. A marca 
preferida de Stefan era a M'nsterland-Gold, o medicamento dos 
centenrios, como desde sempre se dizia.

- Nem Vnus saindo dos mares conseguiria ser mais bela! - exclamou 
Stefan Doerinck, completamente tranquilizado a propsito da sade da 
mulher. E acrescentou: - Matiouchka, dir-se-ia que queres seduzir um 
esquadro de cossacos!
- Em geral, tm as pernas arqueadas. De qualquer maneira, no que se 
refere s pernas, j me chega o que tenho.
Rindo com vontade, sentou-se no lugar habitual, deitando uma olhadela 
cmplice  filha. O riso de Corina pareceu-lhe um pouco forado, mas 
prosseguiu:
- Foi verdadeiramente a nica coisa que me desagradou no teu pai: 
tinha as pernas ligeiramente em arco. E ainda hoje me chocam da mesma 
maneira. Felizmente que tens as minhas pernas, Cora! - Inclinou a 
cabea na direco de Stefan, com ar coquete. - No protestas, 
papuchka?
- E porqu hoje?
- Porque ao regressares de M'nster trouxeste de novo a vida a esta 
casa, que me parecia morta sem ti!
- Pois , eis-me de regresso de M'nster... - A sua cara estremecera? 
Sentia-se de repente dona de si mesma e do menor dos seus gestos. 
Pegou no canto do po e, como Corina se inclinou para lhe estender a 
manteiga, pousou tudo sobre a mesa. A seguir, aps um momento de 
imobilidade, cruzou as mos por cima do prato e endireitou-se 
inclinando a cabea para trs. - Tenho de vos dizer uma coisa... - A 
sua voz estava muito calma e a sonoridade eslava de cada vogal 
imprimia-lhe, como sempre algo de fascinante. - O doutor Willbreit 
falou-me muito francamente e eu quero fazer o mesmo. Vem como estou 
calma... mantenham-se, portanto, to calmos como eu, suplico-vos. A 
partir de agora, tal como estou,
no me restam mais do que seis meses de vida.
- Minha... Matiucuka - gaguejou Stefan Doerinck - no  verdade, pois 
no?
- E se comesses hoje o canto do po - escutou-se a dizer, enquanto 
sorria. - Toma, isso dar-me- prazer.
os segundos que se seguiram passaram-se num silncio paralisante.
Corina endireitara-se, baixando logo a seguir o rosto, de olhos 
fechados. Os seus lbios transformaram-se num trao duro, quase 
invisvel, e toda a sua face se imobilizou numa espcie de mscara de 
onde desaparecera qualquer expresso. Stefan Doerinck, incapaz de 
ficar no mesmo lugar, deu um salto da cadeira para atravessar a 
passos largos, e de um lado para o outro, sem dizer palavra, a 
cozinha. Depois de o ter seguido um instante com os olhos, Ludmila 
pegou na faca, partiu o canto do po ao meio e ps-se a barr-lo.
-  absolutamente necessrio que falemos de tudo isto sem nos 
excitarmos de mais. De que serviria agora perdermos a cabea? - 
Voltando a pousar a faca no prato, olhou para Stefan, que parara, sem 
se ter ainda recomposto e respirando pesadamente, para olhar para 
ela. - Recorda-te, Stefan, daquela horrvel retirada no Cucaso. Toda 
a populao civil,

esse povo que nunca tinha aceite a ocupao russa do tempo dos 
czares, fugia perante o regresso do Exrcito Vermelho. E ns os dois 
encontrvamo-nos cercados com outras pessoas. Pus-me ento de joelhos 
e supliquei-te que me matasses. No queria cair nas mos deles. 
Nenhum de ns acreditava que pudssemos abrir uma brecha naquele 
crculo de morte. Que me disseste ento? "Enquanto eu puder mexer, 
nem que seja apenas um dedo, nada est perdido." E conseguimos romper 
o cerco. E em seguida passmos por outros apertos e conseguimos 
sempre ultrapass-los, no  verdade?
- Mas... mas  completamente diferente... - Gaguejava e tinha a voz 
embargada. - Tnhamos sempre uma hiptese de escapar. Hoje, foi um 
mdico que te disse, que ousou prevenir-te, que tudo acabou...
Parou como que sufocado pelo soluo que lhe subia at  garganta e 
pelas lgrimas que tentava reprimir. Finalmente, voltou-se, deu 
alguns passos e depois imobilizou-se com as costas apoiadas contra a 
parede, enquanto os ombros eram agitados de vez em quando por 
movimentos convulsivos.
- Repeti o que ele me disse, mas no completamente: restam-me seis 
meses se no me deixo operar. Se a operao for bem sucedida e no 
tiver nenhuma metstese no fgado, ainda posso durar trs anos, 
talvez cinco. At talvez possa curar-me completamente. Isso no se 
pode saber antes da operao, e mesmo assim no  certo.
- Me, mas tu comeaste por nos dizer que o doutor Willbreit estava 
satisfeito com os exames e com o diagnstico...
A voz de Corina, ao contrrio da do pai, continuava clara e firme. 
Ludmila lanou um olhar de soslaio  filha, que se inclinara, fixando 
nela os olhos negros, que ainda pareciam maiores do que 
habitualmente. O seu olhar encontrava-se carregado de uma fora 
insustentvel. De tal maneira que Ludmila sentiu um verdadeiro 
choque, como que uma onda de calor, que a levou a esboar um 
movimento de recuo.
- E  verdade: ele estava satisfeito porque o seu primeiro 
diagnstico estava correcto: cancro do intestino grosso!
- Mas no disseste tambm: no estou doente?
- E  igualmente verdade: no estou doente, j estou  morta, Corina. 
O que em mim parece ainda estar vivo encontra-se num estado de 
transio. - Acabara de barrar o po e empurrou o prato na direco 
do lugar vazio do marido. - Parecem extremamente excitados, vocs. 
Porqu? Afirma-se sempre que se deve dizer a verdade e, no entanto, 
raros so os que conseguem suport-la. Vamos l, papuchka, e tu Cora, 
sentem-se!
- J estou sentada, me.
Com efeito, no se tinha mexido e esperava que o pai voltasse para a 
mesa, mas ele afastou-se dificilmente da parede em que estava 
apoiado. Olhava-o como tinha olhado para a me alguns segundos antes 
e tinha a impresso de mergulhar nos seus olhos avermelhados e na sua 
cara de traos cavados. "O seu pai passaria a ser a partir de agora 
aquele estranho?", perguntou-se, repentinamente desesperada. "Se a 
me morre, ele no lhe sobreviver muito tempo. Deixar-se- ir a 
pouco e pouco. S de pensar que no a ter mais ao p dele, comea j 
a desagregar-se e a ficar ressequido."
- Se compreendi bem, no queres que te operem, no , me?
- Ainda no sei nada. Temos de falar os trs. O doutor Willbreit tem 
uma cama vaga no dia dez do prximo ms. Mas antes, devo fazer vrias 
sesses de radioterapia. - Tirou uma ficha do bolso do seu tailleur e 
ps-se a ler. - Aplicao teraputica de raios X durante duas 
semanas, de duas a trs mil unidades roentgen, associada ao 
medicamento

Fluoro-Uracil-5. Oh! O doutor Willbreit mostrou-se muito cordial. 
Explicou-me tudo. At me mostrou as radiografias. " ento com isto 
que se parece uma condenada  morte", disse-lhe. "No exactamente", 
corrigiu ele, "pois existem recursos, apelos e tambm graas." Foi 
verdadeiramente amvel...
Com uma voz ainda hesitante, Stefan Doerinck interveio:
- Naturalmente, vais fazer tudo o que o doutor Willbreit mandar.  um 
especialista. E falou de recursos, de apelos e de graas... Portanto, 
ainda h esperana, Milachka. Vais ver
que ainda vamos escapar mais uma vez.
- Mantenhamos a calma, portanto. - Cortou uma fatia de po branco e 
pegou na faca da manteiga. - E agora comamos, pois j no somos s 
trs  mesa. Passmos a ser quatro. O cancro tambm tem de se 
alimentar. - Com a ponta da
faca, apontava para a barriga. - Pois bem, temos de habituar-nos  
sua presena!
Foi o bocado de po mais terrvel que Stefan Doerinck engoliu na sua 
vida. Colava-se-lhe s gengivas, ao cu-da-boca e  garganta, 
provocando-lhe nuseas. Entretanto, observava a mulher, que devorava 
com apetite a sua fatia de po com manteiga coberta por uma espessa 
fatia de presunto.
Naquela noite, Corina ficou em casa dos pais. Tinha conservado o seu 
quarto, em forma de mansarda, de quando era pequena e depois 
adolescente, e nada nele tinha mudado desde h anos, nem sequer as 
bonecas arrumadas em cima da cama, todas terrivelmente usadas, 
algumas com bossas, sem cabelos e sem braos. As paredes ainda 
estavam decoradas com posters representando dolos da sua juventude, 
Pierre Brice em papel de Winnetou, Stewart Granger como Old 
Shatterhand, Os Beatles e Freddy Quinn. Tambm o seu gira-discos l 
continuava, aberto como se tivesse acabado de ser utilizado, 
encontrando-se ainda um disco de Bully Bulilan no prato.
Depois de se ter sentado na borda da cama, que era muito baixa por 
ela lhe ter em tempos retirado os ps, Corina tinha ficado muito 
tempo imvel, com as pernas estendidas, contemplando na parede em 
frente uma carta que se encontrava numa simples moldura de madeira. 
Era a fotocpia de um documento privado do professor W. Homschuh, que 
ensinava uma cadeira sobre as afeces dos rgos internos. Este 
tinha-a enviado confidencialmente ao reitor da universidade. Conhecia 
de cor o seu contedo:
O comportamento da jovem Doerinck j no  suportvel. Ultrapassou 
todos os limites durante a minha aula do dia 23 deste ms. Nesse dia 
apresentei um caso escolhido no meu servio e que me parecia 
particularmente interessante: um efisema pulmonar crnico. Perguntei 
ento  jovem Doerinck, presente junto da cama da paciente, que 
fizesse um diagnstico segundo as normas usuais. Esta estudante fixou 
durante muito tempo a doente e estendeu as palmas das mos na sua 
direco at ficarem a cerca de dez centmetros do corpo da paciente. 
Depois de alguns movimentos de alto para baixo e de baixo para cima, 
para espanto meu e dos presentes, a jovem Doerinck declarou em voz 
alta: 'Dentro de duas semanas estar completamente curada. Tem 
simplesmente estado a seguir um tratamento errado!

De imediato, mandei embora secamente a jovem Doerinck, pedi desculpa 
 paciente e a todos os meus colegas e estudantes pelo que tinha 
acontecido e, depois da aula, quis pedir  jovem Doerinck explicaes 
sobre a sua conduta. Encontrei-a no corredor, fumando cigarro atrs 
de cigarro. Continuou a suster que a paciente tinha cura. Ora, uma 
semana mais tarde, depois de ter mandado para casa a tal doente 
incurvel, fiquei a saber que a menina Doerinck a visitava e que a 
tratava por imposio das mos. A doente pretendia sentir melhoras 
naturalmente subjectivas. De qualquer modo, peo ao conselho de 
disciplina que estude a possibilidade de uma eventual expulso da 
aluna Doerinck. Na minha opinio, seria totalmente injustificado 
permitir-lhe continuar na faculdade... "
No, no a tinham expulso. Fora ela que sara. Mas quando compareceu 
perante o reitor para se despedir dele, fizera-se acompanhar por uma 
senhora ainda bastante plida, mas que respirava sem nenhuma 
dificuldade e se encontrava de muito bom humor. Chamava-se Emma 
Hennemann e era casada com um importante fabricante de molas de ao. 
Quatro meses antes tinham-na mandado para casa, crendo que o 
desenlace da doena seria fatal, para que passasse os seus ltimos 
dias em famlia, rodeada de todos os cuidados necessrios para 
aliviar as crises de falta de ar. Tinha feito uma declarao um pouco 
teatral.
- Aconteceu-me um milagre, senhor professor! Estou curada! E foi 
apenas com as mos que a Corina me curou! Apenas com as mos! Olhe, 
olhe!
Diante do reitor estupefacto, a sra Henneman tinha executado dez 
genuflexes consecutivas e em seguida tinha-se postado diante dele 
sem ter ficado sem flego, sem que a sua cara ficasse azul do esforo 
que acabara de fazer, sem mergulhar ali mesmo numa crise de asfixia! 
At tinha coroado a demonstrao com alguns passos de dana.
- Pois ! E para o doutor Hortischull eu j estava morta. Tinha-me 
mandado para casa para l morrer e com a finalidade de no estragar 
as vossas estatsticas! - Havia uma certa amargura na sua voz. E 
tinha concludo sem que ele conseguisse dizer palavra. - H qualquer 
coisa que no est bem na vossa medicina! Deveria investigar isso 
melhor, professor!
Depois da sada da Sra. Hennemann e de Corina, que se contentara com 
esboar um breve adeus, o reitor telefonou ao seu colega Homschuh e 
p-lo ao corrente do que se passara no seu gabinete.
- Confesso-lhe que fiquei terrivelmente impressionado. Abandonar o 
leito de morte para fazer diante de mim dez flexes consecutivas, sem 
nenhuma ajuda, a que se seguiu uma demonstrao de no sei que dana 
de negros,  bastante espantoso...
No auscultador, a voz do Dr. Hornschuh tinha-lhe parecido hesitante e 
pensativa.
- H coisas que nos escapam com frequncia. Como sabe caro colega, 
apresentam-se, por vezes, relaes psicossomticas que no podemos 
discernir nos exames. Com uma boa encenao e o desempenho da comdia 
indicada, h pessoas do gnero dessa pequena Doerinck que conseguem 
obter certas curas. No fundo, de que  que se trata neste caso 
preciso? Trata-se muito simplesmente do desaparecimento sbito de uma 
psicose com efeitos somticos, o que no tem nada de miraculoso. 
Deixe-me fazer-lhe uma pergunta: existem milagres em medicina?  
evidente que no. Diria mesmo que este caso vem abrir de novo o velho 
debate: pode-se empreender uma aco jurdica contra as pessoas como 
Corina Doerinck?
- S se ela fizer disso uma profisso - tinha concludo o reitor 
bastante secamente e cortando a comunicao.
As explicaes do seu colega, habituais em tal situao, ,

constituam uma pobrssima justificao. Como  que Horns-chuh se 
tinha podido enganar quele ponto no seu diagnstico se se tratava 
duma psicose - visto eles se gastarem - dissera Stefan num tom 
sarcstico. A nica coisa que no me inspira muita confiana so os 
motivos modernos. Dir-se-ia que entornaram latas de tinta. Felizmente 
para ambos, tratava-se de um daqueles casos "que ficam entre 
colegas". ao acaso por cima das superfcies de l ou de algodo.
No desconfiava de que Corina conseguiria obter as cpias
da acta secreta deste telefonema, assim como a carta do professor 
Hornschuh. Uma secretria da clnica polivalente, 
qual se propunha restituir um rosto aceitvel desembaraando-a das 
borbulhas de uma acne recalcitrante, provara-lhe assim o seu 
reconhecimento. Dessa vez, o pai protestara.
- O que  que podes ganhar com tudo isso? Meu Deus,
queres mesmo seguir o exemplo do teu av? S que David
Semionovitch tinha o seu diploma de mdico e exercia legalmente a sua 
profisso em Poti.  verdade que no tratava a sua clientela com os 
medicamentos clssicos. Contentava-se
em pr as mos sobre a parte do corpo que o doente lhe indicava e em 
cantarolar em voz baixa durante alguns minutos.
A maior parte dos doentes declaravam-se em seguida satisfeitos com o 
tratamento.
- Eu, meu querido pai, no costumo cantarolar - respondera ela 
simplesmente.
Uma semana aps o seu abandono da faculdade, tinha-se
inscrito num instituto privado onde se utilizavam mtodos 
teraputicos ditos "suaves" para tratar os doentes. Mas logo
aps interrompera bruscamente os novos estudos, tal como fizera com 
os precedentes. Dir-se-ia que fugia de qualquer coisa ou de si mesma. 
J tinham passado sete anos. Fechara-se
no quarto durante uma semana e s descia para as refeies,
calada, mal respondendo s perguntas dos pais e com o olhar
vazio. Depois de comer maquinalmente, empurrava a cadeira
e subia para o quarto, onde voltava a barricar-se.
Steffan Doerinck, perturbado, confiara finalmente  mulher:
- Passou-se certamente algo de terrvel, algo que alterou a
sua vida de uma ponta  outra. E no nos diz nada! Milachka,
sendo tambm mulher deves estar mais prxima dela do que
eu.
Mas Corina opusera a mesma resistncia, um verdadeiro
muro de silncio, a todas as perguntas da me. Esta situao
continuou at ao momento em que uma noite, quando se en'contravam  
mesa, lhes anunciou:
- Quero aprender a fazer tapetes. Mais tarde abrirei o
meu prprio atelier. Que acham da ideia?
- Porque no? H sempre um mercado para os tapetes. Estas recordaes 
eram-lhe necessrias para poder tomar uma deciso. Corina levantou-se 
finalmente da cama, aproximou-se da pequena secretria, colocada de 
vis num canto do quarto, e pegou no telefone. Sabe de cor o nmero 
da clnica Polivante e, depois de lhe passarem servio aps servio, 
consegue obter o de cirurgia, que  dirigido pelo Dr. Willbreit, e 
fala com a secretria.
-  urgente? - pergunta uma voz impessoal.
- Se no fosse porque estaria a telefonar a esta hora?
-  ento um caso urgente. Necessita de...

- No! No  para chamar uma ambulncia nem nada que se parea. 
Desejava apenas falar com o professor Willbreit. Trata-se de um 
assunto estritamente privado.
- Privado... ?
-  assim to raro?
- Claro que no, mas o professor encontra-se numa reunio com os 
colegas. Quem devo anunciar?
- Corina Doerinck...
- Vou ver, minha senhora...
Corina espera um bom bocado. Por fim, um estalido no outro extremo do 
fio assinala-lhe a passagem da comunicao. A voz do professor 
Willbreit  seca como a de uma personalidade importante indignada por 
ser incomodada to grosseiramente.
- Fala Willbreit. De que se trata?
- Da minha me. - Corina respira profundamente. -Ludinila Doerinck. 
Assanurian  o seu nome de solteira.
- Ah, sim! A senhora Doerinck... A sua me foi examinada hoje. Sim... 
Ela contou-lhe...
- Sim, que diagnosticou um carcinoma do clon.  absolutamente certo?
-  um diagnstico da responsabilidade de vrios servios, alm do 
meu. O resultado de todos os exames  coincidente e incontestvel. 
Aps o toque rectal, procedemos a uma escopia do recto, seguida duma 
segunda escopia do prprio clon, aps a lavagem preparatria. No 
chegmos a fazer uma bipsia dos tecidos. Era absolutamente intil, 
dado termos as radiografias. Estas permitiram estabelecer um 
diagnstico definitivo. Aconselhei a senhora sua me a deixar-se 
operar imediatamente.
- A operao servir para alguma coisa?
Willbreit calou-se por um instante. Ela imagina-o a franzir as 
sobrancelhas, perguntando-se que idiota  aquela. Tal pergunta tem 
necessariamente de o espantar, perturbando-o. At ento ningum 
ousara perguntar-lhe se o que se propunha fazer tinha alguma 
utilidade. Na verdade tratava-se mesmo de uma pergunta que nunca lhe 
fora feita!
- Se a operao for feita a tempo, existem boas possibilidades de 
sobreviver. No caso da sua me ser necessrio anastomosar-se o 
intestino delgado e o grosso, o que significa...
- Eu sei, senhor professor. Fui estudante de Medicina durante seis 
semestres.
- Ah!  quase uma colega... - Fez um risinho muito seco. - Ento no 
h necessidade de explicaes entre ns. O que continua a ser para 
mim um enigma  como  que a sua me chegou a um estdio to avanado 
da doena sem se ter sentido gravemente incomodada j h muito tempo. 
 um caso extremamente raro.
- Ento no pode fazer nenhum prognstico em relao ao 
desenvolvimento e  evoluo da doena depois da operao?
- Que pergunta a sua! Quem  capaz de fazer um prognstico em relao 
a um caso de ablao do clon?
- Disse  minha me que teria no mximo seis meses de vida...
- A sua me insistiu para que lhe dissesse a verdade sem quaisquer 
rodeios. Tendo em conta a natureza do seu caso, creio que  
prefervel...
- Acaba de dizer que ainda havia algumas possibilidades...
- Ainda ignoramos qual  o estado real do fgado. Se tem 
metsteses...

- E se no houver operao?
- Por favor, minha senhora. - No se pode enganar: o doutor Willbreit 
retoma o seu papel de professor e comea a dar uma reprimenda a uma 
aluna rebelde. - Por favor... Ningum tem o direito de pensar noutra 
coisa, e a senhora ainda menos, cara quase colega... Sem operao...
Corina mexeu-se um pouco na cadeira para recuperar foras, olhando 
para a carta emoldurada e pendurada na parede. A deciso que vai 
tomar por em questo a vida da me e igualmente a sua. No voltar 
nunca a ser o que era anteriormente.
- Queria avis-lo, senhor professor, de que pode anular a consulta da 
minha me. Ela no vai ser operada.
- No a compreendo. Sabe ao menos o que est a dizer? - O seu tom de 
voz tornara-se brusco. Ferido no seu orgulho, pe de lado a cortesia. 
-  preciso descrever-lhe o que vai acontecer  sua me nas prximas 
semanas?
- Eu sei.
Ao contrrio da voz do mdico, a sua estava cada vez mais calma e 
tinha uma clareza absoluta. Inclinando-se para trs na cadeira, 
estende o brao esquerdo diante de si, levanta a mo  altura dos 
olhos e contempla-a longamente. Os seus longos dedos muito finos 
tremem um pouco. Meu Deus, ser possvel?
- Ela curar-se- - ouve-se a dizer.
- Ah, sim? Por acaso acredita em milagres, menina?
- No. Acredito numa certa fora. Agradeo-lhe, senhor professor.
Desliga, pe os cotovelos em cima da pequena secretria e cruza as 
mos para com elas suster o queixo, pois a sua cabea tornou-se 
demasiado pesada. No  s pela angstia de falhar, mas sobretudo por 
ter de descer e dizer  me: " preciso que creias em mim. Tens de 
ter confiana em mim. Vou tentar destruir directamente o mal que te 
corri."
Parcelarmente, como num sonho, lembra-se das curas que obteve nos 
ltimos anos, ao princpio quase sempre no maior segredo, mas como 
que impelida por uma fora invencvel: o enfisema, da Sra. Henneman, 
a asma da Sra. Wille, a actie rebelde da secretria, a ferida 
ulcerosa e sangrenta de um estudante de Medicina e a obturao da 
uretra do Sr. Schules, farmacutico de M'nster; alm de algumas dores 
de ancas, reumatismos, gastrites, contraces dos vasos do corao, 
enxaquecas crnicas e paralisias de origem nervosa. Quantos haviam 
sido os que, de p ou deitados diante dela, se tinham oferecido  
aco benfica e inexplicvel das suas mos? A alguns centmetros da 
pele, ela acariciava  distncia, sem nunca lhe tocar, a parte 
doente. Tratar-se-ia duma irradiao invisvel possuidora duma fora 
inexplicada que emanara dela e tinha assim agido em tantos males?

"E de cada vez que essa corrente se libertara, sentira-se exausta e 
vazia", pensou. Todos os seus ossos e msculos lhe doam como se 
tivesse sido espancada. Tinha ento de se sentar e de inalar 
profundamente, em silncio e de olhos fechados, o fumo de alguns 
cigarros. Depois comeava a sentir que o que tinha acabado de sair 
dela estava a regressar a pouco e pouco, voltava a encontrar o seu 
lugar dentro dela, e que o seu ser, momentaneamente enfraquecido pela 
dita emanao de energia, se encontrava a recuperar cada vez mais 
rapidamente toda a sua fora. Como explicar aquele fenmeno? Como  
que um dia, ao tocar levemente num ramo de flores quase completamente 
murchas, vira os caules endireitarem-se diante dela e as flores 
voltarem  vida?
Ao princpio tinha ficado transtornada ao ponto de j no ousar 
apertar as mos que lhe estendiam, aproximar-se de uma planta ou 
tocar algo que fosse orgnico, com medo de ver essa parte de ser vivo 
mudar de aspecto diante dos seus olhos. Mais tarde, aps um perodo 
de abatimento, tinha comeado a desafiar aquele hspede desconhecido 
que era o seu destino, j que era preciso arranjar-lhe nome. 
Finalmente, h cinco anos, tinha ocorrido o caso do pai. At quela 
altura, o desportista perfeito e transbordante de sade que o seu pai 
era adorava dar longos passeios de bicicleta atravs da regio de 
M'nster. Costumavam passar as frias no mar do Norte, frequentemente 
na ilha de Norderney, onde ele corria na praia. Mas de repente tinha 
ficado de cama e chamado o Dr. Hambach, mdico da famlia.
O velho Dr. Hambach, que acorrera imediatamente, tinha diagnosticado 
tratar-se de zona. Aconselhara repouso, receitara aplicaes duma 
pomada contendo xido de zinco e de uma preparao com moroxidina 
contra as dores nervosas.
No se tinham verificado melhoras. A febre aumentara e as dores 
tornaram-se tais que Stefan Doerinck j no conseguia reprimir os 
gemidos. O Dr. Hambach recorria  velha sabedoria das naes: uma 
doena precisava dum certo tempo para se curar, era preciso ter 
pacincia, e os piores doentes eram os que, tal como o amigo 
Doerinck, tinha gozado sempre de boa sade... Ento, uma noite, 
Corina sentou-se perto da cama do pai. Mal estendera as mos na sua 
direco, sentiu na ponta dos dedos uma estranha coisa que j 
conhecia: ocombate tinha comeado.
Continuando a falar com o pai para no atrair a sua ateno, 
continuara a passear as mos a cerca de dez centmetros da caixa 
torcica do doente. Aquilo s tinha provavelmente durado trs 
minutos, mas a ela pareceu-lhe um tempo interminvel. Tinha tido a 
sensao atroz de ter a medula espinal a ser aspirada por uma bomba. 
Por fim, as suas mos sossegaram: o pai havia adormecido. A seguir, 
enterrada na cadeira, tinha sido obrigada a fumar quatro cigarros de 
seguida, inalando profundamente o fumo.
No dia seguinte de manh, Ludmila encontrou o marido sentado na cama. 
Tinha reclamado o jornal, caf e at uma bela fatia de po com pasta 
de fgado! O Dr. Hambach, chamado imediatamente, verificara com 
estupefaco as "melhoras radicais" que se tinham operado durante a 
noite e conclura orgulhosamente: "No h nada de melhor do que esta 
antiga pomada de xido de zinco."
Corina atacara por quatro vezes o mal do pai. S parara quando os 
seus dedos tinham deixado de sentir a presena do "inimigo". Em 
seguida ficara a olhar as mos com a garganta contrada por um resto 
de angstia por saber que possua algo que a isolava definitivamente 
das pessoas "normais".

Quando voltou a descer, encontrou os pais sentados no sof da sala de 
estar. Pela maneira como se encontravam, de mos dadas, dir-se-ia que 
era ele que queria comunicar-lhe a sua fora, quando, na realidade, 
era ele que se sentia reconfortado por aquele contacto. Tinham, sem 
dvida, acabado por aceitar a pouco e pouco a horrvel realidade de 
uma doena mortal como algo de natural que forosamente lhes devia 
acontecer mais cedo ou mais tarde. Stefan Doerinck levantou os olhos 
na direco da filha.
- Decidimos que a tua me ser operada o mais depressa possvel. 
Telefonarei amanh de manh ao doutor Willbreit.
- Eu j lhe telefonei, pai. - Sentou-se lentamente num cadeiro, em 
frente do sof, diante deles, e cruzou as mos. - Anulei a consulta 
da me.
- O qu? O que  que fizeste?
Olhava-a, interdito, sem ousar compreender.
- Disse ao doutor Willbreit que a me no quer ser operada.
- Ficaste louca? - perguntou Stefan Doerinck numa voz surda. - Meu 
Deus, Milachka, esta rapariga  maluca!
- Sou eu quem curar a me. Com as minhas mos.
- Mas  uma loucura...
Ludinila interrompeu-o com uma voz muito doce.
- Parece que estou a ouvir o meu pai e no a minha filha. Os doentes 
que o visitavam reclamavam medicamentos, plulas e tratamentos 
complicados. Esperavam que lhes perscrevesse um tratamento 
extraordinrio. E o que  que ele fazia? Olhava-os longamente e 
dizia-lhes: "Deita-te aqui, meu irmo", ou "minha irm". E deixava as 
suas mos irem e virem por cima deles, como se elas o guiassem. Os 
que no o conheciam julgavam que era louco...
- Eu sei - murmurou Stefan. - Eu sei, eu assisti.
- Pois bem, voltavam todos e a maior parte curava-se. As pessoas 
simples diziam que era um grande curandeiro, um xam.
- Mas trata-se de um cancro, Ludmila. De um cancro, compreendes? - A 
voz tremia-lhe de novo. - De um cancro e no de uma dor qualquer de 
origem histrica...
- Trata-se mas  da me - replicou simplesmente Corina. - Trata-se de 
fazer o necessrio para que ela continue a viver, e no apenas seis 
meses. Nem um ano. Nem dois...
Stefan Doerinck agarrou na cabea com as duas mos, remexendo os 
cabelos e olhando para a mulher com um ar desesperado. Mas Ludinila 
no o socorria. Calava-se e fixava a filha com uns olhos to abertos 
que j quase no pareciam naturais. Ele compreendeu que nos minutos 
que se seguiriam iria passar-se naquela sala algo de inconcebvel, 
quase aterrador e contrrio aos conceitos racionais normais em que a 
sua vida assentava. Tudo ia balanar fora dele e num plano diferente 
do seu. No podia, nem queria ficar mais um instante naquela casa 
onde no passaria de uma testemunha impotente. Sem uma palavra, saiu 
precipitadamente. Do interior, as duas mulheres, continuando imveis, 
ouviram-no pr o carro a trabalhar e a seguir um chiar de pneus: 
Stefan Doerinck, com os nervos em franja, partia ao acaso e subia a 
rua carregando a fundo no acelerador.
Uma escassa hora mais tarde reencontrou a mulher e a filha tal como 
as deixara: Ludinila sentada no sof e Corina no seu cadeiro. S o 
cinzeiro da filha se encontrava agora a abarrotar. Devia ter fumado 
sem interrupo aqueles malditos cigarros de tabaco oriental cujo 
cheiro adocicado, agora j frio, lhe era atrozmente insuportvel.
- Peo-vos desculpa - disse com voz ainda rouca.
- Perdi a cabea. No podia fazer outra coisa. Tinha de tomar ar. 
Agora j estou melhor.

- Queres que te traga qualquer coisa para beber? - perguntou 
Ludinila.
- No, obrigado. Eu sirvo-me.
Dirigiu-se para a grande estante, que ocupava quase toda a parede, e 
que era uma amostra tpica do gosto da mdia burguesia alem. Era um 
mvel imenso, com quatro metros de livros encadernados e algumas 
cpias de esculturas egpcias, e onde se encontravam incorporados, 
como se estivessem em armrios, o televisor, um bar e uma aparelhagem 
estreo! Levantando o fecho do bar, iluminou automaticamente uma 
cavidade cujas faces internas eram de espelho e de onde tirou uma 
garrafa de conhaque. Encheu duas vezes seguidas com esta bebida cor 
de mbar um copo que esvaziou sucessivamente, inclinando a cabea 
para trs e sem o saborear sequer.
- E ento? - perguntou pousando o copo. - Espero que me seja 
permitido dizer que no compreendo nada das vossas histrias. E 
digo-vos francamente: comigo isso no funciona! Tenho confiana na 
cincia que progride todos os anos e tambm confio na arte dos nossos 
cirurgies. Do meu ponto de vista, o professor Willbreit emitiu uma 
opinio que  infinitamente mais competente do que qualquer histria 
de... campo magntico e de bioenergia, etc., ou l qual  o nome que 
do a essas perigosas imbecilidades. Agarram-se a uma esperana 
insensata, quando uma simples radiografia lhes mostra a realidade... 
Vejamos, Milachka, diz alguma coisa! No fiques para a muda e queda 
como uma esttua! Fala a srio, recusas-te mesmo a ser operada?
- Queremos esperar, Stefanka.
A sua voz estava cristalina, quase parecia a de uma criana, o que 
incitou Doerinck a dar um verdadeiro grito.
- Mas o cancro, esse, no espera!
Exasperado, atirou-se  garrafa de conhaque. Beber no  soluo, 
costumava ele dizer quando um dos colegas, de entre os que se reuniam 
regularmente no caf da cidade, tentava afogar em lcool um desgosto 
ou uma dificuldade qualquer. Beber  escapar  soluo de um 
problema, explicava ele ento, e o regresso  realidade ainda  pior. 
Excelente conselho, sem dvida, mas Stefan Doerinck no pensava nele 
naquele momento. Como tantas coisas neste mundo, beber  um problema 
social que apresenta vrias facetas: com alguns goles de conhaque no 
estmago e um crebro ligeiramente enevoado pelos vapores do lcool 
suporta-se melhor, provisoriamente, o peso esmagador da vida. E de 
momento s isso interessava a Stefan Doerinck.
- Podem fazer o que quiserem! Ficam com uma responsabilidade que eu 
no quero partilhar. Amanh de manh vou telefonar ao professor 
Willbreit a explicar-lhe que a partir de agora j no tenho nenhuma 
influncia na evoluo dos acontecimentos e que a minha mulher  
maior...
-  com efeito o caso, aos sessenta e um anos - disse Ludmila, 
sorrindo. - Ouve, no tentes interferir na deciso que tommos. 
Porque no te retiras para o teu gabinete, Stefanka, s o tempo de 
leres alguma coisa ou de ouvires uma emisso de rdio. - Voltou-se 
para Corina e fez um gesto de assentimento. -  intil esperar. 
Quanto tempo  que isso vai demorar?
- No mais que cinco minutos, me.
- Ests a ouvir, Stefan? Menos do que levas a fumar um dos teus 
cigarros de tabaco negro.

Doerinck ainda tinha a garrafa na mo. Viu que esta tremia. 
Desembaraou-se da garrafa para esconder as mos nos bolsos das 
calas. "So os nervos", pensou. No era de admirar. Que nervos 
seriam suficientemente slidos para suportar tantos choques? E um 
homem de sessenta e trs anos encontra-se necessariamente j um 
bocadinho gasto e um pouco amassado pelos milhares e milhares de 
golpes que teve de suportar na vida, j sem contar com os cinco anos 
de guerra e de feridas... E chega um momento em que notamos em ns 
mesmos e em que dizemos a ns prprios: "Eis a descida que no 
voltarei a subir. Ultrapassmos um certo limite..." E esse momento, 
indubitavelmente, acabara de chegar. Ainda incrdulo, gaguejou:
- O qu? Vo comear imediatamente e aqui mesmo? E tu, Milachka? 
Acreditas nisso?
Olhando fixamente para a mulher, teve de repente a impresso de que 
ela era uma apario vinda de outro mundo e de que acabara de se 
materializar subitamente naquele sof. O pequeno aceno de cabea que 
lhe endereou vinha acompanhado com um sorriso to feliz, e parecia 
to jovem, to bonita, to cheia de sade, sim, quase imortal, que 
ele quase no conseguia reter um grito...
Corina voltou-se para ele.
- Vai ento para o escritrio, pai, visto no quereres ficar 
connosco!
Furioso, incapaz de se dominar, abanou a cabea.
- NO! Ficarei aqui! H trinta e seis anos que me encontro ao lado da 
tua me, desde ainda antes do teu nascimento, compreendes, e  o que 
farei tambm hoje...
Voltou-se na direco do pequeno bar do mvel para tornar a encher o 
copo e sentiu bruscamente como que uma faca a espetar-se-lhe no 
corao. "Isso  que no, agora no, pensou ele horrorizado. "Meu 
Deus, mas pra de bater assim depressa, corao imbecil. No entanto, 
bem te treinei com inmeros passeios a p ao ar livre, com passeios 
de bicicleta e jogging nas praias do mar do Norte! E  agora que me 
abandonas... "
Bebeu o copo dum trago como fizera com os precedentes. Pouco a pouco 
o seu corao acalmou-se. Viu atravs do espelho que Ludmila se tinha 
levantado. De p, ela comeava a despir-se.
Tinha-se estendido com os olhos fechados e completamente nua, no 
sof; um sorriso repentinamente misterioso distendia-lhe os lbios.
Stefan Doerinck era um homem da mdia burguesia alem, sensvel, 
pudico e, consequentemente, um pouco recatado. A sua primeira reaco 
foi perguntar-se se no existiria um toque de obscenidade no quadro 
que tinha perante os olhos. Seria normal que uma filha pudesse assim 
observar a me nos mnimos pormenores da sua total nudez e num tal 
abandono? Mas afastou de imediato aquele pensamento, mais 
desagradvel do que o facto em si mesmo, de que se envergonhava. 
Alis, alguns estranhos tambm tinham visto o corpo nu da mulher: os 
mdicos, o massagista do estabelecimento termal, o vigilante e o 
massagista de Abano durante as massagens dentro de gua. Que parvoce 
deixar-se invadir pelo formalismo s porque se tratava de Corina, a 
sua prpria filha!

Sentou-se, por fim, numa cadeira a dois metros do sof, inclinado 
para a frente, com as mos comprimidas entre os joelhos e fixando os 
olhos na mulher. Desde h trinta e seis anos que ela era para ele uma 
fonte constante de surpresa e de admirao. Conhecia cada centmetro 
daquele corpo, cada uma das suas salincias e das suas reentrncias, 
cada um dos seus sinais; ela possua exactamente sete e o maior 
dissimulava-se na prega do seio esquerdo. Lembrava-se do mnimo 
cambiante daquela pele lisa, da colorao azulada que lhe aparecia 
frequentemente quando embatia num mvel qualquer e do aparecimento 
sbito duma pequena borbulha que rapidamente desaparecia com 
aplicaes de pomada. Poderia descrever de olhos fechados a forma 
exacta dos dedos grandes dos seus ps, a magreza dos seus artelhos, o 
arredondado das ancas, o alto do tringulo coberto por um velo de 
plos abundantes. E o seu ventre liso, os seus seios firmes, os seus 
ombros... Meu Deus, como era possvel que tudo isto fosse destrudo 
pelo inimigo impiedoso escondido por baixo daquelas resplandecentes 
formas carnais, profundamente dissimulado nos meandros secretos de 
toda aquela beleza, de todo aquele esplendor, e que, naquele mesmo 
instante, se encontrava a corroer aquele ser que emanava ainda 
felicidade e alegria.
Olhou para a filha com a garganta contrada como se no conseguisse 
engolir uma bola nela alojada e durante um momento esteve quase a 
acreditar em milagres e na fora que emanaria dentro em pouco desta 
mulher. Aos seus olhos ela continuava a ser uma criana e, no 
entanto, preparava-se para curar a me... Mas a fora que ela dizia 
ter consigo no era explicvel. No havia para ela nenhum nome claro 
nem preciso nas centenas de livros que tratavam do assunto. Tudo 
aquilo se encontrava muito longe de si e era muito inquietante; era 
precisamente por se tratar da filha que a sua averso por aquelas 
coisas se fazia sentir mais fortemente. Tudo o que tinha podido ler o 
tinha desorientado e levado a reforar a sua posio instintiva a 
tudo o que se prendia com o oculto.  mesa dos habitus do caf que 
costumava frequentar, tentara levantar prudentemente o problema junto 
dos colegas. A ideia s por si desencadeara uma exploso de risos. Na 
regio de M'nster, os "apanhados", os videntes que pretendem 
conseguir ver o futuro nunca tinham tido boa fama. Ainda havia 
velhotas que curavam "com palavras mgicas" uma clientela feminina 
to idosa como elas, apesar dos progressos da cultura e dos novos 
tempos. Sem falar das ervanrias, de que, curiosamente, o 
farmacutico de Hellenbrand reconhecia os mritos, pois era graas a 
elas que se abastecia de diversas plantas para tisanas de melhor 
escolha e a melhores preos do que nos fabricantes especializados. 
Outrora na Vesteflia, na poca da caa s bruxas, a maior parte das 
mulheres condenadas por esse crime era torturada e queimada. Dessas 
mulheres ainda persistia alguma coisa. Essa abundncia de bruxas era, 
no entanto, explicvel naquele pas de pntanos, de nevoeiros 
precoces e de florestas repletas de rudos inquietantes. Tudo isso 
tinha certamente influenciado tanto o estilo das casas, onde a terra 
se encontrava com o cu, como a falta de leveza que caracteriza o 
esprito dos seres humanos.  indiscutvel que um pas assim favorece 
a crena em foras sobrenaturais.

Mas isso pertencia ao passado. Como era possvel acreditar em curas 
de males reais por simples imposio das mos, devido  bioenergia,  
aura que rodeia cada um de ns ou ao "campo plasmtico"? Quando 
Stefan Doerinck evocara todas estas fantasmagorias, desculpando-se, 
alis, por ter lido certos livros sobre o assunto, o juiz 
Schwernicke tinha desatado a rir estrondosamente (j se encontrava 
bastante alegre depois duma cerveja forte acompanhada por um clice 
de aguardente). O juiz tinha-se posto a gritar muito alto: "Vejam bem 
o que ele l!  tpico de um professor! Fritz", dirigia-se ao 
farmacutico, "v l se lhe emprestas bons livros, como o mais sujo 
jamais posto a circular no mercado do livro; sabes bem de qual se 
trata, aquele que foi escrito pela tal mulher. S trata de calas a 
serem baixadas e de vergas ao vento! Depois de o leres, Stefan, 
ficars a saber finalmente o que  a bioenergia."
Nunca mais voltara a falar daqueles livros, que lera, no entanto, at 
ao fim, apesar da admirao e da desconfiana que, cada vez com mais 
intensidade, despertavam nele. Por exemplo, apesar de todas as belas 
palavras que continham, como podia no se sentir chocado ao ler que, 
com a ajuda de muita concentrao e de energia psquica, se podia 
chegar a conseguir movimentar de longe tanto objectos como at mesmo 
pessoas! Em tais livros este fenmeno chamava-se "telecinesia". Que 
parvoce!  de facto de se levar as mos  cabea!
Um primeiro movimento de Corina arrancou-o queles pensamentos. 
Tinha-se debruado sobre Ludmila, posto as palmas das mos abertas 
sobre o ventre da me e, de olhos fechados mantinha a cabea 
profundamente enterrada entre os ombros. Doerinck viu distintamente o 
estremecimento que se apoderava dela e se propagava ao longo dos 
braos.
- Estou a v-lo - disse de repente.
Doerinck arrepiou-se e sentiu de novo uma picada no corao. A sua 
boca estava horrivelmente seca.
- Sim, vejo o tumor. Situa-se no tero superior do recto.
- Est correcto. Foi o que disse o professor Willbreit ao mostrar-me 
a radiografia.
A voz de Ludinila era to longnqua como se tivesse percorrido uma 
longa distncia antes de se fazer ouvir naquela sala. Corina suspirou 
ao endireitar-se. As suas mos j no tocavam o ventre da me. 
juntou-as como se fosse rezar e, sem dizer palavra, fixou o olhar nas 
pontas dos dedos que se tocavam. A seguir Stefan Doerinck ouviu-a 
dizer docemente:
- Fica perfeitamente calma, me. Descontrai-te completamente... Vais 
dizer-me o que sentes.
Debruou-se de novo, estendeu as palmas das mos abertas e a seguir 
f-las deslizar lentamente por cima do baixo-ventre da me, mas sem 
sequer lhe tocar. A uma dezena de centmetros da pele, os seus dedos 
pareciam flutuar enquanto iam e vinham. Tinha os olhos fechados e os 
ossos das faces, salientes, esticavam-lhas como se fosse uma mscara. 
Na raiz dos cabelos comearam a surgir gotas de suor.
- Sinto calor, cada vez mais calor... um calor delicioso, como se 
proviesse de um sol primaveril.
A voz da mulher tinha-se tornado mais longnqua, preguiosa, 
desprovida de fora, e Doerinck sentiu dificuldade em respirar... Com 
efeito, retinha o flego fixando toda a sua ateno nas mos de 
Corina. S conseguia v-la a ela e aos seus dedos sobrevoando 
lentamente o corpo de Ludmila. Aps um profundo suspiro, inspirou to 
brutalmente que teve a impresso de que os seus pulmes iam rebentar.

Acha-se que cinco minutos no so nada, mas se se tratar de um round 
de boxe, que, no entanto, s dura trs, este pode parecer 
infinitamente longo. O mesmo se verifica num afogamento, no momento 
que precede o tocar do solo com os ps ou a perda de conhecimento. 
Pode-se assim compreender o que sente um homem na situao de 
Doerinck, torturado simultaneamente por ser marido e por ser pai. 
Para ele, os segundos sucediam-se to lentamente como quando 
derrapara um dia ao vislumbrar um tronco de rvore contra o qual iria 
embater e que conseguira evitar mesmo  justa. Cinco minutos podem, 
portanto, durar uma eternidade que nunca alcana o fim.
Mas o fim chegou, bruscamente.
Viu Corina inclinar-se para trs e deixar cair as mos ao longo do 
corpo. A cabea, que no conseguia suster, caa sobre a nuca. 
Respirava com a boca totalmente aberta, como se de repente lhe 
tivesse faltado o ar. Este abatimento no durou mais do que alguns 
dramticos segundos, durante os quais se diria que ia cair ou 
desagregar-se num monte de cinzas ou de p. A seguir recuperou foras 
e estendeu a mo para o mao de cigarros. Como no conseguia 
encontrar imediatamente os fsforos, Doerinck precipitou-se na sua 
direco com o isqueiro na mo. Avidamente, sem sequer lhe agradecer, 
inspirou algumas baforadas de fumo, s as exalando depois dum 
momento, lentamente, pela boca e pelas narinas.
Stefan Doerinck, ainda a engolir a saliva, arrancou do cadeiro as 
roupas de Ludinila para com elas cobrir o seu corpo nu. Percebeu 
ento que ela dormia ainda mergulhada no calor de que tinha falado e 
que viera no se sabia de onde. Ludmila estava to bela no seu 
abandono que, com um sorriso duma doura indescritvel nos lbios, 
acabou por se deitar a seu lado no sof, gaguejando 
involuntariamente:
- Meu Deus, mas o que  que se passou? Que se passou, Corina?
- A me vai curar-se...
Continuava a puxar o fumo do cigarro e nem sequer parara para 
pronunciar esta breve resposta. O corpo ainda lhe tremia, ou, melhor, 
ainda vibrava. Os olhos emitiam um brilho insustentvel, mas  volta 
das comissuras dos lbios tinham-se gravado subitamente duas rugas 
profundas. Sentia-se to vazia como uma jarra que acabasse de perder 
a ltima gota.
- Sim, tenho a certeza de que a me vai curar-se.

Captulo segundo

O professor Willbreit ficara singularmente preocupado pelo facto de a 
filha da Sra. Doerinck ter anulado a operao desta pelo telefone.
Naturalmente, num servio onde reine tanta ordem como no servio de 
cirurgia duma grande clnica,  totalmente impossvel levar em conta 
os problemas e as preocupaes dum indivduo. Trava-se simplesmente 
conhecimento com ele, examinando-o operando-o e visitando-o 
regularmente. Quando se fala dele, diz-se: a vescula biliar, o 
estmago, o pncreas. De tempos a tempos, recebe-se a visita da 
famlia, sobretudo quando j no  possvel evitar a morte. 
Pronuncia-se ento algumas sentidas palavras de consolo: " a sorte 
que nos espera a todos"; "Ningum  imortal, s a hora fatal  que 
difere..."
A no ser que a doena tenha seguido um curso favorvel. A, 
empertigamo-nos para dizer: "Pois bem, pode vir buscar a sua mezinha 
(ou o seu paizinho) amanh de manh. Est contente, no  verdade?" E 
comea-se logo a pensar na atribuio da cama que ficou livre, por 
exemplo, para aquela anastomose to aborrecida, a juno de dois 
canais orgnicos demasiado afastados um do outro, uma senhora de 
quarenta e nove anos, uma doente particular, que ser tratada, 
evidentemente, como as outras, mas com um pouco mais de conversa e de 
sorrisos. E depois, num caso desses  o mdico-chefe ou o prprio 
chefe clnico quem opera...
Como seria possvel ter em conta, junto com o paciente, o conjunto da 
sua vida' o seu destino particular? H dias em que se fica oito, dez, 
doze e, s vezes, catorze horas de seguida, sem arredar p, diante da 
mesa de operaes. Esta performance extraordinria, no s psquica 
mas sobretudo fsica, no  exigida em nenhuma outra profisso. 
Nenhum sindicato vigia estes terrveis excessos horrios, e mesmo que 
se viesse a criar um, ele no serviria para nada, pois quem consegue 
calcular com antecedncia o tempo que vai durar uma operao 
complicada? Trs, quatro, seis horas? Quem  capaz de prever 
complicaes imprevistas, tais como uma hemorragia fulminante ou uma 
fissura sbita? Nas outras profisses, tudo  diferente: sabe-se 
quando a campainha anuncia o final do trabalho ou a mudana de 
equipa. E os sindicatos reclamam a semana de trinta e cinco horas 
porque o operrio que trabalha chapas metlicas afirma estar 
demasiado cansado. E os funcionrios pblicos adormecem depois do 
almoo, tal como prova a sua baixa de eficcia. Mas quando se trata 
de um mdico,  naturalssimo que ele no tenha horrios, que deva 
estar pronto a qualquer hora, de noite como de dia, e depois de 
catorze horas de trabalho diante duma mesa de operaes, ainda  
preciso que o cirurgio tenha foras para salvar a vida do doente com 
o qual as suas mos se ocupam, seja qual for a fadiga que se tenha 
apossado delas:  que se pode rectificar uma chapa mal fundida, mas 
um vaso sanguneo mal cosido pode ser fatal.

No estava nada na natureza do professor Willbreit lembrar-se durante 
muito tempo de cada um dos seus pacientes. Pois bem, no conseguia 
desta vez afastar do esprito o telefonema de Corina Doerinck. Tinha 
pensado nisso durante todo o resto do dia, com excepo da breve 
interrupo durante a hora das visitas ao fim da tarde. Quando voltou 
a ficar sozinho no seu gabinete, em vez de se meter no carro para ir 
para casa, uma moradia nos arredores de M'nster, onde a mulher, muito 
apreciada pela alta sociedade da localidade, devia estar certamente a 
receber uma dzia de amigos, ps-se  procura na pilha dos dossiers 
do que dizia "Doerinck, Ludmila, Heilebrand, 61 anos, casada, um 
filho". Ele prprio tinha feito um trao vermelho na capa. Desta 
maneira ficava logo a saber  primeira olhadela de que se tratava: 
carcinoma, tumor canceroso.
Abriu, no entanto, o dossier, releu com mais ateno do que 
habitualmente os apontamentos do primeiro exame, o relatrio do 
laboratrio, o resumo das radioscopias e das radiografias e viu que 
ele prprio anotara: "Internamento a partir do dia 10."
Sim, lembrava-se daquela russa. Uma mulher admirvel que, aos 
sessenta e um anos, parecia ter quarenta. Tinha olhos amendoados e 
cabelos negros ondulados. E a pele como que cor de mbar com reflexos 
cor de azeitona. Assim que acabara de examin-la tinha mesmo pensado: 
que porcaria de vida esta em que um corpo humano desta beleza tem de 
sofrer uma tal destruio! E sentira-se uma vez mais repleto de dio 
contra esta multiplicao de clulas diante da qual sentia uma 
repulsa impotente, mesmo apesar de todos os progressos realizados na 
medicina.  verdade que a tcnica operatria, os tratamentos com 
raios radioactivos e por quimioterapia constituam um progresso, mas 
tinha por vezes a impresso de se encontrar diante dum oceano que os 
outros lhe pediam que esvaziasse com um balde de criana...
Pousou o dossier sobre a pilha dos outros, renunciando a examinar as 
radiografias com o projector. No se lembrava das palavras exactas 
que aquela bela russa pronunciara, mas, de qualquer maneira, 
tinha-lhe pedido que lhe dissesse claramente e sem rodeios toda a 
verdade. E ele assim fizera, como sempre que se encontrava diante de 
um doente capaz de a suportar. Alguns iam-se abaixo, mas a maior 
parte levantava-se dignamente e declarava com voz firme: 
"Agradeo-lhe, senhor professor. Vou agora poder tirar o melhor 
partido possvel do tempo que ainda tenho para viver." Eram quase 
sempre esses que morriam mais serenamente, quase reconhecidos.
Que lhe dissera, afinal, a filha desta russa, a tal Corina, ao 
telefone? "A minha me no quer ser operada." Era claro. Era tambm 
uma frase que ele tinha ouvido frequentemente noutros casos e depois, 
quando voltavam  consulta no ltimo momento, s podia dizer: 
"Demasiado tarde... j s posso tentar aliviar o seu fim..." Mas esta 
Corina tinha-lhe dado um choque. Primeiro porque tinha estudado 
medicina at ao momento em que, depois duma primeira seleco, um 
estudante j s tem de se deixar arrastar pela corrente. No era uma 
profana qualquer, mas algum capaz de avaliar todos os riscos daquela 
recusa e de assumir as responsabilidades desta decorrentes.
O professor Willbreit, de sobrancelhas franzidas, voltou a pegar no 
dossier. Telefonou uma ltima vez para o servio das urgncias, que 
no tinha nenhum caso a assinalar, arrumou o dossier na pasta e 
dirigiu-se para o carro.

Como tinha previsto, Ldia, sua mulher, tinha mais uma vez 
convidados. Ouvia-os rir da garagem. As portas-janelas que davam para 
o terrao estavam abertas, encontravam-se todos agrupados no grande 
salo  volta do bar circular, e ningum o vira chegar.
Saiu da garagem pelo pequeno corredor que conduzia directamente a 
casa e deu com uma empregada, a quem lanou o seguinte aviso:
- Ainda no cheguei, Renata! No me viu.
Depois dirigiu-se ao escritrio. Ali estava mesmo em casa, em 
segurana. Ldia s l ia raramente. Este escritrio parecia-se com o 
gabinete que possua no hospital e onde passava as prescries 
mdicas. Ldia tinha declarado: "Cheira aqui demasiado a doutor." 
Isso no a impedia de se queixar: o marido no dirigia o hospital, o 
que  na Alemanha o papel dum Oberartz, dum mdico-chefe chegado ao 
topo da carreira, limitava-se a ser "chefe de clnica"! No 
compreendia que, aos sessenta e trs anos, ele tinha uma brilhante 
carreira para trs. Protestava sempre: "Uma pessoa torna-se director 
dum hospital porque est velha ou porque  melhor que os outros?" O 
seu raciocnio era duma lgica irrefutvel. No que tocava a este 
assunto, ela encontrava, como sempre, o meio de ter razo.  exacto 
que o director raramente opera e que os doentes preferem o chefe de 
clnica. Em relao  clientela privada, o mdico-chefe tinha ditado 
a Willbreit um gendernan's agreement. Com uma apelao destas no se 
podia tratar de dicotomia. Para as operaes os dois teros dos 
benefcios iam para o patro e um tero ia para Willbreit, que era 
chefe de clnica. No caso dos pareceres mdicos era Fifty-Fifty. Para 
qu revoltar-se? Por princpio, o patro tem sempre razo, mesmo 
quando est senil ao ponto de, quando lhe apetece operar, o fazer 
como em outros tempos fazia Sauerbruck, sem luvas esterilizadas, 
declarando: "As mos dum mdico-chefe so um meio absolutamente 
estril... "
Tira da pasta o dossier Doerinck, procura na lista o nmero de 
telefone, hesita um instante e de seguida toma a sua deciso.
No obteve resposta. Os Doerinck tinham sado. Estavam a jantar no 
restaurante As Armas de Vesteflia para festejar o primeiro 
tratamento de Ludmila, que tinha declarado: "j me sinto muito 
melhor."
E no exageramos se dissermos que, no fim do jantar, Stefan Doerinck 
tinha bebido um pouco mais do que seria razovel e que a filha teve 
de o apoiar pegando-lhe no brao para o guiar at ao carro...
Todas as noites as mos de Corina voltavam a irradiar - mas ser esta 
a palavra exacta? - o ventre da me.
Apenas cinco minutos - mais do que isso seria impossvel. Aps este 
breve perodo, que lhe parecia durar uma eternidade, Corina sentia-se 
exausta e, j por trs vezes, Doerinck se apressara a acender um 
cigarro libertador e a introduzi-lo nos lbios descoloridos da filha.
No fim de cada tratamento, Ludmila repetia que sentia um calor 
indescritivelmente delicioso: "Uma espcie de incandescncia, mas que 
no magoa nada."
Ao quarto dia as perdas de sangue tinham desaparecido como que por 
encanto. E aconteceu o mesmo com o doloroso peso que Ludmila sentia 
no baixo-ventre, ao ponto de ela confessar que, desde h mais de seis 
meses, era a primeira vez que se sentia inteiramente bem.
Stefan Doerinck tivera um sobressalto, como se algum o tivesse 
pisado.

- O qu? Desde h mais de seis meses? Sofreste durante Pelo menos 
seis meses?
- Sofri.
- E porque  que no nos disseste nada?
- Porque tinha medo, Stefanka. - Fazia o sorriso graas ao qual se 
era obrigado a perdoar-lhe tudo. - Pensei que conseguia repelir o 
mal.  idiota, eu sei, mas -se to idiota quando se tem medo...
Stefan Doerinck tinha aproveitado a participao numa reunio do 
Conselho Pedaggico de M'nster para se informar sobre a 
parapsicologia, a bioenergia, o bioplasma e as experincias de viso 
cutnea na livraria da universidade.
Conseguira assim descobrir que ningum sabia do que falava. O prprio 
chefe de servio das compras se tinha lanado em hbeis circunlquios 
para no dizer nada de preciso. Doerinck acabara por se sentar num 
canto da livraria para consultar uns enormes catlogos, dos quais 
retirou alguns ttulos que a seguir encomendou.
Corina tambm no pudera satisfazer a sede de conhecimento do pai. A 
seguir ao segundo tratamento, ele pegara-lhe nas mos, voltara-as em 
todas as direces, apalpara a ponta dos dedos e fora depois buscar 
uma lupa para as examinar mais de perto. "O que  que te devo 
explicar, pai?", dissera-lhe ela. No lhe podia dizer nada que ele 
ainda no soubesse. Era assim, nada mais. E no descobrira nada de 
particular. Corina tinha as mos e os dedos mais normais do mundo, 
com unhas tratadas e pintadas naquele dia com um verniz 
vermelho-brilhante. A pele da ponta de trs dedos estava spera e 
como que inchada.
-  devido aos ns dos tapetes.  incrvel como a l mais fina 
consegue mesmo assim ser spera.
Stefan Doerinck no se contentara com este tipo de explicao.
- Mas, enfim, o que  que as tuas mos tm? O que  essa fora
misteriosa de que falas?
E a resposta que recebera no o tinha esclarecido por a alm.
- Repito que no sei, meu querido pai. Os meus olhos pousam em algum 
e digo logo comigo mesma: est doente. Sei-o. Fico a saber, por 
exemplo, que ele tem clculos na vescula biliar, uma inflamao 
nervosa ou um tumor no estmago. Ento, abro bem as mos e sinto nas 
palmas e nas pontas dos dedos como uma espcie de corrente elctrica 
que no provm dele, mas de mim, e que penetra nele. E esta corrente 
destri a causa do mal. E  tudo.
Era muito simples, mas continuava a ser inverosmil. Ao lado de 
Ludmila, que dormia profundamente depois de cada sesso, Doerinck 
tinha passado mais do que a metade duma noite completamente desperto, 
recapitulando nos mnimos pormenores a vida da filha como num filme 
que se pode fazer parar numa imagem que nos parece mais interessante, 
talvez at reveladora, e que se pode tambm estudar a fundo, mas, 
naquele caso preciso, sempre em vo.

Houve, em primeiro lugar, o seu nascimento, um nascimento que fora 
difcil. Ludinila, a me, tinha-se debatido com dores atrozes durante 
quase vinte horas. Para acabar com tanto sofrimento, o mdico 
hesitara durante muito tempo entre uma cesariana e a utilizao do 
frceps. Mas no momento em que o parteiro dizia a Stefan, que, 
banhado em suor, assistia impotente quele martrio: "Numa hora, vai 
ser necessrio tomar uma deciso e recorrer  cesariana", Ludinila 
tinha dado um grito to forte que at o mdico, apesar de estar 
habituado, se tinha arrepiado at aos ossos, e foi ento que Corina 
veio ao mundo.
Teve uma infncia absolutamente normal: no infantrio, onde jogara e 
se zangara com as outras crianas de quem nada a distinguia. Tivera o 
seu triciclo, e um pouco mais tarde a sua pequena bicicleta, os seus 
patins e a seguir patins de neve. Doerinck instalara no jardim um 
pequeno prtico com uma corda com ns, um balouo e uma barra fixa, e 
nada lhe tinha permitido pensar que a pequena Corina pudesse 
tornar-se em algum que era diferente dos outros.
E no entanto houvera algo! Lembrava-se agora de um fenmeno ao qual 
no tinha na altura prestado nenhuma ateno. Durante os numerosos 
passeios que davam os trs, a p, na regio de M'nster, 
acontecia-lhes colherem flores. Ora enquanto os ramos que Ludmila 
trazia comeavam a ficar murchos durante o trajecto de regresso, as 
flores de Corina mantinham-se frescas e o seu perfume continuava 
sempre puro. Continuavam a viver na jarra durante vrios dias porque 
Corina, que adorava plantas desde que comeara a andar de gatas, ia 
todos os dias acarici-las como se se tratassem de pequenos animais.
E na "escola grande" tambm se tinham afirmado nela algumas 
particularidades, sem que se pudesse dizer exactamente que diferia 
das outras crianas da sua idade. Alis, qual  o pai que no procura 
as caractersticas que lhe so prprias nos filhos? Era uma aluna 
calma que permanecia ajuizadamente no seu banco; olhando  sua volta 
com os seus grandes olhos negros, raramente levantava a mo para 
participar numa aula. Mas quando a professora a interrogava, 
respondia perfeitamente sem hesitar, e se lhe perguntassem "Porque 
no levantaste o dedo?", respondia com uma lgica desconcertante: 
"Para qu, se sei sempre tudo."
A professora declarara vrias vezes a Stefan Doerinck, que fora seu 
colega das classes superiores: "Corina,  a minha melhor aluna, mas 
no parece seguir as aulas. Deveria falar com ela, senhor Doerinck. 
Ela fica sentada no seu banco, olhando fixamente para a frente com os 
seus grandes olhos negros, e ponho-me frequentemente a pensar: Que se 
passar naquela cabecinha? Tenho por vezes a impresso de que ela me 
est a perguntar: 'Mas o que  que estou aqui a fazer?"
Ele bem tinha tentado ter uma conversa sobre o assunto com a filha. 
Como ele insistia para que Corina participasse mais activamente nas 
aulas, a filha declarara de repente:
- A senhora Dassel deve ir ao mdico. Tem qualquer coisa na barriga.
- Quem te disse isso? - perguntara Doerinck.
- Ningum. Mas eu vejo-o...
Ele quase se tinha zangado. " uma escapatria tpica de mida", 
pensara. Como pudera esquecer este incidente? E, no entanto, a 
professora, um ano mais tarde, tivera de ser operada a um grande 
quisto no colo do tero. Mas Doerinck no tinha relacionado a sbita 
apario do quisto com o aviso que a filha fizera seis meses antes.
Hoje, aps vinte e dois anos, no decurso duma noite quase em branco, 
esta recordao voltara-lhe com horror.

Aos dezasseis anos, Corina tinha entrado no liceu. Adolescente, 
estava sempre calma, mas a sua atitude nas aulas devia ter mudado, 
dadas as notas que obtinha nos trabalhos prticos. Indiscutivelmente, 
era a melhor aluna, confiara um dos seus professores ao colega 
Doerinck. Uma apreciao destas  das que enchem um pai de orgulho e 
o fazem ter confiana no futuro do filho. Apenas o professor de 
Matemtica aproveitara uma reunio de pais de alunos para lhe fazer 
uma estranha confidncia:
-  a terceira vez que se passa algo de inslito com Corina. Tenho o 
hbito de escrever no quadro os problemas que os alunos devem 
resolver imediatamente. Trata-se duma composio do gnero duma 
reviso bastante simples e cuja durao no excede as duas horas. 
Ora, por trs vezes sucessivas, ainda mal se tinha passado uma meia 
hora j Corina estava a entregar-me a sua e com o resultado certo! 
Mas o que eu no consigo explicar  como  que os seus exerccios no 
comportam nenhum esclarecimento sobre os raciocnios que lhe 
permitiram chegar  soluo exacta, mas simplesmente o enunciado e o 
resultado final. Da mesma maneira que dois vezes dois so quatro! 
Naturalmente, fiz-lhe a pergunta: "Como  que chegaste a este 
resultado?" - "Apareceu-me assim... ", respondeu ela. Ora  
absolutamente impossvel! Para encontrar a soluo deste gnero de 
problemas  preciso desenvolver matematicamente cada ponto do 
enunciado, e trata-se de um processo complexo. No se pode fazer de 
cabea toda a srie de operaes que imbricam umas nas outras. O 
prprio Einstein no o conseguiria. Pergunto-lhe confidencialmente, 
caro colega: no ter em casa, para as suas aulas de matemtica, 
livros de exerccios resolvidos, daqueles que so reservados aos 
professores, e que lhe permitisse aprender de cor os resultados dos 
exerccios sem se preocupar com o resto?
- No; de facto, no.
- Nem nada parecido?
- Absolutamente nada. Tenho a certeza.
- Ento trata-se verdadeiramente de um enigma, pois estudei a 
questo, imagine: tenho sempre em cima da minha secretria um livro 
de exerccios resolvidos destinados unicamente a serem utilizados 
pelo corpo docente, e descobri que as solues de Corina apresentam 
exactamente a mesma disposio e as mesmas abreviaturas que no meu 
livro!
Era evidentemente incrvel, mas nem o professor nem Doerinck tinham 
levado mais longe o inqurito. A direco do liceu estava orgulhosa 
por Corina ser a sua melhor aluna desde h vrias dezenas de anos, 
menos, deve-se confess-lo, em ginstica e em religio. Tinha 
recusado categoricamente fazer exerccios com aparelhos: "No quero 
ficar estropiada como a Anglica", respondera com uma insolncia 
incrvel, inabitual nela, pois Anglica, uma das suas condiscpulas, 
tinha um Corpo forte e respirava sade. Mas quatro meses mais tarde, 
tinha cado to mal depois de um salto na trave horizontal que 
contrara uma fractura complicada na perna esquerda, a qual, depois 
de vrias operaes, ficara cerca de dez centmetros mais curta. 
Ningum se tinha lembrado da afirmao de Corina. Mas como 
explic-la?
O ensino religioso faz parte do curso de Filosofia dos ltimos anos. 
Corina declarara um dia que os milagres de Cristo eram explicveis. A 
turma inteira ficara chocada. E tambm dessa vez algo de estranho se 
passou.
- Os milagres no existem! Olhem s!

E diante de todos os colegas estupefactos fixara, durante alguns 
instantes, com os seus olhos negros, o livro que o professor tinha 
aberto em cima da secretria. E subitamente a pgina em que o livro 
estava aberto tinha-se elevado no ar para voltar a cair, uma pgina 
aps outra... Todos os alunos tinham aplaudido este passe de 
prestidigitao e vrios lhe tinham oferecido presentes para que ela 
lhes ensinasse o truque. De cada vez, tinha abanado a cabea: no h 
truque nenhum.
Finalmente, Doerinck, perturbado, sentara-se na cama. Olhara a 
mulher, que dormia ao seu lado. Ento era isso! Tudo coincidia. 
Corina, ao examinar a me, tinha apenas empregue uma faculdade que 
possua h muito no mais profundo de si mesma: via atravs dos 
corpos. Assim como o livro do professor de Matemtica se encontrava 
em cima da secretria, Corina tinha muito simplesmente lido a soluo 
do problema. Sim, atravs do livro fechado!
"Meu Deus, mas ser possvel?", voltava a perguntar-se, respirando 
pesadamente. Trata-se verdadeiramente da minha filha? No consigo 
conceber o que ela faz nem o que ela , mas tenho de aprender tanto 
quanto possvel a aceit-la e a viver com a ideia de que ela no  
como as outras, como ns...
As recordaes precipitavam-se agora no seu esprito, e eram 
numerosas. O caso do Dr. Ewald Hambach, o mdico da famlia, por 
exemplo! H trs anos. H mais de vinte anos que era um amigo ntimo. 
Uma noite, bebendo um copo de vinho, tinha-se abandonado a uma 
confidncia sob uma forma inicialmente imagtica.
- At os tigres tm presas que agitam e os vendedores de gelados nem 
sempre so os que os fabricam...
Doerinck olhara-o espantado.
- Agora falas por provrbios e por enigmas, Ewald? O que  que se 
passa?
- Apenas uma prostatite aguda!
- Como mdico, isso no devia assustar-te por a alm.
-  o caso quase tpico: a um paciente comum receita-se-lhe 
tetraciclina e3 ao fim de dois ou trs dias, ele esquece-se que tem 
uma prstata. No caso dum mdico, h sempre complicaes. J 
experimentei toda a gama de antibiticos desde h dois meses!
Doerinck pusera-se a rir.
- Sabes o que penso, Ewald? Devias ir a um bom mdico!
o Dr. Hambach tambm tinha rido, mas com um riso amarelo.
- j fui, imagina! Fui a um urologista, o professor Schmelzer, em 
M'nster. E sabes o que me disse? Brincou como tu: "Pois caro 
confrade, tem uma bela prstata! Vigia a sada da sua urina: ou isso 
passa ou no passa, hem?... "E prescreveu-me um antibitico que eu 
abandonara duas semanas antes por falta de resultados. j no h 
razo para rir, meu amigo!
Nessa noite, Corina veio directamente do atelier de tecelagem para 
visitar os pais. O tio Ewald, como ela chamava ao Dr. Hambach desde a 
infncia, para ela fazia parte da famlia. Ao beij-lo, tinha-lhe 
apertado a mo e ele tivera a impresso de que a dela mergulhara no 
interior dum forno.
- Ento, tio Ewald, continuas com a tua inflamao na prstata - 
dissera suavemente.
A cara do mdico tinha-se imobilizado.

- Meu Deus, mas vocs possuem c em casa um sistema fenomenal de 
informao! Deve haver aqui uma srie de microfones escondidos em 
todos os lados!
- Se conseguires ficar dois minutos bem tranquilo e sem praguejar, 
vou experimentar uma coisa contigo, tio Ewald.
Tinha aproximado as pontas dos dedos quase como para rezar. Doerinck 
voltava do grande mvel-biblioteca com a caixa dos charutos. Era uma 
tradio, uma espcie de ritual: cada vez que o Dr. Ewald os 
visitava, ofereciam-lhe aquilo de que ele gostava mais: trs copinhos 
de uma excelente aguardente branca e um charuto que ele fumava 
voluptuosamente enquanto bebia.  claro que tambm bebia vinho, mas 
no era o seu forte; engolia-o sem o provar, como um brbaro, ou, 
melhor, como um verdadeiro campons da regio de M'rister: fazia 
desaparecer um copo de vinho pela goela abaixo como se fosse uma 
caneca de cerveja. E mais, depois de dois copos de vinho, nunca 
deixava de reclamar um pouco de aguardente branca, "para digerir o 
vinho".
- O que  que queres experimentar, minha filha? - perguntara o mdico 
com ar inocente.
- Curar-te.
Doerinck tinha-se interposto num tom brusco:
- J chega de asneiras, Cora! No esqueas que tens vinte e sete anos 
e que, portanto, j no ests em idade de te conduzires como uma 
criana!
- No te mexas, tio Ewald... como no fotgrafo, mas um pouco mais de 
tempo!
Corina tinha-se inclinado um pouco para ele, levantando a mo 
esquerda e baixando a direita at ficar  altura do baixo-ventre do 
mdico. Depois, a mo direita, ajudada por vezes pela esquerda, tinha 
comeado a ir e vir alguns centmetros acima da suposta regio do 
mal, sem nunca lhe tocar.
Ao fim de apenas dois minutos a sesso tinha terminado. O Dr. Hambach 
no pronunciara palavra e fora ainda em silncio que olhara para 
Corina quando ela se tinha endireitado para se deixar cair num 
cadeiro e fumar avidamente um primeiro cigarro.
- Podes voltar amanh, tio Ewald? - perguntara ela numa voz cansada e 
neutra. - Isto resulta...
- O que  que resulta? - perguntara o mdico tolamente.
Doerinck tocara com o seu copo que esperava o Dr. Hambach em cima da 
mesa e bebera sem esperar. Estava furioso.
- No ests a ver, Ewald, que ela se est a fazer interessante! - Era 
a primeira vez que via efectivamente a filha comportar-se assim. - H 
trs dias entrou aqui um gato vadio, quase morto de fome e coberto de 
sarna. A sarna desapareceu e ela meteu na cabea que foi porque o 
acariciou. E agora julga que contigo... Est a ficar louca, acredita.
O Dr. Hambach tinha continuado a seguir Corina com os olhos.
- No, pelo contrrio,  muito interessante - disse ele com ar 
pensativo. Calmamente bebeu os seus dois clices de aguardente, fumou 
completamente o charuto e depois disse a Corina: - Naturalmente que 
volto amanh. Quero ver isso melhor...

Voltara dez vezes de seguida. A ardncia que sentia no baixo-ventre e 
os fenmenos de reteno tinham desaparecido e a urina voltara a 
ficar clara! Ao fim da dcima sesso, o Dr. Hambach analisara ele 
mesmo a sua urina e, para maior certeza, mandara a um laboratrio de 
M'nster metade da mesma amostra. Ambos os resultados eram idnticos: 
a urina estava absolutamente limpa e lmpida. A anlise de sangue 
revelara que j no havia inflamao nem infeco em nenhuma parte do 
seu corpo.
O Dr. Hambach fora ento visitar Corina no atelier de tecelagem que 
ela tinha instalado na periferia de Hellenbrand. Tinha-se posto de 
ccoras perto do tapete que ela estava a terminar para melhor ver o 
trabalho das mos dela. Depois, acenando com a cabea pensativamente, 
dissera:
- Se o que penso de ti  verdade, minha pobre filha, vais ter de 
enfrentar uma vida bastante penosa. Oh, no te queimaro como na 
Idade Mdia, mas vo tentar criar-te dificuldades e abater-te. Sabes 
o que s para a medicina oficial? s o diabo em pessoa. Cora, o teu 
velho tio Ewald vai dar-te um conselho: esquece esse dom que tens. 
Continua a tecer tapetes maravilhosos, mas quando te encontrares 
perante uma doena, domina o teu primeiro movimento, o de a 
combateres, e amarra as mos atrs das costas. Seno, eles vo 
fazer-te viver um inferno...
E Corina repetira aos pais as palavras do mdico. Doerinck no 
prestara ateno. Em que  que estaria a pensar naquela noite? Agora 
lembrava-se de tudo e o seu mal-estar e o medo do futuro no cessavam 
de aumentar, a tal ponto que se sentiu incapaz de ficar mais tempo 
deitado. Levantou-se devagarinho para no acordar Ludmila e, 
descalo, dirigiu-se para a janela. L fora, a noite estava luarenta. 
Quase no havia vento e as folhas das rvores de fruto quase no 
mexiam. Os raios da Lua cheia formavam um manto de prata por cima das 
quatro filas da latada de que tanto se orgulhava. Trabalhava nela 
desde h sete anos e a cidade inteira tinha inveja das suas colheitas 
de espargos. Amanh de manh, antes de o Sol se levantar 
completamente, iria l inspeccionar e, armado com uma faca comprida, 
remexeria profundamente a terra  volta dos stios onde as pontas de 
espargos se preparavam para sair. Era preciso manter em mente a 
necessidade de o fazer e faz-lo requeria um certo saber.

Mas continuava a pensar na filha e no conseguia libertar-se do peso 
que lhe esmagava o peito e que quase lhe provocava uma sensao de 
sufocamento. O que  que aquilo iria dar? "E trata-se da minha filha. 
Como conceber, como compreender uma coisa assim? Durante a guerra, em 
Poti, no mar Negro, ri muito do mdico David Semionovitch Assanurian, 
de quem se dizia que curava todas as doenas acariciando o corpo dos 
seus doentes. Histrias de russos!", pensara nessa altura. "Com eles 
uma pessoa no pode admirar-se de nada. Esta gente do Clcaso  
inteligente, mas deixa de alimentar essa inteligncia a partir do 
momento em que trocam o seio da me por um caldo com colher! So uns 
atrasados! Ainda acreditam em demiurgos, em curandeiros, em magos e 
xams, e sei l que mais? Para eles, os epilpticos so "enviados de 
Deus". S na Rssia era ainda possvel existir um taumaturgo como 
Rasputine! E muitos deles pouco progrediram desde ento! A Rssia  
to vasta que o esprito cientfico propaga-se l muito lentamente. 
No fundo, o que era este Dr. Assanurian? Um pequeno Rasputine, um 
actor que tinha inventado um nmero expressamente para este povo. Um 
saltimbanco que vivia de espantar as pessoas. Ainda o vejo levantar a 
mo pronunciando com voz cavernosa: "Agora vou retirar a doena do 
teu corpo, irmozinho... ", e os olhos do paciente reviravam-se, 
tinha uma crise de histerismo e toda a gente gritava que fora 
milagre.  evidente que alguns doentes se sentiam aliviados, pois 
sabe-se agora muito bem que a maior parte destes males so 
psicossomticos. Neste gnero de cura bem sucedida, que consistia, no 
fim de contas, em devolver um pouco de ordem ao esprito de um 
histrico, assentara o xito do Dr. Assanurian, assim como a sua 
celebridade... "
Evidentemente, ele, um tenente alemo educado num dos pases mais 
modernos do mundo, tinha amado Ludmila, a filha deste homem, ao ponto 
de a levar, contra ventos e mars, ao longo de uma longa e sangrenta 
retirada. Mas isso era outra histria. O seu pai caucasiano nada 
pudera impedir. Com efeito, acontece raramente que dois seres humanos 
se amem como ele e Ludmila. Tinham conseguido enfrentar, ela, a filha 
do caucasiano, e ele, o jovem oficial alemo, os inimigos dos dois 
campos. Durante um ano, ela vivera escondida perto dele, em todos os 
lados onde acampara a sua companhia. E quando no fim da guerra lhe 
tinham dado o comando de um batalho, apenas com o grau de capito, 
dada a sua juventude, e, portanto, j no comandava directamente um 
grupo, Ludinila tinha vestido o uniforme alemo e transformara-se num 
soldado de 1.a classe, impedido do comandante da companhia, que 
passava a seguir a chefe de batalho: Doerinck. Na imensa confuso da 
retirada, cada um s pensava no termo dos seus sofrimentos inteis e 
poucas perguntas fazia. Doerinck tinha informado com uma nota 
lacnica a secretaria do batalho sobre a chegada do soldado de 1.a 
classe Hans plotz e sobre a sua nova afectao: "Escolhi-o para meu 
impedido..." Naturalmente, tinha estado perto da catstrofe quando o 
sargento-chefe Muller VI - antes dele tinham morrido cinco Mullers na 
companhia -, um burocrata consciencioso, lhe assinalou que no tinha 
recebido para o novo soldado nenhum papel regulamentar, nem 
caderneta, nem guia de marcha, nem transferncia, nem registo de 
soldo; recebera do capito Doerinck uma reprimenda o mais militar 
possvel, de tal maneira que nunca mais voltou  carga. Alm disso, 
estavam em 1945. j se combatia em solo alemo. O fim da "grande 
merda", como diziam os ltimos soldados, estava prximo, visto j no 
se poder recuar mais.
Tinham-se casado em Dortmund, ela, Ludinila, uma russa sem papis, e 
ele, Stefan Doerinck, que voltara a ser um estudante da Escola 
Superior de Pedagogia. E Corina tinha nascido...
"Corina... Ela , pois, como o av", pensou subitamente, e teve a 
sensao de que o seu hlito estava a aquecer como num ataque de 
febre. " isso! Ela bem que podia ter nascido e sido educada na 
Alemanha e ser filha de um pai alemo; a hereditariedade caucasiana 
prevaleceria." Ouviu-se dizer em voz alta: "Meu Deus,  terrvel..."
E, com efeito, que ia acontecer a partir de agora? Conhecia os 
habitantes da sua pequena cidade: como iriam eles reagir?
Voltou a ir sentar-se na borda da cama e ficou a olhar longamente a 
mulher. "Se de facto a Corina te cura, Ludmila, meu amor, ento s me 
restar adorar a nossa filhinha. , e defend-la-ei contra todos os 
que a atacarem. E, se necessrio, matarei para a defender. Sim, 
matarei... Meu Deus, tambm eu estou a ficar louco... tudo isto  
incompreensvel..."

Voltou a deitar-se lentamente de costas, puxou o edredo para ele e 
ficou imvel, com os olhos muito abertos, a olhar para o vazio. E de 
repente sentiu cada vez mais medo. Medo do futuro que iam ter. Medo 
por Corina, medo pela sua mulher e medo por ele mesmo.

O professor Willbreit deixou passar quinze dias antes de telefonar 
para casa dos Doerinck.
Efectivamente, no consta do cdigo dos hbitos mdicos que um 
clnico tente recuperar um doente. Qualquer doente  completamente 
livre para tomar as decises que quiser: se a cara do mdico no lhe 
agradar, no  obrigado a rev-lo. A no ser, evidentemente, que 
sofra de uma doena contagiosa, epidmica, ou duma afeco que se 
deva declarar s autoridades, qualquer ser humano tem sobre o prprio 
corpo um direito absoluto de propriedade.
Porque  que ento, ao fim de duas semanas, o professor Willbreit 
voltou a pegar no dossier Doerinck? Ele prprio no sabia responder. 
Tinha operado at  data numerosos intestinos grossos, e todos esses 
casos figuravam num estudo estatstico que trazia em dia e se 
intitulava "Prognsticos relativos a casos cirrgicos". No seu 
esprito, esta coleco devia constituir a base duma obra que 
asseguraria a celebridade do nome Willbreit no domnio da 
investigao mdica.
Da mesma maneira, era impossvel dizer se o carcinoma do clon de 
Ludmila Doerinck era particularmente interessante. Para um mdico, 
seis meses de vida no tm nada de especialmente dramtico. Qualquer 
cirurgio vive continuamente numa atmosfera em que a morte de um 
paciente constitui um risco e uma parte inevitvel da sua profisso. 
No havia, portanto, nenhuma razo para que o nome Doerinck lhe 
tivesse ficado gravado na memria. No entanto, este caso 
preocupava-o, algo nele "no colava", para empregar as suas prprias 
palavras. Assim, tinha bruscamente pedido o nmero de telefone dos 
Doerinck, como se tivesse de transpor o Rubico, para saber notcias 
da russa.
Foi ela mesma quem lhe respondeu anunciando o seu nome. O marido, 
segundo o horrio escolar alemo, estava na escola, como os alunos, 
at s treze horas, e Corina trabalhava todo o dia no seu atelier de 
tecelagem! Ludinila encontrava-se, portanto, sozinha em casa com a 
mulher-a-dias, que s fazia meios dias dedicados aos trabalhos mais 
pesados.
- Daqui fala o professor Willbreit. - Tinha escolhido para se 
apresentar a voz mais segura deste mundo. - Ento  mesmo a senhora 
que est ao telefone. Ainda bem. S queria saber como tem passado de 
sade.
- Bem, obrigada.
Era verdade, mas ela apercebeu-se imediatamente do efeito que estas 
duas palavras deviam ter num cirurgio que esperava ouvir uma 
resposta totalmente diferente.
-  uma ptima novidade... Ento, j no tem dores?
- Nenhuma, senhor professor!
- Mas certamente continua a ter algumas perdas de sangue...
- Absolutamente nenhuma.
- E tambm no perdeu peso?
- Pelo contrrio, e isso comea mesmo a inquietar-me. No gostava de 
comear a engordar..:
- Pelos vistos, ento, tudo parece ir pelo melhor, objectivamente?

As duas palavras "parece" e "objectivamente" deviam exprimir o mais 
discretamente possvel a sua desconfiana, mas era intil utilizar 
tanta subtileza com Ludmila, que, no respondendo nada, o obrigou a 
fazer finalmente a pergunta que o embaraava.
- Encontra-se ento a seguir um tratamento que d resultados?
- Sim...
- Num caso como o seu,  sempre bom e til que o cirurgio fique em 
contacto com o mdico do doente. Poderia dar-me o nome do meu 
confrade para que possamos seguir em conjunto a evoluo da doena?
- Trata-se da minha filha.
Estas palavras to simples iriam, no entanto, modificar a vida do 
professor Doerinck e a dos que o rodeavam. Willbreit calou-se um 
instante. Sentia-se profundamente ferido. Sentia a impresso de ter 
recebido uma forte bofetada em pleno rosto. Dominou-se. Tinha de se 
dar tempo para "digerir" aquela informao ultrajante. Por isso, 
encadeou a conversa no mesmo tom professoral.
- Lembra-se que lhe reservmos uma cama, cara senhora. At ao momento 
ainda continua livre. Podemos dispor dela? A lista de espera  
longa...
Ludmila interrompeu-o.
- Mas a minha filha preveniu-o, no  verdade? Pode, portanto, dispor 
dessa cama, senhor professor, j no preciso de ser operada...
- Trata-se verdadeiramente duma boa notcia, mas que  ao mesmo tempo 
surpreendente. - A sua voz mudara: os sons abafados traam a 
irritao que ele se esforava por conter. -  ento a sua filha que 
a trata. Se bem me lembro, ela disse-me que no tinha acabado os seus 
estudos de medicina. , portanto, meu dever chamar a sua ateno para 
este facto, por mais delicado que seja, cara senhora. Mas poderia 
descrever-me em algumas palavras apenas qual  o gnero de tratamento 
que ela a faz seguir? Certamente trata-se de quimioterapia.
- No,  uma imposio das mos...
- Perdo...
- As suas mos acariciam o meu corpo mas sem o tocar.
- Vejamos, minha senhora, isso nem  srio nem mesmo  possvel.
- Sinto por dentro, no stio do tumor, uma espcie de queimadura, mas 
agradvel. E as minhas dores desapareceram, assim como as perdas de 
sangue e a diarreia contnua... A srio, senhor professor, sinto-me 
muito bem.
- Felicito-a! - A sua voz voltara a ser normal. - A conversa que 
acabo de ter consigo, cara senhora, foi extremamente interessante e 
instrutiva. Permite que volte a pedir notcias suas em breve?
- Mas certamente, senhor professor. - Porque teria ela ento 
acrescentado uma frase imprudente que, como uma pancada no centro do 
estmago, ia atingir Willbreit e deix-lo sem flego, interdito. - 
Estou to feliz por j no precisar de ser operada, senhor 
professor...

Ele pousou lentamente o auscultador no descanso. Durante alguns 
minutos, considerou, alheado, o dossier Doerinck completamente aberto 
sobre a mesa. E de repente sentiu apoderar-se dele um verdadeiro 
pnico. "Ela trata a me por imposio das mos.  com as mos e s 
com as mos que pensa poder curar a sua prpria me de um cancro do 
clon! Meu Deus, mas isto  um crime!"
Pronunciou a palavra em voz alta: um crime!
A sua secretria ainda no se tinha ido embora. Chamou-a para lhe 
pedir um caf bem forte. Depois, quando ficou sozinho, voltou a 
mergulhar nos seus pensamentos, esforando-se por pesar os prs e os 
contras e de fixar uma linha de conduta: o que  que se podia fazer 
num caso daqueles? Seria razovel comunicar o caso aos tribunais? Mas 
isso seria ir contra o direito inalienvel que todo o ser humano 
possui sobre o seu corpo: no se pode punir uma pessoa por ela se 
recusar a ir consultar um mdico ou a seguir os conselhos deste! E no 
Cdigo Penal no existe nenhuma disposio que impea uma filha de 
acariciar, sem sequer lhe tocar, o baixo-ventre da me julgando poder 
assim prestar-lhe assistncia, socorr-la.  impossvel considerar a 
tolice e a superstio como delitos enquanto no provocam escndalo 
pblico.
E, no entanto, era preciso reagir, fazer algo: era testemunha dum 
acto pseudomdico executado por uma pessoa irresponsvel. Teria ele o 
direito de se calar e de se tornar assim o 
cmplice do horrvel fim dum ser humano? Podia contentar-se com 
dizer: pouco me importa o que se passa em Hellenbrand, que no  mais 
do que uma localidade perifrica que
nem sequer conheo? A mulher recusa a assistncia mdica? Pois seja, 
que posso fazer? Tenho na clnica duzentos e setenta e cinco operados 
ou futuros operados que precisam de mim, duzentas e setenta e cinco 
camas ocupadas por seres que sofrem e me esperam cheios de esperana 
na nossa cincia mdica e cheios de confiana nas nossas 
possibilidades cirrgicas. Esqueamos, pois, esta tal Sra. Doerinck. 
Classifiquemos o caso!
Mas isso era exactamente o que Willbreit se tinha tornado incapaz de 
fazer. A partir de agora, o mesmo pensamento voltaria a assalt-lo, 
torturando-o: curar atravs da imposio das mos! Curar um cancro do 
clon sem sequer tocar o doente, apenas agitando as mos por cima 
dele! E eis que os outros sintomas desaparecem... No, tinha de fazer 
algo, tinha de intervir...
Pegou na agenda, folheou as pginas que j se encontravam 
sobrecarregadas de consultas marcadas,  procura dum buraco de apenas 
algumas horas. Sexta-feira? Sim, era possvel. Podia pedir ao seu 
colega Dellinger, mdico-chefe substituto, para dar aula s 
estudantes de enfermagem. E Dellinger tambm poderia tomar a seu 
cargo a visita do fim da tarde. Quanto ao chefe, este encontrava-se 
em Tquio para um congresso de uma semana. Desde uma transplantao 
do fgado, que experimentara fazer sabendo de antemo que o doente de 
qualquer maneira deveria morrer, o chefe encontrava-se mais 
frequentemente em viagem do que em M'nster: tratava-se de uma tcnica 
inteiramente nova e percorria agora o mundo como convidado para 
proceder  sua demonstrao. Talvez viesse assim a alcanar uma certa 
imortalidade...
Assim, seria, portanto, sexta-feira, s catorze horas.
Conscienciosamente, inscreveu na agenda, por cima das palavras 
"estudantes de enfermagem", que riscara: "Viagem. a Hellenbrand, 
Ludinila Doerinck." E acrescentou no ltimo

momento, entre parenteses: "Levar mquina fotogrfica." Mais tarde, 
durante uma paragem que efectuara na sala de reanimao, onde se 
encontravam trs casos crticos, cedeu a um impulso sbito e 
telefonou ao seu amigo Erasmus Roemer.
Erasmus Roemer era juiz do tribunal de 1.a instncia de M'nster. 
Tinham sido estudantes juntos e eram agora membros da mesma 
associao de antigos estudantes. Encontravam-se regularmente no 
caf, que era o seu ponto de reunio. Simpatizavam e apreciavam-se, 
ao contrrio das respectivas mulheres, que se detestavam. No h nada 
como o dio entre duas mulheres para selar para sempre a amizade de 
dois homens.
Ao telefone, no perdeu tempo para fazer ao seu velho amigo a 
pergunta que o preocupava:
- Diz-me c, Erasmus. O que  que sabes a propsito dos curandeiros, 
dessas pessoas que tratam sem diplomas,  margem da medicina oficial?
Ouviu, no outro extremo do fio, o riso enorme, atroador, do juiz 
Roemer.
- Trata-se quase de uma especialidade da nossa regio de M'nster...
No parava de rir. Roemer era um gigante. Pesava cento e vinte e 
cinco quilos e no ligava aos avisos do seu amigo Willbreit, que o 
ameaava com diabetes, gota, arritmias cardacas, arteriosclerose, 
flebite e toda uma gama de doenas terrveis de que a pior era a 
impotncia sexual.
O seu riso era uma espcie de rugido que M'nster inteiro conhecia. Ao 
v-lo pela primeira vez, era natural que se duvidasse das suas 
qualidades de jurista. Este bon vivant apreciador de mulheres, de boa 
carne e de vinhos velhos, tinha ar de se interessar mais por 
gastronomia do que por artigos do Cdigo Penal. Mas era um profundo 
engano. Dava-se rapidamente conta do contrrio. Roemer era 
considerado o mais coriceo dos juizes do tribunal. Presidia ao 
tribunal correccional e os culpados que tinham de comparecer diante 
dele deploravam com antecedncia a sorte que os esperava, pois nada 
escapava  sua perspiccia.
Ao telefone, a sua voz ressoava como um estrondo dum trovo.
- Ento, que problemas  que tens? Ters por acaso um curandeiro 
deitado na mesa de operaes e resolveste vir perguntar-me se podes 
livrar dele impunemente a sociedade ou se deves, apesar de tudo, 
voltar a coser-lhe a barriga?
Continuava a rir.
-  uma pergunta das mais tericas que podem existir... Acabo de ler 
alguma coisa sobre os curandeiros que exercem ainda na nossa regio. 
Tens alguma experincia jurdica ou penal em relao a eles?
- No...
- Conheces algum? Por ouvires falar, talvez?...

- No conheo nenhum. Teria demasiado medo que quisessem privar-me de 
tudo, como tu. Sei que subsistem alguns, sobretudo no campo, mas s 
com base no que se ouve dizer. Em cantos isolados de tudo, os 
camponeses continuam a venerar certas curandeiras. So sobretudo os 
veterinrios que se queixam da concorrncia. Um dos males pelos quais 
so consultados , imagina, o aparecimento de verrugas! A curandeira 
pronuncia por cima da verruga uma frmula mgica qualquer e a verruga 
desaparece!  verdade,  como te digo! De facto, essas curandeiras 
tm imenso sucesso. Isso faz-me lembrar uma histria que aconteceu  
minha av. Ela vivia na regio de Oclitrup, numa aldeia da comunidade 
camponesa local. Eu tinha na altura sete anos e fiquei completamente 
aparvalhado com o que vi, com a maneira como ela se desembaraou, 
diante de mim, de duas enormes verrugas que tinha na mo esquerda. 
Levou-me um dia com ela a casa de uma velha que comeou por dar 
cuspidelas na mo da minha av e que a seguir se ps a murmurar uma 
prece ou um encanto qualquer. Pois bem, no consegues adivinhar: as 
verrugas da minha av desapareceram e nunca mais voltaram. Mas j foi 
h muito tempo, Thomas, h quase trinta anos... Eis a minha nica 
experincia com curandeiros. O que  que se passa contigo?
- Li algo acerca disso, como j te disse. Mas h um aspecto do 
problema que gostava de conhecer: esses curandeiros podem ser 
perseguidos pela lei?
- No, desde que a assistncia que prestam ao curarem um animal ou ao 
fazerem desaparecer uma verruga no tenha nada de profissional e se 
no aceitarem dinheiro pelos tratamentos. Mas mesmo no que respeita 
ao dinheiro, o fisco interessa-se muito mais por essa gente do que a 
justia.  que  sempre difcil provar que houve uma infraco  
legislao relativa ao exerccio ilegal da medicina. Quando no h 
uma queixa formal, no h perseguio possvel. E quem vai uma vez 
ver um curandeiro no diz nada a ningum, e ainda menos quando as 
coisas correm mal. Este gnero de clientes tem medo do ridculo e das 
zombarias. S a administrao fiscal vigia os curandeiros de perto. 
Chegou mesmo a calcular os rendimentos que tm de maneira bastante 
precisa e, em consequncia, faz pagar os respectivos impostos aos 
curandeiros conhecidos. Pois , eles at figuram na lista oficial de 
clculos, uma espcie de guia dos agentes do fisco e que lhes serve 
para calcular o rendimento de cada corpo profissional. O mesmo 
acontece com as prostitutas!
- Ento no se pode fazer nada legalmente contra um curandeiro quando 
ele exerce apenas de modo absolutamente privado e sem nenhuma 
remunerao?
- No, no se pode fazer nada contra eles.
- Agradeo-te esta informao, Erasmus. At breve.
Mandou buscar as radiografias de Ludinila Doerinck, disp-las e 
examinou-as longamente, mudo de surpresa. Era o caso tpico: esta 
mulher tinha-se feito examinar com um irrecupervel ano de atraso. A 
isotopia no fornecia informaes sobre as metstases do fgado, mas 
elas existiam, tinha a certeza. A sua experincia, assente em 
centenas de operaes, no o podia enganar.
E havia quem quisesse curar aquilo com uma imposio das mos, e, 
melhor ainda,  distncia, sem tocar sequer o corpo daquela pobre 
mulher!
Apagou o projector, desagrafou as radiografias e p-las num grande 
sobrescrito.
"Vou saber mais alguma coisa na sexta-feira", pensou. "E a, vou dar 
murros na mesa. Ningum tem o direito de ficar indiferente quando se 
trata de uma vida humana. H pases onde se leva as pessoas ao 
tribunal por no assistncia a pessoas em perigo."
Sexta-feira  tarde.

Ludinila ia submeter-se  dcima nona sesso de tratamento sob as 
mos de Corina quando o professor Willbreit surgiu inopinadamente 
diante da casa dos Doerinck. Em Hellenbrand toda a gente conhecia o 
vice-reitor da escola e Willbreit tinha feito sensao: estava ao 
volante de um Maserati desportivo e era a primeira vez que um carro 
to extico atravessava o burgo. Quando o estranho perguntara pelo 
reitor Doerinck, a sensao tinha atingido o seu auge. Como  que o 
reitor podia conhecer o proprietrio de um Maserati?
Doerinck, de regresso a casa, encontrava-se no seu gabinete de 
trabalho a corrigir os exerccios dos alunos do stimo unificado. 
Tratava-se de um exerccio de alemo feito na aula. Era uma redaco 
com o ttulo "Diga o que uma rvore lhe pode contar".. "Era 
horrvel", pensou, "o que vinte e trs rapazes e raparigas eram 
capazes de escrever a esse propsito." De ano para ano, a falta de 
imaginao e de clareza de expresso acentuava-se; comeava a ser 
alarmante. A lngua alem metia gua por todos os lados. Numa reunio 
de professores, Doerinck, sem que nenhum dos seus colegas ousasse 
protestar, dissera: "O nosso povo nunca voltar a produzir um 
Schiller, um Kleist ou um Holderlin. At um Konsalik parecer um 
fenmeno dentro de cinquenta anos, e bem vem onde quero chegar ao 
dizer isto!..." Tal como muitos professores, ele no gostara de 
Konsalik, sem, alis, fundamentar o seu julgamento em qualquer coisa 
de preciso. "... Felizmente", continuara, "os gostos deles ainda so 
diferentes: um prefere o Mickey, o outro o Pato Donald e o terceiro 
gosta mais de chewing-gum."
E este tema, que tinha escolhido para tentar descobrir em algum aluno 
uma personalidade embrionria, deixava-lhe na boca o gosto de uma 
atroz decadncia.
Ao ouvir um carro parar diante do porto, levantou-se e levantou a 
cortina. No conhecia os Maserati, mas pensou imediatamente que o que 
acabara de travar  frente da sua casa com tanta segurana 
representava uma pequena fortuna. Tambm no conhecia o condutor, 
que, depois de ter empurrado o porto, parara um instante no 
jardinzinho que precedia os trs degraus do patamar para olhar de 
alto para baixo e de baixo para cima a fachada da casa, antes de 
avanar resolutamente para a porta de entrada, com a pasta debaixo do 
brao.
"Mas  mesmo para nossa casa que ele vem", pensou Doerinck. "Ento 
no se trata de engano! Com efeito, est agora a tocar  porta. Pois 
bem, vamos ficar a saber o que ele quer. Corina est c hoje e vai 
certamente abrir."
Voltou at  secretria, fechou os cadernos j corrigidos  parte, e 
quase no mesmo instante Corina entrou no quarto com ar perturbado.
- Pai, temos visitas.
- Sim, vi um homem parar diante do porto. Que carro fantstico! E 
quem  que conduz ento aquele autocarro?
- O professor Willbreit, o cirurgio da me.
-  diabo! Eis-nos perante um caso srio... - Reajustou a gravata, 
Pegou no casaco que estava nas costas da cadeira e enfiou-o. - No 
sabia que a mamuchka o tinha chamado.
- A mam ficou to surpresa quanto tu e eu. Veio por iniciativa 
prpria. Beijou a mo da me, dizendo-lhe: "Est esplendorosa, cara 
senhora." E voltou-se para mim e disse-me: "E a menina  certamente a 
filha?" Havia na sua voz algo que no me agradou.
- Ora, calma, minha filha!... - Com um suspiro subiu o cinto das 
calas at ficar por cima dum principiozinho de barriga.
- Mas que carripana! Ds-te conta do que devem ganhar os nossos 
mdicos? Vem, esta visita interessa-me muitssimo.

Ludmila tinha feito sentar o professor Willbreit no melhor cadeiro 
da sala de estar e estava a servir-lhe um conhaque. Quando Doerinck 
entrou, Willbreit levantou-se dum salto e inclinou-se, ao mesmo tempo 
que se apresentava cerimoniosamente.
- Willbreit, devo desculpar-me por aparecer sem avisar e por vir 
assim ma-los...
- Mas tenho muito prazer em conhec-lo - respondeu Doerinck, fazendo 
cessar assim longas trocas de delicadezas. "Que elegncia", pensou no 
fundo de si mesmo, "e que jovem  este professor! Um s da profisso, 
certamente, seno no seria uma das personalidades da policlnica." - 
Por favor, queira sentar-se. j conhece a minha filha?
- Pelo telefone, antes de vir, e agora pessoalmente.
Pronunciava a palavra "pessoalmente" com um "o" francs que Doerinck 
achou, enquanto purista, um pouco afectado, mas acabou por pensar que 
talvez fosse uso da alta sociedade. Quando se conduz um carro 
daqueles talvez se torne obrigatrio falar francs ou ingls em 
alemo!
- A minha visita deve causar-lhes estranheza.
- Mas somos todos ouvidos, professor.
Os dois homens tinham-se sentado. Ao pousar o copo de conhaque na 
mesinha perto de Willbreit, a mo de Ludmila tremia um pouco. Depois 
dum instante de reflexo, Doerinck interpretou o olhar que ela fixara 
nele como uma espcie de prece: "No te atires a ele antes de 
sabermos o que ele quer. Eu tambm no sei o que . "
- Antes de mais - declarou Willbreit -, sinto-me feliz por ver a sua 
mulher to cheia de energia.
- E, com efeito, uma grande alegria para ns todos, senhor professor. 
- "No estejamos com rodeios", pensou. "Sempre gostei das coisas 
claras." - Depois do diagnstico que a minha mulher trouxe de 
M'nster...
-  exactamente essa a razo da minha visita - interrompeu-o 
Willbreit. - Bebeu dois goles e pousou o copo de novo, lentamente, no 
tabuleiro, a fim de ganhar tempo para pesar as primeiras palavras que 
ia pronunciar. - Reflecti muito sobre o caso da senhora Doerinck, 
sobretudo quando soube que renunciava  operao. Mas ainda mais, 
quando a vossa filha me explicou a razo dessa recusa. Senti-me, 
posso diz-lo, profundamente perturbado.
- No h nenhuma razo para isso. - Era a primeira frase que Corina 
pronunciava depois das frmulas de saudao habituais e, 
contrariamente ao que esperava Willbreit, foi ela que atacou o 
assunto. - Como pode ver, a me sente-se muitssimo bem.
- Permita-me que duvide.
Era bastante forte como resposta, mas, pelo menos a partir de agora, 
a posio de cada adversrio ficava bem definida. Doerinck, que 
tirara a garrafa de conhaque das mos de Ludmila, pousou-a na mesa e 
olhou Willbreit com ar interrogador.
- Antes de entrar em pormenores, professor,  necessrio estabelecer 
que foi o senhor que tomou a iniciativa desta visita.
- Tinha de vir, doutor Doerinck. - Aproximou a pasta da sua perna 
direita antes de prosseguir. - Como poderia fazer outra coisa? A 
senhora Doerinck pediu-me que lhe dissesse muito francamente o que se 
passava e eu fi-lo...

- E ns agradecemos-lhe imenso. Isso ajudou-nos muito.
- Foi a sua franqueza que nos levou a agir - disse Corina. E no 
silncio que reinou logo aps a sua declarao, levou ainda mais 
longe a vantagem que j tinha alcanado. - E como ao telefone me 
disse, sem rodeios, ser-lhe impossvel curar a minha me.
- Permita-me que exprima esse facto de maneira completamente 
diferente: declarei que no havia cura possvel, mas que se podia, 
pelo menos, adiar um desfecho que se apresentava como fatal. 
Reconhea-me ao menos a capacidade de saber interpretar o resultado 
de um exame e de ler uma radiografia. Disponho de centenas de 
possibilidades de comparao, cara menina: a evoluo de uma doena 
como esta  perfeitamente previsvel.
Corina acenou aprovadoramente com a cabea.
- Do ponto de vista cirrgico, tem absolutamente razo.
- Mas eu estou de facto muito bem! - Incapaz de se conter, Ludinila 
tinha intervido bruscamente. Sentia que algo de srio se aproximava e 
fazia o impossvel para evitar o pior. - Nunca deveria ter-lhe dito 
ao telefone o que Corina estava a fazer para me curar.
- Mas nunca me falaste dessa conversa, me.
Ludmila baixou a cabea.
- No. Foi s depois que me apercebi da minha tolice. E j era 
demasiado tarde. Achei que era prefervel calar-me, dado o professor 
estar l longe, em M'nster, e ns estarmos aqui. Pensei que visto 
poder dispor da minha cama, nunca mais telefonaria. No pensei que 
viesse a nossa casa.
- Senti que a conversa telefnica que tive com a sua filha era um 
desafio. No posso aceitar o que acaba de dizer.
Tinha-se voltado para Corina. Ela estava sentada num sof com as 
pernas estendidas para a frente. "Fascinante", pensou Willbreit. " a 
me em mais nova e at mais bela do que a me alguma vez foi." O seu 
olhar deslizou pelo seu corpo e parou nas mos dela. "Era ento com 
elas que esta mulher julgava..." Os dedos eram longos e finos; 
indiscutivelmente, demasiado longos para uma mulher. Dez antenas 
cobertas de carne e de pele. "Que parvoce", disse para si mesmo 
imediatamente. Mas aquela ideia de antenas perseguia-o: pensou, de 
repente, sem querer, num aparelho receptor, ou emissor, ou nos dois 
ao mesmo tempo?... "E tem um rosto perturbador. Onde ter nascido a 
me? No Cucaso. Na Grusnia, como dizem os Russos e como ns 
dizamos quando l estivemos. Este tipo de cara reflecte os segredos 
dum outro mundo que se esconde por detrs destes olhos. Sim, 
fascinante,  o que ela ... "
Agitou-se. No h nada como uma pessoa refugiar-se na grosseria 
quando se sente idiota diante dum ser do outro sexo: ora bem, e 
ento? Tem maminhas, pernas, coxas e o resto, exactamente como todas 
as midas! De certeza que  boa na cama... Elevou um pouco a voz.
- No posso aceitar o que acaba de dizer. Voltemos  questo: mais 
uma vez esperam de mim uma absoluta franqueza. Pois bem! Duvido das 
melhoras da senhora Doerinck. Digo que  impossvel.
- j no tem nenhuma perda de sangue - observou Doerinck que estava 
sentado muito direito na cadeira.
-  uma evoluo que conhecemos muito bem: as pequenas hemorragias 
cessam e depois, bruscamente, h uma ocluso intestinal. E  o fim.

- Ningum conhece o futuro com certeza - disse Doerinck, 
sentenciosamente.
- Peo-lhe, senhor Doerinck, no comecemos a falar com 
lugares-comuns. - Abriu a pasta e tirou um grande sobrescrito. - O 
estado da senhora Doerinck  muito mais grave do que pensam. No 
viram estas radiografias nem esta isotopia, nem estes exames de 
laboratrio. O que salta aos olhos quando os vemos ...
- Vi tudo isso. - Uma vez mais, a voz de Corina cortava abruptamente 
o arrebatamento do professor. Tinha nos lbios um sorriso que ele 
achou extremamente impertinente. E acrescentou, sem abandonar uma 
calma quase insultuosa: - Sei exactamente onde se localiza o 
carcinoma, sei onde  necessrio agir e sei at onde ele se estende.
- Posso ver as radiografias?
- No - respondeu ela categoricamente.
Willbreit sentiu-se invadir por uma raiva fria. O que se passava 
diante dos seus olhos era um crime, um crime cometido a sangue-frio 
sobre uma mulher doente e incapaz de se defender.
- E porque no?
- Porque elas no existem, professor. Mas vi tudo isso com a ajuda 
das minhas mos e posso provar-lho.
Todos os que conheciam Willbreit teriam jurado que era impossvel 
reduzi-lo ao silncio. No entanto, passaram vrios segundos sem que 
ele conseguisse pronunciar palavra. E mais, tinha parado a meio dum 
gesto como paralisado. Finalmente, explodiu numa voz rouca:
- A quem... a quem  que quer fazer engolir uma coisa to incrvel? A 
mim? Meu Deus, mas ainda  mais perigosa do que eu pensava!
Corina inclinou-se para trs no sof. Nos seus jeans apertados e no 
pulver que lhe modelava o peito, pareceu-lhe de repente mais sexy do 
que nunca. Willbreit levantou os olhos para uma fotografia a cores 
que estava pendurada na parede mesmo por cima dela: os moinhos de 
vento do molhe de Rodes... Estremeceu. Corina estava a fazer-lhe uma 
pergunta estranha:
- J nos encontrmos, professor? - perguntou-lhe ela.
- Claro que no. A que propsito vem essa pergunta?
- Estaria pronto a confirmar diante de testemunhas que eu nunca o vi 
nu?
Ele estremeceu uma vez mais, indignado com o desaforo.
- Ora essa!
- E tambm que nunca vi nenhuma fotografia de si sem roupa?
- Mas o que  que isso quer dizer? No compreendo de maneira nenhuma 
esta espcie de interrogatrio...
- Pois bem, imagine, estou a v-lo nu... - Tinha cruzado as mos  
altura do queixo e olhava fixamente para Willbreit, que, desarmado, 
esboava uma espcie de sorriso simultaneamente superior e 
incomodado. - No alto da coxa esquerda tem uma cicatriz com uma boa 
dezena de centmetros. Foi acidente? E por baixo do brao direito, 
tem outra cicatriz: no teria tido um abcesso no gnglio axilar?

Imvel no seu cadeiro, Willbreit, estupefacto, sentiu de repente que 
as batidas do seu corao se aceleravam. Sim, h oito anos... em 
Itlia. Na estrada de Sorrento, um carro viera embater de frente no 
dele. Tinham-lhe cosido a parte de cima da coxa no hospital mais 
prximo. E com dezoito anos tivera de facto um abcesso no gnglio 
axilar de cuja cicatriz nem Ldia, a sua mulher, se tinha apercebido 
nunca.
- E se agora bebssemos um conhaque - props Doerinck com voz sumida. 
- Antes de dizer seja o que for, professor, deixe-me confessar que 
lhe dou razo: tudo isto  incompreensvel! Eu mesmo no entendo o 
que se passa. Mas vivo com ela e ela est melhor.  assim... Agora, o 
que Corina lhe disse  exacto?
Para Willbreit, esta podia ser a grande viragem da sua vida. Ainda 
estava a tempo de aceitar os factos, mesmo se estes no concordavam 
com tudo o que aprendera, acreditara ou adorara! Porque ser mais 
difcil renunciar a um falso deus do que a um verdadeiro? Talvez 
tenha sentido, por instantes, essa tentao. Mas, ao contrrio, ao 
sair do torpor que o invadira, engoliu de uma vez o conhaque e os 
Doerinck tiveram a impresso de terem diante deles um animal que j 
no conseguia saber como  que se saa do canto em que se encontrava 
encurralado.
- No est a pensar que me pode impressionar, a mim, com um truque 
destes! Um verdadeiro nmero de circo! Est a agir como uma 
irresponsvel, minha senhora. Trata-se da sua me, percebeu?
os grandes olhos negros de Corina no se afastavam dele e ele perdia 
cada vez mais o autocontrolo.
- Irresponsvel, eu? Dentro de trs semanas farei com que a minha me 
seja de novo radiografada e enviar-lhe-ei as radiografias. J no 
ver nelas nenhum cancro.
- Como  que um homem como eu pode suportar calmamente tal 
insensatez! - Tinha-se levantado e, empurrando bruscamente o 
cadeiro, comeara a espalhar sobre a mesa todas as radiografias, 
todos os exames mdicos que trouxera, e pegava ao acaso em algumas 
radiografias que agitava por cima da cabea sem se poder conter. - 
Eis as provas! V aqui a doena com toda a clareza possvel. E as 
suas provas, onde esto? Que pode pretender afirmar seno que se est 
aqui a
passar, por sua causa, algo que aos olhos de toda a gente no passa 
de um crime! - Continuava a agitar no ar um molho de radiografias. 
Respirou profundamente para recuperar o flego, tirou de cima da 
mesa, com a mo esquerda, uma grande radiografia que elevou na 
direco da luz do Sol que penetrava atravs da vidraa. - Mas o que 
 que pode dizer contra isso? Meu Deus, assumo plenamente a 
responsabilidade do que vou dizer, mesmo que tenham de me pr na rua 
depois de me escutarem: menina Doerinck, est a matar a sua me!
- , com efeito, perfeitamente claro! - disse Doerinck num tom 
glacial. Respirava pesadamente e continha a custo a clera que 
sentia. Pusera o brao  volta da mulher, que, tremendo, procurava 
refgio perto dele. - O que acaba de fazer  indigno de um homem 
civilizado!
- Mas  a verdade - bramia Willbreit, desenfreado. -  a verdade nua 
e crua, tal como se apresenta. Nesta casa est-se a matar uma mulher!
- E essa mulher, voc pode salv-la? - gritou por sua vez Doerinck.
- No! j lhe disse!
- Ento qual  a diferena?
Houve ento um grande silncio. Os dois homens olhavam-se como dois 
pugilistas exaustos por baterem no ar sem nunca se atingirem, sem que 
jamais se pudesse chegar a um resultado.

- De qualquer maneira, sinto-me bastante bem - disse Ludmila.
Mas nem esta afirmao pde perturbar o silncio que se tinha 
estabelecido e no interior do qual ainda ressoavam as terrveis 
palavras de cada um deles. E, com efeito, onde estava a diferena? 
Morrer  merc das mos de Corina ou do escalpelo do cirurgio... 
Onde estava a diferena?
O professor Willbreit atirou as radiografias para cima da mesa e 
ajeitou a gravata, que a brusquido dos seus movimentos pusera em 
desalinho. Pelo seu lado, Doerinck encheu quase completamente de 
conhaque o seu copo. Corina era a mais calma de todos. Continuando 
sentada, quase sem se mexer, tinha cruzado as pernas e acendido um 
cigarro.
- Porque no  mais tolerante, professor? - perguntou ela.
- Tolerante? Como  que pode esperar de mim alguma tolerncia quando 
a vejo substituir a medicina pela charlatanice? - Os seus olhos 
fitaram Ludinila. Ela voltara a sentar-se um pouco afastada, perto da 
mesa onde se encontravam os copos. " horrvel", pensou ele 
repentinamente. "Estamos a falar diante desta mulher. Que crueldade! 
Estamos a discutir a propsito da sua morte, zangamo-nos por sua 
causa, trata-se da sua prpria vida e ela est aqui. Ningum se 
preocupa com o que pode estar a sentir." - Devo pedir-lhe desculpa, 
minha senhora - disse ele, procurando as palavras. - Deixei-me 
arrastar. Isto acontece-me raras vezes, quase nunca at. Mas o que 
ouvi aqui  insuportvel.
- Para que  que se deixa inchar de orgulho, professor? - Corina 
tinha-se levantado para se aproximar da me e beij-la. - Porque  
que o ensino clssico da medicina seria o nico detentor da verdade? 
Cr verdadeiramente que a medicina, depois de Deus,  infalvel?
- S pretendo que  absurdo querer curar um cancro acariciando-o.
- Eu no o acaricio. Seco-o e ele enfraquece simplesmente porque o 
consigo secar.
- Por favor, pare com isso! Faz-me arrepiar os cabelos ao lembrar-me 
assim o mal que faz.
- J curei trs lceras do estmago.
Willbreit sentiu quase dolorosamente o estremecimento que se apoderou 
dele.
- O que  que est a dizer? Tratou outros doentes alm da sua me?
- Sim, clientes que vieram encomendar-me tapetes.
- No sabia em que  que trabalhava. Tudo isso  novo para mim. Mas 
como?
- Elas contaram-me, cada uma por sua vez, que estavam a seguir um 
tratamento: pensos gstricos e medicamentos como o antacide, a 
dimetidina, o sucralfato, etc.
- Mas porque  que no acabou o curso de Medicina? - interveio 
Willbreit ironicamente.

- Escondi o meu jogo a essas trs mulheres. No lhes disse o que 
fazia e elas no se aperceberam de nada. Enquanto folheavam os 
modelos de tapetes, pus as minhas mos a alguma distncia do seu 
estmago durante um minuto. De cada vez tiveram uma sensao de 
calor. Uma delas, por exemplo, at me perguntou se tinha ligado o 
aquecimento. Com o pretexto de lhes mostrar outros desenhos, fi-las 
voltar vrias vezes. E, uma aps outra, todas me disseram, cheias de 
alegria, que a lcera tinha desaparecido. Naturalmente, foi o mdico 
respectivo que teve as honras da cura.
- O que era perfeitamente justo! - explodiu Willbreit. - A terapia 
clssica fez a sua obra e s voc  que pde acreditar que as suas 
momices tinham tido algum efeito sobre as lceras! Tudo isso  
absurdo, j lhe disse! - Engoliu duma s vez o conhaque que Doerinck 
lhe tinha deitado e, a seguir, um pouco mais calmo, achou por bem 
fazer ironia. - E consagrou-se a outras tolices semelhantes)
- Sim, e veja s, professor, que obtive ento o meu maior xito: a 
cura de uma prostatite.
-  pura loucura!
Doerinck interveio. Tinha recuperado a calma e divertia-se com os 
esforos quase desesperados que aquele homem estava a fazer, apesar 
de ser inteligente, a fim de negar em bloco tudo o que era contrrio 
ao que ele pensava ser uma verdade absoluta.
- Trata-se de um dos meus amigos, professor. E mais, de um colega 
seu!  o nosso mdico de famlia, o doutor Hambach. O que acha disto?
- Nada.
O professor esfregou os olhos. "Nunca na minha vida me encontrei numa 
situao to ridcula", dizia-se ele. "Esto a dar-me uma lio como 
a um rapazinho. Thomas Willbreit, j so horas de te levantares e de 
partires: tudo o que disseres aqui ser em pura perda." Apesar de 
tudo, continuou sentado) olhando para os olhos negros de Corina.
- E naturalmente recusar-se-ia a fazer-me uma demonstrao do seu 
mtodo de tratamento!
- E porque no? - respondeu Corina tranquilamente. - Como?
- Com a me, evidentemente. Vim c hoje para prosseguir com o 
tratamento. - J tinha junto os seus longos dedos como se sentisse a 
necessidade de estabelecer um circuito que lhe permitisse carregar-se 
com a energia necessria. - Espero que no considere como indigno de 
si o facto de olhar simplesmente para mim. No tenho nada a esconder, 
professor.
- O que se passa aqui  absolutamente incrvel, repito! Mas, por 
favor, comece. Quero verificar at que ponto certas pessoas podem ser 
obstinadas!  a nica razo pela qual ainda aqui estou.
- Ento, acalme-se!
A voz dela tornara-se de repente to firme que ele teve a impresso 
de receber uma pancada. Ela sentia-se invadir por uma energia 
irresistvel, por um fluxo de fora que no sabia explicar. E pensava 
tambm: "Ele vai ver... Vou mostrar-lhe. Vou mostrar-lhe que h em 
ns e fora de ns esta fora que eu possuo e que no tem nome... 
Vou... Vou... "
- Vem, matiuchka, e estende-te aqui. - Ternamente, pousou os lbios 
sobre a fronte da me. - Hoje a sesso s durar trs minutos.
- E porqu? - perguntou o professor Willbreit, que lamentou 
imediatamente o facto de ter falado.
Ao conduzir a me para o sof, Corina fixou os olhos dele.
- j nem so precisos trs minutos, professor. A me est 
praticamente curada.

Captulo terceiro

Quando o professor Willbreit partiu pela estrada de M'nster, Corina 
Doerinck tinha nele o seu mais irredutvel inimigo.
Estava to perturbado que, para se acalmar e deixar expandir a raiva 
que fervia nele, tomou em Nottuin a auto-estrada, acendeu o 
pisca-pisca e calcou a fundo o acelerador. O Maserati reagiu como um 
animal selvagem: com um salto para a frente e num rugido repentino do 
motor, projectou Willbreit a duzentos por hora na luz do crepsculo. 
Foi a duzentos e quarenta por hora que ultrapassou conscientemente a 
sada de Senden. Willbreit abandonou-se  embriaguez da velocidade e 
do domnio tcnico. Tinha igualmente a impresso de ser dono de si e 
dos seus nervos, fosse em que circunstncia fosse, e portanto, capaz 
de reagir to rapidamente quanto fosse preciso em caso de 
necessidade, conduzindo a prpria vida como conduzia agora o carro. 
Depois foi reduzindo a velocidade pouco a pouco at ao grande 
cruzamento de M'nster Sul. A partir da, orgulhoso do domnio que 
tinha sobre si mesmo, conduziu de maneira razovel, prudentemente, 
seguindo a vaga dos carros que voltavam para a cidade ao tombar da 
noite. No se conformava com aquele falhano e repetia para si mesmo 
sem cessar, s vezes at em voz alta: "Que posso fazer agora? 
Ser-me- possvel deixar andar as coisas, deixar o destino seguir o 
seu curso, sem intervir, depois de tudo o que vi e ouvi? Tenho de me 
opor quilo. No posso contentar-me com calar-me quando uma rapariga 
qualquer pretende curar apenas com as mos doenas dificilmente 
curveis pelas melhores terapias existentes..." Na qualidade de 
mdico, este caso incrvel punha-o diante dum caso de conscincia que 
era, sem dvida, o mais penoso da sua carreira.
Caso de conscincia! A expresso agradava-lhe! Tinha finalmente 
encontrado a expresso que procurava desde o princpio e que melhor 
exprimia os seus sentimentos. "Este caso apela para a minha 
conscincia de mdico, para as minhas obrigaes ticas e convico 
moral. Quando um mdico v o que eu vi deixa de poder continuar a 
viver sem tomar partido."
Um segundo choque tinha contribudo para que se sentisse ainda mais 
confuso. Ao sair da casa dos Doerinck, fizera um desvio  casa do Dr. 
Hambach, tendo ainda presentes no esprito os trs interminveis 
minutos durante os quais as mos de Corina tinham ido e vindo por 
cima do corpo da me. Aquele espectculo fora-lhe insuportvel. "Que 
falta de pudor!", pensara. No entanto, tinha-se calado e mantido 
imvel. Apenas se inclinara para a frente uma nica vez, prestes a 
dar um salto, quando ouvira Ludinila suspirar profundamente, de olhos 
fechados, e murmurando numa voz cansada: "Hoje est particularmente 
quente... mas  to bom, Cora, to bom... faz-me tanto bem..."

Tudo aquilo era uma fantochada! E o pai, aquele imbecil, afogara 
ento a emoo num quinto copo de conhaque! Quanto a ele, no tinha 
ficado impressionado. Isso ningum podia dizer! A verdade  que se 
sentira gelado de horror ao pensar em todo o mal que aquela bruxa 
poderia fazer com as suas mos se, por acaso, o rumor daquelas "curas 
miraculosas" se espalhasse na regio. Assistir-se-ia a uma epidemia 
de histerismo semelhante s de que havia tantos exemplos na histria. 
Lembrava-se do que se passara com certos fazedores de milagres: um 
queria curar todas as doenas com bolinhas de estanho! Outro 
suspendia um fuso de ferro no stio onde o doente sentia uma dor 
qualquer. Existira no Sul da Alemanha uma mulher que fabricava uma 
bebida maravilhosa que vendia depois em garrafas e cuja utilizao 
regular curava todas as espcies de males: esta bebida vinda do cu 
compunha-se, segundo a anlise qumica, de gua, de extracto de 
turfa, de greda e de sumo de limo. Mas houve um campons que 
inventou a mais agradvel de todas as terapias: pretendia receber do 
outro mundo, cada noite, numa espcie de transe, ordens e prescries 
mdicas. A receita comportava um medicamento de base: fazer amor com 
ele. Para estas copulaes tinha criado um nome novo: "Comunicao 
plasmtica biolgica", apelao desprovida de qualquer sentido real, 
mas que no tinha impedido as mulheres de se inscreverem numa longa 
lista de espera para receberem, depois de um prazo que ia at trs 
semanas, a "irradiao biogentica" que as curava de todos os males. 
Ao fim de algum tempo estes foguetes molhados falhavam e deixava-se 
de falar neles, a no ser nos tribunais, onde a acusao pblica 
estabelecia a impostura destes taumaturgos.
Willbreit no tinha podido deixar de rir da terapia por copulao, 
que conseguia, com efeito, fazer desaparecer doenas de origem 
puramente histrica. Nada  mais espantoso, mais inslito ou mais 
misterioso do que o pensamento humano, a menos que se considerasse, 
como o seu amigo Erasmus Roemer, que o exprimia de maneira brutal, 
que os mdicos teriam muito menos que fazer se entre os homens no 
houvesse tantos preguiosos sexuais! "E mais so para um ser do sexo 
masculino levantar a camisa e baixar as calas do que engolir 
centenas de plulas."
Tudo coincidia, tudo tinha uma explicao racional, at mesmo a cura 
das trs lceras de estmago que Corina Doerinck pretendia ter sarado 
com a irradiao das suas mos. Mas a histria do Dr. Hambach 
situava-se para l do horizonte da medicina. Willbreit tambm quisera 
esclarecer o seu caso.
O Dr. Hambach pensou primeiro que se encontrava diante dum novo 
paciente que se apresentava fora das horas de consulta, mas j estava 
habituado a esse inconveniente desde h trinta e seis anos. Tinha uma 
clientela muito espalhada e havia camponeses que vinham de longe para 
o ver, no por Hellenbrand ficar mais prxima do que Billerbeck ou 
Havixbeck, mas porque o Dr. Hambach lhes falava em baixo-alemo da 
Vesteflia e sabia lidar com eles. Nenhum se ofendia quando lhes 
dizia em dialecto: "Sabes de onde  que vem o teu mal, tiozinho? Tens 
apenas o papo enladeirado..." O campons percebia imediatamente e 
abandonava durante uns tempos a garrafa de aguardente no fundo do 
aparador. Todos iam com facilidade a Havixbeck ou a Billerbeck para 
fazer uma radiografia, para tratamentos ortopdicos, etc., mas, de 
qualquer maneira, gostavam de fazer primeiro um desvio para verem o 
mdico da sua localidade, o Dr. Hambach. Para ele no havia nem 
sbados nem domingos. Fazia parte da vida deles tal como as batatas 
cosidas com a pele ou o queijo com cebolinho. A tal ponto que tinha 
acrescentado  casa mais um grande quarto frio, que ficava cheio de 
vitualhas a cada nova estao, pois para aquela gente o mdico da 
famlia  sempre um dos beneficirios dos produtos da sua explorao.

O Dr. Hambach acolheu aquele que julgava ser um novo paciente  porta 
de entrada. Uma olhadela ao Maserati e ao fato elegante de Willbreit 
chegou para perceber que no teria de utilizar o seu dialecto de 
baixo-alemo. "Um cliente de passagem", pensou. Desde h algum tempo 
estava na moda Procurar uma residncia secundria na regio. Os mais 
vidos de ar puro eram naturalmente os habitantes desprotegidos do 
Rur.
Assim que chegaram ao grande salo de recepo, no perdeu tempo para 
fazer a pergunta habitual:
- De que  que sofre, ento?
Pelo seu lado, Willbreit tinha notado a mediocridade das instalaes 
e imaginado a da clientela: velhos camponeses, de certeza! O nico 
aparelho novo era um amplificador dos sons do corao: tal como 
outros tantos toques de cmbalos, Hambach fazia ouvir ao paciente 
intimidado as prprias batidas do corao. Este aparelho inspirava um 
grande respeito e muito entusiasmo na sua clientela.
- De nada - respondeu Willbreit com um toque de arrogncia.
- Melhor! - replicou Hambach, indo sentar-se atrs da sua velha 
secretria. -  a nica doena de muitos dos meus pacientes!
- O meu nome  Willbreit. Professor Willbreit. Segundo-cirurgio em 
M'nster.
- Vejam s como podemos enganar-nos! - disse alegremente o Dr. 
Hambach saindo de trs da secretria para indicar ao professor um 
conjunto de cadeiras que se encontravam num canto. - Sentemo-nos, 
ento. Posso oferecer-lhe um copo de aguardente c da terra?
- No, obrigado. Tenho de voltar para M'nster esta noite e j absorvi 
lcool suficiente. No desejo acabar na priso e ter de me deslocar a 
p durante alguns anos.
Pacientemente sentado num dos cadeires de couro to usados como o 
resto, Willbreit esperou que Hambach acabasse de encher um copo alto 
e estreito com aguardente branca.
-  sua sade, caro colega - disse Willbreit.
- Obrigado.
- Francamente, no quer provar? Est bem. Sabe o que  que um velho 
cavaleiro das estepes do Cazaquisto, ao qual se dava cento e 
quarenta e trs anos, declarou ao jornalista que o estava a 
entrevistar? "Devo a minha idade avanada s minhas nove mulheres e 
aos meus cem centilitros quotidianos de aguardente." S tive uma 
mulher, que, infelizmente, morreu h cinco anos, de maneira que tenho 
de me limitar ao lcool. - Levantou o copo. - Mais uma vez.
- No me pergunta porque venho v-lo?
- Alm de ter visto a sua assinatura no fim de vrias publicaes 
cientficas, ouvi naturalmente falar de si a Ludinila Doerinck. , 
portanto, lgico pensar que vem de casa dos Doerinck.
- Com efeito. Tive hoje oportunidade de ver a filha deles, Corina.
- Formidvel, no ?
O Dr. Hambach sentara-se em frente de Willbreit. Tinha conservado na 
mo a garrafa de aguardente e apoiou-a sobre o joelho esquerdo, com 
ar absorto. Willbreit, confuso, mediu o seu confrade. Como deveria 
interpretar aquela apreciao?
- Formidvel! Com efeito, pode diz-lo.
- Sim, verdadeiramente fenomenal.

- Formidvel e fenomenal, mas em todo o caso criminosa!
O Dr. Hambach baixou a cabea durante dois escassos segundos.
- Estava mesmo quase  espera disso da sua parte. "O que no deve ser 
no pode ser."  a filosofia do orgulho.
o arrebatamento de Willbreit era tal que nem apanhou a deixa. Tinha 
engolido tantos sapos desde o princpio da tarde que aquele deslizou 
por ele abaixo sem que desse por isso. S pensava em esmagar os 
Doerinck e entretanto aquele medicozito de aldeia ousava opor-se a 
ele. Foi num tom insolente que declarou:
- O que me interessa no  esse gnero de consideraes. At aqui 
nunca tinha ouvido falar numa prostatite de origem histrica.  um 
caso formidavelmente interessante, caro confrade. No existe nada de 
semelhante em toda a literatura mdica!
- Quer se deixe arrastar pela grosseria, quer tente conservar as boas 
maneiras, no conseguir insultar-me. Anotei num dirio todos os 
pormenores daquilo a que chama o meu "caso", mas, dada a sua maneira 
de comear o debate, no lho mostrarei! Porqu? Porque no teria 
outra resposta a dar-me seno sorrir ou perguntar-me a idade - 
sessenta e seis anos - e afirmar que as minhas faculdades mentais 
esto enfraquecidas: talvez... aos sessenta e seis anos, as artrias 
do crebro j no so o que foram. Mas o senhor  suficientemente 
equilibrado para admitir uma coisa: quando um homem tem uma vontade 
frequente e imperativa de urinar s deitando dificilmente algumas 
gotas,  porque h algo escondido, qualquer coisa de fsico. E quando 
estes fenmenos resistem aos antibiticos...
- Mas no se pode curar uma prostatite por imposio das mos! - 
Quase gritava de excitao. - Os medicamentos que tomou agiram com um 
certo atraso. Caro confrade, no deixe aquela rapariga transform-lo 
num... perdoe-me... num papalvo!
- Viu a Ludmila?
- Evidentemente. Ajudou a filha a desempenhar a sua fantochada diante 
dos meus olhos!
- Uma mulher com um cancro no clon tem aquele ar esplendoroso?
- Isso no quer dizer nada. J vi na minha vida uma data de folgazes 
sofrendo duma doena mortal.
- Na prxima semana irei com Ludmila Doerinck a Billerbeck para a 
fazer radiografar pelo meu colega Meersniann e enviar-lhe-ei as 
radiografias.
- Proponho-lhe outra coisa: voltamos a fazer-lhe um exame completo no 
meu servio.
- Combinado, para confirmao!
- A sua prudncia, ou, antes, a sua desconfiana, quase apresenta 
sinais de parania.
- Aceito temporariamente o seu diagnstico. Tambm lhe concedo o 
direito de me chamar velho louco se as novas radiografias mostrarem 
um agravamento do mal. Mas que me chamar se Ludinila Doerinck 
estiver curada?
- Desse ponto de vista estou absolutamente tranquilo, meu caro 
confrade, e digo-lhe francamente - mostrava-se cada vez mais 
impertinente - porque isso viria contradizer os nossos mais 
elementares conhecimentos mdicos.
- Tem razo!  pura loucura.
- Est a ver!

- Mas s  loucura pura para ns porque ns no compreendemos. Porque 
no somos capazes de penetrar na dimenso donde provm essa fora, 
essa emanao, essa radiao que cura.
- Fora? Emanao? Radiao? - perguntou Willbreit, acentuando cada 
slaba.
- Tem outra explicao?
- Nem quero ter. Probo-me mesmo de procurar uma. Para mim trata-se 
de charlatanismo, dum regresso ao xamanismo.
- No sabe como fala bem. - Surpreendido, Willbreit viu-o tirar a 
rolha da garrafa e servir-se dum segundo copo de aguardente. - 
Xamanismo! A propsito, sabia que o av de Corina era mdico?
- Foi o que vi nos papis de identidade da senhora Doerinck. Pai: 
mdico. Em qualquer parte da Rssia.
- Na Grusnia, no Cucaso. Falou-me dele. Os doentes faziam bicha 
diante da sua porta, passavam a noite no seu jardim para serem 
recebidos com prioridade. Devia ser assim uma coisa como Lourdes ou 
Ftima! Ora o que  que fazia o doutor Assanurian? Xamanismo! 
Eliminava as doenas por imposio das mos.
Willbreit bateu com os punhos um no outro com ar horrorizado.
- Meu Deus! No faltava seno essa! Espertalhona, a rapariga! Est a 
utilizar o golpe do av!
- Com muito m vontade,  assim que se pode ver as coisas.
- E esse doutor Assanurian pde comportar-se assim na Rssia? Os 
sovietes aguentaram essa fantochada?
- Os altos funcionrios entravam na sua casa pela porta de trs e 
ter mesmo curado os males crnicos de dois ministros da Grusnia. 
At obteve uma alta distino: a condecorao dos cuidados mdicos. E 
depois, em 1945, exilaram-no na Sibria...
- Ah! Ah!
- No h razo nenhuma para fazer "! ah!". Foi banido porque a sua 
filha Ludmila tinha desaparecido atravs do campo com um oficial 
alemo, Stefan Doerinck. O doutor Assanurian viveu at  morte em 
Tiumen, exilado mas com liberdade de trabalho e gestos. Voltou a 
haver uma multido que vinha de todas as partes para se fazer tratar 
por ele.
- Por imposio das mos na mesma...
- Pois ! E no morreu de doena. Foi morto por um marido ciumento. 
Tratava uma mulher que tinha uma inflamao da bexiga e esta cometeu 
o erro de confiar ao marido que sentia uma sensao maravilhosa 
quando o mdico parava as mos entre as suas coxas. Deve ter-se 
explicado mal, pois o homem precipitou-se para abater o mdico com 
trs balas no peito. - O Dr. Hambach fez uma careta irnica. - 
Acidente de trabalho. Aquele siberiano devia ser to incrdulo como o 
senhor.
A partir dali a conversa foi encurtada. Willbreit mostrou mesmo assim 
as radiografias que trazia na pasta - provas irrefutveis, disse ele 
- e a seguir achou que j era altura de partir. Este mdico de 
aldeia, com a sua clientela de camponeses, era o representante-tipo 
dos que negligenciam uma reciclagem profissional e tambm havia casos 
desses entre os mdicos; felizmente, o seu nmero era reduzido.
Willbreit despedira-se dele muito friamente e, ao afastar-se, viu o 
Dr. Hambach pelo retrovisor. Estava de p diante da entrada e 
seguia-o com os olhos, pensativamente.

"Que velho imbecil! Faltava, de facto, uma disposio no Cdigo 
Civil: devia tirar-se a autorizao para trabalhar aos mdicos que 
ultrapassassem uma certa idade. Aos cinquenta e cinco anos, um piloto 
da aviao civil tem de abandonar o servio. Trata-se de uma 
precauo a favor dos passageiros. Ora ele conhecia em M'nster um 
cirurgio que continuava a Operar com mais de oitenta anos. 
Indiscutivelmente, isso representava um perigo, no para ele, mas 
para os doentes."
Willbreit tinha acabado de fazer um balano quando chegou aos 
subrbios de M'nster. Deixou a auto-estrada, tomou a direco de 
Hilltrup e, a seguir, a de Angelmodde. Penetrou em Enunerbach, regio 
idlica, onde o seu amigo Erasmus Roemer tinha construdo uma 
moradia. Era uma casa de sonho. S o telhado de colmo inflamvel 
devia ter custado mais do que uma fileira de casas correntes. Mas ele 
podia dar-se a esse luxo: prevendo o futuro, casara-se com a filha 
dum fabricante orgulhoso de ter um genro doutorado em Direito, apesar 
de a bulimia e a eterna sede de Erasmus poderem incomodar um homem 
normal.
Willbreit olhou para o relgio depois de ter arrumado o carro diante 
da moradia do juiz e hesitou um instante: no era falta de educao 
chegar assim, mesmo a casa dum amigo,  hora do jantar? Mas tinha de 
desabafar. Precisava de um alvio qualquer. E com quem o poderia 
fazer seno com Erasmus Roemer, que era capaz de ouvir tudo 
pacientemente?
- No  possvel! A tua mulher ps-te na rua!
Roemer tinha desatado a rir pesadamente. Estava contente de o ver, 
pois achava-se sozinho em casa. A sua mulher, Elise - "ela chama-se 
Elise", explicava ele sarcasticamente a toda a gente, "porque a me, 
que tinha a pretenso de tocar piano, no conseguiu aprender mais do 
que uma nica pea na sua vida: a Carta a Elise, de Beethoven. Por 
isso, deu o nome de Elise  filha!" -, encontrava-se a passar alguns 
dias em Badgastein, onde a sua irm estava a tratar uma crise de 
reumatismo. J tinha reflectido sobre o lugar onde podia ir fazer uma 
comezaina e decidira-se pelo Waldhotel Krautkramer, na margem do 
Hiltruper See. Entusiasmava-se com tanta antecedncia com o Borgonha 
que ia acompanhar uns costados de anho uniformemente mal passados, 
que beijou Willbreit  entrada da porta, quase o esmagando contra o 
seu dorso macio.
- Thomas,  o cu que te envia. A melhor refeio do mundo parece no 
ter sabor quando se est sozinho para a saborear... Elise est na 
ustria e vamos, portanto, poder atacar juntos uns costados de anho, 
ou seja, quatro quilos duma carne deliciosa! A caminho! Vamos ao 
Krautkramer!
- Estou com problemas - respondeu Willbreit com ar lgubre - e no 
tenho absolutamente fome nenhuma. No sabes que s a gentalha  que 
tem fome? A ral  que se empanzina. - Declamava como se estivesse 
num palco de teatro. - Ns s nos alimentamos por dever, para provar. 
Nunca temos fome, portanto. Provamos garfada atrs de garfada, golo 
atrs de golo, etc. - Puxou Willbreit para o interior e fechou atrs 
de si a pesada porta de carvalho, fazendo-a bater. - Problemas? Com 
Lydia? Anda com algum, como se diz?
- O que  que ests para a a dizer?
- No teria nada de extraordinrio, meu caro. Nunca ests em casa! 
Ests sempre na clnica! E quando ficas em casa vais e vens com os 
olhos pesados de sono e declaras: estou cansado...
- Gostava de te ver no meu lugar: em p durante horas diante duma 
mesa de operaes!

- E Lydia parece no ter ainda passado dos trinta.  uma mulher jovem 
que deve ter frequentemente...
- Cala-te, Erasmus! Trata-se duma rapariga...
- Meu Deus, em casa a mulher pode pensar que ele traz eternamente um 
cinto de castidade debaixo das calas do pijama e, fora, passa duma 
cama para a outra gritando "iupi". Trata-se de algo de srio, Thomas?
- sim.
- Uma separao? Sobretudo no faas esse disparate! A Lydia tem um 
certo poder...
-  um problema mdico.
- Ah! Ah! Ainda  virgem e ests preocupado com a responsabilidade 
dum gentleman perante uma deflorao? Mas trata-se dum servio que 
lhe prestas, meu caro.
- Idiota! - Ao ver o bar imenso que ocupava um canto inteiro do hall 
de entrada, acrescentou: - D-me mas  uma vodca com laranja... 
Imagina que dei com uma curandeira...
O riso estrondoso de Roemer fez vibrar docemente o aplique de cristal 
que se encontrava atrs dele.
- Vejamos, o que se passa? - Estavam agora sentados na biblioteca a 
beber a vodca. - Uma curandeira acaba de te provar que no passas dum 
burro do ponto de vista mdico.  isso? Estavas l, viste-a e no 
entendeste nada, Thomas! Eu tambm no percebi nada quando as 
verrugas da minha av desapareceram. Mas as mulheres tm uma vantagem 
em relao a ns: tm em cada seio uma verruga, maior ou menor, que 
no se lhes consegue tirar. Pelo contrrio, quando lhas 
acariciamos...
- No estou nada com vontade de suportar as tuas ordinarices. Assim 
que acabar de beber vou-me embora. - Sentia-se, de facto,  beira 
duma crise de nervos. - Tinha pensado que se podia falar seriamente 
contigo.
- A razo necessita tambm duma base slida, e essa base Krautkramer 
pode fornecer um prato. quando tenho fome, s penso em comer, como um 
animal.  depois da primeira garrafa de Borgonha que comeo a 
reflectir. Mas  horrvel o cheiro que tens a aguardente! Thomas, o 
teu dia foi assim to terrvel?
- Insuportvel...
Willbreit suspirou profundamente. Roemer, depois daquela entrada, 
voltava a ser um homem normal.
- S consigo interrogar-me, Erasmus, e sempre sobre o mesmo assunto: 
do ponto de vista jurdico, o que  que se pode fazer contra uma 
mulher destas?
- Nada. A no ser que leve dinheiro pelos tratamentos que faz.
- Alm da me, ela tratou outras mulheres. Trs clientes do seu 
atelier de tecelagem de tapetes.
- Ela tece tapetes? Meu Deus, lembra-te de que ter dedos geis  o 
melhor preldio para o amor!
- Erasmus, vou-me embora!
- Essas trs clientes pediram-lhe que as tratasse?
- No. Nem se aperceberam de nada.
Roemer olhou para Willbreit de soslaio.
- Quantos copos de schnaps  que bebeste, Thomas?
- S de as ver, diagnosticou que tinham uma lcera de estmago e, de 
cada vez, fez desaparecer a lcera acariciando o corpo da cliente.

- Thomas, no ests bom, bebeste! Quando uma mo de mulher me 
acaricia, sinto-o de tal maneira que aumento ainda mais de volume. 
Est bem dito, no est?
- Ela mantm as mos  distncia de dez centmetros do corpo, sem lhe 
tocar.
- Isso  pouco interessante do ponto de vista ertico.
- Diz que consegue sarar as lceras e que estas se encolhem...
- Exactamente ao contrrio do que me acontece a mim quando me 
acariciam...
- Ser possvel falarmos seriamente e ficarmo-nos pelos factos?
Furioso, levantara-se de um salto e encontrava-se pronto a ir-se 
embora.
- Sim, no Krautkramer, a seguir  minha sopa de trufas, vou captar-te 
em todos os comprimentos de onda que desejares.
- E ela pretende estar a curar a me dum cancro no intestino grosso 
com este sistema. Eu vi tudo.
- E depois de teres visto tudo, o que  que fizeram em conjunto? Isso 
 que me interessa.
- Adeus, Erasmus! Come e enche a pana de vinho at rebentares!
Dirigia-se para a porta, ao passo que Roemer continuava a perorar num 
tom sentencioso.
- A falta de humor do mundo moderno  terrvel. Thomas, vem sentar-te 
aqui. Vou ser paciente e escutar-te. Um juiz deve frequentemente ter 
mais pacincia do que um mdico, que, como tu, persevera muitas vezes 
no erro. Um dia, um anarquista, que compareceu diante de mim, deu 
bruscamente um salto, tirou as calas num instante e depositou em 
cima da mesa um enorme cagalho. Nunca te fizeram isso, hem?
Willbreit, contrariado, voltara a sentar-se no grande cadeiro perto 
da chamin, em frente ao amigo.
- No existir no meio das tuas leis um pargrafo que permita atacar 
e sancionar aquele que se ope a um acto mdico absolutamente 
indispensvel?
- Suponho que a me recebe de bom grado as carcias areas da filha?
- sim.
- Nesse caso, no h nada a fazer, Thomas. Desde que uma pessoa no 
provoque nenhum escndalo pblico, pode fazer o que quiser dentro das 
suas quatro paredes. A nica coisa que poderia dar o direito a algum 
de intervir  o facto de eu me querer matar ou mutilar-me, mas ainda 
assim teria de se assegurar primeiro de que eu o queria fazer.
- Mas  quase esse o caso, Erasmus.
- No , no!
- , sim! Com as suas palhaadas aquela rapariga est a matar a me, 
e eu sou testemunha.
- Mas a me cr estar a melhorar, a  que est o busilis! Ela no 
tem minimamente a inteno de morrer, ela quer viver!
- Mas vai morrer!
- Prova-o, ento. Estabelece, sem falhas, que a rapariga est a 
cometer um acto criminoso com conhecimento de causa. Com 
premeditao, para empregar o nosso calo jurdico. Encontrei-me uma 
vez diante dum caso de extrema violncia.
Willbreit estava cada vez mais desesperado.
- Peo-te, Erasmus, no mudes de conversa! Trata-se dum caso que me 
perturba mais do que podes imaginar. Poderia dizer: "Porque  que me 
hei-de interessar por um caso de cancro? j vi centenas deles... "

- E  o que te aconselho que faas, Thomas.
Suspirando, Roemer conseguiu arrancar-se s profundezas do cadeiro. 
Levantar aqueles cento e vinte e cinco quilos de to baixo constitua 
de cada vez um esforo considervel. Aquelas poltronas, que eram to 
agradveis quando se estava enfiado nelas, mereciam todos os nomes 
que lhes chamava de cada vez que tinha de se arrancar delas.
- Deixa ento de lado essa doente; de todas as maneiras, no lhe 
podes mandar a conta, no  verdade?
- Tens uma moral de hipoptamo.
- Apanhaste-me! Como acontece com um hipoptamo esfomeado, sobem-me 
as lgrimas aos olhos. - De p, enorme, pendia na direco de 
Willbreit, que, abatido, j no se mexia. - Feitas as contas, se s 
isso te preocupa, levas uma vida paradisaca.
- Queria que fosses comigo a Hellenbrand e visses a rapariga.
- Eu? Meu Deus! Tambm queres que me deixe acariciar? Isso poderia 
ter consequncias vulcnicas.
- Devias v-la, Erasmus.
-  bonita?
- Se !
- Loura?
- Tem os cabelos cor de corvo.  quase do tipo eurasitico. A me  
originria do Cucaso...
Roemer interrompeu-o para entoar com a sua voz de baixo:
- No Cucaso havia um macaco que comia nozes. No Cucaso havia uma 
rapariga que gostava muito de nozes...
- Sabes como  que isto acaba, hem, Thomas?
- Acompanho-te at ao Krautkramer - disse Willbreit, resignado. - 
Lamento verdadeiramente ter vindo ver-te... E a tua mulher, quando  
que volta?
- s um amigo da ona, Thomas! Eu aqui a sonhar com um jantar de seis 
servios e tu vens-me falar da minha mulher! Tm razo os que dizem 
que um cirurgio no tem alma.  fora de mexerem em carnes podres 
corrompem para sempre o que tm de bom.
Durante o trajecto at Hilltrup, no voltaram a falar de curandeiras. 
Roemer tinha-se lanado numa srie de histrias picantes que o chefe 
da brigada de costumes lhe confiara h pouco, sem que Willbreit 
conseguisse rir francamente como era costume. No hall do Waldhotel, o 
Sr. Krautkramer pai acolheu com dignidade o cliente de marca que era 
o presidente do tribunal de 1.a instncia da regio e ele mesmo os 
conduziu at uma mesa particularmente bem colocada e abrigada. Roemer 
tinha decididamente direito a todas as atenes, no s como 
magistrado mas como rei dos comiles.
- Quais so as delcias do dia, caro senhor Krautkramer? - perguntou 
com a sua voz tonante. - E depressa, que o primeiro servio venha at 
ns!
Krautkramer conhecia de longa data o lirismo com o qual Roemer abria 
as "hostilidades gastronmicas". Fazendo um largo sorriso, 
contentou-se em responder:
- Peo-lhe, por favor, senhor presidente, deixe-se surpreender! 
Permitem que lhes componha eu mesmo o jantar?
- Fao minhas as suas palavras. - Olhou para todos os lados  sua 
volta antes de exclamar: - Mas onde  que est a Luisa?
- Est com parte de doente durante uma semana, senhor presidente; 
est  espera de beb.

- Mais um milagre! E, no entanto, nunca fiz mais do que dar-lhe uma 
palmada nas ndegas. - Depois, desatando a rir estrondosamente, o que 
fazia agitar os seus cento e vinte e cinco quilos, olhou para 
Willbreit com ar piedoso. - Thomas, mais uma contrariedade para ti! 
Um caso incompreensvel: uma fecundao telegnica! Ah! Ah! Ah!
Estava a estourar de felicidade e de prazer, a tal ponto que se 
engasgou e se ps a tossir ruidosamente. Willbreit teve vontade de 
voltar para casa.
Mas a sopa de trufas era verdadeiramente uma delcia.
Roemer comeou a sorver e a cheirar, sempre da mesma maneira ruidosa 
e, a seguir, com a cara transfigurada, endireitou-se um instante, com 
a colher na mo, a olhar para Willbreit com os olhos turvos de emoo 
e uma voz repentinamente muito calorosa.
- E agora, meu caro e velho amigo, falemos: fica combinado que te vou 
acompanhar a casa dessa rapariga sensacional. - Levou  boca uma 
colher de sopa, saboreou-a, engoliu-a e levantou os olhos para o cu, 
acrescentando: - E deixar-me-ei acariciar onde ela quiser.

Ludmila Doerinck deslocou-se a Billerbeck para se fazer radiografar 
pelo Dr. Meersmann. Encontrava-se no carro com o marido e a filha e o 
Dr. Hambach seguia-os no seu velho Volkswagen.
Hambach tinha informado o Dr. Meersmann pelo telefone que lhe levava 
uma paciente, sem entrar em pormenores: era a mulher dum velho amigo. 
Queria verificar o estado do seu intestino grosso, assim como o dos 
rgos mais prximos.
- Suspeita de alguma coisa? - perguntara Meersmann.
- No - respondeu Hambach, dando-se perfeitamente conta de quanto 
arriscava com aquele firme "no" no caso de as radiografias revelarem 
um cancro do clon.
O seu colega Meersmann poderia admirar-se e pensar que o pobre 
Hambach estava a ficar, de facto, um pouco velho e que devia evitar 
cansar-se demasiado. Mas, por outro lado, a misso dum radiologista  
confirmar ou desmentir um diagnstico e eliminar todas as dvidas 
possveis.
- Trata-se de tranquilizar a paciente - acrescentou o Dr. Hambach (o 
que, no fundo, era verdade... ). - Sabe como : uma pequena perda de 
sangue  suficiente para que uma mulher fique logo a imaginar o pior. 
S acredita no que vir escrito, ou numa radiografia, preto no branco.
-  preciso prever tudo: se a imagem for positiva, o que devo fazer?
- Mostrar-lha-emos. A senhora Doerinck  capaz de suportar a verdade.
A assistente do Dr. Meersmann conduziu-os a uma sala de espera 
especial. Pouco tempo depois, Ludmila procurou a mo de Corina e 
enterrou-lhe as pontas dos dedos na palma da mo.
- Tenho medo. Esto todos to silenciosos.
O Dr. Hambach mudou de posio e mexeu os ps. Encontrava-se pela 
primeira vez do mau lado da sala de espera e a impresso que sentia 
era muito diferente.
- Creio que sou o primeiro a ter medo - disse numa voz rouca. - E tu, 
Stefan?

Doerinck folheava nervosamente uma revista com trs semanas. Isso 
tambm fazia parte dos mistrios da sala de espera dos mdicos: s l 
encontramos revistas dos meses anteriores ou ento boletins de 
associaes, clubes de golfe, etc. Os camponeses da regio de M'nster 
no os liam, mas ficavam favoravelmente impressionados com eles: 
"Pois , meu caro,  aqui que o nosso doutor joga golfe..."
Stefan Doerinck tinha a garganta seca, mas queria parecer impassvel.
- Porque  que havemos de nos preocupar? Sabemos perfeitamente o que 
se passa.
O Dr. Hambach inclinou-se para a frente.
- Stefan,  de Corina que se trata,  ela quem vai ser aqui julgada. 
Concordars que vi muitas coisas na minha vida e que sempre mostrei 
uma certa coragem. Neste momento, tenho o corao to apertado que 
at me magoa. Tambm  a mim que as radiografias vo julgar. Se no 
me opus a que Corina fizesse o que fez e se a defendi diante do 
professor Willbreit  porque acredito nesta fora estranha... Hoje, 
j no se trata s de crer; hoje vamos ver!
Corina era a nica que mantinha a calma.
- A me est curada. - Lanou na direco da me uma piscadela de 
olho cmplice e cheia de confiana. - j no sinto nada, nenhuma 
resistncia na ponta dos dedos. Asseguro-vos que o inimigo 
desapareceu.
O Dr. Hambach levantou-se. O seu nervosismo fazia pena.
- Mas o que  que o Meersmann est a fazer? A consulta era para as 
dez e agora so precisamente dez horas.
Continuou no seu vaivm, leu o aviso "Distribuio de atestados 
mdicos at s 10 horas" e parou diante de um quadro que representava 
uma vaca a pastar num prado alpino. "Que parvoce", pensou. " 
horrvel. Onde  que o Meersmann encontrou este horror? Talvez seja o 
presente de um dos seus clientes."
H coisas extraordinrias entre os presentes que os doentes oferecem 
ao mdico. Um paciente reconhecido tinha levado um dia ao prprio 
Hambach uma pata de veado embalsamada, na ponta da qual vinha fixado 
um saca-rolhas. Mas tinha pensado atingir o apogeu do horror quando 
um certo Hudding lhe entregara, obedecendo ao desejo expresso da av, 
o bacio de que esta se tinha servido at morrer: era algo de 
horroroso, de porcelana pintalgada, decorada com pequenas rosas e com 
duas asas que pareciam colunas clssicas. Tinha confiado 
imediatamente o objecto a uma sala de vendas em leilo de Colnia, 
unicamente com o intuito de aborrecer o pregoeiro que era seu 
conhecido. Trs meses depois recebera um cheque de quatro mil e 
quinhentos marcos. O objecto era um bacio precioso da poca 
napolenica, quando o irmo do imperador tinha sido rei da 
Vesteflia. Um dos mais raros bacios existentes! Desde ento, o Dr. 
Hambach tinha-se tornado prudente e deixara de olhar com maus olhos 
para os presentes que lhe ofereciam. Diz-se que nas velhas quintas da 
provncia de M'nster ainda h tesouros escondidos.
Finalmente, o Dr. Meersmann apareceu. Era um trinto cheio de vigor, 
desportivo, levemente bronzeado e jogador apaixonado de golfe com um 
handicap de dez. As suas instalaes eram muito modernas e, cada vez 
mais, os clientes do campo convergiam para o seu consultrio em vez 
de se deslocarem a M'nster.
- Estou ao vosso dispor! - disse ele num tom desenvolto.

Depois dos apertos de mo, a sua assistente conduziu Ludmila  cabina 
para se despir e a seguir a pesada porta voltou a fechar-se com um 
barulho seco de suco. Doerinck e Corina ficaram ss.
O Dr. Hambach tinha seguido o seu colega.
- Se no se importasse, gostaria de assistir.
A porta de comunicao estava aberta e, do gabinete onde se 
encontrava, antevia na sala vizinha uma enorme instalao com todos 
os aparelhos e a grande mesa rotativa.
- Pelo contrrio, vai poder ajudar-me a dar o clister. Para o resto, 
ficar ao abrigo do chumbo. H algum ponto que deseje analisar em 
particular?
- O tero superior direito do intestino grosso.
O Dr. Meersmann olhou para Hambach com ar interrogador.
- Porqu? Desconfia de alguma coisa?
Prudentemente, Hambach respondeu:
- J no estou seguro de nada. De vez em quando a minha paciente 
sente dores indistintas nessa regio.
- Nada mais fcil. A imagem aparecer aqui e, se houver algo pouco 
ntido, poderemos observ-lo em ponto maior. Dir-me- o que lhe 
interessa especialmente quando chegar a altura.
Nua, muito bela, Ludmila saiu da cabina e Meersmann tambm no pde 
deixar de pensar: ser possvel que esta mulher tenha sessenta e um 
anos? A seguir concentrou a ateno nos preparativos dos ngulos de 
viso, do clister, da posio de Ludmila e da mesa onde ela se 
deitara. Hambach ouviu-o dizer num tom profissional:
- Por favor, estenda os braos para os lados. Esteja calma e no se 
mexa mais... Se ouvir alguns estalidos, trata-se das mudanas de 
posio do comutador e no de um dos seus ossos a partir-se...
Eram sempre as mesmas graas. Isso ajudava a pessoa examinada a 
esquecer as cibras causadas pela imobilidade absoluta. Mas Ludmila 
j tinha feito vrias radiografias em M'nster durante vrias horas 
seguidas naquele dia fatal em que Willbreit lhe revelara a verdade. 
Nessa altura tinha passado de aparelho em aparelho enquanto se 
sucediam caldos, clisteres e injeces. No fim, Willbreit 
prevenira-a: "Pode ser que no se sinta muito bem durante os prximos 
dois ou trs dias, mas depois passa... "
A luz apagou-se. No ecr, o Dr. Hambach viu surgir nitidamente o 
segmento superior direito do intestino grosso.
- O campo de viso pode ser reduzido? - perguntou o Dr. Hambach. 
Tinha a voz rouca, tensa, e o Dr. Meersmann, admirado, ouviu-o 
murmurar: - Meu Deus, ser possvel?
- Tanto quanto quiser! Posso aumentar cada centmetro quadrado.
- Obrigado. Faa-o ento, por favor.
Depois de dois ligeiros estalidos, surgiu na placa, aumentado, o 
sector crtico do intestino grosso. Lentamente, parando para cada 
centmetro, as imagens sucediam-se. Ludmila quase no ousa respirar: 
no silncio impressionante que se estabeleceu, ela sente subitamente 
muito frio.
- Pois bem, nada de especial, a no ser alguns pontos de cicatrizao 
- disse finalmente Meersmann.
Para Ludmila foi como se o silncio tivesse explodido no seu crebro. 
E Meersmann continuou sem se dar conta da tenso em que se 
encontravam os outros dois.
- Estas cicatrizes podem provir de uma antiga colite ulcerosa. H 
algo do gnero na anamnese da senhora Doerinck?
- No, absolutamente nada!

Ele mesmo se apercebeu de que a sua voz estava diferente: no tinha 
timbre. O sangue que se precipita nas suas artrias atordoa-o. Tem a 
impresso de que um torno est a ser apertado  volta da sua cabea. 
" milagroso,  milagroso", pensa. Morde os lbios para reprimir o 
seu tremor, bloqueia os maxilares um contra o outro porque teme que 
os dentes comecem a bater. "Meu Deus, ento os milagres so mesmo 
possveis!"
- Podemos levar esta srie?
- Com o meu aparelho posso fazer tudo. - Depois de uma ltima 
manipulao, Meersmann dirige-se de novo a Ludmila: - S mais alguns 
instantes de suplcio. Continue completamente imvel. No respire... 
agora respire... E est terminado.
- Est... est satisfeito, doutor? - gagueja Ludmila.
- Tal como est, vai certamente viver at aos cem anos...
- Deseja outra coisa, caro colega?
- Se for possvel, uma segunda srie de radiografias.
- De quais?
- De tudo o que vimos... desculpe.
Tudo volta ao princpio: a obrigao para Ludmila de ficar 
absolutamente imvel, as palavras do Dr. Meersmann repetidas vrias 
vezes: deixe de respirar... respire... e termina. A luz regressa. Os 
olhos do Dr. Hambach piscam, feridos pela sbita claridade. O seu 
rosto est vermelho como se fosse vtima de um ataque de febre e fica 
ainda um instante sentado na cadeira, olhando para o ecr como se o 
aparelho lhe reservasse outras surpresas.
- Acabou o espectculo, caro colega - exclama alegremente Meersmann. 
- Para ver o jogo de futebol  preciso mudar para o outro canal!
Ludmila volta  cabina. As suas pernas vacilam um pouco a cada passo. 
E se tudo no passasse de um sonho, perguntou-se. Entretanto, o Dr. 
Hambach sara da sua proteco de chumbo. E as radiografias saem pela 
fenda do aparelho, acumulando-se. Examina-as uma por uma, ainda 
incrdulo:  mesmo a curva do intestino grosso s com cicatrizes, 
mais nada. Sente a cabea a andar  roda e tem de se sentar na 
primeira cadeira que encontra. Meersmann olha-o com ar inquieto.
- No se sente bem?
- Sinto-me to bem que at estou atordoado! - Respira profundamente, 
vrias vezes. Aquele momento de fraqueza passa depressa e o seu 
corao bate agora com mais fora. - Trouxe-lhe uma coisa que 
gostaria de lhe mostrar: so radiografias.
- Passemos ento ao meu gabinete.
 uma grande sala moderna em que uma parede inteira est ocupada por 
um ecr luminoso diante do qual Meersmann prende as radiografias que 
o colega lhe estende. Assim que lhes deita a primeira olhadela, 
volta-se para Hambach dizendo simplesmente:
- Ai, aiii!
- Ento?
-  outro doente seu? Ele est ao corrente?
- Disseram-lhe tudo.
- Horrvel! E como  que encarou a coisa?
- De maneira admirvel. Qual  a sua opinio?
- Aqui entre ns, no h nada a fazer. De onde vm estas 
radiografias?
- Da clnica de M'nster.

- O doente ainda l est?
- No, preferiu tratar-se em casa.
Meersmann levanta os ombros com ar impotente.
- E agora  voc o responsvel...
Hambach volta a pegar nas radiografias e pe-nas no sobrescrito.
O Dr. Meersmann no voltaria a ver Ludmila Doerinck. Ela fora ao 
encontro do marido e da filha e, esquecendo tudo, tinham-se 
precipitado para o carro, completamente embasbacados. Um pouco 
melindrado, Meersmann apertou a mo a Hambach.
- Cumprimentos  senhora Doerinck. Gostaria de lhe ter dito algumas 
palavras para a tranquilizar completamente.
Na rua, o velho mdico v os Doerinck. Sentados no carro, esto a 
chorar, como Hambach pode verificar atravs do vidro. Corina enlaa a 
me, cuja cabea repousa no seu peito. Stefan Doerinck, ao volante, 
olha fixamente para a frente atravs do pra-brisas, enquanto as 
lgrimas lhe sulcam silenciosamente as faces.
Hambach abre a porta do lado de Corina.
- Vocs so um bocado esquisitos! Enfiam-se num cantinho para melhor 
poderem chorar em famlia! Mas hoje  dia de festa, por Deus!
Apesar de desejar que a sua voz sasse segura e zangada, ele est 
radiante. Doerinck esfrega os olhos e a cara com um leno.
- Tens razo! Vamos ento festejar a Weissenburg! Mas olha que um 
homem tem direito a ter uma pequena fraqueza ao menos uma vez na 
vida. - Engolindo um ltimo soluo, agarra no volante com as duas 
mos. -  verdade, reservei uma mesa em Weissenburg. De qualquer 
maneira tera ido l... Pararemos no caf que fica em frente da 
catedral. Tenho a garganta seca e preciso de beber uma caneca dupla 
de cerveja!
- Vo parar de chorar?  que, seno, eu tambm me ponho a chorar. 
Estas choradelas so insuportveis!
Volta a fechar a porta do carro e dirige-se ao seu carro.
Mas quando chega ao caf, afasta-se dos Doerinck sob pretexto de ir  
casa de banho e dirige-se  cabina telefnica para telefonar ao 
professor Willbreit. Era impossvel apanh-lo. Desde as sete da manh 
que se encontrava na sala de operaes. Ora j so mais de dezassete 
horas. O Dr. Hambach sente-se cheio de estima por aquele que o 
insultou. Pouco seria necessrio para que lhe fosse simptico, pensa 
ele. Mas tem uma vingana  espera.
- Diga ao professor Willbreit que o doutor Hambach, de Hellenbrandt, 
telefonou. Sim, ele conhece o meu nome. E diga-lhe que o convido a ir 
ver-me. Isso bastar. O professor est  espera da minha comunicao.
Desliga e fica a olhar por um instante a parede da cabina sem a ver 
realmente, perguntando-se se agiu correctamente. Podem trocar 
impresses. E no lhe prometeu ele que lhe mostraria as radiografias 
de Meersmann, quaisquer que fossem os resultados? Tem de manter a 
palavra dada. Qual vai ser a reaco de um homem to cheio de si 
mesmo? Reconhecer a sua falta de razo?
Volta  sala onde os Doerinck esperam, agarra na sua caneca de 
cerveja e esvazia-a de um trago sem voltar a tomar flego:  um velho 
truque de cocheiro vestefaliano!

- Tinha de o fazer - disse sem se explicar. - Sem isso, teria 
explodido sob a presso que sentia. Meus caros amigos, vivemos hoje 
um dia como jamais voltaremos a conhecer no futuro!
Foi no domingo seguinte que o professor Willbreit visitou o Dr. 
Hambach. Nunca mais deveria esquecer aquele dia.
Levava com ele Erasmus Roemer, doutorado em Direito, presidente do 
tribunal de 10 instncia de M'nster. Tinham efectuado o trajecto no 
enorme carro do magistrado, que se recusara categoricamente a subir 
para o Maserati: em sua opinio, demasiado perto do cho e demasiado 
longe do sol.
- No! - tinha ele gritado. - Nunca entrarei a dentro. No sou um 
homem-serpente! E como  que faria para sair? Quem conseguiria 
apartar-me os membros? E quem me garante que depois de uma compresso 
to excessiva, os meus cordes espermticos no ficaro 
definitivamente esmagados?
Discutir, para qu?, pensou Willbreit. Aceitou sentar-se ao lado de 
Roemer e fechou imediatamente os olhos. Sabia que o mais alto 
magistrado da regio conduzia como um criminoso, mas, mais uma vez, 
ia escapar milagrosamente a todos os acidentes. Assim que as rodas 
comearam a deslizar, Roemer deu incio ao seu discurso 
caracterstico.
- Dirijamo-nos, pois, a casa desse mdico cuja gaita estava fora de 
uso e que a princesa Corina desentupiu sem precisar de soprar nela, 
bastando apenas fazer-lhe algumas das suas carcias areas! Estou com 
curiosidade de ver esse velho jarreta.
- Por favor, Erasmus, s menos inconveniente - disse Willbreit num 
tom verdadeiramente implorador.
- Sabes, por acaso, a quem admoestas dessa maneira? Sou um fidalgo da 
mais nobre extraco. A propsito, tambm vamos ver a mida?
- A mida tem trinta anos.
-  a idade das divindades femininas. A seguir j no envelhecem 
mais. E, segundo o que me disseste, ela trabalha.  tecel? Ali, a 
propsito, conheces esta? Uma rapariga encontra uma amiga: "Conheci 
um tipo formidvel.  tecelo." - "O que  isso?", pergunta a outra. 
"No sei, mas, pelo sim, pelo no, vou-me lavar muito bem lavada em 
todos os lados. Nunca se sabe..."
Willbreit comeava j a arrepender-se do seu convite. Mas j era 
tarde de mais. Alis, no ser "tarde de mais" o motivo de todos os 
arrependimentos?
Ao ver Roemer e Willbreit sair do carro, o Dr. Hambach foi ao seu 
encontro. O facto de Willbreit vir acompanhado por uma espcie de 
monstro marinho no lhe agradou nada. Se se trata de um mdico, deve 
assustar todos os doentes. Mas Willbreit apresentou-o imediatamente.
- Apresento-lhe o meu amigo Erasmus Roemer, doutorado em Direito e 
presidente do tribunal de U instncia de M'nster. Espero que no 
fique incomodado por lhe ter pedido que me acompanhasse.
- De maneira nenhuma - disse Hambach, estendendo a mo ao colosso, 
que, encontrando-se com plcida disposio, teve o cuidado de lha no 
esmagar na sua.
- Sirvo-lhes um schnaps c da terra  laia de boas-vindas? - props 
Hambach. -  o que eu chamo a bebida de despedida do cavaleiro.
- Mas ao contrrio - declarou Roemer -, e como diziam os nossos 
antepassados: "Bebe um copo depois de uma noite de amor - e vers 
como amanhece o dia."

- Tambm se diz: "Bebe um copo se tens problemas - e dormirs toda a 
noite", retorquiu Hambach a rir.
A cara de Roemer iluminou-se. Achava decididamente que aquele velho 
mdico era muito simptico.
- Bravo, doutor! Que quer? No somos ns um povo de poetas e de 
pensadores?
Entrou  frente dos outros na sala de estar do mdico, achou os 
mveis e a atmosfera a seu gosto, nada do falso luxo frio e 
monumental da sua moradia, e continuou a ignorar Willbreit, que 
tossia e lhe batia nas costas para o fazer calar.
- Invejo-o, doutor Hambach.
- Porqu?
- Porque vejo que consegue viver de acordo com os seus gostos. Tenho 
a certeza que no possui nenhum desses pretensos amigos que exigem 
que lhes imitemos as manias. Que venha ento esse copo! Acho o tempo 
particularmente seco hoje. "A secura, a secura, no h nada pior para 
uma mulher..." Podia ser de Goethe, no podia?  Bblia e a Goethe 
pode-se sempre atribuir tudo sem correr riscos, visto l encontrarmos 
tudo.
Hambach dirigiu-se imediatamente  cozinha para ir buscar ao 
frigorfico a garrafa de schnaps e os trs copos gelados. Ainda no 
se tinham sentado quando beberam um primeiro copo, fazendo uma sade 
 alem. "Isto escorrega mesmo!", rugiu Roemer. Willbreit sentiu uma 
vergonha que, previu, no o abandonaria mais. S que Roemer era um 
amigo to slido que se podia construir um arranha-cus em cima dele. 
Finalmente sentaram-se. Roemer f-lo com a maior prudncia, j que a 
vetustez das poltronas de couro lhe no inspirava muita confiana.
- A minha secretria transmitiu-me o seu convite. O estado da senhora 
Doerinck sofreu modificaes?
- Com efeito - disse Hambach.
No tinha vontade alguma de enganar Willbreit, mas como este no lhe 
deu tempo para prosseguir, reagindo logo com um ar claramente 
triunfal, o velho mdico decidiu deix-lo espalhar-se  vontade.
- No entanto, eu exprimira-me muito claramente. O desenlace seria 
fatal. E hoje j  tarde para operar!
- Pois, j nem se pensa nisso.
-  um caso verdadeiramente trgico. - Mas apesar destas palavras, 
tinha cruzado as mos sobre a barriga sem conseguir dissimular o 
contentamento que sentia em relao a si mesmo. - E como  que a 
filha encara esta evoluo?
- A bem dizer, no conseguimos evitar as lgrimas, inclusive eu - 
disse perfidamente o velho mdico.
Viu que Roemer se preparava para intervir com uma luz estranha nos 
olhos de velho paquiderme. Como a maior parte dos homens demasiado 
gordos, este jurista devia ser extremamente vivo e j pressentira a 
armadilha. Mas o olhar de Willbreit f-lo parar imediatamente, e 
contentou-se com dizer:
- Devem ter ficado satisfeitos?
- No entanto, era mais que previsvel! - exclamou Willbreit, que se 
empertigava cada vez mais. - Era previsvel!

- Para ns, a evoluo foi, apesar de tudo, inesperada. - Vendo que 
Roemer batia no seu copo vazio, parou para o encher, recebendo como 
agradecimento uma rosnadela afectuosa. - No, no era previsvel. 
Ningum tinha imaginado tal golpe de teatro, nem Stefan Doerinck, nem 
eu, talvez nem mesmo Corina. Fomos incapazes de nos dominarmos.
Que curiosa maneira de se exprimir, pensou Willbreit. De qualquer 
modo, cada um deve ter reconhecido que se enganara, e agora  
demasiado tarde. Cometeram um verdadeiro crime em relao  doente e 
agora  que se apercebem disso. Mesmo assim, fica bem a este velho 
mdico reconhecer os seus erros desta maneira.
- Ser possvel visitar a senhora Doerinck?
- Mas  claro, poderemos dar um salto a casa dela assim que quiser.
- A gatinha das carcias tambm l vai estar? - perguntou Roemer, 
para indignao de Willbreit.
Mas Hambach desatou a rir francamente.
- A gatinha das carcias tambm l estar. Afinal, trata-se da 
personagem principal!
Willbreit esperou que o seu amigo parasse com os suspiros de 
satisfao com que acompanhava o esvaziar do copo, para declarar 
gravemente:
- O caso da senhora Doerinck preocupou-me tanto, e segui-o de to 
perto, que o considero quase como um problema pessoal.
- Acredito plenamente, professor.
- No foi por acaso que pedi ao presidente Roemer que me 
acompanhasse. Na minha opinio, deve-se estudar do ponto de vista 
jurdico as consequncias de um caso destes.
Erasmus quase cacarejava ao limpar a boca.
- Vamo-nos exprimir claramente: o meu nobre amigo Willbreit quer 
proibir as pessoas de se deixarem acariciar com fins medicinais...  
proibido tocar nos animais destinados s experincias cientficas, 
nem que seja s com os dedos! Explique-me, doutor, como  que o 
passarinho sai da mquina. Apesar do que Thomas me contou, no 
consigo imaginar bem a coisa: a sua jovem estende as mos e 
mantm-nas a uma certa distncia de uma pessoa e manipula, como se 
fosse com um ferro de engomar, o ar que se encontra entre as suas 
mos e a pessoa.  isso?
O Dr. Hambach abanou a cabea.
- No exactamente. - Roemer, apesar da sua grosseria e da sua 
lascvia, agradava-lhe. Era o gnero de homem com o qual se podia 
falar sem rodeios. Talvez levasse a vida pouco a srio porque a 
passagem pelos tribunais lhe mostrara frequentemente as faces de 
sombra do ser humano. - Ela emite atravs das mos uma energia que 
ns ainda no explormos. Esta energia penetra no corpo do paciente e 
age sobre a sua estrutura biolgica. Foi o que ficou estabelecido 
pela ciberntica biolgica: com os detectores de campos de foras, os 
especialistas conseguiram medir, e at tornar visvel, a intensidade 
dum campo de radiaes a que alguns chamam bioplasma e se concentra 
nas clulas. E esse campo provoca a esse nvel, no se sabe como, os 
processos biolgicos. O domnio de aplicao desta terapia estende-se 
a certas doenas e sobretudo s inflamaes e modificaes celulares.
Roemer expirou ruidosamente atravs das narinas.
- Ufa! Como  que quer que um pobre crebro de jurista como o meu 
consiga seguir a sua explicao? Diz-se sempre que o vocabulrio 
jurdico  uma algaraviada para os profalios, mas ento o que  que 
se h-de dizer do dos mdicos! Ah, estes mdicos! Percebeste alguma 
coisa, Thomas?

Willbreit, com um ar superior, cruzou as pernas antes de responder.
- Percebi. O que o meu colega Hambach acaba de explicar diz respeito 
a um dos campos-fronteiras da cincia, a uma doutrina que se baseia 
mais em hipteses do que em provas ou em factos. A bioenergia! Mas de 
que  que se trata no fim de contas? Do ponto de vista das nossas 
faculdades,  uma palavra inventada para agrupar certos fenmenos, 
mais nada. Partamos, portanto, da realidade. Voltemos ao caso que nos 
interessa. Estamos perante um cancro do clon. Estava mais do que 
seguro de que a Sra. Doerinck tinha um cancro. Num caso destes, se o 
cancro no estiver ainda demasiado avanado, tem de se operar. Se a 
operao  impossvel, resta-nos o tratamento prprio do estado 
terminal, isto , lanarmo-nos num combate contra o sofrimento at 
que o doente venha a falecer o mais tranquilamente possvel. No caso 
contrrio, a uma operao bem sucedida segue-se um tratamento 
radiactivo e s vezes tambm uma quimioterapia.
- E so essas as fronteiras da medicina oficial - declarou 
tranquilamente Hambach.
Willbreit olhou-o sem dissimular o seu descontentamento.
- Tudo tem limites. Seno, seramos imortais...
- Acha inimaginvel a existncia duma emanao biolgica, de um campo 
de foras de bioplasma que seca e aniquila as clulas doentes, 
impedindo a degenerescncia dos tecidos e restabelecendo o seu 
equilbrio celular?
Willbreit fez um sorriso de troa.
- Absolutamente impossvel. O prprio Deus capitularia perante um 
caso destes.
- Tambm pode acontecer que o homem no tenha compreendido que Deus 
lhe deu mais poder do que ele pensa.
- Ento, apesar da catstrofe de que a senhora Doerinck foi vtima, 
ainda conserva a sua simpatia para com tais fantasias?
- Justamente por causa do seu caso.
Tinha chegado o momento esperado por Hambach. Dirigiu-se  secretria 
e pegou nas radiografias que l deixara preparadas. Willbreit 
levantou fortemente as sobrancelhas, enquanto Roemer, conservando 
ainda o mesmo brilho singular nos olhos, coava pensativamente a cana 
do nariz: que raa esta a dos mdicos! No decurso dos processos, os 
especialistas defrontam-se cada um servindo-se de elementos 
contraditrios. Mas em medicina, como  possvel que, para o mesmo 
mal, dois mdicos dem diagnsticos ou prognsticos absolutamente 
diferentes? E ento com os psiquiatras, a tinta nunca mais parava de 
correr! Quando Roemer ouvia os argumentos deles perguntava-se, por 
vezes, se ele prprio no estava a ficar completamente idiota, talvez 
por uma espcie de osmose! Pior ainda eram os processos em que tinha 
de julgar um erro cirrgico. Com o seu temperamento excessivo, 
acontecia-lhe jurar a si mesmo que jamais se deixaria operar. At uma 
vez dissera ao seu amigo Willbreit: "Quando se imagina tudo o que 
pode acontecer durante uma interveno cirrgica,  de se ficar 
horrorizado! Talvez vocs sejam artistas  vossa maneira! Mas o 
doente que entra no hospital por causa de uma hrnia inguinal e 
acorda sem testculos, no consegue achar graa nenhuma a isso... "

Entretanto, Hambach tinha-se aproximado da janela e examinava uma das 
radiografias ao sol, sem dizer palavra. Willbreit levantou-se e a 
seguir foi a vez de Roemer, que conseguiu pr-se de p, ofegando, 
aps alguns estalidos queixosos da sua poltrona.
- Esta radiografia provm da sua clnica. Reconhece-a, doutor?
- Claro!  o carcinoma do clon da senhora Doerinck!
- Que emblema de mortalidade - disse Roemer tossicando.
- E tambm conhece esta?
- Tambm.
Era um ngulo de viso ligeiramente diferente. A seguir apareceu uma 
terceira radiografia que Hambach levantou na direco da luz, tal 
como fizera com as precedentes. Willbreit, surpreendido, esticou a 
cabea. Depois voltou-se para Hambach.
- Deve ter misturado as radiografias de doentes diferentes: este 
clon est perfeitamente so...
- Era o que lhe queria ouvir dizer. - Hambach passou a radiografia a 
Roemer e este limitou-se a ach-la diferente das precedentes. - Com 
efeito - disse Hambach -, trata-se do clon da senhora Doerinck aps 
o tratamento bioenergtico que a sua filha Corina lhe dispensou com 
as mos...
Willbreit deu um salto para a frente. Arrancou violentamente a 
radiografia das mos de Roemer e chegou-se mais para a janela a fim 
de a estudar longamente ao sol, meneando a cabea desde o primeiro 
instante.
-  uma brincadeira ou, ento, trata-se de prestidigitao!
- No sou da sua opinio - disse secamente o Dr. Hambach.
- Mas  impossvel! Se se tratasse verdadeiramente do intestino da 
senhora Doerinck, ento...
A sua voz tinha-se levantado e estava a tornar-se aguda e 
insuportvel.
- Ento, professor?...
- No, a medicina tem bases slidas.
-  verdade, mas h tantas coisas que so possveis em medicina e de 
que nem sequer suspeitamos. A medicina est cheia de mistrios e de 
coisas ainda inconcebveis. Tem a a prova na extremidade dos seus 
dedos, em pleno sol.
- No creia que desejo rebaix-lo, a si ou ao nosso colega que tirou 
estas radiografias, mas pretendo radiografar a senhora Doerinck de 
novo no meu servio... Deve haver um engano qualquer!
- Se a senhora Doerinck consentir, por mim estou de acordo. 
Naturalmente s ela poder decidir.
Willbreit baixou lentamente o brao.
- Quando  que podemos ir a casa dela?
- Imediatamente. Vou s telefonar a preveni-la da nossa chegada.
Enquanto Hambach falava ao telefone com Stefan Doerinck, Willbreit 
voltou a pegar na radiografia e examinou-a uma vez mais. Nada! A no 
ser marcas recentes de cicatrizao. Incrvel. No, era impossvel! 
Queriam divertir-se  sua custa!
Roemer tinha-se posto atrs do amigo para tambm poder contemplar a 
radiografia e Willbreit ouviu-o murmurar na sua nuca:
- Conheces a histria do homem que urinou para cima dos ps e que 
disse, admirado: "Mas est a chover..." Sentes-te um bocado como ele, 
no , Thomas? Tive medo por ti desde o princpio...

-  uma coisa impossvel, uma farsa preparada, uma armadilha! Se 
fosse verdade, seria uma inverso total de tudo
que sabemos. Isto contradiria todas as leis da medicina!
- Mas, apesar de tudo, no pode mesmo ser possvel? Ns no 
conhecemos tudo...
- No! Tudo menos isso! E ainda menos assim, s com as mos! 
Recuso-me a aceitar seja o que for que v nesse sentido...
Voltou-se. Hambach estava de volta.
- Esperam-nos. E a Ludinila est disposta a deixar-se examinar por 
si...
Para Willbreit a boa vontade de Ludinila constitua uma afronta mais 
a engolir, o que acabou por fazer sem protestar, para grande surpresa 
de Roemer. Sem uma palavra, estendeu a Roemer a radiografia que lhe 
queimava a mo! Roemer levantou os ombros.
- Ento, no percamos mais tempo a no ser o indispensvel para beber 
o copo de despedida do cavaleiro! Para ti, Thomas, sero dois copos, 
um para cada estribo. Precisas deles para te recompores...
- No quero nada!
Furioso, abriu bruscamente a porta, chegou ao vestbulo antes dos 
outros e ficou  espera. Roemer reteve Hambach pelo brao para lhe 
confiar em voz baixa:
- Acaba de lhe tirar a f na medicina e isso  grave... No h mesmo 
nenhuma mistificao nisso tudo? Isto fica entre ns e falo-lhe na 
qualidade de jurista: isso estaria muito perto da vigarice. Por outro 
lado, se se trata duma brincadeira, ela  bem boa!
Hambach olhou-o gravemente.
-  a pura verdade... Mas eu tambm no consigo explicar...
Dez minutos mais tarde, pararam diante da vivenda dos Doerinck. 
Stefan, que se encontrava c fora no pequeno jardim que dava para a 
rua, viu logo  primeira olhadela que Willbreit no vinha como amigo 
mas como inimigo. Em contrapartida, o colosso que vinha ao seu lado 
apresentou-se sorrindo amavelmente. Corina recebeu-os  entrada. 
Roemer no conseguiu deixar de murmurar um "Bom Deus!" que ela talvez 
no tenha ouvido e, depois de lhe fazer um beija-mo como mandam as 
regras, fixou nela o olhar, com ar radiante, sem largar a mo que lhe 
estendera, e declarou:
- Devo ser um mdio muito ordinrio:  que no sinto as suas 
emanaes da cabea at s pontas dos ps.
Corina olhou-o em silncio durante alguns segundos. A matria dos 
seus olhos parecia ter-se transformado em vidro. Lentamente, ela 
retirou a mo da pata de Roemer. "Que mulher!", pensou ele. "Uma 
criatura assim at desperta os mortos! Felizmente que ela no pode 
ler os meus pensamentos..."
-  amigo do professor Willbreit? - perguntou ela subitamente.
Roemer no era homem para dissimular o entusiasmo que ela lhe 
inspirava.
- Sou um velho amigo dele! E visto ele me ter permitido conhec-la, 
ficar-lhe-ei grato at ao fim dos meus dias!
- No ser por muito tempo...
No silncio que se fez subitamente, teve a impresso de que os seus 
olhos no podiam afastar-se dos de Corina e logo a seguir sentiu uma 
espcie de corrente de fora indescritvel a penetr-lo. Um calor 
benfazejo espalhava-se-lhe pelo corpo, por todos os membros.

- Porque  que o seu amigo Willbreit no o preveniu de que s lhe 
resta um ano de vida?...

Captulo quarto

Um filsofo, ou seja, um pensador que desenvolve em teoria uma vida 
diferente da que o destino lhe atribui, disse um dia: "Um homem  um 
homem se, no momento em que deixa esta vida, levantar o copo e fizer 
um ltimo discurso." Eis uma frase que encerra uma atitude cheia de 
energia: herica e radiosa como um gldio a brilhar ao sol.
Observando-o deste ngulo, Erasmus Roemer no se mostrou nem heri 
nem mesmo homem. As palavras que Corina acabara de pronunciar sem a 
mnima excitao, to calmamente, cortaram-lhe primeiro a respirao 
durante dois ou trs segundos. O seu olhar, como o duma criana 
indefesa, saltou do seu amigo Willbreit para o Dr. Hambach. Mas como 
no encontrasse neles nenhum socorro, pois estavam ambos to 
estupefactos e mudos como ele, acabou por conseguir pronunciar com 
uma voz branda:
- Mas vejamos... isso no tem ps nem cabea... Naturalmente, no tem 
ps nem cabea. Minha senhora, eis-me de joelhos perante si, 
reconheo-o. Ps-me knock-out logo  chegada!
Engoliu vrias vezes a saliva, respirou ruidosamente para se 
recompor, e desejoso de confirmar que estava tudo bem com ele, ps-se 
 escuta dos rgos vitais do seu corpo. Ora, estava tudo bem como 
sempre! Os pulmes funcionavam normalmente, o corao batia como um 
metrnomo e as suas clulas cerebrais trabalhavam como sempre, visto 
que, quando o seu olhar voltou a fixar-se em Corina, os sinais que 
elas lhe enviaram tomaram a forma dum velho ditado: "Se deitares a 
cabea no seu almofado, no dia seguinte pedirs perdo."
Mas tambm lhe parecia ouvir ressoar na cabea a condenao proferida 
pela rapariga: "... S um ano de vida... "
E, subitamente, invadiu-o um medo paralisador. De novo voltou-se para 
Willbreit, que, com a cara a arder, apoiava a pasta contra a perna.
- Thomas... Thomas...
Nem sequer se esforava por lutar contra o tremor da voz. Mas 
Willbreit no lhe estava a prestar a mnima ateno e explodiu 
abruptamente.
- Depois de saber tudo o que se passa aqui, j esperava vrias 
coisas. Mas mesmo assim ainda me admiro com a sua impertinncia...
- Creio que faramos melhor se entrssemos - interrompeu Doerinck 
tentando sorrir amavelmente. - A minha mulher fez um bolo, uma 
espcie de tarte de pras, mas com uvas secas e mel: uma receita 
caucasiana...
- V para o diabo mais a sua tarte de pras! - resmungou Roemer. - Os 
seus olhos traam o pavor que sentia, tinha os lbios sem cor e a 
respirao arquejante. - Atiram-me  cara que sou um homem morto e no 
momento seguinte j me esto a oferecer uma tarte de pras!
- Ainda no morreu... Dentro dum ano, talvez sim...
Tinha a impresso de que os olhos negros da rapariga se apoderavam 
dele da cabea aos ps. Mas Willbreit, incontrolvel, interrompera 
Corina com extrema violncia.
- Ah, no! Vai calar-se ou no? No vale a pena encenar a mesma 
comdia  minha frente. J estou farto desses truques. Tenho  
vontade de me ir embora imediatamente.

- Ningum o impede de o fazer - respondeu Hambach friamente. - Mas a 
pergunta que ocupa o nosso esprito, mesmo o do seu amigo, segundo 
creio,  o que  que o impede a si de levar a srio Corina Doerinck e 
o seu dom.
- A razo!
- S isso?
O tom em que o Dr. Hambach fizera esta pergunta deixava transparecer 
a ironia, mas Willbreit continuava sob o efeito do choque terrvel 
que tinha sofrido e o comentrio sarcstico do seu colega pouco veio 
acrescentar ao furor frio que j sentia. Mas o que  que se podia 
esperar daquele medicozito de aldeia, prisioneiro do passado que 
parara a um nvel de estudos que j tinha quase meio sculo e 
continuava a receitar o mesmo blsamo de xido de zinco, conhecido 
pelo nome de "pomada verde", para todas as erupes cutneas, fossem 
elas quais fossem? Um tipo amvel, sem prstimo nenhum, adorado pela 
sua clientela camponesa porque brincava com eles em dialecto, dizendo 
aos homens: "Diz-me c, quando preparaste o teu ltimo chourio de 
sangue puseste de lado algum toucinho para a tua chouria?", e s 
mulheres idosas, dando-lhes uma palmadinha nas ndegas cheias de 
pregas da idade: "Ah, Alma, devamo-nos ter encontrado h cinquenta 
anos!" E  fora de rirem a bandeiras despregadas, os doentes j se 
sentem quase curados... Em medicina so possveis tantas coisas...
Saiu daquele instante de torpor para declarar numa voz extremamente 
afectada:
- Dou-me conta de que hoje ser impossvel ter aqui uma conversa com 
alguma utilidade. Nunca aqui teria vindo, doutor Doerinck, se a 
radiografia que me apresentaram no fosse mais do que duvidosa: o 
clon que nela se v nunca esteve doente...
- Mas eu estou-me nas tintas para as tuas radiografias - 
interrompeu-o Roemer com voz forte. - Doutor Doerinck, a sua mulher 
est curada. Todos o podemos verificar. Se Willbreit se recusa a 
acreditar nos seus olhos por causa de uma lacuna da sua cincia 
mdica, pior para ele. Sim, apesar da medicina oficial, admito que as 
mos da sua filha tenham sarado um cancro. Alm disso, temos aqui as 
radiografias e elas so clarssimas. E fiquemos por aqui. Basta de 
discusses. Mas eis-me a mim aqui, a quem acabam de dizer: "Dentro de 
um ano estars a comer ervas debaixo da terra." E  isso que  
importante a partir de agora, visto que a senhora Doerinck est 
curada! Acho que tenho o direito de ser informado!
- Vamo-nos embora! - disse Willbreit em voz alta.
- No. Ficarei aqui colado enquanto no souber o que tenho. Se 
queres, volta para M'nster a p! Vieste no meu carro e ele s arranca 
com a chave que est aqui no meu bolso.
- E se entrssemos? - voltou a convidar Doerinck num tom conciliador. 
- No vo deixar mesmo assim de fazer as honras  tarte caucasiana da 
Ludinila...
- Apesar de estar a morrer, vamos a isso! - disse Roemer.

Comeou a andar na direco da primeira porta que tinha ao alcance e, 
com a sua sorte habitual, entrou na sala de estar. Ludinila esperava, 
sentada no sof e com as mos cruzadas sobre a barriga. Trazia um 
vestido caucasiano bordado e, abaixo do cabelo apanhado ao alto, 
tinha a cara pintada. Ele pensou num icone precioso, numa imagem 
vinda de um pas distante, numa personagem de Copplia. Parou  porta 
e gaguejou uma desculpa. "Ento  ela", pensou. "Formidvel! Tem 
sessenta e um anos; portanto, como s tenho quarenta, podia ser minha 
me. Que beleza!" Sentia-se cada vez menos  vontade. Entrou na sala 
inclinando-se segunda vez.
- Erasmus Roemer... Encantado, minha senhora.
- Tem sempre essa voz de trovo? - perguntou ela.
O seu sorriso era desanimante.
- A verdade  que a sua filha teve a amabilidade de me dizer que 
morrerei dentro de um ano...
- Se a minha filha lhe disse isso  porque l tem as suas razes, 
pode crer...
A calma dela era to impressionante que sentiu as pernas a 
fugirem-lhe.
- Mas ela tambm lhe deve ter dito: "Vou cur-lo."
- No. De maneira nenhuma!
No podia estar a limpar a cada momento o suor frio que lhe brilhava 
na testa e lhe espalhara pelo corpo uma humidade atroz.
- Ento, tem de lho pedir - disse ela.
Ofegante, ele deixou-se cair numa poltrona, que, gemendo sob o seu 
peso, resistiu valorosamente.
- A sua casa  agradvel - teve por fim foras para dizer antes de 
esticar as pernas e de se inclinar para trs fechando os olhos para 
melhor poder respirar.
"O que  que devo fazer?", perguntava-se. "Dar ouvidos ao meu amigo 
Willbreit, desatar a rir na cara desta tal Corina e chamar-lhe louca 
e embusteira? Do ponto de vista jurdico, acho que ela  perigosa 
visto poder provocar nas pessoas doenas de corao que dem cabo 
delas. Mas no h nenhuma lei que a impea de me dizer: "Tens uma 
doena mortal!" Se acredito nela  porque, no fundo, no passo de um 
idiota. Mas, e se tenho de facto alguma coisa de que ningum 
desconfiou e ainda menos eu? Se ela est a dizer a verdade, que devo 
fazer? Ela no me deu um abano destes s para aborrecer o Thomas. 
No, no pode ser to filha da me... "
j todos tinham entrado na sala, Corina atrs dos outros.
- Creio que j  altura de ir buscar a tarte de pras, mamuchka...
- Penso que no precisamos de nos sentar...
Willbreit estava disposto a mostrar-se cada vez mais desagradvel. 
Tinha avanado a passos rgidos na direco de Ludinila para lhe 
apertar a mo. Os seus olhos experientes observaram o rosto de 
Ludmila por baixo da maquilhagem e no conseguiu deixar de abanar a 
cabea: segundo a sua experincia mdica, aquela mulher deveria estar 
na cama, embrutecida pelos mais fortes analgsicos existentes, 
esperando sem esperana um rpido fim. A mo dela estava fresca ao 
tocar: no tinha febre. E aquele rosto liso irradiava sade...
- Como tem passado? - acabou finalmente por dizer.
- Perfeitamente. At andei ontem de bicicleta.
- O qu? De bicicleta?
- Sim. Fui daqui at Hopingen, regressando por Darfeld. Foi 
maravilhoso com o sol que estava. Fizemos um piquenique na relva: 
sanduches de presunto, cerveja e schnaps, como de costume...
Seria possvel? Willbreit sentiu que o seu sorriso comeava a 
crispar-se. Endireitou-se.
- E depois? Quero dizer: depois dessa imprudncia? No sentiu nenhum 
peso?

- O Stefan quis convencer-me de que tinha ziguezagueado duas ou trs 
vezes no regresso, mas era s para se meter comigo... Chegou at a 
afirmar que os ciclistas pagam pesadas multas quando bebem de mais.  
verdade, senhor presidente?
Willbreit impediu o amigo de responder, prosseguindo o seu 
interrogatrio.
- E depois?
- Mais nada, a no ser que me estendi e que Corina me ps em forma 
com as mos.
- No era nada necessrio...
Corina acabara de se sentar ao lado da me. Que belo quadro, pensou 
Roemer, sentindo-se cada vez mais miservel. Porque  que os pintores 
j no se interessam por temas to harmoniosos como este? Porqu? 
Talvez porque j no acreditam na beleza?  kitsch,  cromo,  
pintura lambuzada, diriam eles... Assim, nunca mais fixaram na tela 
ocasos, prados floridos ou a bruma matinal  entrada de uma floresta. 
Pintar isso, exp-los-ia  risada geral! Como se sente vontade de rir 
quando algum nos diz: "Daqui a um ano, morrers!"
- Foi simples precauo - prosseguiu Corina. - No senti nada nas 
pontas dos dedos: nenhuma resistncia, nenhum formigueiro, nenhum 
estico... A me est totalmente curada!
O tom de Willbreit tornou-se ainda mais acerbo. Continuou, ignorando 
Corina.
- Deu o seu consentimento para fazer um exame profundo na clnica da 
universidade, no  verdade, senhora Ludmila?
- Certamente.
- Mas, no entanto, com uma restrio.
- Como? Quer agora indicar-me como  que devo examinar a sua me?
- Exactamente.
-  incrvel!
- Pode fazer todos os exames que quiser e quantas vezes quiser, 
professor. S no poder fazer nenhuma biopsia!
- E porqu? Tem medo que nos dmos conta de que, apesar das suas 
afirmaes, os tecidos continuam doentes?
- Sabe perfeitamente o que eu receio: uma biopsia poderia reactivar o 
clon que j est curado. Quieta non movere. No h nada mais 
perigoso do que essas excises. Sabe-se hoje que podem provocar um 
cancro ou reactiv-lo.
- Bravo! - Era o Dr. Hambach. - Tive na minha clientela dois casos de 
prostatite em que o carcinoma s apareceu a seguir a uma puno...
- Evidentemente, visto que tratou a sua com carcias areas! - 
replicou Willbreit com dio. - Mas no vou insistir nesse ponto. A 
opo de um mdico  livre. Renuncio a qualquer exame, mas permita-me 
ao menos duvidar do que se passa aqui e farei o possvel para acabar 
com tudo. Fui claro?
Roemer endireitou-se.
- Foste to claro que at me fizeste lembrar aquela do tipo que vai 
ao mdico porque no consegue urinar. "Que idade tem?", perguntou o 
teu colega. "Setenta e sete anos", responde o doente. "Ento no  
para admirar: j urinou toda a urina da sua vida... "
Ningum riu. A atmosfera, pelo contrrio, ficou ainda mais pesada. 
Willbreit j no tinha nenhuma razo para se demorar. Dirigiu-se para 
a porta para levar consigo Roemer.

-  possvel arranjar um txi? - perguntou a Doerinck. - Talvez 
Roemer queira ficar? O que eu no farei de maneira nenhuma...
- Tu tambm vais ficar - disse Roemer com voz surda.
- No. Renuncio ao teu carro e  tua companhia.
- Mas eu no renuncio ao mdico que me tem seguido desde h anos. - 
Roemer tinha voltado a endireitar-se. Como se v por esta ltima 
brincadeira, tinha recuperado quase totalmente o seu equilbrio. 
Pouco a pouco, nascia nele a vontade de no aceitar a sua sorte sem 
lutar. - Antes de ir-me embora, quero saber porque  que s me resta 
um ano de vida. E se no mo disser, cara menina, no a quero ameaar 
como o meu amigo Willbreit, que cr ser necessrio pr fim ao perigo 
que os seus actos podem constituir. No, mas voltarei aqui a casa at 
obter uma explicao e, se por acaso me puser na rua, voltarei a 
entrar pela janela como Romeu, apesar da minha gordura! Quero saber o 
que tenho. Quero saber porque  que s tenho um ano de vida. Ser que 
no tenho esse direito,  meu Deus?... Atira-me  cara...
- Tudo o que disseres ser intil. Anda, vamos embora. Esqueamos 
tudo isto.
- Isso  exactamente o que o seu amigo no deve fazer, professor. Ele 
est muito doente!
Era Corina quem falava. Tinha-se levantado, estava a aproximar-se de 
Roemer, estendendo para ele as palmas das mos e, como petrificado, o 
colosso no se mexeu mais. Olhava Para aquelas mos to finas que, a 
uma distncia de dez centmetros, desciam dos seus ombros at s 
ancas e voltavam a subir um pouco mais... at pararem. O prprio 
Willbreit, Com os olhos fixos em Corina, ficara como que paralisado. 
S Doerinck se deslocou para ir buscar a caixa de cigarros da filha 
que estava em cima do aparador: sabia que ela teria em breve 
necessidade de inalar o fumo aucarado daquele tabaco oriental. 
Ludinila cruzara as mos como se fosse rezar.
A seguir a voz de Corina elevou-se e tinha uma tonalidade estranha.
- Cianose... os seus lbios ficam frequentemente azuis e o seu rosto 
vermelho, no  verdade?
- Sobretudo quando bebo  vontade...
- E, de vez em quando, sente dores no alto e  direita da barriga. 
Aqui, exactamente.
Com o seu longo indicador apontava para um ponto preciso da sua 
barriga. Roemer, apesar de no sentir nenhuma dor, teve um movimento 
de recuo.
-  verdade - confirmou -, mas  coisa de famlia. Tinha um tio em 
Ochtrup que morreu com noventa e seis anos, ao que parece com as 
artrias entupidas. Doa-lhe frequentemente a barriga neste stio e 
dizia-nos de cada vez: "Meus meninos, c estou de novo com um peido 
ambulante encalhado em m posio..."  o que me digo tambm quando 
me di no mesmo stio... Mas de que  que se trata, na sua opinio?
-  preciso que o seu amigo, o professor Willbreit, lhe faa um 
exame. A sua urina contm certamente uma eliminao excessiva de 
urobilina.
- Mas porque  que os mdicos utilizam com os doentes um grego e um 
latim de cozinha? - exclamou Roemer.
Voltara-se para Willbreit com ar interrogador, mas a expresso do seu 
amigo, com os olhos semicerrados, impressionou-o. Como continuava 
calado, foi o Dr. Hambach quem explicou em voz suave:

- Vem do fgado...
Imediatamente, Willbreit despertou. Quando falou, a sua voz deixava 
transparecer uma raiva contida: o mdico de aldeia ousava falar na 
sua presena!
- Veremos isso amanh, Erasmus. Mas agora no consigo suportar nem 
mais um instante esta atmosfera de circo!
Corina tinha dado um passo para trs. Com a cara quase escondida 
entre as mos, olhava atravs dos dedos o gigante que no se tinha 
mexido.
- Ainda no tenho a certeza, mas creio que tem o que se chama um 
fgado cardaco. - Hesitou um longo momento, ganhando confiana. - 
Sim, o seu sangue no corre normalmente. De momento ainda s tem 
ligeiros sintomas, mas, dentro de algum tempo, o seu estado vai 
agravar-se.
A ltima palavra sobressaltou Roemer, que se conservou silencioso.  
verdade que Willbreit lhe tinha frequentemente aconselhado a evitar 
os excessos, e ele respondera a rir: "Mais vale ter uma protuberncia 
na barriga  fora de beber do que uma nas costas  fora de 
trabalhar." Mas mais uma vez, Willbreit levou tempo a reagir e a vir 
em socorro do amigo. De tal maneira que Roemer perguntou a Corina 
numa voz verdadeiramente infantil:
- Ento, do seu ponto de vista, que  que se pode fazer?
Era demasiado para Willbreit, que explodiu.
- Primeiro, sair daqui e esquecer os disparates que acabas de ouvir. 
- j se encontrava junto  porta e gritava. A etiqueta que ele tanto 
prezava, tinha desaparecido. E acrescentou: - O que aqui se passa  
criminoso, criminoso!
Doerinck interveio com toda a firmeza.
- Faria melhor se sasse, professor. Pensei que a sua visita daria 
azo a uma discusso interessante e razovel, mas enganei-me! Porque  
que no aceita que a minha mulher esteja curada?
- Nada do que aqui se passa  claro. - j se encontrava a atravessar 
a porta, seguido por Doerinck e pelo Dr. Hambach. - Alm disso, a sua 
mulher renunciou aos meus servios. Declino qualquer responsabilidade 
por aquilo que vai aqui passar-se!
- Mas o que  que pode acontecer agora, tendo em conta a radiografia 
que viu? - perguntou Hambach. - Como poderemos deixar de agradecer a 
Deus a cura da senhora Ludmila?
- Deus nunca curou um s cancro que fosse. - j estava l fora. Como 
Doerinck o seguiu, voltou-se para dizer num tom mais conciliador: - 
Apesar de tudo, fico  vossa disposio. Penso que um dia tero 
necessidade de mim. No hesitem em chamar-me.
Doerinck acompanhou-o at ao carro do amigo. No entanto, Roemer no 
estava minimamente na disposio de se ir juntar a ele. No se tinha 
mexido do meio da sala de estar, como se fosse uma esttua de pedra, 
mas tinha a impresso de poder desintegrar-se em poeira de um momento 
para o outro.
- Tambm pode acontecer que esteja enganada... Corina, o erro  
humano, no ? "O homem engana-se durante todo o tempo, em que 
vive... ou que luta", ou qualquer coisa parecida.  uma citao de 
Goethe ou de Schiller... De qualquer maneira,  de um deles! Ento, 
tambm  verdade que a Corina se possa enganar, no .)

-  evidente que me posso enganar, mas... - Aproximou de novo a mo 
do ventre de Roemer, que, ao fim dum instante, viu com estupefaco 
que ela comeava a tremer. - Sinto qualquer coisa aqui, algo de muito 
forte, de mais forte do que eu talvez, e que me resiste...
Ela fechara os olhos e inclinara a cabea para trs. O seu rosto, de 
repente, j no tinha nada de humano, pensou, e reteve o flego. Ora, 
ele comeava a sentir-se invadir por um calor estranho.
- Sim, est c,  o inimigo. E  ele que me est a atacar!  um 
combate entre ns, um combate. - Deixou de resistir, subitamente, e 
abriu os olhos. Num segundo, parecia que se tinha esvaziado da sua 
fora, como um corredor que tivesse chegado ao fim de uma corrida de 
fundo. Aspirou duas grandes baforadas do cigarro que acendera  
pressa, s apalpadelas, e disse, finalmente: - Tem de se deixar 
examinar imediatamente pelo professor Willbreit. - E como Roemer 
continuava a olhar para ela, estupefacto, esboou um sorriso de 
desculpas. - Lamento que a sua visita tenha tomado esta feio 
inesperada. Mas tinha de o prevenir, no acha?
- Fez muito bem.
Apesar da grosseria que afectava, Roemer sabia ser um homem 
encantador. Beijou a mo de Ludmila, inclinou-se diante de Corina e 
precipitou-se para fora da sala. Sabia agora quase com certeza o que 
o esperava. No entanto, ao cruzar-se com o Dr. Hambach na entrada, 
parou bruscamente.
- Ento tambm acredita no que aquela adorvel pitonisa anuncia?
- Acredito - respondeu o Dr. Hambach com gravidade.
- E se a partir de agora levar a vida de um eremita: nada de lcool, 
nada de mulheres, nem de cigarros...
- No posso fazer nenhum prognstico sem me fundamentar num exame 
especfico. E conseguiria de facto viver de maneira diferente?
Roemer enxugou o suor frio que ainda se lhe colava ao rosto com um 
leno proporcional ao seu tamanho.
- Quem sabe? At aqui, vivi segundo a seguinte palavra de ordem: 
Coitus, ergo sim. Mas agora estou com a corda na garganta, no ?
- O professor Willbreit dir-lhe- francamente o que se passa quando o 
tiver examinado.
- Ser que... ser que Willbreit  de facto o mdico que me convm?
- Quem tem de julgar  o senhor. A confiana que o doente tem no seu 
mdico  a base do sucesso. Sem confiana, nada funciona. Os meus 
pacientes vm ver-me porque sou o amigo, o compincha, o irmo, o pai, 
o confessor, etc. Quando aqui esto, sentem-se protegidos, dizem para 
consigo mesmos: "O nosso doutor vai-me ajudar...  evidente que temos 
de morrer um dia, mas o nosso doutor pode protelar a data... "
Roemer estendeu-lhe bruscamente a mo.
- Deve ser maravilhoso poder sentir tanta confiana. Eu no posso, 
doutor. Permite que o venha visitar depois de Willbreit me ter 
examinado?
- A minha porta est sempre aberta para si...

Doerinck estava apoiado a uma pereira no pequeno jardim que dava para 
a rua. Do outro lado do porto, Willbreit esperava impacientemente de 
p, junto do carro do amigo. O porto que os separava impedia que 
pudessem trocar uma palavra, graas a Deus, pensou Willbreit... j se 
sentia suficientemente vexado. Ao passar diante de Doerinck, Roemer 
lanou-lhe um "at  vista" sonoro.
- A srio? - perguntou Doerinck com ar duvidoso.
Roemer parou imediatamente.
- Evidentemente! No pensa que vou conseguir esquecer esta tarde! Vim 
c para ver a sua filha, de quem me diziam maravilhas, com os meus 
prprios olhos. E o que  que acontece? Ela faz soar aos meus ouvidos 
todas as trombetas do Juzo Final! No se pode considerar que isto 
seja normal.  evidente que voltarei!
Abriu a porta do carro e deixou-se cair no banco, cujas molas 
reforadas gemeram. Willbreit sentou-se ao seu lado.
- V l se te despachas! - disse com ar embirrento.
- E de que maneira! - replicou Roemer.
Carregou imediatamente a fundo no acelerador, o pesado carro deu uma 
espcie de salto para a frente, como por aco de uma catapulta, e 
Willbreit, que estava ainda s meio sentado, foi projectado para 
trs.
- Mas tu s doido! Ser que, de facto, tenho de passar o dia todo com 
malucos?
- Vamos direitinho  clnica e vais-me examinar imediatamente, quer 
l estejam os outros especialistas (radiologista, urologista, etc.) 
ou no! Arranja-te de maneira a mand-los vir todos! Trata-se de uma 
urgncia!
- Evidentemente que no. Pergunto a mim mesmo como  que pude 
suportar durante tanto tempo a insolncia daquela estpida. De 
qualquer modo, o que se passa na casa daquela gente  criminoso!
O carro tomou a auto-estrada e aumentou ainda mais de velocidade.
- Vou apresentar uma queixa contra ela. Olha s como te desmoralizou 
completamente...
- E esperas que eu seja testemunha? Vais ficar admirado, Thomas, mas, 
de repente, o mundo inteiro parece-me diferente: estes campos, estes 
jardins, estes carreiros de areia, estes grupos de rvores...
O Dr. Hambach ainda estava  porta de entrada da casa quando Doerinck 
subiu os degraus do patamar. Ambos abanaram a cabea. A nuvem de p 
que o carro de Roemer levantara ao arrancar ainda se dissipava 
lentamente.
- Viste aquilo, Ewald?... Willbreit quase caiu do assento!
- O caminho de regresso no vai ser divertido. Que dia para ele. - 
Quando chegou  entrada, reteve Doerinck, que queria penetrar 
directamente na sala de estar. - Mas h outra coisa que me preocupa. 
Tenho receio por Corina.
- Ento e eu? - Baixou a voz, pois a porta da sala estava s 
encostada. - Na tua opinio, o que  que Willbreit pode fazer contra 
ela.)
- Nada.  suficientemente inteligente para admitir que  melhor no 
mexer no que  inexplicvel. Mas Roemer, sozinho,  capaz de fazer 
tanto barulho como as trombetas de Jeric! O seu crculo de relaes 
 muito extenso e comporta numerosos neurticos cujas doenas 
constituem o seu tema principal de conversa. Receia que Hellenbrand 
se torne num lugar de peregrinao. J o estou a ouvir: "Ela olhou-me 
nos olhos e viu o meu fgado! Disse-me: "Tem a algo de mau!"  
melhor ir ver isso, meu caro." Vo vir de todos os lados! Vai ser um 
horror!

- A Corina no os receber!
- Vo fazer o cerco  tua casa como outrora os Turcos cercaram Viena! 
No arredaro p! E isso bastar para vos tornar a vida impossvel! 
Viveste um quarto de sculo em Hellenbrand, mas ainda no conheces a 
gente que c vive!
"O qu? Uma curandeira, uma bruxa, c na terra?" Num s instante 
voltaremos  Idade Mdia. Oh! No queimaro a tua filha! Mas faro 
tudo para que vocs saiam daqui e vo p-los de quarentena como se 
tivessem peste. At aqui tens sido um professor considerado, mas a 
Ludinila nunca fez verdadeiramente parte deles. "Eis o que d casar 
com uma russa", diro, "uma pessoa torna-se pai duma bruxa! E  a ele 
que confiamos os nossos filhos! Mas em que mundo vivemos?" Ainda 
nunca to disse, mas quando foste nomeado para Hellenbrand e se soube 
que a tua mulher era russa, houve uma comisso de pais que foi a 
M'nster para se queixar da tua nomeao.
Doerinck olhou-o estupefacto.
- No  possvel! Toda a gente foi sempre to amvel comigo. 
Repetiram-me de todas as maneiras que eu era o professor preferido 
deles...
- Primeiro, o que se diz diante das pessoas e por trs delas  to 
diferente como duas botas de um mesmo par! A direco do ensino de 
M'nster ps rapidamente fim a essas recriminaes e, de h vinte e 
cinco anos para c, tudo correu da melhor maneira,  verdade. Mas a 
filha que o professor Doerinck teve daquela russa  uma feiticeira... 
Sim, tenho medo, Stefan.
- E se fosse falar com Roemer?
- O que  que lhe queres dizer? Que esquea que s tem um ano de vida 
e que no leve a srio o que Corina lhe disse? Tu prprio como  que 
reagirias?
- Iria de mdico para mdico para comparar os respectivos 
diagnsticos.
- E  o que ele vai fazer e todos vo concordar: o seu caso  
desesperado... Ento, o que far Roemer? Vir ver Corina de novo para 
lhe suplicar: " a minha nica esperana. Tente pelo menos curar-me."
- Mas a prpria Corina no poder fazer nada por ele. Ela disse-lho 
quase abertamente.
- Admitamos que ela o possa ajudar. Como, no sei, visto isso parecer 
estar fora de questo do ponto de vista mdico. Mas admitamos por um 
instante que ela o possa fazer. Que se passar? Ser o incio da 
avalancha. Talvez haja no rio Xingu. um canto de floresta virgem onde 
Corina se possa esconder? Os indgenas talvez faam dela a sua deusa, 
mas o que  certo  que ela nunca mais ter um instante de calma num 
pas civilizado.
- Mas porque  que lhe parece to importante que eu viva na maior 
calma?
Hambach e Doerinck voltaram-se, surpreendidos e um pouco incomodados. 
Por trs deles, saindo da cozinha, Corina trazia nas mos um grande 
prato de vidro com a tarte de peras, cortada em fatias e exalando um 
embriagante cheiro a canela.
- Ouviste tudo, Cora? - perguntou Stefan Doerinck.
- Desde h cerca de cinco minutos. Lamento, mas no estou nada de 
acordo convosco. O que  que eu fiz? Curei o cancro da me e a tua 
prostatite, tio Ewald. Agi mal? Porque devo esconder-me?

- Por causa das pessoas, minha filha.
- Porque as posso curar?
- Desde quando  que sabes que tens esse dom, essa emanao? Comprei 
livros sobre o assunto, li-os e no fiquei a saber mais do que sabia 
dantes. Desde quando  que te apercebeste disso, Cora?
- Desde sempre, pai. Quando era criana j sabia, ao ver uma pessoa 
qualquer, se ela estava doente, se tinha alguma coisa em algum lado. 
Quanto ao poder das minhas mos, dei por ele pela primeira vez quando 
tinha quinze anos, em casa duma colega da escola que fui visitar por 
se encontrar doente de cama: uma amigdalite. Pus-lhe as mos  volta 
do pescoo e, dois dias depois, ela estava curada.
- Talvez ela tivesse tomado antibiticos - fez notar o Dr. Hambach.
Sentia cada vez mais medo porque tinha a impresso de no poder 
refre-la e por ver que ela estava pronta a meter-se num impasse onde 
iria debater-se em vo...
- No, tio Ewald, ela era alrgica aos antibiticos. A seguir a coisa 
desenvolveu-se em mim. Depois abandonei os estudos de medicina, 
sobretudo por causa dos trabalhos prticos. - Interrompeu o que dizia 
abruptamente. Tinha o rosto contrado. Dir-se-ia que tropeara em 
recordaes desagradveis. - Temos de ir ter com a me. Est to 
orgulhosa da tua tarte caucasiana...
- No conseguirei engolir uma s garfada, e tu, Ewald?
- Tentarei. No devemos castigar Ludmila recusando-nos a provar a sua 
tarte l por termos o estmago do avesso por causa de Willbreit... 
Cora?
- Sim, tio Ewald?
- Que fars quando os doentes comearem a afluir aqui e a pedir-te 
que os socorras?
- Socorr-los-ei, naturalmente. j o estou a fazer.
- O qu? - O Dr. Hambach quase tinha gritado. - O qu? E onde?
- No meu atelier de tecelagem. At agora s curei nove doentes. 
Apontei tudo num dirio...
Fazia um sorriso quase malicioso. "Meu Deus, ela no se apercebe do 
que est a provocar", pensou o Dr. Hambach.
- Mas ningum deu conta de nada! Dizia a uma: "Ento volte depois de 
amanh, mostrar-lhe-ei outras cores"; e dizia a outra: "Dentro de 
trs dias j terei desenhado um novo modelo..." E foi assim que 
consegui manter o contacto at ao momento em que deixei de sentir a 
resistncia do mal. E elas confirmaram-mo, alis, falando das suas 
doenas e admirando-se por estas terem desaparecido como por encanto. 
Liquidei assim trs gastrites e uma lcera de estmago que iam ser 
operadas. A ltima radiografia precedendo a operao j no 
apresentava tumor nenhum, apesar de os mdicos terem procurado por 
toda a parte: simplesmente j l no estava! Neste momento ocupo-me 
duma tal senhora Habinghorst, de Rheine, que me encomendou um tapete; 
tem terrveis ataques de asma. Logo na segunda visita confiou-me que 
estava muito melhor.
O Dr. Hambach ps a cabea entre as mos.
- Rendo-me! j esgotei todos os argumentos. Mas lembra-te do que te 
disse, Corina. S prudente. Vamos ento comer essa tarte de pras. A 
tua me deve perguntar-se o que  que estamos a fazer...


Um atestado passado pelo professor Willbreit permitiu a Erasmus 
Roemer meter baixa por perodo indeterminado. O seu adjunto, o 
magistrado Berner, sucedeu-lhe provisoriamente e os arguidos que 
esperavam com ansiedade o dia em que compareceriam no tribunal 
respiraram fundo. Os respectivos advogados arvoraram sorrisos cheios 
de esperana. Berner no tinha nada de anjo, mas faltava-lhe, no 
decurso dos processos, a retrica envenenada que fazia desesperar os 
adversrios de Roemer! Era apenas um bom juiz alemo, sem mais, cuja 
ambio consistia, sobretudo, em expedir rapidamente os casos 
correntes. Nunca tinham ameaado mat-lo, o que acontecia a Roemer de 
vez em quando. Os jornalistas
eram os nicos a queixarem-se dele; os seus processos eram 
mortalmente aborrecidos...
No era o caso de Roemer. Quando um anarquista, conseguindo escapar  
vigilncia do guarda, tirara as calas num pice para depositar em 
cima da secretria do magistrado um magnfico cagalho, Roemer 
tinha-se inclinado para a frente a fim de estender um monte de folhas 
de papel ao prisioneiro estupefacto: "Ora limpe-se, meu caro!" Antes 
de se dirigir ao advogado deste: "Agora que o seu cliente se 
desembaraou do seu crebro em cima da minha secretria, voc talvez 
esteja a pensar evocar a sua irresponsabilidade... "
Alm disso, com Roemer, a sala do tribunal estava sempre cheia.
O primeiro exame, realizado sob a direco de Willbreit, durou horas. 
Radioscopias, radiografias e repetidos exames com ultra-sons. 
Finalmente, extenuado, Roemer encontrou-se sentado numa cadeira 
diante de um Willbreit majestosamente sentado atrs da secretria.
- Ento, anda, deita c para fora o que tens a dentro: a menina das 
carcias tinha razo, no  verdade?
Willbreit evitou responder directamente.
- Tens qualquer coisa no fgado.  uma espcie de bloqueio.
- Explica-te!
- Vai ser necessrio estabelecer um circuito artificial.
- No sou canalizador, Thomas. Sou um jurista.
- Fico contente por ver que conservaste o teu sentido de humor...
Roemer inclinou a cabea.
-  assim to grave, Thomas?
- No sei como explicar a situao a um profano como tu. Tens uma 
hiperemia venosa...
- Traduz!
- Uma congesto do fgado. O teu fgado transformou-se, e mal, porque 
o sangue j l no circula.
Enquanto falava mantinha os olhos baixos, fixando-os nas radiografias 
e nos resultados dos exames. Isso apresentava uma vantagem: no tinha 
de olhar de frente para o amigo.
- Faz um esforo, Thomas. Explica ainda melhor.
- Estou a tentar. - Inclinou-se ainda mais sobre os papis espalhados 
 sua frente. - As clulas do fgado, quando so atacadas, so 
substitudas por um tecido conjuntivo, por um tecido fibroso.
- Est bem, mas o que  que isso quer finalmente dizer? Professor 
Willbreit, no s capaz de dizer mais nada? O que  que se passa com 
o meu fgado? E qual  a soluo?
- Para comear, nem mais uma gota de lcool...

- E o tratamento?
- Uma terapia interna, ou seja, medicamentosa, j no tem qualquer 
possibilidade de resultar.
- O que quer dizer: acabou a pea, baixemos o pano!
- No, pode-se intervir cirurgicamente. Pode-se regularizar, guiar a 
circulao sangunea no interior do fgado. -Hesitou e a seguir, 
tendo cada vez mais a impresso de que o olhar de Roemer o 
trespassava, acrescentou finalmente: - A operao no  desprovida de 
riscos... A mortalidade  de cerca de cinquenta por cento.
- Isso tranquiliza-me imenso - disse Roemer sarcasticamente. - E sem 
operao?
- Dentro de alguns meses ters uma cirrose com ascite ou com um 
alastramento de serosidade no peritnio e aparecer-te- um tumor no 
bao. A seguir vir a morte.
- Ento a pequena das carcias tinha razo.
- Sob algumas reservas.... Os cirurgies existem para alguma coisa. 
No teu caso, proponho que se ligue a veia esplnica  veia renal e a 
seguir se diminua a circulao do sangue na veia porta por meio de...
Roemer, que deixara de o ouvir, interrompeu-o.
- Obrigado. j me chega...
Levantou-se, enfiou a camisa, abotoou as calas e a seguir fez o n 
da gravata, enquanto Willbreit tentava prosseguir com uma explicao 
impossvel. Bruscamente, perdendo o sangue-frio, bateu com o punho na 
mesa, gritando:
- Mas no compreendes que s este gnero de operao te poder trazer 
algum alvio...
- Ah! Ah! Alvio, dizes tu? Alvio talvez, mas a cura no. Ou seja, 
uma morte temperamental! E como  que sobreviverei.
- Evidentemente, no poders fazer a mesma vida que antes. Ters de 
seguir um regime rigoroso, sem uma gota de lcool, com uma vigilncia 
constante do corao e muito repouso. E no poders tocar mais em 
mulheres. Cada cpula equivaler para ti a oito horas de rude 
trabalho no fundo duma mina.
- Ora a est uma comparao que sai direitinha de um manual de 
medicina, no ?
- Nunca mais sers o homem que eras. Caso a operao seja bem 
sucedida...
- Caso a operao seja bem sucedida?
- Sim, Erasmus. Tenho de te dizer a verdade, no ?
- Resumindo, posso escolher entre uma morte quase imediata ou uma 
morte mais longnqua, reduzido a ser uma sombra de mim mesmo.
- Mas nesse ltimo caso continuars a viver. Vers o sol, as flores, 
os prados e as florestas, o mar, a montanha e os seus vales, ouvirs 
a msica de que gostas e vers o luar. E tens bons amigos, Erasmus... 
O que  muitssimo...
- E quando uma mulher bonita me piscar o olho, terei de lhe dizer: 
"Queira perdoar, cara senhora, mas segundo o manual de medicina, sou 
um mineiro que j no pode levantar o martelo!" No ser prefervel 
continuar a viver sem rdeas enquanto aguentar, galopando assim com 
todo o garbo at  queda final?
- S tu  que podes responder. Na qualidade de mdico, disse-te, o 
melhor possvel, tudo o que tinha a dizer. Agora tens de ser tu a 
tomar uma deciso.

Roemer prolongou a baixa. Explicou a Elise, sua mulher, que se tinham 
registado novas admisses no tribunal e que lhe haviam confiado a 
tarefa de redigir um importante estudo jurdico-cientfico sobre as 
remuneraes dos peritos. Era uma explicao idiota, sabia-o, mas 
suficiente para Elise: o golfe, a caa, o tnis, os desfiles da moda 
e as noites de gala ocupavam a tal ponto o seu tempo e o seu esprito 
que a actividade do marido s tinha aos seus olhos o valor do nvel 
social de que ela tirava proveito. Acontecia-lhe dizer 
frequentemente: "Sabe, desde que h um grande processo, todos os 
jornais e toda a gente falam dele. Uma mulher bem se pode sentir 
orgulhosa por ter um marido assim." O que no a impedia de chamar 
campons a Roemer quando este comeava a meter-se com ela por causa 
de certas caractersticas femininas: "De novo os vossos cacarejos de 
galinhas! Sempre a queixarem-se do seu galo..." A palavra "campons" 
sada da boca de uma mulher como Elise era para Roemer uma marca 
honorvel.
Durante trs dias, manteve-se fechado na sua gigantesca moradia, 
lendo toda a documentao que conseguira reunir sobre as doenas do 
fgado. Willbreit tinha-lhe revelado toda a verdade. Ficara 
especialmente impressionado com uma frase: "Ainda no se conhecem 
completamente as causas que provocam a congesto heptica." E um 
pensamento louco tinha-se ento apoderado do seu esprito: "No 
haver a possibilidade dum milagre quando as causas so 
desconhecidas? Erasmus Roemer, meu caro, tens de acreditar num 
milagre!"
Ao quarto dia partiu para Hellenbrand. No no seu carro, mas num que 
alugara. Iria l incgnito, secretamente, e conseguiria introduzir-se 
no atelier de Corina por uma porta escondida... Tinha uma reputao a 
defender, visto ser ainda presidente do tribunal de 1a instncia de 
M'nster.
Existem duas maneiras de destruir a influncia e a autoridade de uma 
pessoa: atac-la de frente ou consider-la morta e nunca mais 
pronunciar uma palavra sobre ela. A primeira tctica  espectacular, 
mas perigosa, pois expomo-nos a um violento contra-ataque por parte 
do interessado. Enterrar uma pessoa  fora de silncio  priv-la de 
qualquer defesa, a menos que se trate de um ser capaz de quebrar as 
correntes com que se tenta destru-lo, mesmo quando elas se resumem a 
um silncio de morte.
Como proceder contra Corina Doerinck?, perguntava-se Willbreit. 
Sentia-se ferido na sua honra de mdico at ao mais profundo do seu 
corao. O que isto significa s o poder, sem dvida, saber o 
infeliz que tenha ousado confrontar-se com um destes privilegiados. 
Isso nunca lhe ser perdoado: porque tocar num mdico corresponde a 
arranhar o cu imaculado da faculdade.
Willbreit pensara inicialmente em escrever um artigo intitulado "A 
propsito dos novos charlates". Mas isso seria dar uma grande honra 
 rapariga. Calar-se, enterr-la sob uma cortina de silncio, era a 
soluo. O desprezo absoluto!
Telefonara j por trs vezes a Roemer.
- O que andas a fazer? - perguntara.
- Leio...
- Os teus habituais livros pornogrficos?
- As maneiras de tratar as doenas do fgado - replicara o magistrado 
sem dizer nenhuma graa.
- Erasmus, deverias...
- E tu devias lamber-me as botas e calar-te duma vez por todas, 
Thomas! Boa noite!

Ao terceiro dia, Willbreit tentara contactar Elise, a mulher de 
Roemer, mas ela tinha ido caar na Carntia, em casa dum tal baro 
Loxenfeldt, e quando Willbreit telefonou para o castelo deste ltimo, 
a voz educada dum mordomo respondera-lhe que a "senhora" se 
encontrava a repousar na Hungria com o "senhor baro". Willbreit 
decidiu ento ir forar a porta do seu amigo no dia seguinte ou dois 
dias mais tarde. A ideia de que o gigante, como um elefante ferido, 
se tinha retirado para olhar de frente a aproximao da morte, 
era-lhe penosa. Ningum o podia obrigar a ser operado, mas era 
absolutamente insuportvel deix-lo sofrer sozinho.
Apesar dos seus esforos para votar ao silncio e ao desprezo o caso 
de Corina Doerinck, a rapariga e a sua actividade paramdica 
continuavam a constituir para ele um problema. Aquilo a que chamava 
"a farsa" que ela desempenhava perante gente ignorante, referindo-se 
a foras "bioenergticas", era uma provocao. Como  que se podia 
levar a srio aquela f supersticiosa, vinda do fundo do tempo, e que 
no se conseguia suprimir nem mesmo na era dos homens que vo  Lua e 
das bombas nucleares? Era uma violao do territrio mdico, ou seja, 
do seu territrio pessoal! Aquilo era brincar perigosamente com os 
doentes, que, evidentemente, estavam sempre prontos a votar uma 
confiana cega em quem lhes prometesse uma cura depois de todos os 
outros o no terem conseguido. Era este engano que encerrava o que 
havia de criminoso naquelas carcias que, de outro modo, seriam 
apenas ridculas. Era, portanto, necessrio pr fim quilo tudo.
Desejava falar sobre isso com o seu amigo Roemer, que tambm no 
deveria deixar passar a oportunidade que representava uma operao. 
De que serviria correr para a morte "sem rdeas e com todo o garbo 
possvel?...", para utilizar a sua prpria expresso.
Mas Roemer no se encontrava em casa. Tinha partido de carro, 
declarara a empregada que viera abrir a Willbreit. "Para onde foi?", 
perguntara Willbreit. "No me disse... "
Foi ento que, ao voltar para o centro de M'nster, por um desvio 
inesperado provocado por obras, vislumbrou o carro de Roemer parado  
beira do passeio de uma pequena rua de comrcio. No havia nenhuma 
dvida, era mesmo o carro dele! Willbreit avanou lentamente at um 
lugar vazio no meio de dois carros e estacionou l o seu. Olhou 
atravs do vidro e verificou que no se enganara: no banco de trs 
havia duas almofadas de vison azul, entre as quais Elise Roemer 
"fazia poses", como dizia o marido.
Espantado, Willbreit olhou  sua volta. Que faria Roemer naquela 
ruela? S havia ali lojas, e lojas que no eram da classe daquelas 
que o presidente do tribunal de 1.a instncia costumava frequentar: 
uma papelaria, uma charcutaria, uma florista, uma padaria, uma montra 
de mveis estofados e uma sapataria que fazia menos trinta por cento 
nos preos... Talvez Roemer tivesse num daqueles prdios uma amante 
secreta... Mas ele no era estpido, e se fosse o caso teria 
estacionado o carro noutra rua...
Que fazer? Willbreit decidiu que esperaria meia hora. Mal acendera um 
cigarro, viu um homem de fato-macaco, balanando na mo um pequeno 
molhe de chaves, com um cachimbo ao canto dos lbios, e que, sem se 
apressar, abria a porta do enorme carro e se deixava deslizar para o 
assento do condutor.

Com trs passos, Willbreit ficou atrs dele. O desconhecido ainda no 
tinha fechado a porta. Dirigiu a Willbreit um olhar de admirao, o 
que no impediu que fizesse dar a volta  chave de contacto. O motor 
comeou imediatamente a trabalhar.
- O que  que est a fazer nesse carro? - gritou Willbreit.
- Tem alguma coisa a ver com isso? - respondeu o homem.
- Este carro pertence ao juiz Roemer.
- Est bem, e depois?
- Chamo-me Willbreit e sou um amigo do presidente.
- E eu chamo-me Fritz Sinsemann e sou mecnico.
- Ele deixou-lhe o carro para reparao?
- No!
- Mas vejo-o a sentado de fato-macaco...
- Tem alguma coisa contra os fatos-macaco? Olhe que  bastante 
cmodo, senhor Willbreit.  noite pe-se na mquina de lavar e no dia 
seguinte de manh j no tem nenhuma ndoa!
- Quando  que o presidente Roemer vir buscar o carro?
- No fao a mnima ideia. Alugou um Ford at amanh ao meio-dia.
- Alugou... - Willbreit tinha-se inclinado um pouco mais na direco 
do homem e sentiu de repente as batidas do sangue, que corria mais 
depressa nas veias das suas tmporas. - Ento alugou um carro?
- Sim, um Ford. - O homem tirou do bolso um carto que estendeu a 
Willbreit. - Se um dia precisar de um carro, tem aqui o meu carto: 
"Sinsemann e Filho, carros de aluguer e garagem de reparaes." Se 
vier ter comigo economizar alguns marcos em relao s grandes 
firmas...
Desconcertado, Willbreit, de carto na mo, seguiu com os olhos o 
carro de Roemer, que se afastava e desapareceu quase imediatamente 
por um grande porto.
Roemer adorava o seu carro, que possua uma carroaria especial e 
estava equipado a seu gosto. Onde teria ido com um Ford de aluguer 
demasiado pequeno para ele? Como um relmpago, um pensamento 
atravessou-lhe a cabea e teve a impresso de ter recebido uma 
descarga elctrica que, alastrando por todo o corpo, lhe infligia uma 
inibio momentnea. No, no era possvel! Por mais desesperado que 
estivesse, Erasmus Roemer no iria cometer tal parvoce! Sabia que 
ningum o desembaraaria duma congesto mortal do fgado com as 
macaquices das carcias areas duma Corina Doerinck! Erasmus, 
Erasmus, vejamos! Essa rapariga  perigosa...
Correu at ao carro e, ainda no estava bem sentado, j estava a 
pegar no telefone:
- H algo de novo? Algo de particular? - perguntou, procurando 
recuperar o flego e dominar as batidas do corao.
A voz calma e indiferente da assistente ressoou no auscultador.
- O cancro dos pulmes do dezanove morreu. O doutor Brandes fez o 
necessrio.  parte isso, no h nada a assinalar, professor.
- Obrigado. Diga ao doutor Gabionz que lhe peo que me substitua na 
visita do fim da tarde. Fiquei retido fora de M'nster e no sei 
exactamente quando regressarei. Voltarei a ligar.
- Podemos telefonar-lhe para algum stio, professor?
- No antes da noite. Est tudo bem, no  verdade?
- Como de costume, professor...

Willbreit desligou. Podia confiar em Ema Taube. H vinte anos que 
dirigia os servios anexos aos blocos operatrios. Para Willbreit e 
para os outros cirurgies, aquela mulher no tinha preo.
Antes de arrancar, Willbreit fumou mais um cigarro e analisou 
febrilmente a situao. "Devo precipitar-me para Hellenbrand e 
arrancar Roemer s garras daquela rapariga? Seria provocar uma 
discusso intil. Se Roemer quer deixar acariciar o seu fgado  
distncia, o problema  dele. Recusa-se a ser operado? Seja. j 
ningum pode fazer nada por ele. Do ponto de vista moral, pode-se 
permitir-lhe que se refugie numa iluso que, durante mais ou menos 
tempo, o encher de esperana, de felicidade, e que o reconfortar 
espiritualmente... Isso, at uma quebra ainda mais atroz. Felizmente 
o seu sofrimento ser breve. Se entrar rapidamente no coma final, 
ter tido mais uma vez muita sorte."
Mas ento porque  que Willbreit se dirige para a auto-estrada? 
Porque toma a direco de Notuln? Sai da auto-estrada durante um 
momento, chega a Havixbeck, muda de opinio e envereda por um atalho 
em Lasbeck. A seguir, quanto mais se aproxima de Hellenbrand, mais 
diminui a velocidade. Ei-lo que pra sob um grupo de olmeiros, donde 
contempla silenciosamente as suaves ondulaes daquela velha terra 
cultivada desde h sculos e brilhando hoje ao sol.
Que fora  aquela que o impede de voltar a ser ele mesmo? Porque  
que fica na borda de uma estrada de campo, incapaz de se libertar do 
ascendente mgico de uma mulher igual a tantas outras? Porque  que  
em vo que considera o nmero de loucos e de loucas que existem neste 
baixo mundo? No  uma Corina a mais ou a menos que mudar seja o que 
for. Um compra uma banheira com uma camada de gordura com um 
objectivo mdico qualquer e outro contenta-se com carcias areas. 
Cada imbecil tem direito a ter o seu pequeno prazer. Que importncia 
tem tudo isso? V, volta para trs, espcie de louco, a pretender 
lutar contra a estupidez e a ignorncia humanas!
Mas ento porque d consigo a dirigir-se, contrariado  certo, para 
Hellenbrand e, portanto, para casa dos Doerinck?
Corina estava sentada a tecer diante de um largo tear e trabalhava 
numa tapearia que reproduzia a lenda do licorne, quando um Ford 
cinzento parou no ptio diante do local onde ela instalara o atelier. 
Depois de lhe dirigir uma olhadela, continuou a apertar na trama os 
ns que j tinha comeado. A seguir a campainha da porta soou na sala 
da frente, que lhe servia de sala de exposies, e ouviu algum a 
tossir, assim como barulho de passos.
- Um momento, se faz favor! - gritou. - Vou j.
Levou alguns segundos a arrumar a l e o trabalho em curso e passou 
as mos pelos cabelos. Mas, antes mesmo de ter terminado, j o 
cliente estava atrs dela.
- Vai ficar admirada - disse uma voz levemente ofegante. Voltou-se 
lentamente no banquinho em que estava sentada e ps-se de p sem uma 
palavra. - At eu estou admirado. Como dizia a jovem esposa a seguir 
 noite de npcias: " s? Ento vamos voltar ao princpio..." Ria, 
peo-lhe!
- Senhor presidente!
Ele levantou a mo e mostrou-se repentinamente com um ar muito 
cansado.

- A minha idade permite-me propor-lhe que deixe de lado os ttulos e 
as formalidades, Corina. Precisava de a ver. No pude deixar de o 
fazer.
- Com aquele carro?
- De um certo ponto de vista, sou um cobarde, Corina. Quis preservar 
uma espcie de anonimato para evitar que dissessem: "Olha s, o velho 
imbecil do Roemer que agora se entrega a uma feiticeira!"
- No sou uma feiticeira. - O seu olhar afastou-se do homem, que se 
encontrava imvel diante dela. - Deseja encomendar um dos meus 
tapetes? Tem um modelo ou um desenho que lhe agrade?
- Sim, um homem que come uma pratada de fgado assado: do seu prprio 
fgado! - Deu um suspiro, que era quase um gemido. - Corina, acertou: 
o professor Willbreit disse-me toda a verdade. Mas no falemos mais 
dele! Eis-me aqui diante de si e j no sei que mais hei-de fazer.

Captulo quinto

Na vida h certas coisas, certos sentimentos, que no conseguimos 
definir e aos quais no conseguimos dar nome. E, no entanto, bem 
sabemos que tudo tem um nome. Com efeito, em circunstncias normais, 
tudo e todos parecem trazer uma etiqueta, at talvez demasiadamente. 
Mas quando nos encontramos diante dum homem que chegou ao extremo 
ltimo da esperana, dizemos para ns mesmos: ele tem medo. Mas a 
palavra "medo" est bem longe de exprimir o que ele sente, o fundo do 
seu desespero, do seu pnico. Nenhum dos nossos conceitos abrange tal 
realidade.
Roemer deu alguns passos no atelier como se fosse um enorme urso 
desajeitado e, no vendo outro lugar para se sentar a no ser o banco 
de trabalho de Corina, deixou-se cair sobre ele, cobrindo-o 
completamente com a sua massa, de tal maneira que parecia estar a 
flutuar no ar.
- Sim,  assim mesmo... consigo j tinha recebido a descarga em pleno 
corao.
Ela no respondeu e refugiou-se um instante na sala de exposies 
para ficar sozinha. Quando voltou, Roemer, que respirava com 
dificuldade, tinha desfeito o n da gravata e aberto o colarinho da 
camisa.
- O que  que o professor Willbreit o aconselhou a fazer?
- Uma operao. Cinquenta por cento de hipteses de xito.
-  preciso que tente.
Roemer abanou a cabea.
- E em caso de xito aguarda-me um fim de vida pior do que a morte... 
Corina, quando o meu amigo Thomas Willbreit me falou de si, brinquei 
estupidamente, como  meu costume. A seguir, o doutor Hambach 
mostrou-nos a ltima radiografia da sua me e, mesmo nessa altura, 
pensei: "Por trs disto esconde-se uma armadilha para palermas. A 
mida - era voc - encontrou uma maneira de deturpar esta imagem. 
Porque ter feito isso?, perguntei a mim mesmo. Certamente por razes 
psicolgicas, sem dvida para levantar o moral  me com tal mentira, 
tanto tempo quanto possvel, at ao momento em que a mentira cair por 
si mesma."
- A minha me est quase curada... quase! - disse secamente Corina.
- Agora sei-o. Seno, estaria aqui? Os seus dedos emitem uma energia, 
uma irradiao que aniquila as clulas doentes. At hoje nunca tinha 
ouvido falar disso e se algum me tivesse assegurado que era 
possvel, teria levado o dedo  cabea: isso  uma loucura, no h 
nada que seja mais impossvel do que isso. Mas agora acredito, 
Corina... Est a olhar para mim, mas no me diz nada... A srio que 
acredito no poder das suas mos.
- No posso ajud-lo.
- No diga isso! Por favor, no diga isso! H algum que saiba o que 
existe em si e que possa explicar-lho?
- Ningum. Eu mesma o ignoro. Creia que isso tambm me inquieta a 
mim, por vezes. Por exemplo, toco numa flor murcha e logo ela retoma 
o vio. Uma vez olhei para um anel que estava em cima da mesa, em 
casa, e que nunca tinha visto, e o anel comeou a vir ao meu 
encontro... Soube mais tarde que tinha pertencido ao meu av. Deu-o  
minha me como uma espcie de talism quando ela se casou com o meu 
pai...

- Uma flor murcha... e manda-me embora! Consegue sarar um cancro com 
as irradiaes das suas mos. Curou o doutor Hambach da sua 
prostatite. E alcanou certamente outras vitrias que s voc 
conhece, no  verdade? Porque  que ento eu seria o nico que voc 
no conseguiria curar?
- H limites para tudo, mesmo no meu caso. Nunca poderei curar o seu 
fgado.
- Tente... Meu Deus, pode ao menos tentar!
Ela meneou a cabea com alguma tristeza.
- No posso curar uma pessoa se no estou segura da sua cura. A fora 
que possuo, seja qual for o nome que lhe der, desaparece num caso 
desses. Quando o olho sei que ela no me servir de nada.
- E se tentasse ainda assim... peo-lhe... - A sua voz era quase 
inaudvel. - Corina, estou  beira do desespero, pronto a 
precipitar-me no abismo... sabe isso, no  verdade?
Ela voltou-se, foi at  janela e olhou longamente para o jardim. O 
armazm onde instalara o atelier tinha uma histria. Erguia-se no 
meio dum grupo de rvores que haviam rodeado outrora uma quinta como 
se se tratasse de uma muralha de verdura. O corpo principal daquela 
construo tinha ardido no fim da guerra. Fora incendiada 
voluntariamente como vingana dos prisioneiros, que eram quase todos 
russos, e se tinham espalhado pelas aldeias, armados com machados, 
cacetes, foices e facas de carniceiro, pilhando e saqueando, at os 
americanos os fecharem num campo esperando o momento de os mandar 
para o Leste em comboios especiais. O proprietrio queimara a sua 
quinta, assim como a mulher e o filho mais novo. E tinha explorado 
duramente trinta prisioneiros de guerra. Tratara-os a pontaps e a 
pauladas, quase no os alimentando com a desculpa de que o seu filho 
mais velho cara em Koursk...
S o armazm ficara de p e vazio durante anos. Ningum o queria por 
causa dos mortos. Alm do mais, uma certa Lina Korthaus, andando um 
dia a apanhar cogumelos ao crepsculo, tinha visto o velho campons a 
fumar cachimbo no stio onde outrora se erguia a sua casa. O pastor 
esforou-se em vo por a desenganar. "Vi-o. Estava ali e fumava 
cachimbo... Conheci-o bem, ao Philippe!"
Bem que podiam no acreditar na pobre Lina. O que  facto  que 
ningum tinha querido ficar com a granja, at ao dia em que Corina 
disse ao pai: "H um lugar maravilhoso para um atelier, um grande 
armazm.  a velha granja das Schulte-Haffnung, que posso remodelar 
com muito pouco dinheiro. "

H muito que conhecia aquele lugar maldito. Quando era criana, fazia 
sempre um grande desvio para evitar aquele terreno. Tinha quinze anos 
quando ousou ultrapassar pela primeira vez o renque de rvores e 
deixar a bicicleta encostada ao muro da granja. Hesitante, entrara no 
interior da construo onde a acolhera um cheiro a mofo e a podre que 
se lhe tinha alojado na garganta. As aranhas tinham tecido teias 
enormes entre as vigas bolorentas do tecto. "Se o Philippe aparece", 
pensara ela, "no conseguirei escapar..." Irei direito a ele e 
perguntar-lhe-ei: "Porque regressas aqui? Morreste. Mataste-te e o 
teu corpo ardeu. No podes modificar nada do que est feito, 
Philippe. Precisas de descansar..." Mas nenhum fantasma surgira. 
Tinha dado a volta  construo, repentinamente liberta da sua 
inquietude. Pelo contrrio, sentira-se protegida de todo o mal e, 
sentada sobre um monte de madeira cheia de bichos que tinha empurrado 
para o centro do espao vazio, l ficara a sonhar durante toda a 
tarde.
Em seguida, voltara frequentemente quela construo vazia para 
reflectir sobre o que a preocupava, como, por exemplo, o gato. Este 
tinha aparecido um dia esqulido e com uma ferida infectada no lombo. 
Depois de ter andado com precauo  volta de Corina, instalara-se 
aos ps dela a ronronar. Ela acariciou-o. Por volta do quarto 
encontro, a ferida sarara e fora substituda por uma espcie de 
crosta seca que cara por si mesma. Porqu? E tambm no stio em que 
tinha tocado numa viga vira cair o bolor, todo seco. Estranho, tinha 
Pensado.
A pedido da filha, Doerinck comprou, por uma pechincha, a granja 
abandonada, o que forneceu aos habitantes de Hellenbrand um tema de 
conversa que se tinha prolongado por vrias semanas. Vejam bem: o 
professor Doerinck casara-se com uma russa, no  verdade, e no 
tinham sido os russos que tinham queimado a quinta e morto os seus 
ocupantes? Havia ali algo de esquisito, sem dvida nenhuma!
Um dia, um desconhecido colara na porta da granja um papel 
grosseiramente pintado: "Isba russa". A polcia da aldeia tinha 
fotografado e retirado o objecto do delito. Naturalmente, o inqurito 
no revelou nada.
Mas Corina tinha aceite o desafio. Por cima da porta, tinha afixado 
outro letreiro, mais bem escrito, com uma nica palavra em russo: 
"Datcha". Perante tal provocao, a indignao em Hellenbrand tinha 
sido enorme! O prprio reitor ficara impressionado. Chegou at a 
avisar o seu colega Doerinck.
- Devias falar  tua filha. Ela exagera. No quero meter-me nisso, 
mas s o meu adjunto e toda a gente gosta de ti aqui...
- A minha filha tem vinte e oito anos... Porque  que no lhe falas 
tu?
As coisas tinham ficado por ali. Como sempre acontece neste mundo, 
algumas semanas mais tarde cessou-se de falar no assunto. Uma pequena 
empresa de Billerbeck transformou a granja. Ao cobrir o solo com uma 
nova camada de cimento, descobriu-se um pequeno cofre em ferro a 
enterrado. Continha todas as jias da ltima proprietria, Elfriede 
Schulte-Haffnung. O seu valor foi calculado em oitenta mil marcos. A 
municipalidade felicitara-se por aquele dom inesperado: era a nica 
herdeira legal da famlia desaparecida e as pessoas da aldeia tiraram 
a sua lio da histria: "Nunca mais voltaremos a ver o Philippe. Ele 
s vinha para vigiar as jias. A partir de agora, acabou-se..." Pouco 
depois, deflagrou na Cmara um incndio, que, alis, se conseguiu 
apagar rapidamente, mas de que nunca se chegou a conhecer a causa.
Com a testa apoiada no vidro da janela, Corina tinha os olhos 
fechados... Roemer no pde deixar de estremecer quando, de repente, 
a viu juntar as mos esguias e longas na atitude da clebre gravura 
de D'rer.
- Levante-se - disse ela repentinamente.
A sua voz tinha mudado e rompera to brutalmente com um silncio 
angustiante que Roemer, sobressaltado, se ps de p num salto.

Ela dirigiu-se lentamente na direco dele mantendo sempre as mos 
juntas. O brilho dos seus olhos negros parecia trespassar Roemer. 
Este sentiu-se percorrer dos ps  cabea por uma onda de calor que 
no se parecia nada com o calor sufocante que sentira em Bali, mas 
que fazia o suor escorrer de todos os seus poros como se fossem 
milhares de pequenas torneiras que se encontrassem dissimuladas 
debaixo da pele. Deste fogo interior nascia uma espcie de xtase...
Ali estava ela, to pequena, to delicada, diante daquela montanha de 
carne. Ele viu-a levantar a mo direita, e deix-la deslizar ao longo 
do seu corpo, com os dedos fechados e ligeiramente encurvados 
vibrando  distncia. As suas mos pareciam pequenos espelhos 
parablicos a receber e a emitir ondas.
Ele continuava petrificado  espera de um milagre. S os seus dentes 
rangiam imperceptvel e involuntariamente.
- Sente alguma coisa? - perguntou ela repentinamente.
Os olhos de Roemer tornaram-se maiores, como que desesperados, sem se 
afastarem da cabeleira negra de Corina.
- Nada... ainda nada... - gaguejou ele.
- Com efeito, no pode sentir nada. - Ela deu trs passos para trs 
e, com um gesto surpreendentemente selvtico nela, cobriu com as mos 
o rosto tenso, que se tornara anguloso pelo esforo que tinha acabado 
de fazer. - Eu tambm no senti nada, doutor Roemer. Mesmo nada, 
infelizmente. No funciona. Eu j sabia...
- Mas eu quero viver!... - gritou Roemer.
A sua angstia explodia duma s vez.
- Quero viver, viver! Tente mais uma vez, Corina, s mais uma vez. 
Suplico-lhe. Creio em si e na sua fora. Tente uma vez mais.
Ele lanou-se sobre ela com uma rapidez incrvel para um homem com o 
peso dele e apertou-a contra o peito. Com uma fora de que ningum a 
julgaria capaz, Corina afastou-se empurrando-o com os dois punhos e, 
fingindo deixar-se cair, libertou-se como um gato selvagem daquele 
abrao desesperado... Encontrou-se  porta do atelier em dois saltos 
e disse com os olhos chispando:
- No volte a fazer isso. Nunca mais, ouviu? Estraga tudo.
- Eu quero viver, Corina! - Como um cego, tacteou a janela, acabou 
por conseguir abri-la e gritou na direco das rvores: - Viver... 
Viver...
Foi o seu ltimo grito de desespero, como se toda a sua energia 
tivesse acabado de o abandonar definitivamente, de tal maneira que 
Corina, com piedade, se aproximou dele.
Ela tinha de novo juntado as mos e Roemer teve um sobressalto de 
esperana: "Ela est a reunir as suas foras e vai tentar de novo... 
"

- Oua bem. Quando me foram, tudo se apaga em mim. Tenho de ser 
livre, totalmente livre, no que toca aos meus pensamentos e aos meus 
gestos. Desde que sei que sou diferente dos outros que tentei 
encontrar uma explicao. A mais convincente vem da Rssia. - Sorriu 
ligeiramente como para se desculpar de falar no pas da me. - Na 
Universidade de Alma-Ata, capital do Cazaquisto, existe um pequeno 
grupo de investigadores (qumicos, biofsicos, mdicos, bilogos e 
psiquiatras) que estuda o segredo das irradiaes emitidas pelos 
homens. Baptizaram este fenmeno com o nome de energia bioplasmtica. 
Dois deles, Iniuchine e Grichenko, atravs de aparelhos pticos 
parecidos com microscpios, tornaram visvel o campo de irradiao 
que rodeia o corpo humano e que  uma espcie de aura. Um engenheiro, 
Kirlian, e a mulher, Valentina, tiraram fotografias desta aura graas 
a um dispositivo electrofotogrfico criado por eles. Este dispositivo 
utiliza as altas frequncias e  conhecido mais resumidamente como "a 
fotografia Kirlian". Ora esta bioenergia s pode desenvolver-se livre 
e eficazmente num ser humano em certas condies, caso consiga 
concentrar-se sem ser perturbado nem influenciado seja de que maneira 
for. Compreende?
- No. Quem pode compreender uma coisa dessas?
Procurando sentar-se, levantou o banco que cara durante a breve 
luta, p-lo no lugar e deixou-se cair sobre ele.
- Poderia passar horas em explicaes, assim como eu poderia ler 
centenas de livros sobre o assunto. De qualquer maneira, tudo isso 
seria fantstico para mim, to alheio  nossa formao ocidental que 
sou obrigado a abandonar qualquer racionalidade e a abordar o domnio 
da f. Eu creio! Creio em si, Corina.
- No entanto, eu falho consigo, doutor Roemer.
- Mas porqu? Porqu? Que h em mim?
- No sei. No consigo explicar. As minhas mos no reagem consigo.
- E  s comigo?
- At agora, sim. Nunca antes senti este vazio...
Escondeu o rosto entre as mos e, depois de um instante de silncio, 
disse numa voz diferente:
- Meu Deus! Que fiz eu ento para merecer esta maldio? Sim, bebi 
sem sede e forniquei sem amor, e s me casei com a Elise porque ela 
me traria milhes. Vivi como um pax. Mas, por outro lado, sempre fui 
um juiz justo e nunca me deixei subornar. Se encurralei at s 
ltimas consequncias alguns dos acusados que compareceram diante de 
mim foi apenas para melhor os conhecer, at que, tal como uma esttua 
de cristal, ficassem nus diante de mim. Conseguia assim reconstituir 
o meio a que pertenciam e que os condicionara. Sempre que emiti 
sentenas foi em conhecimento total de causa e em boa conscincia. A 
conscincia no pesa nada na vossa balana? - Deixou cair as mos e 
Corina apercebeu-se de que ele tinha os olhos vermelhos - Ento s me 
resta
a operao?
- Sim.
- Apelarei para os melhores especialistas do mundo. A Elise tem 
bastante dinheiro! - Levantou-se pesadamente do banco. - H quatro 
dias ter-me-ia embriagado, oh, no vulgarmente, com schnaps, mas 
elegantemente, com algumas garrafas de Chteau-Lafite ou de 
Chteau-Margaux, a acompanhar uma perna de cabrito-monts... Tudo 
isso acabou...
A ateno de Corina fixara-se desde h alguns segundos no roncar dum 
motor que se aproximava. A seguir apareceu um Maserati, que travou 
to brutalmente que a traseira derrapou para a esquerda. E o condutor 
quase no esperou que ele parasse totalmente para dar um salto do 
assento e pr-se a correr na direco da granja, como se quisesse 
fugir do seu prprio veculo. Da janela em que se encontrava, Corina 
disse:
-  o seu amigo. Vem arranc-lo das garras da bruxa e o
meu pai vem com ele. A conversa promete!
- Deixe-o ficar  porta! E feche a porta por dentro!
- Demasiado tarde. A minha porta est sempre aberta.

- Mas como  que ele descobriu que eu estava aqui?
Pela cara de Stefan Doerinck, que se aproximava mais lentamente, 
Corina via que o pai acabara de passar uma hora difcil: nunca lhe 
vira os traos to crispados nem a expresso to grave. A pequena 
campainha, que soava quando algum entrava, retiniu brutalmente e 
Willbreit precipitou-se para o interior, sem abrandar o seu impulso.
Corina alisou os cabelos para trs com as mos e lanou um olhar a 
Roemer, que, refugiado num canto, lhe fazia sinal para no deixar 
entrar ningum. A seguir, dirigiu-se para a
sala de exposio. Encontrou Willbreit quase espumando diante duma 
tapearia que ela terminara h uma semana.
- Ulisses e as Sereias - disse ela, visto ele se abster de a 
cumprimentar.
Confundido, perguntou involuntariamente:
- O qu?
- Ulisses e as Sereias.  o motivo da tapearia. Gosto de reproduzir 
cenas da Odisseia. Se esta no lhe agradar, tenho, por exemplo, 
Ulisses e os Porcos, que faz parte da srie de Circe.
- Onde  que ele est? - berrou de repente Willbreit.
- Ulisses? Olhe, est aqui o caixote da Odisseia...
A raiva convulsionava o rosto de Willbreit. Gritou ainda mais alto:
- Estou a falar de Roemer! Est aqui! Sei que est aqui! No minta! O 
carro que est l fora foi alugado por ele em M'nster...
- Ento menti-lhe? - perguntou Corina altivamente.
- Quero falar com o doutor Roemer.
- Quando ele desejar falar-lhe, ir ter consigo.
- No tem nenhuma conscincia! O que est a fazer  um crime!
- Ser que vou ter de usar os meus direitos e p-lo na rua? - Parecia 
cada vez mais calma e cada palavra que pronunciava era transparente e 
clara. - Quanto aos seus insultos,  certo que o meu pai no me pode 
servir de testemunha diante dum tribunal, mas tanto ele como o doutor 
Roemer esto a ouvi-lo. Quem lhe d o direito de dizer que o meu 
trabalho  criminoso?  criminoso fazer tapetes? O seu comportamento 
 ridculo!
Willbreit engoliu ruidosamente a saliva, sem flego.
- Sabe muito bem o que quero dizer.
- Os meus tapetes agradam ao doutor Roemer e ele veio aqui para 
encomendar um.
-  voc quem est a representar uma comdia ridcula!
- Ele desejava oferecer um tapete  mulher para o Natal. 
Infelizmente, tive de recusar a encomenda. Tentei explicar-lhe que o 
prazo era demasiado curto, dado que tenho outros clientes antes dele. 
- Pegou num caixote que estava em cima da mesa e abriu-o j no cho, 
diante dos ps de Willbreit. - Quer ver Ulisses e os Porcos? Se se 
decidir por este motivo, o prazo de entrega ser, no mnimo, na 
Pscoa do prximo ano. Nunca antes!
Willbreit tinha recuperado um pouco de sangue-frio.
- Onde est o doutor Roemer? - perguntou secamente.
- No meu atelier. Ele interessa-se pela minha tcnica de trabalho.
- Finalmente, uma resposta precisa! Posso v-lo?
- Oh! No ser necessrio!

Roemer apareceu. Saiu da sala vizinha, enorme, forte, aparentemente 
irradiando sade: um gigante de rosto rubicundo.
- Previno-te duma coisa, Thomas: acaba-se a nossa amizade se disseres 
uma s palavra a Elise sobre a tapearia que lhe quero oferecer.
Willbreit baixou a cabea, enterrando o queixo no colarinho e sem 
poder dizer uma palavra. Roemer saiu vencedor do duelo de olhares que 
se seguiu. Finalmente, Willbreit mexeu-se.
- Falemos seriamente, Erasmus...
- Com efeito! Porque me andas a espiar? - Como Willbreit no lhe 
respondeu com suficiente rapidez, apontou para o caixote que estava 
aberto no cho. - Visto estares aqui, aproveita a ocasio: folheia 
estes desenhos de tapearias. Alguns so maravilhosos, Thomas.
- j chega de disparates!  preciso...
- A tua situao, Thomas, faz-me lembrar a do homem que mijou nas 
calas. Foi mais inteligente do que tu. Reconheceu os factos: "No 
serve de nada mexer-me", disse, "a ltima gota j saiu!" - A voz de 
Roemer ressoava como nos melhores dias, ou seja, como uma semana 
antes. Voltou-se para Doerinck: - Tem uma filha formidvel, doutor 
Doerinck. Nunca vi tapetes to bonitos. Estou h uma hora a tentar 
dar a Corina uma ideia de quanto ela poderia ganhar se transformasse 
o seu negcio numa manufactura importante. Ela consagrar-se-ia a 
desenhar os motivos, os modelos, que seriam depois realizados por 
dezenas de operrias em numerosos teares. Mas ela no quer. Responde 
que uma obra de arte  nica e, portanto, recusa o trabalho em srie! 
 pena: os artistas so uns individualistas que no sabem nada de 
negcios!
Cada vez mais irritado, Willbreit no renunciava  luta.
- Durante quanto tempo  que esta comdia vai ainda durar?
- Qualquer comdia que se respeite tem trs actos, Thomas. Ainda s 
vou no prlogo do primeiro.
- A tua comdia no presta, Erasmus, e sabes to bem como eu qual 
ser o seu fim...
At ento, Stefan Doerinck tinha-se contido. De repente, explodiu com 
tal violncia que todos se calaram.
- Mas ento, o que  que se passa aqui? Primeiro, um professor que 
no merece tal ttulo vem incomodar-me a casa, dizendo que a minha 
filha est a cometer um crime e que  preciso chamar a polcia. 
Sigo-o at aqui e o que  que vejo? Que ela est a receber um 
cliente. Espero que se explique, professor Willbreit, e depressa! 
Conduziu-se em minha casa de maneira escandalosa, sem nenhum 
direito...
- Sem nenhum direito, com efeito - lanou Roemer. - No sei o que  
que ele lhe disse, doutor Doerinck, mas apresento-lhe as minhas 
desculpas em nome dele, por causa da nossa velha amizade.
- Nem faltava mais nada - tentou dizer Willbreit.
Nunca se tinha sentido to ridculo. Ia e vinha na grande sala de 
exposio, vendo-se sempre obrigado a desviar-se para evitar o 
caixote que estava no cho. A sua situao no era nada invejvel, e 
ele sabia-o. Se todos mantivessem a tese de uma encomenda de tapetes, 
ele no teria nenhum argumento para a rebater. Apenas lhe restaria 
pedir desculpas e partir envergonhadamente. Tratava-se para ele da 
mais terrvel das humilhaes.
- Acabemos com esta comdia - gaguejou.

- Estou absolutamente de acordo - rugiu Roemer. - Se te retirares 
agora, nenhum de ns tentar reter-te, Thomas!
- Tenho de te falar...
- Tomas-me verdadeiramente por um pupilo da assistncia pblica cujos 
passos tm de ser vigiados? Vim aqui comprar uma tapearia, ou 
vrias, e no s tu quem me vai aconselhar, visto eu no ter 
confiana no teu gosto. Telefona-me e marcaremos um encontro.
- Verifico que a razo e a lgica no imperam por aqui. - Willbreit 
tentava em vo encontrar uma sada digna. Parara diante de Corina, 
que continuava impassvel. "Que mulher fascinante", pensou, "mas 
perigosa e de que maneira! Quantas desgraas ir ela provocar?" Fez 
um ltimo esforo para ganhar vantagem. - O doutor Roemer  meu amigo 
e est ao corrente do seu estado. Se, prometendo-lhe falsamente a 
cura, o impede de seguir a nica terapia capaz de lhe prolongar a 
vida, responsabiliz-la-ei, Corina Doerinck.
Era de mais. Stefan Doerinck avanou para ele, descontrolado.
-  prefervel que parta agora, professor.
Corina tinha-se voltado para Roemer.
- Desaconselhei-o ou impedi-o de fazer alguma coisa?
- O meu amigo Thomas  um fantico. Na Idade Mdia teria sido 
inquisidor e mand-la-ia para a fogueira. No lhe preste ateno! - 
Como Willbreit queria replicar, ele cortou-lhe a palavra com um gesto 
e dirigiu-se para a porta do atelier: - Ainda temos de nos pr de 
acordo em relao ao desenho. Venha, Corina.
Desapareceu na sala vizinha e ouviu-se o banco estalar quando ele se 
sentou mais uma vez nele. Corina inclinou-se para fechar o caixote 
dos desenhos e voltou a p-lo em cima da grande mesa.
- Suponho que j no est interessado nos meus tapetes, professor.
Willbreit preferiu no responder. Deu bruscamente meia volta e 
abandonou a granja. Quando chegou l fora, esperou por Stefan 
Doerinck, que o seguira.
- Levo-o a casa...
Apercebeu-se de que tinha a voz rouca, desfeita, como ele prprio. 
Secamente, Doerinck declinou a oferta.
- No vai voltar a p, apesar de tudo.  um trajecto bastante longo. 
E preciso de lhe falar.
- No quero ouvi-lo e no tenho nada para lhe dizer.
- Seja razovel, doutor Doerinck.
- O que  que entende por razovel, voc que chamou criminosa  minha 
filha? Perguntei-me seriamente se no lhe devia administrar uma boa 
bofetada. Antigamente, quando era oficial...
- Esses tempos j l vo, doutor Doerinck. Agora  professor, 
reitor-adjunto e uma personalidade respeitada nesta Pequena cidade. A 
sua vida deve continuar a ser exemplar. A mnima ndoa na sua 
reputao recairia sobre todos os seus concidados. Se a sua filha 
continuar, isso pode ser-lhe prejudicial.
- Dir-se-ia que me est a ameaar! Fiz mal em querer acompanh-lo at 
ao seu carro. Agora, queira partir.
- Est inquieto, doutor Doerinck, mas  Corina quem o
inquieta, no eu. E  natural. Se tivesse uma filha que pudesse curar 
como a sua, tambm estaria inquieto.
- Reconhece ento que as mos de Corina podem fazer milagres?

- No! - Willbreit refizera-se depressa. - O que queria dizer  que 
na qualidade de pai faria o possvel para impedir que a minha filha 
se entregasse a comdias perigosas...
- Ela tem trinta anos. j no sou responsvel por aquilo que faz.
- Mesmo que isso possa arruinar a sua vida?
- No posso impedir-me de pensar que ficar feliz por contribuir para 
isso.
Willbreit abriu a porta do Maserati. Tinha ganho um ponto e sabia-o.
- Seria intil. A vida que tem levado foi plena de experincias e, 
portanto, deve ter ficado a conhecer as pessoas. Assim que se 
espalhar o rumor de que uma mulher de Hellenbrand faz milagres, vo 
ser todos esmagados por uma avalancha de histeria. Organizar-se-o 
peregrinaes em autocarros e em comboios especiais. As hienas da 
imprensa, da rdio e da televiso cairo sobre vocs. Para no 
mencionar o interesse das autoridades... E esta bola de sabo 
rebentar, como tudo o que  sensacional, e o senhor encontrar-se- 
sentado sobre as runas de uma felicidade que construiu com tanta 
dificuldade. - Tinha agora recuperado a sua habitual segurana. - No 
tenho nada contra si, doutor Doerinck. No quer subir?
- No, regressarei a p.
Voltou-se para olhar para a granja. Roemer estava  janela e parecia 
esperar que Willbreit, que continuava de p junto do carro, se fosse 
embora. Doerinck suspirou. "Ele tem razo"., no pde deixar de 
pensar. "A partir do momento em que o rumor das curas se espalhar, 
vai ser um inferno." Lembrou-se, de repente, da quantidade de gente 
que convergia para um curandeiro chamado Groening, que vendia bolas 
de estanho carregadas com o seu "fluido" at ao dia em que, como 
dizia Willbreit, a bola de sabo rebentou e aqueles fenmenos foram 
reconhecidos como sendo fruto da histeria colectiva. Iria acontecer o 
mesmo com Corina?
- Agradeo-lhe as previses apocalpticas, professor. Veremos o que 
se vai passar...
Esforou-se por ser sarcstico: era a nica sada. Willbreit, 
resignado, levantou os ombros, escorregou sobre o assento do carro 
desportivo e fechou a porta. Roemer no se tinha afastado da janela 
do atelier. Willbreit notou que ele limpava o rosto largo e gordo, j 
encharcado em suor, com o seu grande leno hmido e todo amarrotado. 
"Tem medo", pensou. "Sim, aquele pensamento horrvel no o abandona. 
Com aquela doena s lhe resta fazer o testamento e regularizar os 
seus assuntos. Erasmus,  preciso ultrapassar esse desespero e 
compreender que no existem milagres em medicina. As paredes dos 
lugares de peregrinao podem cobrir-se com muletas e ex-votos e 
virem de Lourdes as notcias mais estranhas sem que isso signifique 
que os milagres existem! E ainda menos em Hellenbrand, na provncia 
de M'nster!"
Doerinck seguiu com os olhos o carro que descia lentamente a pequena 
lea que conduzia  estrada. Hesitou. "Deverei voltar ao atelier de 
Corina? Que poderia dizer-lhe? J sei o que ela me responder: "Curei 
a me ou no?"  preciso que as coisas sigam o seu curso."

Comeou a andar lentamente, um pouco inclinado para a frente, com as 
mos atrs das costas, para tomar, por detrs do grupo de rvores, o 
estreito caminho que conduzia a Hellenbrand atravs dos campos. 
Demoraria meia hora, no mnimo, o suficiente para reflectir 
longamente.
Primeiro, no pai de Ludmila, David Semionovitch Assanurian. E, 
depois, no pai do mdico, aquele ancio corajoso que
os Alemes tinham fuzilado por sabotar a via-frrea Tillis-Batum. 
Como Corina se parecia com ele! No s pela sua coragem inabalvel, 
mas tambm por aquele dom misterioso de curar para alm dos limites 
reconhecidos pela medicina.
Um dia, tinha visto o doutor Assanurian manter a lmina nua duma faca 
por cima dos rins duma mulher sem lhe tocar. No entanto, a mulher 
pusera-se a gritar como se ele lhe estivesse a enterrar a ponta da 
arma nas costas e tinha desmaiado. Durante trs dias urinou uma urina 
amarelada e turva, espessa e nauseabunda. A seguir tinha-se 
levantado, com as pernas bamboleantes, para beber avidamente o leite 
azedo da sua cabra. Uma semana depois, curada e feliz, tinha ido ver 
o Dr. Assanurian e pusera-se de joelhos para lhe beijar a ponta dos 
sapatos. Doerinck, o oficial que as autoridades alems tinham 
instalado na casa do mdico, ficara mudo de assombro, sobretudo ao 
ouvir David Semionovitch dizer numa voz convicta: "Agora j pode 
trabalhar na quinta. O abcesso que tinha nos rins desapareceu."
O jovem tenente tinha ento perguntado com um sorriso irnico:
- Com o gume desta faca e sem tocar na doente?
- Peguei e esfreguei esse gume nas minhas mos durante trs minutos. 
Se o no fizesse, tratar-se-ia duma faca vulgar.
Para o jovem tenente alemo, tudo aquilo no passava de balelas. "Ah, 
estes Russos", pensara. "Aquela mistura de superstio e de f era 
tpica. Aquela gente vivia  margem do mundo civilizado... "
Bastante tempo mais tarde, quando j tinha casado com Ludmila e 
regressara  Alemanha, chegou um pequeno pacote, depois de ter 
percorrido um longo percurso pelo Iro e pela Turquia. Um camarada do 
velho Assanurian, como ele deportado na Sibria, tinha-lhes assim 
feito chegar a ltima recordao do exilado morto na taiga. Era um 
medalho contendo um cone representando o rosto de uma Nossa Senhora 
negra. Junto vinha uma pequena carta: "Envio-te este icone, 
Ludmilazinha, conforme o desejo de David Semionovitch, que o trazia 
sempre ao peito, para que ele te proteja. Repara nas mossas do vu da 
Virgem. So as marcas dos dentes de David Semionovitch. Antes de 
morrer, ps o cone na boca e apertou com muita fora. Morreu logo a 
seguir, corajosamente. Retirei-lhe o cone da boca e aqui estou a 
enviar-to tal como ele pediu. Que Deus abenoe e proteja a neta dum 
homem que estava to prximo de Deus... "
Ludmila beijara o pequeno medalho, que passou a trazer, tanto de 
noite como de dia, entre os seios, preso numa fita. A bem dizer, 
aquele objecto tinha sempre incomodado Stefan Doerinck durante o acto 
amoroso, pois sentia sempre medo de o quebrar. De qualquer modo, 
Ludmila no tivera a menor doena ao longo de todos aqueles anos. 
Quando havia epidemias de gripe, e o Dr. Hambach dizia que fazia o 
gnero de tempo que leva os mdicos a esfregar as mos, ela 
contentava-se com pousar os lbios no stio em que o av tinha 
deixado a marca dos dentes...
E depois, um dia, o cone partira-se.

Nenhum dos dois esquecera aquele dia. Era Inverno e estava um dia de 
sol magnfico. O solo achava-se coberto de neve, sob um cu azul que 
se estendia at ao infinito sem a mnima nuvem. Tinham ido com 
Corina, ento estudante em M'nster, ao Risauer Berg, que era 
simultaneamente uma colina de cento e catorze metros de altitude, um 
resto de moreia do ltimo perodo glacirio e um maravilhoso local 
para andar de tren. Doerinck possua um grande tren que podia ser 
dirigido  frente. Era a vez de Corina se sentar naquele lugar 
preferido. Ao vislumbrar uma fonte que quase se no elevava acima da 
neve, tinha querido evit-la. O tren voltara-se e tinham-se 
levantado os trs a rir at ao momento em que Ludmila, levando a mo 
ao peito, declarou de repente com olhos esgazeados: "O cone 
partiu-se... "
Estava, com efeito, partido a todo o comprimento, exactamente de lado 
a lado das mais distintas marcas dos dentes de Assanurian. Stefan 
tinha colado cuidadosamente o cone com uma cola especial que at 
colava o ferro. Mas por mais invisvel que fosse, tratava-se duma 
reparao. Talvez tivesse sido coincidncia: na Primavera seguinte, 
Ludmila contrara uma bronquite. Corina no interviera imediatamente: 
encontrava-se em M'nster e em pleno conflito com os professores. No 
entanto, como a tosse persistia, Corina comeara a abraar longamente 
a me,  noite, acariciando-lhe as costas secretamente e  distncia. 
Ao fim de quatro dias a tosse tinha parado. E Corina nunca mais 
voltou a falar daquela primeira cura antes da grande explicao que 
tivera com o pai h j algum tempo.
Como explicar que a fora misteriosa do cone tivesse desaparecido 
por ocasio do acidente? Ludinila continuara a andar com ele e 
chegara mesmo a dizer ao marido: "Quando morrer, quero conserv-lo 
comigo... "
Tinha sido com aquelas recordaes que Stefan Doerinck regressara a 
casa atravs dos campos. At fizera vrios desvios e repousara na 
borda dum ribeiro, olhando para as trutas que desciam a corrente numa 
gua estriada de liblulas verdes e azuis  superfcie. Ao chegar, 
chamou Ludmila. Ela estava atrs da casa, no jardim, sentada no banco 
pintado de branco no centro de um semicrculo de altos girassis. 
Cada ano semeava novos girassis em recordao da sua infncia, na 
Rssia que nunca esquecia.
- Foi-se embora? - perguntou ao ver chegar o marido, que se sentou 
perto dela.
Tinha vontade de acender uma cigarrilha e f-lo em silncio.
- Sim, foi - disse ele finalmente.
- E falou com a Cora?
- Naturalmente!
- E discutiram?
- Dentro dos limites aceitveis. Foi-se embora furioso, mas j era de 
prever. A Cora mandou-o friamente embora. - Aspirou longamente por 
duas vezes o fumo negro da cigarrilha. - Numa discusso daquelas, 
nenhum argumento, nem a favor nem contra,  vlido. H os factos: ora 
ele no pode aceit-los. Confesso que os factos so quase impossveis 
de admitir por um homem habituado a pensar racionalmente e a 
conseguir explicar tudo.  fora de tudo analisar, persuadimo-nos de 
que j no h mistrios no mundo que nos rodeia. E, bruscamente, eis 
qualquer coisa que no conseguimos explicar. No  de espantar que o 
maravilhoso nos choque e nos transtorne.

- Enquanto te vestias para ires com ele ao atelier de Cora, falei-lhe 
do meu pai, que era mdico em Poti e das pessoas que ele curou.
- E ele riu-se?
- No. Escutou-me em silncio, delicada e gravemente.
- Deve ter-se rido para dentro.
- No sei. Perguntou-me simplesmente: "Mas como  que os colegas dele 
encaravam esse gnero de tratamento pouco ortodoxo?" Respondi-lhe que 
iam ver o meu pai para se inteirarem do que ele fazia: que chegavam a 
vir de Tillis no comboio e que a seguir o apertavam nos braos e o 
beijavam  russa. Alguns, disse-lhe, at se faziam tratar por ele. 
Estavam cheios de respeito por aquele dom extraordinrio que ele 
tinha recebido do cu.
- E Willbreit engoliu isso tudo sem protestar?
- Ia a dizer qualquer coisa quando voltaste e ento mudou de ideias.
- Para ser ainda mais agressivo no momento seguinte.
Como o via fumar em silncio e olhando para ela de vez em quando, ela 
pegou-lhe no brao.
- Ests preocupado, meu amor?
- Estou, Ludmila. Creio que a vida feliz que levmos at agora se 
acabou.
- Talvez porque o icone do meu av se quebrou?
- No, no deves dizer isso. Antes de o cone se partir, j Corina 
possua aquele dom maravilhoso, no  verdade? Falemos antes de 
destino, de algo que est antecipadamente escrito e que aparece e se 
desenvolve ao longo da vida, como disse Goethe.
- Uma espcie de herana?
Inclinou-se para trs e olhou para o cu cheio de nuvens ligeiras que 
vogavam por cima deles, empurradas pela brisa de Vero.
- Lembras-te do que eu disse quando tiveste de bater em retirada com 
os teus homens? Estvamos deitados na borda do lago, como nos 
acontecia frequentemente. Sabia h vrios dias que tinhas de partir. 
O meu pai recebia tantas informaes secretas! Com efeito, toda a 
gente ignorava que um grande nmero dos seus doentes eram 
guerrilheiros ao corrente de todas as notcias, como, por exemplo, 
que o Exrcito Vermelho tinha iniciado uma ofensiva, que a frente 
alem fora batida em vrios stios e que as vossas divises, que 
estavam dispersas, deviam recuar, de maneira que tambm o teu 
batalho teria de seguir aquele movimento. Disseste naquele dia: 
"Levo-te comigo. Seja qual for o resultado da guerra, encontraremos 
maneira de entrar juntos na Alemanha." Pousei a minha cabea molhada 
no teu peito nu (tnhamos acabado de nos banhar) e respondi-te: 
"Liubimets, meu amor, parte sozinho! Conhecemos juntos o paraso, mas 
j no existe nenhum paraso na terra. Que farei na tua Alemanha? L 
s te poderei trazer infelicidade." Mesmo assim, insististe em 
trazer-me e apesar do que eu tinha dito, tudo foi diferente, belo e 
cheio de felicidade. Mas agora, com o avanar da idade, comeo a 
trazer-te a infelicidade que tinha previsto.
- Meu Deus, como  que podes dizer isso, meu amor, Ludmilanka! - 
Puxou-a para ele, beijou-lhe a testa, os olhos, os lbios, e 
apertou-a nos braos como se no a quisesse largar mais. - Trata-se 
de aguentarmos juntos os golpes, como outrora.

- Vo tentar esmagar-nos.
- E no conseguiro! - Por cima da cabea da mulher ele via os 
girassis que o vento agitava como vagas. - No, no conseguiro.

- Foram-se finalmente embora - anunciou Roemer, retirando-se da 
janela. - Tinha visto o Maserati desaparecer com Willbreit, 
desamparado e furioso simultaneamente, ao passo que Doerinck se 
afastava a p, lentamente, atravs da cintura das rvores e dos 
campos at Hellenbrand. - Conseguimos afugentar o inimigo, hem? Foi 
ptima a sua ideia de me transformar em cliente. E ao mesmo tempo  
absolutamente verdade: encomendo-lhe uma tapearia ou um tapete. O 
que for mais caro. Diga apenas o seu preo. Aceito-o antecipadamente.
- Senhor presidente, penso que tambm deveria ir-se embora...
Tinha pegado no banquinho e voltara a p-lo no seu lugar para se 
sentar diante do grande tear. Roemer olhava-a da janela, com ar 
desarmado, como uma criana a quem tivessem dito para sair da 
presena dos adultos.
- E para onde irei? - acabou por murmurar.
- Tem uma bela casa.
- Desde que esta histria comeou, tenho a impresso de que o telhado 
me caiu em cima da cabea.
- E tem certamente uma bonita mulher...
- Parece que anda a caar ursos na Hungria em boa companhia. Estou 
sozinho.
- Mas tambm no pode ficar aqui, se  nisso que est a pensar.
- Evidentemente que no. Mas, peo-lhe, no me ponha na rua. Tenho 
necessidade de falar com algum, de falar de mim. E com quem mais o 
poderia fazer? No diga: tem bastantes amigos. Sim, tenho: amigos da 
universidade, do caf, do regimento, do clube de jogadores de malha e 
do clube de golfe. Neste sou apenas membro honorrio: no me deixam 
andar no terreno com o pretexto de que lhe fao buracos! Mas sero 
mesmo amigos? Esperam todos que lhes conte a ltima histria, a 
ltima anedota, e quando no tenho nenhuma, h que inventar. Se lhes 
dissesse: "Ouam. bem, s me restam alguns meses de vida... ", 
desatariam a rir imediatamente e ficariam  espera do desfecho da 
anedota, da reviravolta final. Mas desta vez eu ficaria sem me mexer 
mais depois da reviravolta final.  terrvel o facto duma vida to 
repleta de coisas como a minha seja, afinal, to vazia! Estou s. S 
voc me pode escutar... e ajudar.
- No, no posso fazer nada por si... Porque no quer compreend-lo?
- Conhece a histria do velho casal que dorme na mesma cama. O marido 
diz de repente: "Queres que te ajude?" A mulher responde: "No, 
porqu?" E o marido diz, tristemente: "Pareceu-me que a cama estava a 
mexer..." - Roemer deu uma risada descarada: - Pode-se sempre ter 
esperanas, no ? - Deu alguns passos para a frente limpando uma vez 
mais a cara com o enorme leno, que j no passava de um trapo 
molhado. - Posso voltar?
- J lhe disse: a minha porta est sempre aberta.
- Voc  a minha nica esperana, Corina. Parece uma fala de actor, 
exagerada e de mau gosto. E, no entanto,  verdade. Agarro-me a si, 
Corina, como a uma bia.

Ela pegou no fio de l e comeou a fazer o n prendendo-o sob a 
corrente, antes de dizer numa voz muito doce:
- Faz-me muita pena, doutor Roemer, mas no posso fazer nada por si e 
o senhor sabe-o. Volte para casa.
Era, portanto, o fim...
Ela viu-o abandonar a granja num passo hesitante e entrar no Ford de 
aluguer. Ficou um instante sentado, preso entre o volante e as costas 
do assento, que ele empurrara para trs o mais possvel, sem, no 
entanto, obter espao suficiente para se sentir  vontade. Que 
poderia fazer a partir de agora? A nica coisa que lhe vinha ao 
esprito era uma reaco desesperada: revoltar-se contra o destino. 
Contra-atacar mesmo se a derrota era certa.
Quando chegou  auto-estrada, ultrapassou M'nster, quase a rodeando, 
para se dirigir a Hilltruper See e ao seu lago, onde parou, como de 
costume, diante do edifcio onde se tinha quase a certeza de o 
encontrar quando ele no estava em mais nenhum stio: o Waldhotel 
Krautkramer.
Rgido pela imobilidade forada e prolongada da posio torturante em 
que tinha guiado, conseguiu arrancar-se do Ford com um forte gemido e 
esperou alguns segundos at sentir que o sangue voltava a circular 
nas veias, prestando assim ateno ao que se passava no interior do 
corpo: nada, nem um nico barulho suspeito. Tudo parecia normal como 
habitualmente. No, nada indicava ainda que era um homem condenado  
morte. Uma ideia louca atravessou-lhe o esprito: a medicina moderna 
podia-se enganar. Apesar das radiografias, dos exames com ultra-sons, 
das angiografias, das anlises mais minuciosas e complexas do sangue 
e da urina, devia haver, mesmo assim, uma possibilidade de erro.
Krautkramer, pai, acolheu-o, como sempre o fazia, no hall do hotel 
para o conduzir pessoalmente  mesa em que costumava ficar, perto da 
janela. Mal acabou de se sentar, Roemer comeou a dar as suas 
indicaes.
- Hoje, meu caro, no vai haver restries. Confio em si para 
encomendar os pratos e os combinar. Mas faa abrir imediatamente, 
para que o vinho tenha tempo de respirar, as seguintes garrafas: uma 
de Btard-Montrachet do domnio Prieur-Brunet para comear e, para 
acompanhar o assado, uma de Musigny do domnio Armand Rousseau.
- Vou ser indiscreto, senhor presidente: festeja algo de particular 
de que eu possa felicit-lo?
- E de que maneira! - Inclinou-se para trs na cadeira fazendo, como 
sempre, estalar a madeira. - Conheo j a hora da Minha morte!
Krautkramer, pai, estupefacto, inclinou-se por hbito profissional e 
deu trs passos para trs como diante de um rei, antes de fazer de 
novo uma saudao e de se voltar. Esperou ficar fora do campo de 
viso de Roemer para abanar a cabea.

Os acontecimentos demoliram a tctica de Willbreit, que pretendia 
enterrar sob um manto de silncio a petulncia e o poder mgico de 
Corina Doerinck. No foi culpa nem de Roemer nem do Dr. Hambach e 
ainda menos de Willbreit. A notcia de que uma criadora de tapetes de 
Hellenbrand podia "fazer desaparecer" certas doenas como por 
encanto, apenas pela simples imposio das mos, veio de outro lado.

A primeira pedra da avalancha comeou a rolar durante um ch 
oferecido pela Sra Huiskens, esposa de Peterpaul. Huiskens, o bem 
conhecido fabricante de comutadores elctricos "Hura'vest" 
(abreviatura genial de "Huiskens, Munster, Vesteflia"). Na alta 
sociedade de M'nster - existe l uma -, os chs da Sra. Huiskens 
tinham tanta reputao como os comutadores do marido: em nenhum outro 
lado se cochichava tantas notcias confidenciais por minuto. Para 
todos, e sobretudo para todas, os que podiam neles participar, os 
chs da Sra. Huiskens constituam um acontecimento apaixonante e 
quase ertico.
Naquele dia, Hilda Huiskens contou s amigas - todas as convidadas 
eram suas amigas durante o tempo que duravam as reunies - que uma 
rapariga que fazia tapetes a tinha curado de uma acne rebelde... 
Isto, sob o selo do segredo, chiuu!, naturalmente.
Perceber-se- a razo por que Hilda no conseguia deixar de tecer 
elogios  sua benfeitora se se souber que nem todo o dinheiro do 
marido lograra desembara-lo daquela maldita acne. Os melhores 
dermatologistas de Munique, Milo, Paris, Miami e Los Angeles tinham 
falhado e ela vira-se obrigada a cobrir com uma espessa camada de 
maquilhagem, durante quase toda a sua vida, aquela maldita 
eflorescncia. E, de repente, a sua pele voltara a ser lisa e limpa 
como uma verdadeira pele de beb. O facto de ela ter aparecido sem 
uma sombra de base deixou todas as suas amigas admiradas. 
Felicitaram-na, no sem lamentarem um pouco aquela cura milagrosa que 
as privava dum assunto agradvel de conversa. Quase todas chegaram 
mesmo a invejar aquela pele nova cuja tez era duma infinita 
delicadeza.
Naquele dia, Hilda Huiskens triunfou.
- E sabem o que me fez a tal Corina Doerinck? - O seu corao 
transbordava duma gratido autntica que necessitava de se expandir. 
- Limitou-se simplesmente a passar as mos diante da minha cara, como 
para acariciar  distncia, durante apenas seis sesses. E, repito, 
sem sequer me tocar! O que  que senti? Pois bem, um simples 
formigueiro nos stios em que tinha acne, um calor delicioso por 
baixo da pele. E mais nada. Agora olhem para mim: desapareceu tudo!
A reaco das suas boas amigas no se fez esperar. Cada uma sofria 
dum mal cuja rebeldia provinha do facto de, tal como a sabedoria das 
naes no-lo ensina, todos termos a partir dos cinquenta anos 
qualquer coisa que no anda muito bem. No caso das senhoras da alta 
sociedade de M'nster, tratava-se, em primeiro lugar, dos nervos, 
evidentemente, e a seguir das articulaes, que comeavam a estar 
usadas. As citicas, as artrites e as nevralgias resistiam s curas 
anuais em estaes termais de grande fama. O medicamento milagre que 
os mdicos costumam utilizar contra tais enfermidades  a cortisona. 
Mas trs das senhoras que se encontravam assim de ch em ch foram 
contempladas, depois de se submeterem a um tratamento de cortisona, 
com uma mdia de sete quilos suplementares que nem um regime 
atrozmente severo em Bad Wiesse conseguira eliminar. O pnico 
instalou-se no pequeno grupo e o assunto principal da conversa passou 
a ser, a partir daquele momento, as doenas.

A novidade de que algum de Hellenbrand, que no ficava Muito longe 
de M'nster, curava qualquer mal por irradiao das mos, fez enorme 
sensao. A eventual obrigao de comprar um tapete, como tinha feito 
Hilda Huiskens, no tinha nenhuma importncia. Alm disso, a rapariga 
nunca aceitaria dinheiro. Por outro lado, um tapete ou uma tapearia 
artesanal, mesmo modernos e no sendo originrios da Prsia ou da 
Turquia, tinham sempre utilizao, nem que fosse no quarto da criada 
ou at, porque no, no quarto de hspedes...
Ainda no se tinham passado quarenta e oito horas desde a tarde 
triunfal de Hilda e j duas daquelas senhoras tinham tomado 
secretamente o caminho de Hellenbrand. Toda a gente em Hellenbrand 
conhecia a filha do vice-reitor Doerinck e as suas tapearias 
modernas e artsticas, de modo que os primeiros nativos a quem se 
dirigiram puderam indicar-lhes prazenteiramente o caminho.
- Est combinado, Louise - disse a esposa do Dr. Benke, advogado 
especializado em questes fiscais. - Oficialmente, vimos ver as suas 
obras. Para o resto, esperaremos por uma ocasio favorvel...
-  claro - respondeu Louise Herbrandt, esposa de um fabricante de 
produtos farmacuticos, autor de uma preparao de nome misterioso, 
mas clebre em toda a Alemanha, sobretudo junto dos homens duma certa 
idade: 85 Y. O "Y" lembrava que o remdio era  base de yohimbina, 
extrado da casca do yohimbehe, que  uma rvore dos Camares. O 
efeito verdadeiramente medicinal da yohimbina  o de dilatar os vasos 
sanguneos, e, em consequncia, os dos rgos sexuais, o que provoca 
como resultado acessrio um aumento da potncia amorosa. O juiz 
Roemer at tinha composto um ditado que poderia ter servido para a 
publicidade deste medicamento milagroso: "Yohimbinanto-te, 
conseguirs que ela fique sempre amando-te!"
No que respeita ao nmero 85, que figurava na designao do produto, 
era uma maneira de fazer lembrar aos homens de uma certa idade que a 
yohimbina agia mesmo nos de oitenta e cinco anos, o que era 
confirmado pela embalagem, na qual se via um velho a saltar  corda. 
Naturalmente, tinham escolhido como modelo um valento de trinta 
anos, com uma muscultura excepcionalmente desenvolvida, que tinha 
dado um enorme trabalho a maquilhar para o envelhecer 
convenientemente. De qualquer maneira, o 85 Y tinha feito Eduard 
Herbrandt multimilionrio. Mas a mulher continuava a sofrer duma 
citica aguda apesar das curas que fazia em Albano.
- Primeiro, tenho de ver o que essa Corina faz - declarou ele a 
Hildegard Benke ao chegar diante da granja pintada de novo e 
transformada em atelier. E, aps ter dado um ltimo jeito ao cabelo 
com a mo, cedendo ao seu temperamento natural, achou necessrio 
acrescentar: - O que agrada a Hilda nem sempre  de muito bom gosto, 
no  verdade?
- Infelizmente! tinha respondido simplesmente a esposa do advogado.
 amizades femininas, quantas delicadezas so cometidas em vosso 
nome!
No momento em que abriram a porta de entrada, soou a pequena 
campainha. Penetraram ambas na sala de exposies. E, como sempre, 
ouviu-se a voz de Corina vinda do atelier em que se encontrava a 
trabalhar:
- Um momento, se faz favor. Vou j...
- Tem uma voz agradvel - cochichou Louise Herbrandt.
- Esperemos. No nos devemos precipitar - respondeu Hildegard Benke.

Esta sofria, desde h pouco mais de dois anos, de um tique que no 
conseguia reprimir e que, assim que sentia a mnima excitao, boa ou 
m, lhe retorcia os cantos da boca. E ainda era pior quando ficava 
irada: neste caso, todo o rosto se lhe crispava e estremecia de forma 
incontrolvel. O marido, o especialista fiscal, atribua estes 
espasmos convulsivos ao facto de ela no ter feito outra coisa desde 
h quarenta e oito anos, desde que tinha nascido, seno falar, e que 
por isso a sua boca se tinha habituado a funcionar sem ela querer. E 
at lhe tinha dito directamente numa noite em que bebera. E foi nessa 
noite que, pela primeira vez, uma horrvel cibra lhe desfigurara o 
rosto, enquanto gritava: " a tua presena que me mata!"
A porta do atelier abriu-se para dar passagem a Corina. Trazia um 
vestido muito simples, em tric de l, que ao mesmo tempo que lhe 
escondia o corpo lhe revelava igualmente as formas. Por isso, a 
primeira impresso das duas senhoras foi contraditria, como costuma 
acontecer a todas as mulheres que se encontram de repente em presena 
duma pessoa do mesmo sexo cuja elegncia ou beleza ultrapassa a 
delas: tm logo de criticar. No que toca a Corina, sem sequer se 
consultarem, tinham a mesma opinio: o vestido estava demasiado 
apertado nas ancas, j para no falar do peito... e do resto.
Foi Louise Herbrandt quem se encarregou de comear a conversa.
- Vimos da parte da senhora Huiskens...
Interrompeu imediatamente o que estava a dizer, deixando deslizar o 
olhar sobre as tapearias e tapetes expostos. Muito bem, pensou. 
Modernos, evidentemente! Nada que se compare com o meu tapete de 
Hera, de seda, com dois milhes de ns por metro quadrado, e pelo 
qual paguei oitenta e cinco mil marcos. Se comprar uma destas coisas, 
ir parar  lavandaria. Mas estou aqui por causa da minha citica!
- Admirmos as suas obras em casa da senhora Huiskens. Encantadoras! 
Disse logo  minha amiga: "Aqui est o que me faz falta!" E ela 
acompanhou-me.
- Estes tapetes tambm me encantaram - afirmou Hildegard Benke, e, 
sob o efeito da mentira, a boca comeou imediatamente a 
contrair-se-lhe.
Corina lembrou-se imediatamente da Sra. Huiskens e da compra desta, 
Folhagem de Outono, mas no da sua acne.
- Tenho de as prevenir: no posso fixar nenhum prazo de entrega. 
Trabalho sozinha e tenho trs encomendas para executar antes de 
qualquer outra.
Louise Herbrandt sorriu de maneira comedida e distante.
- Temos tempo. No h pressa nenhuma.
- Vou mostrar-lhes alguns desenhos. - Indicou com um gesto as 
cadeiras que se encontravam perto da mesa grande. - Sentem-se, por 
favor.
- Obrigada...
Louise Herbrandt dirigiu-se lentamente para uma das cadeiras, 
coxeando de maneira dramtica. Corina esperou que ela se sentasse 
perto dela para lhe perguntar:
- Teve algum acidente, minha senhora?
- Se ao menos tivesse sido isso! Mas, infelizmente,  o nervo 
citico! Muitas vezes quase grito com dores. H dias em que s 
consigo andar com muita dificuldade.
- E que diz o seu mdico?

- Ah, tentei tudo: Albano e Montegrotto, injeces de todas as 
espcies, raios, medicamentos que custam uma fortuna e j no sei que 
mais. Sinto alvio durante algum tempo, mas a seguir as dores voltam 
ainda mais fortes do que antes.
Era a vez de Hildegard Benke intervir, sem tentar, naturalmente, 
reprimir o tique que lhe torcia a boca.
- Ah, estes mdicos! Quando j no sabem o que ho-de dizer, pem-se 
a falar latim e grego e fazem-nos andar de especialista em 
especialista. E cada um tem uma opinio diferente. Se soubesse o que 
j tivemos de suportar!
Corina tinha aberto o caixote e estava a espalhar os desenhos em cima 
da mesa grande. Ainda mal lhes tinha dado uma olhadela, j Louise 
Herbrandt exclamava:
- Mas so muito bonitos, estes motivos gregos!
- Sim,  a Odisseia.
- Vi isso logo - disse Hildegard.
Ambas se tinham inclinado sobre os desenhos. Corina estava atrs 
delas e esticou imediatamente as mos, com as palmas ligeiramente 
encurvadas, subindo e descendo ao longo da coluna vertebral de Louise 
Herbrandt, sem que nenhuma das novas clientes a visse. Estava 
inquieta: que se passaria depois do falhano com Roemer? T-la-ia 
abandonado definitivamente a fora desconhecida que tinha salvo a me 
e o Dr. Hambach? Mas sentiu logo de seguida na ponta dos dedos o 
formigueiro por que esperava, ou seja, o contacto com uma inflamao 
dos nervos que resistia imediatamente  emanao que se desprendia 
dela.
Sentiu ento, igualmente, uma felicidade e uma serenidade 
maravilhosas. Depois da partida de Erasmus Roemer, fora para casa dos 
pais completamente exausta e queixara-se ao pai como uma criana: 
"Acabou-se, papuchka. As minhas mos esto mortas! No puderam fazer 
nada pelo doutor Roemer. j no tm nenhum poder." E Doerinck tinha 
exclamado logo a seguir: "Que Deus seja louvado! Finalmente! Isso vai 
evitar-nos muitos aborrecimentos! "
E agora voltava a ser a Corina de antes, segura de si mesma: sentia a 
fora que fervia nela invadir Louise Herbrandt. Uma vez mais, era o 
vector de algo de inexplicvel que, vindo no sabia donde, a 
atravessava para irradiar das suas mos.
De repente, Louise Herbrandt apercebeu-se de que tinha calor. Tirou o 
casaco.
- Meu Deus, que temperatura agradvel que faz hoje. H muito tempo 
que no tnhamos um Vero assim!
Como ela se inclinou de novo sobre os desenhos, Corina retomou o 
tratamento. Durou s exactamente cinco minutos, como se tivesse um 
relgio dentro de si.
A boca de Hildegard Benke contraa-se cada vez mais. Tal como a 
amiga, interrogava-se sobre a maneira como devia encaminhar a 
conversa para o tratamento que desejava. A aluso  impotncia dos 
mdicos no tinha dado resultados. Como passar de Ulisses e das suas 
aventuras a uma citica e a um tique facial? Reunindo toda a sua 
coragem, resolveu no utilizar nenhuma transio.
- J deu pelo tique que me deforma a boca?
- No ousei fazer-lhe nenhuma pergunta sobre ele.
Examinou mais de perto e em silncio o tremor que agitava 
desesperadamente as duas extremidades dos lbios, como se estes 
fossem percorridos por uma corrente elctrica. Aquilo era de origem 
neurtica, naturalmente. Hildegard Benke continuou a explicar.

- So os meus nervos! No imagina a quantidade de vitamina b que j 
tomei sob diversas formas.
- Deixe ver - disse Corina.
Pegou na cabea de Hildegard Benke com as duas mos. Lentamente, os 
seus dedos comearam a ir e a vir a alguma distncia dos lbios, cujo 
tremor, depois de ter resistido um instante, comeou a apaziguar-se. 
De vez em quando, as suas mos afastavam-se para irradiar toda a 
cara. Hildegard no se mexia, tinha fechado os olhos e os seus 
traos, relaxados, tinham tomado uma expresso duma extraordinria 
serenidade.
- Sinto que isso me faz bem - murmurou. -  como sob os raios 
infravermelhos, mas muito mais suave.  muito bom...
Louise Herbrandt assistia quele espectculo quase sem ousar 
respirar. O corao batia-lhe com fora e as mos, que tinha cruzado, 
estavam hmidas de suor. Como Corina tinha finalmente dado um passo 
para trs e voltava a puxar as mos para si, disse numa voz 
cavernosa:
- No consigo desembaraar-me desta citica... Tambm me pode ajudar?
- J o fiz.
Pegara num cigarro que estava numa mesa vizinha e aspirava avidamente 
o fumo. "Funciona, funciona!", dizia para si mesma. "A minha fora 
voltou. Mas porque  que as minhas mos ficaram mortas quando se 
tratou de Roemer?"
- j o fez... - gaguejou Louise Herbrandt. - Mas quando?
- Enquanto esteve a ver os desenhos de costas voltadas para mim.
- Mas no senti nada!
- Mas eu sim. E isso  que  importante.
As duas mulheres partiram para M'nster uma hora mais tarde. Tinham 
feito as suas encomendas, mas o que contava, sobretudo, para elas era 
a alegria que sentiam.
- Que sensao extraordinria - dizia Hildegard Benke. - Foi uma 
sensao extraordinria, melhor do que com um homem - ousou dizer 
olhando de soslaio para a amiga. - Disse-nos para voltarmos mais 
quatro ou cinco vezes e que depois j no teramos nada. Achas que  
possvel, Louise?
- Creio que sim. j me sinto muito melhor.
- De facto, ela  maravilhosa.
Durante os trs dias seguintes, a histria daquelas curas miraculosas 
circulou atravs de M'nster e arredores, como um gs que se 
espalhasse por toda a parte.
O destino de Corina Doerinck, para o bem ou para o mal, tinha 
comeado a cumprir-se.

Captulo sexto

A mesa dos habitus  uma instituio alem.
Cada caf possui uma destas mesas, em geral isolada e reservada a 
certos clientes fiis, e ningum, alm destes, ousa l sentar-se. 
Estes habitus pertencem frequentemente  mesma profisso ou so 
colegas ou antigos alunos desta ou daquela instituio, que gostam de 
confraternizar.
Ao fazer um desvio pela "mesa dos mdicos" de M'nster, Willbreit ia 
ter a confirmao do que temia em segredo que acontecesse desde h 
algum tempo.
Como todas as cidades com universidade, M'nster tinha uma srie de 
cafs e cada um deles se orgulhava das mesas que possua reservadas 
aos membros dos conselhos de direco das diversas faculdades, 
reminiscncia das corporaes feudais, e onde, fora dos engates e das 
bebedeiras de estudantes, os antigos alunos se reuniam uma vez por 
semana - ou, pelo menos, uma vez por ms - para trocarem impresses e 
experincias. Uma das mais interessantes era a mesa dos mdicos, no 
tanto por causa das personalidades conhecidas que as frequentavam, 
mas sobretudo por causa da diversidade e do confronto de 
temperamentos e de pontos de vista. Uma mesa de padeiros  
bonacheirona e agradvel; copos e canecas de cerveja fazem brindes 
sem cessar na dos homens do talho; na dos mdicos, pelo contrrio, 
consegue-se discernir, apesar de larvar e invisvel, um certo 
esprito invejoso. A sua rivalidade  subterrnea, mas real, e 
provoca choques amortecidos em que cada um se mede constantemente em 
relao aos outros- At hoje no foi preciso nenhum psiclogo nem 
nenhum filsofo para explicar como  que os membros desta corporao 
conseguem apertar jovialmente as mos uns aos outros e Parecer bons 
camaradas, quando  absolutamente certo que no se estimam muito 
entre eles.
Willbreit nunca deixava de aparecer nas reunies regulares dos seus 
confrades no restaurante Zum Alten Speicher (O Velho Celeiro), a 
menos que fosse impedido de o fazer por uma operao difcil. Isso 
acontecia, alis, raramente, pois estas reunies s tinham lugar s 
sextas-feiras, dia em que havia poucas operaes, a no ser que se 
tratasse de uma urgncia.

Ainda no tinha conseguido ter com Roemer a conversa razovel que se 
impunha. A empregada respondia sempre que o senhor presidente saa de 
manh cedo e s voltava  noite, muito tarde, sem nunca dizer onde 
ia. Quanto  senhora, tinha telefonado da Hungria, onde ficaria mais 
oito dias na esperana de defrontar o urso prometido. "Tratava-se dum 
animal inteligente", pensara Roemer, visto que fugia de Elise da 
mesma maneira que ele. Aquele atraso da mulher enchera-o de alvio: 
dava-lhe tempo para organizar a sua morte, o que faria muito melhor 
sem Elise, cujos gemidos - sim, porque ela gemeria, evidentemente - 
s o irritariam. E o que contava mais para ele eram justamente os 
seus nervos e a sua solidez. Durante dois dias, perguntara-se se 
devia dar um tiro na cabea para evitar as dores que acabariam por 
chegar. Tinha, pois, comido as suas refeies e bebido as melhores 
garrafas de vinho tinto diante da pistola, embebedando-se o mais 
conscienciosamente possvel, na esperana de ter coragem de pegar na 
arma, de a apontar  tmpora - ou, ainda melhor, de introduzir o cano 
na boca - e de fazer uma pausa antes de curvar o indicador. At ento 
Roemer nunca tinha podido compreender o suicdio. Do seu ponto de 
vista, no havia desespero suficientemente grande para que um ser 
razovel lhe sacrificasse as belezas da vida. Nada, julgava, era 
irremedivel. Mas eis que o prprio corpo lhe provava o contrrio: h 
situaes em que mais vale capitular perante a dor mesmo antes de ela 
se anunciar. Ao fim de trs dias de dvida, tinha emergido do fundo 
do abismo. Relegou a pistola para o classificador do seu escritrio e 
comeou a percorrer de carro os campos prximos, sem direco certa. 
Descobriu uma provncia de M'nster que lhe era desconhecida, comendo 
em albergues rsticos presunto da p com po branco grosseiro, 
petiscando salsichas fumadas, deliciosas mas duras como pedra depois 
de terem sido secas ao ar, engolindo por cima grandes goles de 
aguardente branca proveniente de alambiques privados. Acontecia-lhe 
ficar horas sentado na borda de um regato ou  sombra de uma rvore 
enorme. Contemplava as manadas de vacas, meneava a cabea quando uma 
delas se esforava por saltar em vo para a garupa de outra e 
gritava: "Sua pega!" Admirava o mpeto e a elegncia dos cavalos que 
galopavam loucamente num prado. Uma vez tinha surpreendido na orla 
dum bosque um par de namorados que ocupavam o tempo da maneira mais 
agradvel do mundo: saudou-os cortesmente antes de dizer ao jovem 
estupefacto: "Dantes trazia sempre na mala do carro um cobertor para 
tais ocasies: a erva pode causar estragos no traseiro da bela 
desejada... "
E a alma recuperara, com a calma, o equilbrio. O inevitvel, o 
irremedivel, perdeu tudo o que comportava de aterrador. Ignorava o 
que se passaria quando o sofrimento comeasse e os seus olhos lhe 
revelassem o seu declnio fsico. S havia uma questo que continuava 
a ter peso no seu esprito por no ter resposta: porque  que as mos 
de Corina no tinham nenhum efeito nele e somente nele?
Na mesma noite em que Willbreit, sentado  mesa dos mdicos, ouviu 
dizer que uma curandeira, numa aldeia at ento praticamente 
desconhecida, chamada Hellenbrand, operava curas milagrosas, Roemer 
decidiu telefonar a Corina.
- Como tem passado? - perguntou.
Era idiota, sabia-o, mas por onde  que poderia comear?
- E o senhor, como tem passado?
Consolou-o ver que a pergunta dela era to idiota como a sua.
- Tenho andado a voltar-me do avesso como se fosse um fato velho. E 
sinto-me exactamente como o alfaiate que o faz. Pergunto-me se o 
avesso  melhor do que o direito. Descubro constantemente coisas de 
que no tinha a mnima ideia. Sabe o que vou fazer? Vou dar a volta 
ao mundo. Os mares do Sul, a frica, a Amrica do Sul e a Austrlia. 
Ainda tenho tempo para isso. O que  que acha? E se o pano cair 
definitivamente em Hong Kong ou no Rio de janeiro, que interessa! 
Pouparei assim os momentos difceis aos que me so prximos. E, 
verdadeiramente, tem alguma importncia que a terra que me ir cobrir 
seja a do Brasil ou o solo do velho cemitrio de M'nster onde est o 
nosso jazigo de famlia? J c no estarei, de maneira que j 
chega...
Corina ouviu no aparelho a sua tpica respirao: ele necessitava 
mesmo de encher de ar todos os recantos dos pulmes.

- Que diz a tudo isto? Eis-me mergulhado num optimismo quase 
oriental.
- Viu o professor Willbreit?
- No. Mas esse malandro no me deixa um minuto descansado. Tenta 
seduzir a minha empregada. Coitada dela se lhe revelar onde estou! 
Viol-la-ei, simplesmente. E ela sabe-o: ameacei-a de o fazer. - Deu 
uma enorme gargalhada, como antigamente. - Respondeu-me que nesse 
caso ia cortar a lngua para ter a certeza de no falar. A propsito 
de lngua, conhece esta anedota? Duas amigas encontram-se. Uma delas, 
que acaba de ter a sua noite de npcias, diz  outra...
Corina interrompeu-o sem rodeios.
- Tem de ver Willbreit. Por favor, faa-o.
-  exactamente como ele. No tem sentido de humor.
- j no se trata de brincar nem de ter humor, doutor Roemer.
- Se voc o diz... - Parou para continuar numa voz mais insegura. - 
Ser que... Autoriza-me a ir v-la, Corina? S para fazer uma pequena 
tentativa.
- Telefonar-lhe-ei, doutor Roemer.
- Nunca me telefonar...
- Sim, prometo-lhe.
- Quando?
- Quando sentir que lhe posso ser til.
- E se no sentir isso? - Era andar  volta da questo sem avanar um 
nico passo. - Esperarei, Corina. Se no estiver em casa deixe o 
recado  empregada. Mas, sobretudo, no o faa se for a minha mulher 
a atender. Obrigado, Corina.
Desligou logo a seguir, acendeu um cigarro e abriu uma garrafa dum 
Chteau qualquer de que bebeu um grande copo antes de telefonar a 
Willbreit.
No foi Thomas, mas sim Lydia, quem respondeu.
- Fala Erasmus-o-Grande, rei da pndega! O teu serrador de ossos est 
em casa?
- O Thomas est no albergue, na mesa dos mdicos. Tu costumas ir l 
com ele. Pensava que l estivesses.
"Muito bem, meu rapaz", pensou Roemer; "ainda no disseste nada sobre 
mim  tua mulher!"
- Um desgraado dum magistrado no tem tanto tempo livre como um 
estripador. O teu marido abre uma barriga ao meio, secciona uma 
vescula biliar, volta a coser, e j est. Mas um processo 
prolonga-se s vezes por vrias semanas e o dossier fica ento com 
milhares de documentos que se tem de estudar a fundo,  noite, em 
casa.
- O que  que queres que diga ao Thomas?
- Nada de especial, visto ter ficado a saber que ele ainda est 
vivo... O que  essa msica de fundo?
- Uma pequena reunio: tenho c em casa as mulheres dos senhores 
mdicos que preferem beber a sua cerveja e a sua aguardente na mesa 
que tm num albergue, enquanto evocam as touradas da juventude. Ns, 
as mulheres, encontramo-nos aqui.  muito divertido. S c falta a 
Elise, que anda atrs de um idiota dum urso.

At quele momento, Roemer ignorava que as mulheres dos mdicos 
tambm se encontravam. E o mais espantoso era que a Elise tambm ia: 
tal como ele, ela no conseguiria ser mais do que tolerada naquele 
meio puramente mdico. Ele s o era por ter feito parte da mesma 
confraria de estudantes de Willbreit e devido  sua reserva de piadas 
picantes. Mas no era o caso de Elise. Devia, portanto, haver 
qualquer coisa nela que fazia com que os outros pudessem suport-la, 
ao contrrio do que acontecia com ele. Ao pensar nela, lembrou-se da 
histria do casal que se encontra diante de uma pito: o marido pensa 
ver-se livre do bicho, que  perigoso, quando ouve a mulher dizer: 
"Ah! Que pele magnfica! Sonhei sempre em ter uma carteira assim."
Lydia Willbreit adivinhou-lhe os pensamentos.
- Recebeste notcias da Hungria?
- Dois postais afectuosos da Elise.
- Parece que o baro  um homem o mais moderno possvel...
S as boas amigas so capazes de tanta perfidia. Roemer
sentiu que os lbios se lhe contraam como para cuspir de
novo no aparelho. Lydia. Willbreit... uma galdria igual s
outras. "Mas a mim j no me podes atingir, Lydia. Estou
morto, percebes? E se a Elise no anda a caar ursos na Hungria, mas 
a deixar-se comer pelo baro, o que  que queres
que isso me faa? Se tivesse de jurar que fui fiel durante um
ms, mesmo durante o nosso primeiro ms de casamento, cometeria 
perjrio...
- Eu conheo o baro, Lydia.  uma nulidade larvar. Quando a Elise 
quer sentir alguma coisa com ele, o desgraado ter, certamente, de 
dobrar a gaita em duas.
- s ignbil, Erasmus!
- Esse grito de alegria prova que tens prazer em escutar-me-  a tua 
vez de me fazeres uma confidncia: de vez em quando deve acontecer 
que o Thomas dispa as calas, no? Ora ento, como  o seu 
regadorzinho?
- j chega? s um velho estupor!
Ela desliga. Roemer ri ainda, satisfeito com o rumo final da 
conversa. Enche a boca dum grande trago de Chteau no sei qu, 
saboreia-o lentamente e aspira com voluptuosidade o fumo do seu 
havano. Lydia Willbreit, aquela destravada de aspecto frio e 
distinto, mas, afinal, quando se julga que s se lhe est a dar um 
belisco nas ndegas, est-se mas  a accionar um comutador duma 
linha de alta tenso... Willbreit acciona-o com pouca frequncia,  
s isso...
Naquela noite, o telefone, colocado na mesa-de-cabeceira de Roemer, 
tocou vrias vezes, sempre sem resposta. Roemer ficou calmamente  
espera que o importuno se cansasse e abandonasse o seu objectivo. "Se 
for a Elise,  uma maneira de se economizar palavras. Seria 
Willbreit?  demasiado tarde, meu caro. O meu momento de fraqueza j 
passou. Alm disso, estou bbado. Completamente bbado, como nos bons 
velhos tempos em que ramos estudantes, lembras-te, quando tnhamos 
ambos o corao a transbordar de amor pelo mundo inteiro. No me 
incomodes mais! Estou-me totalmente nas tintas para tudo, 
absolutamente para tudo... "
- Quando  que ele telefonou?
Willbreit tinha acabado de chegar a casa. Parecia mais do que 
excitado. Parecia at transtornado.

As convidadas tinham-se ido embora, mas ainda reinava por toda a casa 
um eflvio de cigarros e de perfumes a que Roemer chamava "cheiro a 
caa". Lydia ouvira o regresso do marido. Isso raramente acontecia, 
mas as conversas sem complexos daquela reunio tinham-lhe aquecido de 
tal maneira o sangue que lhe era impossvel reprimir as suas batidas. 
Precisava de satisfazer o desejo que sentia. Porque no? Thomas ainda 
era algo de bastante especial na cama. Sobretudo imediatamente antes 
do orgasmo. Nessa altura todo o seu corpo se endurecia e os seus 
msculos pareciam subitamente de ferro. E quando ela comeava a 
gritar, afundava-se nela como impelido por um arco. Ela ficava a 
seguir com a impresso desagradvel, e que no a abandonava, de ter 
sido violada...
- H cerca de quatro horas. Hoje vieste mais tarde do que  costume.
Willbreit deu uma olhadela ao relgio dourado que estava em cima da 
chamin. Era um autntico relgio barroco, comprado num leilo da 
Foreman em Londres. Tinha-lhe custado uma fortuna. Os ponteiros, 
igualmente dourados, indicavam que eram duas da manh. De maneira que 
Roemer tinha telefonado por volta das vinte e duas horas. Devia ter 
necessidade de ajuda, de apoio...
- Como era a sua voz? - perguntou prudentemente. Como querias que 
fosse, atroadora, como sempre!
Tinha-se aproximado para se apoiar contra ele e acariciar-lhe o peito 
e a seguir o ventre. Como a sua mo se aventurava mais para baixo, 
pegou-lhe no pulso.
- Um instante, Lydia; o que  que ele disse?
- Porcarias, naturalmente! - Com os lbios, aflorava-lhe o nariz, a 
boca, fixando-o com os olhos brilhantes e subitamente maiores. - 
Anda... Larga-me o pulso... Estou  tua espera h tanto tempo.
- Mas o que  que ele disse mais?
- Mais nada!
A contrariedade que sentia fazia-a levantar a voz.
- No vais ficar toda a noite a falar desse enorme porcino... Tom, 
meu querido...
Esfregava-se contra ele e desprendeu a mo, que fez imediatamente 
deslizar para baixo, tacteando atravs do tecido das calas. Nos 
primeiros tempos de casamento, aquela carcia punha-o louco. "Ests a 
conduzir-te como uma pega... ", suspirava. "Como uma puta, 
compreendes?" Aquela ideia excitava-o de tal maneira que comeava a 
portar-se com ela como um possesso, sobretudo quando ela lhe 
cochichava ao ouvido: "A partir de agora so cem marcos... duzentos 
marcos... e agora trezentos..." Era apenas um pequeno jogo andino, 
afinal de contas aceitvel no momento mas em tal circunstncia... Os 
amantes que tinham precedido Willbreit tinham-lhe ensinado perverses 
ainda mais ardentes com que sonhava cada vez mais, mas sem ousar 
consagrar-se-lhes...
Mas desta vez Willbreit deu um passo para trs. Os olhos de Lydia 
abriram-se mais ainda, antes de se contrarem perigosamente como os 
dum gato. O seu vestido de cocktail, de tecido leve, abrira-se e j 
no lhe dissimulava os seios. O seu rosto crispou-se. Willbreit, sem 
sequer se aperceber disso, continuava com a sua ideia.
- Tenho de telefonar a Erasmus. Desculpa, Lydia,...
A exploso da mulher foi terrvel.
- Desculpa!  tudo o que tens para dizer,  tudo O que podes fazer? 
Desculpa! A partir de agora, at podes suplicar-me! Desculpa! Seu...

Faltavam-lhe as palavras, nenhuma das que conhecia era 
suficientemente insultuosa nem convinha ao ultraje de que acabara de 
ser vtima. Num gesto brusco, ajeitou o vestido entreaberto por cima 
do peito, voltou-se e abandonou a sala. Ao longe, bateram 
sucessivamente duas portas. Willbreit esperou que a calma voltasse, 
dirigiu-se em seguida para a biblioteca e discou o nmero de Roemer.
No respondia. Willbreit deixou tocar e tocar at a central lhe 
interromper a comunicao. Pousou o auscultador contrariado.
Ento Roemer tinha-lhe telefonado s dez horas da noite. Que 
quereria? Comeava a ter dores? Seria um pedido de socorro? Era o 
momento de intervir, de tentar salv-lo, apesar das suas reticncias? 
Para que Roemer, na situao que era a sua, lhe telefonasse to 
tarde, devia haver uma razo vlida. Sem dvida precisava de ajuda.
Willbreit saiu da biblioteca apagando todas as luzes e tomou o 
corredor de comunicao para a garagem. Quando o Maserati, com os 
faris acesos, irrompeu na alameda privada que ia dar  estrada, ela 
arremessou-se contra a janela do quarto e ps-se a gritar como se o 
marido a pudesse ouvir, apesar do barulho do motor e da espessura do 
vidro em que ela batia com os dois punhos. Estava completamente nua e 
todo o seu corpo tremia. Tinha um corpo muito belo, as ancas um pouco 
arredondadas, mas as pernas e os seios continuavam a ser uma 
maravilha.
- Nunca mais, ouviste? - Mordia o punho direito com a raiva. - Nunca 
mais voltars a tocar-me! Porco! Impotente! Vou arranjar um amante! 
Sim, quero que o saibas! Um amante que no seja um impotente como tu 
e que nunca me repelir. Um homem, um verdadeiro homem que me far 
gozar durante horas... E tr-lo-ei aqui,  minha cama!
E tudo acabou numa crise de soluos naquela cama onde, apesar de 
tudo, fazia falta o homem que acabara de insultar. Por fim, 
abandonou-se a uma verdadeira crise de nervos, batendo com os ps 
como uma criana.
Willbreit investiu a porta e as janelas da gigantesca moradia de 
Roemer, que era um bloco de silncio mergulhado na obscuridade, 
durante meia hora. Era a noite de folga da empregada, que a fora 
passar a casa do namorado. Roemer estava sozinho, completamente 
abatido pelo lcool. Do seu quarto do primeiro andar no conseguia 
ouvir a campainha da porta. Willbreit, com as mos  volta da boca 
como se fosse um altifalante, gritava de vez em quando o nome do 
amigo, mas a casa permanecia muda e morta.
Veio-lhe ento ao esprito a ideia de entrar partindo o vidro de uma 
janela ou deitando abaixo a porta das traseiras. A empregada estava 
de folga, com certeza. Elise na Hungria. Erasmus achava-se portanto 
sozinho, abandonado por todos, e tinha-o chamado. Devia estar num 
estado terrvel. Isso justificava um procedimento daqueles.
Ainda deu vrias vezes a volta  casa procurando uma janela 
entreaberta ou uma porta que algum se tivesse esquecido de fechar. 
Em vo. O que aconteceria se partisse um vidro da janela da cozinha? 
Sabia que Roemer tinha equipado a casa com um sistema de alarme dos 
mais aperfeioados e que estava ligado directamente  Polcia, onde 
se acenderia imediatamente uma luz vermelha. Como explicar aos 
polcias que apareceriam que um mdico tem o direito de se 
introduzir, seja por que meios for, junto dum doente em perigo? A lei 
no previa nada para um caso daqueles. Que situao absurda!

Decidiu arriscar tudo. Com um golpe de cotovelo partiu o vidro da 
janela da cozinha e, introduzindo o antebrao no espao livre, deu a 
volta ao puxador da porta sem qualquer dificuldade. Parou com o 
corao a bater. Nada! Nem sirena, nem lmpada vermelha a acender e a 
apagar, nem projectores que deveriam iluminar a casa inteira e o 
parque com uma luz ofuscante. Talvez se tratasse de um sistema de 
alarme silencioso? Talvez s a Polcia fosse alertada para que o 
ladro, sentindo-se em segurana, fosse apanhado em flagrante? A 
armadilha era perfeita e inaudvel. Deu consigo na cozinha passando 
pela despensa e chegando depois ao hall, gigantesco como tudo o 
resto. Ali era o limite mximo para que a sirena se pusesse a uivar. 
Tudo continuou silencioso. Certamente Roemer tinha negligenciado 
ligar o sistema de alarme antes de se deitar. Quando Elise estava em 
casa, nunca se esquecia de o fazer, porque tinha um medo quase 
patolgico dos ladres. Uma vez, Roemer, enervado, perguntara-lhe na 
sua voz mais atroadora:
- Porque  que tens medo dos ladres? Tens verdadeiramente medo de 
seres violada? Olha que os ladres no so masoquistas!
Coisa curiosa, Elise no protestara. S o fez na manh do dia 
seguinte, depois de ter procurado no dicionrio a significao exacta 
de "masoquista", que no conhecia.
Por vingana, dois dias mais tarde enganara Roemer com o Dr. 
Vollrath, veterinrio em Greven, e que at quele momento se tinha 
limitado a tratar dos ces de Elise. Dizia-se, sem dvida 
erradamente, que Roemer o tinha sabido e que afirmara que aquele 
pobre veterinrio nunca mais voltara a repetir o feito por achar que 
os cuidados dispensados a uma mulher como Elise eram mais estafantes 
e menos lucrativos dos que os que prodigalizava aos animais.
Willbreit conhecia bastante bem a imensa moradia, por l ter ido 
muitas vezes com Roemer, mas desconhecia a localizao exacta do seu 
quarto. Sabia apenas que ficava no primeiro andar, que dava para o 
parque pelas traseiras da casa e que tinha uma sala de vestir e uma 
casa de banho dum luxo orgaco a separ-lo do quarto de Elise. A casa 
de banho decompunha-se, por sua vez, em trs partes: um primeiro 
espao com uma banheira-piscina e um duche, um segundo espao ocupado 
por uma mesa de toilette de propores colossais e um conjunto de 
aparelhos de ginstica presos  parede de que Roemer nunca se servia 
evocando que a aquisio da barriga que tinha lhe custara uma fortuna 
e no desejava v-la desaparecer em gotas de suor; e finalmente um W. 
C. onde passava longas horas a estudar os dossiers e a ler. At l 
tinha mandado instalar uma pequena biblioteca de literatura ertica e 
de aventuras. " uma das minhas mais grandiosas ideias", gostava de 
dizer, "pois combina simultaneamente todas as alegrias deste mundo."
Willbreit chamou mais uma vez "Erasmus!" em voz alta primeiro e a 
seguir gritando.  parte um fraco eco proveniente do lado esquerdo do 
hall, o silncio continuava a ser impressionante. No costumava 
Roemer dizer: "Quando durmo nem sequer ouviria um vulco que fizesse 
irrupo entre as minhas ndegas!"?

Portanto, no havia nem alerta nem resposta. Willbreit subiu 
rapidamente a imponente escada com corrimo duplo e abriu a primeira 
porta que lhe apareceu - era a da sala de Vero, julgou recordar-se. 
Mas tratava-se do quarto de Elise, decorado em rococ branco e 
dourado e com uma profuso de tules do mesmo cor-de-rosa dos lenis 
de seda e da colcha. Neste monumental quarto de bonecas, que 
correspondia exactamente ao gosto de Elise, Roemer s entrava 
suspirando profundamente. Devia sentir-se nele como um elefante numa 
loja de porcelana. Mas sentira essa impresso durante toda a sua 
vida: Jovem licenciado, doutor em Direito, futuro presidente do 
tribunal, tinha captado a ateno do pai de Elise, um comerciante que 
ficara rico e fizera as seguintes contas: dum lado, os ttulos 
universitrios, uma forte personalidade e as futuras honras; do 
outro, dinheiro e luxo sem limites. Que mais se pode desejar para 
constituir um casal harmonioso?
Willbreit no podia deixar de continuar a sua explorao. A porta 
seguinte dava para um toucador na acepo exacta da palavra, mas que 
era simultaneamente um salo de beleza com grandes espelhos forrando 
as paredes, uma mesa de maquilhagem, um painel de perucas de cores 
diferentes, acessrios de cabeleireiro com secador para permanentes e 
ainda uma instalao de radioterapia, com raios ultravioleta... 
Vejamos a porta seguinte, disse Willbreit para si mesmo.
E acertou. Era impossvel algum enganar-se com aquele cheiro a 
lcool que lhe assaltou as narinas. Roemer, como se estivesse em 
exposio num catafalco, encontrava-se prostrado numa cama 
especialmente construda para ele, mais larga e mais longa do que uma 
cama normal e com molas muito mais resistentes. O candeeiro da 
mesa-de-cabeceira ainda estava aceso e projectava uma luz difusa 
sobre o conjunto do quadro. Em cima do tapete de seda encontravam-se 
duas garrafas de Borgonha de p, e vazias, naturalmente. Roemer 
ressonava suavemente, com a boca semiaberta: primeiro, para inspirar, 
um assobio, e a seguir, para expirar, um ronco abafado; o conjunto 
evocava o barulho duma velha locomotiva ferrugenta que comeasse a 
trabalhar com enorme dificuldade.
Willbreit sentou-se na borda da cama e contemplou longamente o amigo. 
Como todos os que conheciam Roemer, no pde deixar de pensar que era 
impossvel que aquela montanha de msculos e de carne, aparentemente 
irradiando sade, estivesse condenada a desaparecer dentro de apenas 
alguns meses. De qualquer maneira, Roemer no o tinha chamado para 
lhe gritar "socorro", pois se assim fosse o vinho tinto no teria 
conseguido acalmar-lhe as dores.
- Erasmus - chamou em voz alta, inclinando-se para Roemer. - Ests a 
ressonar! Acorda!
Tinha-o agarrado pelo ombro e comeou a aban-lo sem cuidado. Como o 
outro mal entreabria os olhos, sem conseguir abri-los completamente, 
deu-lhe, no sem um enorme prazer, uma bofetada formidvel. Roemer, 
em sobressalto, sentou-se na cama, estupefacto, antes de lanar um 
verdadeiro bramido.
- s tu? Meu Deus, ser que j estou no Inferno?
- Ainda no, Erasmus. O que  que se passa?
Roemer j estava completamente desperto. Lanou  sua volta um olhar 
cada vez mais espantado.
- Mas como  que entraste? A Magda, a empregada, no est c... A no 
ser que a Elise j tenha morto o seu urso...
- Fiz um buraco na janela da despensa. Naturalmente, reembolsar-te-ei 
do vidro.
Roemer consultou o pequeno despertador que estava em cima da 
mesa-de-cabeceira.

- Nesse caso, a polcia deve estar a chegar a qualquer momento. 
Naturalmente, vo prender-te e eu no farei nada para os elucidar. 
Pelo contrrio, dir-lhes-ei que nunca vi tal indivduo. Mesmo que te 
libertem mais tarde, ters de ir com eles  esquadra. Que rica 
histria para contar a toda a cidade!
- Mas tu telefonaste-me, Erasmus! - insistiu Willbreit sem se deixar 
impressionar.
- Telefonei e foi a tua Lydia quem me respondeu. Tinha reunido l em 
casa as senhoras que se sentem insultadas pelos vossos gapes de 
mdicos na vossa mesa reservada. Deve l ter havido um cacarejamento 
igual ao dum galinheiro.
- Mas o que  que me querias?
- Nada.
- No se telefona para casa de ningum s dez horas da noite sem ter 
uma razo!
- H sim, eu!...
j h algum tempo que lambia os lbios tentando em vo humedec-los.
- Estou mesmo com uma ressaca e tenho uma destas sedes... Thomas, s 
ao menos uma vez um verdadeiro amigo: vai buscar-me qualquer coisa  
cozinha antes de a Polcia te prender.
- gua mineral?
- Ainda no cheguei a esse ponto de depravao. O frigorfico contm 
uma reserva da melhor cerveja.
- J no tens direito a uma s gota de lcool.
- Vou fazer-te uma pergunta! Introduziste-te na minha casa na 
qualidade de amigo ou na de mdico que s vem arranjar histrias? - 
Deitou uma olhadela ao despertador. - Mas o que  que a Polcia anda 
a fazer)
- Quando te esqueces de ligar o sinal de alarme, no h alerta!
Olhando espantado para a lmpada vermelha de controlo, colocada num 
canto do quarto, Roemer verificou que ela estava apagada.
- Merda! - disse. - Temos uma destas sortes. Teria gostado tanto de 
te ver ser levado entre dois polcias. E assim ter-me-ias ouvido: "Se 
esse indivduo pretender que  o professor Willbreit, no lhe dem 
ouvidos! O professor Willbreit  um amigo meu, no precisa de se 
introduzir na minha casa s ocultas!" Infelizmente, correu tudo mal 
hoje!
- Ontem, queres tu dizer... Mas o que  que se passou? - perguntou 
Willbreit com a curiosidade imediatamente desperta.
- Ora bem, falei com Corina Doerinck...
- Ah, ah!...
- No... No faas "ah, ah!"... Ela recusa-se a tratar-me, ou, 
melhor, no pode faz-lo!
-  para admirar. Por enquanto, o tumulto que provoca junto dos 
doentes ainda  limitado. Discutimos justamente sobre isso na nossa 
mesa.
- Ento ela obteve novos triunfos...
Balanou-se na cama para tirar de debaixo do edredo duas pernas 
macias como pilares e sentou-se soprando e gemendo. Naquele pijama 
de seda vermelha-escura, parecia um ser colossal vindo de outro 
planeta, mas com formas ainda assim humanas.
- Digamos que ela  um factor de tumultos. Em Hellenbrand passam-se 
coisas incrveis. Conheces o doutor Viebieg?
- Que raio de pergunta! - Ia e vinha como um elefante dentro do 
quarto, abrindo armrios e gavetas,  procura

de qualquer coisa para beber no stio onde geralmente se encontrava 
uma garrafa de reserva, mas desta vez sem resultados. - Sim, conheo 
esse "higienista" que se desinfecta todo antes de dormir com a 
mulher!
- Foste tu que inventaste essa histria, Erasmus!
- No gosto dele - disse Roemer, como uma criana amuada.
- Uma das suas pacientes  Louise Herbrandt, a mulher de Eduard 
Herbrandt, o fabricante do 85 Y.. Sim, aquela coisa com yornhibina... 
H trs anos que ela sofria de uma citica aguda. Tinham-lhe 
aconselhado uma operao. Ela descobriu Corina Doerinck, foi v-la e 
deixou de ter dores desde h dois dias. Elogia de tal maneira a 
rapariga que creio que dentro em breve vo convergir para Hellenbrand 
autocarros cheios de peregrinos! Houve j pacientes que perguntaram a 
quatro dos meus colegas: "j ouviu falar da tal Corina?" Podes 
imaginar a atmosfera que reinava na mesa. A notcia vai alastrar como 
um incndio no mato.
- E vocs vo formar uma falange para marchar sobre Hellenbrand.
- Ainda no. Estamos  espera,  preciso ver como  que as coisas vo 
evoluir. Para intervir, precisamos de provas. A questo que se 
levanta  de ordem jurdica, Erasmus: a partir de quando  que se 
pode invocar um pargrafo da lei respeitante  vigarice ou  
usurpao dos direitos dos mdicos?
- Ests realmente  espera de que eu te d um conselho, Thomas? Pois 
bem, esquece-me. Dirige-te a outro jurista. E ouve-me bem: somos e 
continuaremos a ser velhos amigos, mas deixemos o caso Corina 
Doerinck fora da nossa amizade. A as nossas posies so 
diametralmente opostas. - Soprou ruidosamente. - Meu Deus, que sede 
tenho! Vamos ao bar.
Deixando Willbreit sentado na borda da cama, saiu do quarto. Ao fim 
dum instante, Willbreit teve de se levantar para o seguir, 
contrariado, e de ir ao seu encontro l em baixo. Instalado no bar 
entre o grande salo e a sala de estar, que mais parecia um salo de 
festas, Roemer bebia pelo gargalo uma cerveja tirada do frigorfico.
- Cerveja gelada! Mas tu s louco! Queres matar-te!
A cerveja restitura a Roemer toda a sua combatividade e foi numa voz 
atroadora que se dirigiu a Willbreit.
- Vocs querem dar cabo de Corina Doerinck? A cruzada dos mdicos 
contra o que no compreendem. So um rico grupo de torcidos, so!
- Pensa um instante no mal que ela pode fazer. - Pegou numa garrafa 
que estava na prateleira e foi buscar um copo onde a seguir serviu um 
usque. - Com as suas manigncias mgicas, d aos doentes esperanas 
que nunca podero realizar-se, o que os leva a deixar passar o prazo 
em que um tratamento a srio poderia ser eficaz. Esse tempo perdido  
irrecupervel. A demora pode ser mortal.  um acto criminoso. 
Conseguem estabelecer que ela tenha dito a algum: "No v ver um 
mdico, venha ter comigo e cur-lo-ei... "?
Com efeito,  esse o problema - disse pensativamente Willbreit 
bebendo o seu usque.

Evitava prevenir Roemer da deciso tomada pelos mdicos durante a 
ltima reunio na mesa reservada: o Dr. Richard Wewes, pneumologista, 
tinha-se oferecido como voluntrio para uma misso de grande 
importncia. Iria ver Corina Doerinck como se fosse um doente e 
submeter-se-ia s suas "cariciazinhas", como diziam entre eles para 
troarem dela. Esperavam recolher, assim suficientes acusaes para 
poderem incrimin-la. " preciso atacar o mal pela raiz, desde o 
inicio", declarara o Dr. Viebieg, magoado pelo abandono de Louise 
Herbrandt. E prosseguira a sua diatribe, dizendo: "No temos o 
direito de deixar desenvolver uma nova vaga de superstio na nossa 
cidade. No h nada de mais catastrfico do que espalhar a 
inquietao nos doentes."
O Dr. Wewes tinha a inteno de ir a Hellenbrand no sbado e de 
encostar Corina  parede. Fingiria sofrer de um adenocarcinoma no 
pulmo, doena particularmente dissimulada visto tratar-se da 
complicao de uma estrutura j cancerosa e que, no seu primeiro 
estdio, no altera o estado geral do doente. Se Corina tivesse a 
infelicidade de dizer: "Vou cur-lo", nenhum outro testemunho seria 
necessrio para a esmagar.
Roemer, depois de ter engolido a sua cerveja, arrotou voluptuosamente 
e sentou-se numa das vastas poltronas de couro da sala.
- J alguma vez, Thomas, te perguntaste se esta Corina tem realmente 
algo de extraordinrio que consistiria numa emisso de foras 
efectivamente incompreensveis mas que curam?
Tinha estendido os dois pilares que lhe serviam de pernas e olhava, 
interessado, o jogo dos dedos dos ps. Com a pressa de beber alguma 
coisa, tinha-se esquecido de pr os chinelos e descera descalo.
Willbreit, servindo-se de um segundo usque, reflectiu:
- Estudei a questo a fundo. Por mais tolerante que se seja, h 
coisas que no se podem admitir. Um verdadeiro homem de cincia (e um 
mdico sado das nossas faculdades  um homem de cincia) s pode 
abanar a cabea de incredulidade, diante de coisas como bioplasma, 
emanaes misteriosas, telecinesia, viso cutnea, bioenergia, etc. 
Lembro-me do que disse o grande Virchow durante uma discusso sobre a 
alma: "Autopsiei milhares de seres humanos e nunca vi uma nica 
alma." E com a parapsicologia passa-se o mesmo.
- Mas esse Virchow no  tambm o homem que bateu na cabea a rir 
quando Robert Koch apresentou a sua teoria dos bacilos e dos vrus? 
"Animaizinhos no sangue!", exclamou no anfiteatro da Charite. "Ora, 
meus senhores... ", e voltou a bater na testa como se Koch fosse um 
idiota. E desataram todos a rir! E, no entanto, quem  que tinha 
razo, Virchow ou Koch?
- Isso  um falso exemplo! A medicina progrediu desde ento e 
continua a progredir, mas no no sector das curas milagrosas. Os 
milagres no existem do ponto de vista cientfico. Tudo se explica 
por uma sucesso de causas e de efeitos.
- E as radiaes das mos de Corina?
- Esse gnero de raios no existe!
- No entanto, ela curou o cancro que a me tinha no clon.
- Espera, Erasmus! A verdade aparece sempre,  s uma questo de 
tempo.
- Ento ainda ests  espera de que Ludmila Doerinck venha a morrer 
do seu cancro?

- Meu Deus, que maneira de se exprimir! Nunca desejei ou esperei a 
morte de algum. Receio a morte de Ludinila Doerinck, at porque 
terei de assistir, sem poder intervir, ao seu fim inelutvel.  para 
mim uma situao terrvel, compreendes? Uma operao podia salv-la 
da morte, mas, como a sua filha se lhe ops, a me vai falecer 
miseravelmente. E tenho de suportar isto! No terei ento o direito 
de me indignar? Pr fim  actuao dessa Corina no ser at uma 
obrigao moral? 
- E se a Ludmila Doerinck continuar a viver?
- Acho isso absolutamente impossvel.
- Acho melhor repetir as tuas prprias palavras: esperemos! - E tu? - 
ousou perguntar finalmente Willbreit, pressentindo a resposta do 
amigo. - Eu? Esperarei tambm.
- Mas o qu?
- Que Corina me diga: "Agora pode vir ver-me!"
- Se ainda fores capaz de te deslocares!
Eram palavras muito duras, mas que Roemer varreu com um gesto da mo 
como se no tivessem qualquer importncia. Willbreit insistiu.
- Recusas-te ento a ser operado?
- Recuso. Foi por isso que vieste ver-me?
- Tambm foi por isso.
- Ento, fica-te pelo usque.  o nico meio que te resta de evitar 
que eu te ponha na rua.
Uma hora mais tarde, Willbreit deixou Roemer para voltar para 
M'nster. Lydia dormia profundamente quando ele penetrou no quarto nas 
pontas dos ps. Estava estendida, nua, muito bela, e parecia muito 
mais jovem com os cabelos soltos.
Depois de se despir, ficou nu, perto dela, interrogando-se sobre se 
deveria acord-la tomando-a nos braos. Tudo nela o incitava a 
faz-lo: as pernas estavam entreabertas e acordaria suspirando alto; 
os seus braos fechar-se-iam  volta dele e gui-lo-ia logo para 
dentro dela. O seu sono nunca tinha sido demasiado profundo, ou 
realmente ou por jogo, para o fazer sentir-se inoportuno.
Mas a recordao dos problemas do dia foi mais forte: deu a volta  
cama para ir para o seu lado, enfiou-se prudentemente sob a roupa a 
fim de no acordar Lydia. e, deitado de costas, cruzou as mos atrs 
da nuca.
Pensou em Richard Wewes, que ia deslocar-se a Hellenbrand. "Amanh,  
noite, j saberemos definitivamente o que se vai fazer", pensou. 
Wewes tinha prometido telefonar-lhe assim que regressasse a M'nster.
Ficou muito tempo acordado na obscuridade. Ouvia Lydia respirar 
calmamente. Finalmente voltou-se para ela e estendeu a mo na 
direco do seu seio redondo e firme. O corpo de Lydia, ficou 
completamente tenso sem que ela acordasse. E foi assim que ele 
adormeceu, para mergulhar imediatamente num sonho totalmente absurdo: 
no era Lydia quem se encontrava ao seu lado, nem era dela o seio que 
apertava na mo, mas sim Corina Doerinck. E era de uma beleza 
sobrenatural. O seu corpo esplndido encontrava-se mergulhado numa 
aura dourada.


Guiando-se pela descrio que Willbreit lhe fizera, o Dr. Richard 
Wewes encontrou facilmente o atelier de Corina. Quanto mais se 
aproximava do crculo de rvores que rodeava a velha granja 
restaurada, mais crescia a sua curiosidade e a tenso em que se 
encontrava o seu esprito. Willbreit prevenira-o de que aquela 
"feiticeira" era de uma extraordinria beleza do tipo caucasiano, ou 
seja, que j possua alguma coisa de asitico, como o indicava os 
seus olhos ligeiramente oblquos e os cabelos, de um negro de 
azeviche, mas estranhamente salpicada de pontos dourados. O mais 
fascinante nela eram as mos, longas e esguias, quase s dedos, 
dissera Willbreit, e quando ela as encurvava ligeiramente, os dedos e 
as palmas tomavam a forma de espelhos parablicos.
- Mas o Thomas fala dela como se sonhasse em t-la nua na cama - 
exclamara o Dr. Viebig. - Tem cuidado, meu caro, no te deixes 
acariciar nalguma zona sensvel!
E o ginecologista do grupo, o Dr. Marxheit, acrescentara:
- Se as mos emitem irradiaes, imagina o que se passar entre as 
coxas!
Uma mesa de mdicos no difere, decididamente, em nada de uma sala de 
estudo de rapazes.
O Dr. Wewes j se encontra diante da granja. No ptio esto 
estacionados seis outros carros alm do seu. Que interessa! Quanto 
maior for o nmero de testemunhas, mais fcil ser desvendar a 
impostura.  priori,  de excluir a ideia de que seis compradores ou 
compradoras de tapetes se encontram por acaso num local to isolado: 
 evidente que esta afluncia deve ter outra razo.
Recapitula uma vez mais os sintomas de um adenocarcinoma: ataques 
virulentos de tosse, expectoraes de muco e ausncia de dores. Uma 
radioscopia permite diagnosticar no mximo uma banal pneumonia 
crnica, o que induz os mdicos em erro. "Se esta Corina sabe o que 
diz, deve mandar-me imediatamente para um especialista dos pulmes."
Na sala de exposies encontra quatro senhoras desconhecidas que vo 
e vm como se estivessem em casa, conversando enquanto vasculham nos 
caixotes dos desenhos. Calam-se quando ele entra e respondem com uma 
simples inclinao da cabea  sua saudao: "Minhas senhoras..." Tem 
a impresso de estar a mais; a sua presena incomoda-as 
indiscutivelmente: as mulheres preferem falar das suas doenas entre 
si.
Finge interessar-se pelas amostras penduradas nas paredes. Admite, 
contrafeito, que algumas delas so pequenas obras-primas: esta Corina 
Doerinck  certamente uma artista. Quebrando o silncio que se 
prolongava, perguntou bruscamente:
- A jovem artista que faz estas obras est?
o silncio parece tornar-se ainda mais denso. As senhoras olham-no 
fixamente, sem uma palavra, at uma delas declarar:
- Est aqui ao lado, no atelier de tecelagem, mas encontra-se 
ocupada.
- E as senhoras tambm esto  espera dela?
- Sim, cada uma entrar na sua vez.
- Como se estivessem no mdico, ?
A sua graa e o risinho que a acompanhou no encontraram eco Junto 
das quatro senhoras. Felizmente, a porta do atelier acaba de se 
abrir, o que pe fim ao seu embarao. Dele sai uma quinta mulher com 
o rosto transfigurado. Comea logo a abrir a boca para falar, mas 
quando se apercebe da presena de Wewes cala-se imediatamente. E como 
as outras a olham com ar interrogador, esta cliente, manifestamente 
feliz, inclina a cabea com ar entendido. Depois, apoiando um 
lencinho contra as narinas, vai-se embora. Dir-se-ia que um ligeiro 
suspiro colectivo de satisfao enche a sala...
Wewes retm involuntariamente a respirao quando Corina Doerinck 
aparece. Com um gesto, convida a cliente seguinte a segui-la.
O olhar que lhe lana  um jacto de ao em fuso.

Ainda  mais fascinante e mais bela do que ele imaginava. E tambm 
tem imensa classe, pensa. Se Roemer, esse porco, a visse, rugiria: 
"Quando eu mandar, agarrem-se s braguilhas para as impedir de 
saltar!"
- Bom dia - diz ela, e a sua voz  uma carcia to sensual como deve 
ser uma srie de vibraes que ressoam no ar.  efectivamente a ele 
que ela se dirige. - No o ouvi entrar. Em geral, a campainha 
avisa-me quando entra algum.
- A porta estava aberta.
- Ento foi por isso.
E de novo o fixa com aquele olhar ardente que desmente a amabilidade 
das palavras e que penetra nele como se fosse uma sonda.
- Atendo-o j de seguida. Enquanto espera, veja estes desenhos, que 
j lhe daro uma ideia do que posso fazer.
. Uma das quatro clientes j desapareceu no atelier, mas Corina no 
se apressa a ir ao seu encontro. O seu olhar continua a fixar-se 
nele, causando-lhe uma impresso to desagradvel que se volta para a 
parede a fim de examinar as obras que nela esto penduradas. Mas o 
que continua a ver so os olhos dela e o seu rosto excepcional, 
nico, enfeitiador... o que a torna ainda mais perigosa, pensa. Sob 
o efeito daquele olhar, perde-se o contacto com a realidade. A 
seguir, d consigo a levantar os ombros como se quisesse proteger a 
nuca contra aquela espcie de queimadura que continua a sentir. S 
quando ouve o barulho da porta do atelier a fechar-se recomea a 
respirar normalmente.
Corina volta quatro vezes  sala, e  quarta  a vez dele. Umas atrs 
das outras, sucederam-se no atelier as quatro pretensas clientes e s 
l ficaram cerca de cinco minutos, saindo precipitadamente a fim de 
se meterem muito depressa nos respectivos carros, quase no prestando 
ateno  saudao e ao sorriso com que ele as gratificava quando 
passavam.
Quando fica sozinho na sala de exposies, apercebe-se de que o 
corao lhe bate mais rapidamente. D-se um abano, furioso consigo 
mesmo. Encontra-se aqui com um objectivo bem preciso: confundir 
aquela intrigante, de quem nada h a recear.
- Finalmente, aqui estou.
Sai do seu torpor: Corina,  sua frente, acaba de se despedir da 
ltima cliente. Em vez de o levar para o atelier, ela senta-se numa 
das cadeiras que se encontram  volta da mesa onde esto os caixotes 
com os desenhos. Fuma avidamente um cigarro. Essa avidez choca o 
especialista dos pulmes que ele . Se no estivesse a representar um 
papel, no poderia deixar de lhe falar dos brnquios e dos pulmes 
que ela est a destruir.  claro que ele tambm fuma, s que nunca 
engole o fumo. "Deveria fazer uma radiografia aos pulmes", pensou 
ele.
- Encontrou algum desenho que lhe agrade?
Wewes, volta  terra. Decididamente, esta mulher  perigosa.
- Previno-o de que se se decidiu por algum modelo, ter de esperar 
pelo prximo ano para a entrega. Antes,  completamente impossvel.

Continua a fumar muito depressa. Porque  que o seu esprito se 
dispersa daquela maneira at lhe escapar quase completamente? Porque 
h-de estar a pensar nas cuecas verde-claras que traz hoje? A sua 
mulher, Irma, ofereceu-lhas por ele ser um grande caador: "Um 
Nenirod como tu deve vestir-se todo de verde", dissera, "desde as 
meias at ao chapu, passando pela camisa e pela camisola interior, 
etc. Tudo deve ser verde!"
- Nesse caso terei de esperar... Quanto custa, por exemplo, esta 
tapearia?
Indica com o dedo o motivo rvores Floridas. Apercebe-se de que o tom 
da sua voz foi inutilmente seco.
- Por que razo c veio, exactamente?
Ele esperava por tudo menos por aquilo. Corina apagou o que restava 
do cigarro, de que inalara todo o fumo, no cinzeiro de mrmore. 
Wewes, com a mo direita, verifica se a sua cabeleira, que comea a 
ficar branca, est em ordem.
- No compreendo... - gagueja.
- Quem foi que me recomendou?
No perde tempo. As mscaras caem. Mesmo assim, tem a presena de 
esprito de mentir.
- A senhora Herbrandt. A sua citica quase desapareceu, o que me 
incitou a...
- De que se queixa?
Ela apanha facilmente o isco, pensou, mas as suas perguntas so as de 
um verdadeiro mdico. Ele tambm tinha de referir isso no relatrio. 
Caste na armadilha, menina bonita...
Deita c para fora a sua histria: as tosses violentas, os escarros, 
os diagnsticos errados de vrios mdicos. Ela ouve sem dizer uma 
palavra at ao fim. E como continua calada,  ele que pergunta:
- O que  que acha?
O silncio torna-se cada vez mais pesado. Isto faz certamente parte 
da sua maneira de impressionar o cliente. Deixa-o ferver em lume 
brando at estar bem cozido! Que requintes!
- Porque  que no tosse agora - perguntou ela bruscamente.
- Mas eu no tusso a toda a hora.  esse o problema: h momentos em 
que a tosse me dilacera a garganta e o peito e h outros em que 
poderia subir ao alto duma montanha sem tossir. Com efeito, deveria 
tossir agora depois de ter falado tanto.
- Ora vejamos...
Ela levanta-se, aproxima-se dele e abre as mos. Willbreit observou 
bem; proporcionalmente, so os mais longos dedos e as palmas mais 
esguias que j viu. Cada vez mais interessado, v-a inclinar a cabea 
para trs e fechar os olhos enquanto as suas mos passam e repassam a 
alguns centmetros da sua caixa torcica. Depois deslizam mais para 
baixo, chegam  altura do estmago, das ancas e do abdmen, e depois 
voltam a subir. Nessa altura, ele sente um calor sbito.
- Porque  que mente? - pergunta ela.
No h hostilidade nem nenhuma censura na sua voz, Mas antes uma 
tristeza indizvel. A surpresa do Dr. Wewes  tal que, durante um 
momento, perde o sangue-frio. Como  que descobriu a sua mentira?
- Porque  que mentiria? - perguntou, julgando esconder a sua 
perturbao atravs de uma agressividade intempestiva, pronto para 
tudo.
- Porque no tem nada nos pulmes, absolutamente nada.
- Como pode estar to segura?
- Porque no sinto nada nas mos. - Inclina-se e pe os cotovelos em 
cima da mesa. - Quem  o senhor?
- Reinhard Wewes. Sou engenheiro civil, especializado na construo 
de pontes.

Faz um ligeiro aceno com a cabea, mas ele tem a impresso de que ela 
sabe exactamente que se trata de uma nova mentira. Pousou o queixo em 
cima das pontas dos dedos, por cima das mos que juntara numa posio 
to tpica que at Willbreit a ela fizera aluso.
- No sofre do abdmen?
- No. - Mas tem a sensao repentina de que a pele da cabea est a 
encolher e ouve-se dizer, quase sem querer: - Digamos, raramente: 
quando fico muito tempo de p sinto um peso ou ento umas picadas. j 
tive duas vezes uma espcie de cibra...
- Ignoro porque  que mentiu acerca da doena dos pulmes. Mas fez 
bem em vir. Tem um princpio de enfisema na vescula biliar.
Ele fica imvel perante ela, como se lhe tivessem batido.
- O qu? O que  que disse? Quer repetir?
- Ouviu perfeitamente: um princpio de infeco purulenta da vescula 
biliar. Dentro de trs dias aperceber-se-ia disso, pois as dores 
tornar-se-o intolerveis.
Wewes levanta a voz. Apercebe-se claramente de que a situao em que 
se encontra  incrvel.
- Diz isso com a maior naturalidade! - Estende as mos e afirma: "No 
so os pulmes, mas a vescula biliar", e eu deveria acreditar em si!
- No sentiu um certo calor quando a minha mo parou no stio onde s 
vezes lhe di?
- Senti.
- Foi o que eu tambm senti nos dedos:  a que o mal se encontra.
Ficou to desorientado que se esqueceu completamente da razo que o 
levou a Hellenbrand. Mas o seu crebro continua a trabalhar: enfisema 
da vescula biliar... Pois , aquelas dores difusas desde h vrios 
dias, aquela presso contnua e inslita no mesmo stio... e as fezes 
estranhamente amareladas... Meu Deus! Mas ela tem razo!  a vescula 
biliar!
- E agora, que vai fazer? - pergunta, pois chegou o momento de lhe 
lanar uma cilada, quer o diagnstico seja exacto, quer no. - A sua 
voz ficou mesmo assim um pouco rouca, pois tambm est a pensar no 
que vai fazer: precipitar-se para casa do professor Schwarthe e 
incomod-lo em pleno fim-de-semana. No acredita plenamente na tese 
do enfisema, mas se se tratar disso, o caso  grave.
- Pode fazer alguma coisa por mim?
- Posso tentar suprimir a infeco, sarando-a. - Eis o que tinha 
exasperado Willbreit. Ela pretende secar um mal sobre o qual s podem 
agir potentes doses de antibiticos. Afirma destruir abcessos e 
tumores com a tal irradiao emitida pelas suas adorveis mos e 
dedos. Comete realmente um crime contra os que acreditam nela! Ousar 
continuar a farsa com ele? Mas ela responde j  pergunta formulada.
- A senhora Herbrandt explicou-lhe como  que procedo?
- Sim, naturalmente. Acaricia a regio doente...
- No, no acaricio, destruo o mal! Para lutar contra o cancro, 
tenta-se aniquilar as clulas contaminadas por meio de raios xis ou 
dum betatro, com uma fraca percentagem de xitos. No posso 
explicar-lhe nem como nem porqu, mas as minhas mos emitem outros 
raios, e estes curam mesmo.
- Tem a certeza absoluta?

- At agora no falhei uma nica vez: tenho apenas de "sentir" a 
presena do inimigo na ponta dos dedos.
- Como um verdadeiro caador, tem um segundo de exaltao: conseguiu 
vencer as suas defesas ou foi ela que o conduziu a isso? No 
interessa!
- O qu? Nem um s falhano? Mas quantos doentes  que j ajudou?
- Talvez quarenta - responde ela sem hesitar.
Ele estremece. Quarenta! E sem nenhuma reclamao! Impossvel! 
Willbreit tinha razo: aquela mulher era decididamente perigosa. Mas 
talvez no se d conta do que h de socialmente repreensvel no que 
faz! Age de boa-f: cr verdadeiramente, na sua ingenuidade, que est 
em posio de curar doenas complexas de evoluo irreversvel, e 
nunca pensou nas consequncias dessa loucura. Pe a cara mais 
inocente.
- Tambm me pode ajudar?
- No foi para isso que veio, conforme a recomendao da senhora 
Herbrandt?
- Sim, evidentemente. - No fundo sente um pouco de vergonha de si 
mesmo. Tenta esboar um sorriso. - Confesso que pretendi que sofria 
dos pulmes para ver se descobria o meu mal real. Parabns: 
conseguiu. Entrego-me, pois, nas suas mos.
Os cinco minutos seguintes sero uma verdadeira revelao para Wewes, 
e ser obrigado a reconhecer que o que ento se passou nele desafia 
todos os ensinamentos da medicina tradicional: o que era aquele calor 
que sentira no abdmen e que desaparecera assim que Corina baixara de 
novo as mos? Como definir aquela sensao de vazio que sentira no 
stio onde lhe doa h vrios dias?
V-a pegar noutro cigarro e inalar desesperadamente o fumo. Das 
narinas at s conissuras dos lbios esto gravadas duas rugas 
profundas: um sinal de fadiga fsica e moral que  impossvel fingir. 
O que ele no sabe  que aps as oito sesses daquele dia, Corina tem 
razes para se sentir vazia e exausta, como uma massa de carne sem 
ossos e sem msculos.
- Ento  isso, o seu segredo? - perguntou numa voz diferente.
- Sim.
- Pode dar-me um cigarro?
- Sirva-se...
Fumam em silncio. O que ele sente ultrapassa tudo o que Willbreit 
contou. Como explic-lo racionalmente? Do ponto de vista da medicina 
clssica, aquilo  o cmulo do delrio.
- E depois? - perguntou ainda.
- Se desejar, poder voltar, talvez cinco vezes.
- Porqu cinco vezes?
- Ou trs vezes, ou dez vezes... enquanto eu sentir a inflamao na 
ponta dos dedos.
Como ela, esmaga o cigarro no grande cinzeiro de mrmore e, de cabea 
baixa, olha-a longamente. Visivelmente, ela recompe-se pouco a pouco 
e, num gesto muito feminino, comea a alisar com ambas as mos a 
parte superior do vestido. Na vida de um homem, pensa, no se 
encontra duas vezes uma mulher como ela. Viver efectivamente 
sozinha, sem namorado e sem amor. Ser que os seus sentimentos se 
escoam junto com o fluxo misterioso emitido pelas suas mos?
- Quanto  que lhe devo?

E no pode deixar de pensar que se ela aceitar dinheiro cair sob a 
alada da lei, mas que deve cumprir o seu dever, apesar do que acaba 
de se passar.
- Nada. Nunca levo nada.
- Mas eu quereria...
- No.
- Ento  um donativo... No pode impedir-me de o fazer.
Tira da carteira uma nota de cem marcos e pe-na em cima da mesa. Ela 
no se mexeu, mas levantou os olhos para ele. Sob o efeito de 
demasiados sentimentos contraditrios, ele dirige-se para a porta.
- Quando  que quer ver-me? Na prxima tera? - pergunta ainda.
- Se lhe convier. - Espera que esteja quase l fora para lhe falar. - 
Bom regresso, doutor Wewes. s quartas no tem consultas, pois no. - 
Wewes no pode dissimular o sobressalto que a seguir o prega ao cho: 
que atitude poder assumir a partir de agora? Nem sequer consegue 
voltar-se para a olhar de frente.
- Ento, conhece-me... Sabia desde o princpio...
- Quando estudei medicina em M'nster, o senhor ainda era assistente 
do professor Lange no servio de doenas pulmonares.
- Penso que lhe devo uma explicao - disse Wewes, mas a voz 
estrangulou-se-lhe.
- No.
A partir dali s pensa em fugir, em ir-se embora. Mas ainda vai ter 
de ouvir aquela voz que o queima, que o marca com um ferro ao rubro:
- Confirme imediatamente que sofre dum princpio de enfisema da 
vescula biliar... e d cumprimentos meus ao professor Willbreit.
Foi o golpe de misericrdia. Quase a correr, chega ao carro e  
inconscientemente que arranca como um furaco. Uma bruxa, repete. 
Esplndida, formidvel, mas bruxa ainda assim...
A seguir acalma-se um pouco, feliz por ver aumentada a distncia que 
o separa daqueles olhos, daquelas mos e daquela voz que continuam a 
invadi-lo. Precisar de tempo para compreender que o seu desvario  
da mesma natureza que a ambivalncia de sentimentos que causaram 
outrora a caa s bruxas. Ter-se-ia tornado, durante um instante, num 
homem da Idade Mdia?
Pouco comunicativo ao princpio, o professor Schwarthe, especialista 
de afeces da vescula biliar, comea a mostrar uma certa 
cordialidade aps um exame superficial. Wewes, mais uma vez, sente 
que a pele se lhe encolhe na cabea: a bruxa tem razo.
- Fizeste bem em vir incomodar-me. A tua vescula reage para l do 
bom senso. No se pode perder tempo. Vai amanh de manh  clnica 
para te examinarmos a fundo. Dir-se-ia um princpio de inflamao, 
mas no te preocupes, dispomos de tudo o que  necessrio para tratar 
disso.
Resta-lhe cumprir a promessa que fez aos colegas da mesa reservada. 
Primeiro, Viebig, depois Willbreit e a seguir os outros. E  sempre a 
mesma histria.
- Resultado nulo! A nossa feiticeirazinha no estava. Segundo os 
vizinhos, toda a famlia Doerinck fora a Burgstemfurt fazer compras. 
Vou l para a semana...

Um dia cheio de mentiras, pensou, s que desta vez no lhe custou 
nada. Pelo contrrio, at sente prazer em ter um segredo em comum com 
Corina.

- Existem duas espcies de hienas, as dos desertos de frica e as 
hienas das nossas sociedades humanas, a que damos, por vezes, um nome 
anglo-saxnico: reprter. - Foi pelo menos a opinio que Hildegard 
Benke exprimiu em voz alta quando, ao abrir o jornal regional, se lhe 
deparou um longo artigo que tinha por ttulo "Curas milagrosas na 
provncia de M'nster". Alertou imediatamente as suas amigas, que, 
naturalmente, j tinham lido a prosa do jornalista. Apesar de os 
nomes delas no figurarem no artigo, a aluso s suas pessoas era 
evidente.
"A clientela faz parte da mais abastada sociedade de M'nster e passam 
a palavra s escondidas.  assim que transmitem, a morada de Corina. 
Mas dado a sade pblica ser um assunto que a todos diz respeito, 
achamo-nos na obrigao de comunicar aqui o nome da curandeira "das 
mos irradiantes", assim como o stio onde vive: trata-se de Corina 
Doerinck, que habita em Hellenbrand."
Hildegard Benke perdia a voz ao telefone.
- Que ataque nojento! Que bandido imundo  este indivduo! E trata-se 
de um amigo do meu prprio filho! Conhecemo-lo todas, pertence ao 
nosso meio, e eis que ousa... No que me toca,  um abuso de 
confiana, pois esse parvinho faz praticamente parte da famlia. 
Consultei o nosso advogado, o doutor Wernecke. No existe nenhuma 
hiptese de o atacarmos: apenas divulgou factos de interesse geral. 
Uma verdadeira hiena!
No seu entusiasmo, Hildegard Benke tinha confiado aos filhos que o 
tique nervoso da boca tinha desaparecido em apenas trs sesses 
daquele tratamento extraordinrio.  verdade que o tique voltara de 
vez em quando em momentos de grande excitao, por exemplo quando 
tinha ficado a saber que o marido de Emilia, a sua melhor amiga, 
tinha oferecido um colar de safiras  mulher como presente de 
aniversrio. Mas o tique havia desaparecido depois de mais trs novas 
sesses e Corina tinha-lhe assegurado que, desta vez, desapareceria 
para sempre. Todas aquelas senhoras estavam entusiasmadssimas com o 
desaparecimento dos seus males: a citica de Louise Herbrandt, as 
nevralgias da Sra Westermeier, a artrite da Sra Seminler, a arritmia 
do Dr. Vonweg, etc. Sentiam-se insultadas, mortificadas, por aquele 
artigo irnico e cheio de dio que as ridicularizava, visto que em 
pleno sculo xx acreditavam em foras misteriosas...
Hildegard Benke no cedia.
- De qualquer maneira, esse malandro no voltar a pr os ps em 
minha casa! Devo prevenir Corina! No devemos permitir que seja 
surpreendida pela invaso dos abutres dos media. A Louise Herbrandt 
acha que devo faz-lo. Que poca' S de pensar que j nem sequer nos 
podemos fiar na prpria famlia!
A primeira pessoa a receber o choque no foi Corina, mas sim o pai, 
Stefan Doerinck. Durante um dos recreios, Ferdinand Hupp, o reitor da 
escola, apareceu no ptio para lhe dizer:
- Tenho de falar contigo, Stefan. A menina Freind ficar a vigiar os 
alunos no teu lugar.

Que mosca tinha mordido o colega? Doerinck conhecia-o h dezanove 
anos. O Ministrio tinha-o nomeado reitor quando deveria ter sido 
Doerinck - mais velho e tendo obtido melhores resultados - a 
beneficiar, logicamente, daquela promoo. Em conversa de corredor - 
que  a melhor fonte de informao - tinha ficado a saber que o facto 
de ter uma mulher de origem russa tivera muito peso. O inspector da 
regio havia perdido o irmo, o tio e um primo na Rssia. Pior ainda, 
uma das suas tias, quando os soviticos entraram na Prssia Oriental, 
fora violada por soldados que depois a mataram a golpes de baioneta. 
Stefan Doerinck julgara intil perguntar ao inspector o que  que a 
nacionalidade da mulher tinha a ver com uma promoo acadmica.
Quando ficaram sozinhos na sala de reunies dos professores, o reitor 
abriu um jornal e estendeu-o a Doerinck com a gravidade necessria.
- Leste este jornal, Stefan?
Doerinck deu uma olhadela ao jornal.
- No. No sou assinante dessa porcaria. De que  que se trata? Dum 
novo ataque contra o corpo docente, como de costume?
- Pior do que isso. Contra a tua filha.
- Contra Corina!
Doerinck apoderou-se do jornal e leu lentamente o artigo a fundo, ao 
mesmo tempo que reflectia. "Eis o que eu receava", dizia para si 
mesmo. "Tinha de acontecer. Quantas vezes preveni Corina... Que 
poderia fazer mais? Agora trata-se de no perder a cabea: um tiro de 
canho isolado no significa que haja guerra."
- Eis aqui algo de prosaico - disse uma voz calma, entregando o 
jornal ao reitor. - O jornalista deste pasquim deve ter tido uma 
necessidade sbita de dinheiro!
- Mas h milhares de pessoas que lem este gnero de coisas! - 
Desesperado, o reitor atirou com o jornal para cima da mesa de 
conferncias, onde aterrou entre propostas de notas e castigos da 
semana. - Mas  ou no verdade o que vem aqui? ,
-  a verdade, mas deformada.
- O que quer isso dizer, Stefan?  fora de viveres com a tua mulher 
falas como a Rdio Erivan, a nica estao de rdio sovitica que diz 
por vezes a verdade, com a condio de que esta no seja 
imediatamente perceptvel! A Corina tentou realmente curar com 
carcias algumas matronas prontas a engolir seja o que for?
- No. Ela no tentou. Ela curou-as dos seus males. E j tratou cerca 
de quarenta doentes.
- Mas no  possvel! - exclamou o reitor. Dava-se conta de repente 
da avalancha que aquele artigo iria provocar. Em Hellenbrand havia 
uma mulher que fazia milagres, simplesmente, e o seu pai era o 
vice-reitor da escola oficial! Ferdinand Hupp deu alguns passos at  
janela, contemplou durante um instante as crianas que brincavam 
calmamente no ptio e sentiu-se ainda mais desarmado. Tinha acabado a 
serenidade habitual daquela pequena cidade e da sua escola...
- Vejamos, Stefan, como pudeste suportar uma coisa dessas?
- A Corina tem trinta anos, Ferdinand.
- Mas poderias t-la influenciado.
- Tu tambm no o terias conseguido.
- Ah! juro-te que sim!
- No conseguirias se a tivesses visto curar a tua prpria mulher de 
um cancro com as mos, s com as mos.
O reitor ficou mudo enquanto respirava profundamente.

- O qu? O que  que disseste? A Ludinila teve um cancro? Mas nunca 
me disseste nada!
- Achas que deveria ter publicado a notcia na seco de anncios 
desse jornal? "A senhora Doerinck, mulher do nosso distinto, etc., 
sofre dum cancro no clon desde o dia dezasseis de Abril..." Pois , 
a Corina curou-a. As novas radiografias provam-no: o cancro 
desapareceu.
- Mas isso no pode existir, Stefan.
- Vou trazer-te as primeiras e as ltimas radiografias. Poders tu 
prprio comparar. Tambm podes interrogar o doutor Hambach, que fica 
desde j isento da obrigao do segredo profissional.
Hupp, atarantado, passeou as mos pelos cabelos ralos.
- Meu Deus!... Mas isso no altera em nada o facto de um jornal ter 
falado do assunto e de que agora todos o conhecem. A filha do 
vice-reitor, do nosso professor, opera curas milagrosas! Pensaste na 
reaco das pessoas e na dos pais dos alunos?
- Mas no so as minhas mos que curam, so as da minha filha...
- Para as pessoas ser exactamente o mesmo! Aposto que
o inspector vai telefonar ainda hoje. Enquanto essas curas se 
realizavam no maior segredo, ainda v! Mas agora que a imprensa j 
sabe, os outros media vo aparecer tambm! Que sensao!
Estava to nervoso que amarrotava nas mos, sem dar por isso, o 
jornal que tirara de cima da mesa.
- Talvez - respondeu Doerinck. - Mas no posso fazer
nada E porque ser que as pessoas ficam to excitadas quando algum 
possui foras benficas que no podem compreender? Deveriam era ficar 
satisfeitas...
- Gostaria de aceitar esta histria com a mesma calma que tu. Dentro 
de uma semana, se outros jornais se debruarem sobre o assunto, 
Hellenbrand ter-se- transformado num local de peregrinao. Meu 
Deus. - O toque do telefone interrompeu-o nas suas lamentaes. - 
Aposto que  a inspeco escolar!
No era o inspector, mas o presidente da cmara, membro do conselho 
evanglico e da sociedade dos jogadores de malha e presidente do coro 
municipal.
- O Stefan est ao p de ti? - perguntou imediatamente.
A sua voz produzia no aparelho uma vibrao de mau agouro.
- Passa-mo!
Hulpp estendeu o telefone a Doerinck, sussurrando:
-  o Peter! Ao ouvi-lo dir-se-ia que h fogo na cmara.
Stefan Doerinck pegou no auscultador. S lhe restava um ltimo 
recurso: passar  ofensiva.
- Fala Stefan - disse com brusquido. - Se se trata do artigo sobre a 
Corina, j tentei explicar ao Ferdinand que no posso fazer nada.
A voz do presidente da cmara era to brusca como a dele.
- Vem c imediatamente! Tambm convoquei a Corina. J no se trata de 
um assunto privado que s a vs diz respeito e a um pequeno nmero de 
pessoas. Agora  a cidade inteira que est a ser ameaada. 
Telefonaram-me h cinco minutos da televiso: vo enviar uma equipa 
para fazer uma reportagem. Stefan,  horrvel o que est a acontecer 
e ningum pode prever as consequncias disto.

captulo stimo

Stefan Doerinck chegou  cmara alguns minutos antes de Corina. O 
presidente, Peter Beiler, que era um gordo bonacheiro de cara 
vermelha, tinha perdido a jovialidade habitual. Recebeu o camarada e 
parceiro dos torneios locais de xadrez com uma censura.
- Por vossa causa estamos em bons lenis! Ficaram completamente 
malucos?
- O que  que queres dizer com isso? - perguntou Doerinck friamente.
Sem pressa, pegou numa cadeira e foi instalar-se perto da janela. Ao 
p da entrada reservada aos cortejos nupciais, encontrava-se uma 
noiva toda de branco e o seu futuro marido. Este no parava de abanar 
a cabea para todos os lados, certamente por o colarinho o magoar. 
Rodeados de alguns parentes e amigos, aguardavam o momento de 
penetrar na sala dos casamentos.
Winunerling, um colega de Doerinck, tinha substitudo este com a 
maior das facilidades, ditando aos alunos o assunto de uma redaco: 
"Conte o que fez a sua me durante as frias."
- Estou a falar de ti e da tua filha, Stefan.
- Repito o que disse ao Ferdinand: no direito alemo moderno, j no 
existe a responsabilidade familiar.
- No vamos discutir sobre as palavras, Stefan.
Peter Beiler estava consternado. Sem saber, Doerinck tinha acabado de 
tocar num ponto que era doloroso para ele. Em 1933, o seu pai 
tinha-se tornado chefe do grupo nacional-socialista local e, sob a 
sua autoridade, tinham sido deportados para campos de "reeducao" 
dois cidados sociais-democratas e o nico comunista da localidade; 
as respectivas famlias tinham sido obrigadas a deixar Hellenbrand em 
vinte e quatro horas. Cinquenta anos depois, Peter Beiler e todos os 
seus eram alrgicos s palavras "responsabilidade familiar". Voltou a 
falar com uma voz menos segura:
- Stefan, como  que pudeste aceitar em casa uma farsa destas?
- Essa farsa permitiu curar quarenta pessoas, segundo o que Corina me 
contou.
- Quarenta... - Tal como o reitor Ferdinand Hupp, Beiler tinha aberto 
muito os olhos ao ouvir este nmero, mas dominou-se logo a seguir. - 
Esperemos que o pblico no o venha a saber!
- No consigo compreender como  que esta histria chegou aos ouvidos 
dum reporterzeco imundo.
- Ora, Stefan, achas que uma coisa destas pode ficar escondida 
durante muito tempo? Espera s que a Corina chegue. Essa vai ter de 
se haver comigo!
- No vais ter de esperar muito, Peter... Ela est a estacionar o 
carro. - Parou um instante para olhar pensativamente o amigo. - H 
quanto tempo nos conhecemos, Peter?
- H cerca de vinte e cinco ou talvez vinte e seis anos. Estava a 
tirar o bacharelato em Direito em M'nster quando aqui chegaste.
- Tem cuidado, no vo vinte e seis anos de amizade volatilizarem-se 
em fumo...
- Tenho de proteger a comunidade, Stefan!
- E eu a minha filha.

Quando Corina entrou, o olhar dos dois homens fixou-se nela. Era 
Vero. No seu vestido leve de decote pronunciado, estava 
verdadeiramente encantadora, mas os seus olhos amendoados no 
deixavam dvidas quanto s suas intenes. Beiler suspirou pensando: 
 uma flor extica e, apesar de ser alem, toda a cidade se vai 
erguer contra ela para a esmagar com os ps. Os vinte e seis anos que 
passou no meio deles no vo contar para nada. Estes vestefalianos 
acham que uma famlia deve ter, pelo menos, um sculo de enraizamento 
para deixar de ser considerada estranha  terra. "Esta filha de 
russa... esta russa... ", diro. Querida Corina, no fazes ideia 
nenhuma do que te espera aqui...
Estes segundos de hesitao iam custar-lhe caro. Corina passou logo 
ao ataque.
- O facto de terem ousado convocar-te para aqui, pai, a ti que no 
tens nada a ver com esta histria,  idiota e insultante!
Peter Beiler ficou sufocado de surpresa e de furor.
- Ah! No comecemos s bofetadas, nem morais nem das outras! Sabes o 
que se passa, Corina?
- Por si. No li o jornal esta manh. Comprei um quando vinha para 
c, mas ainda no o abri. O artigo em questo deve ser de uma 
grosseria e de uma estupidez totais, visto Fritz Broicimer, em cujo 
quiosque o comprei, e que no brilha pela inteligncia, me ter 
perguntado a rir se eu no podia acariciar-lhe igualmente certas 
partes do corpo que disso estavam a necessitar...
- Pois , minha querida, j est a comear! - disse Beiler.
- Mas eu, na minha qualidade de pai, tenho uma palavrinha a dizer a 
esse bandido do Broichner!
- No vais fazer absolutamente nada, Stefan, porque seno daqui a uma 
semana vais ter de ir provocar toda a gente que tiver insultado a tua 
filha...  preciso agir de outra maneira e depressa, como vem. De 
momento, trata-se apenas dum jornal e dum artigo. Mas vamos ter a 
televiso  perna! Isso  que  de evitar, sobretudo.
- Como? - perguntou friamente Corina.
A sua cara parecia esculpida em granito. Apenas os pontos dourados 
dos olhos amendoados pareciam danar perigosamente. A fixidez do seu 
olhar irritou o presidente.
- Tens de desaparecer durante uns tempos, Corina!
- Porqu?
Beiler lanou um verdadeiro grito.
- E ela ainda pergunta porqu!
- Mas eu tambm! Porque  que a minha filha tem de fugir? Matou 
algum?
Beiler levantou os olhos ao cu.
- Meu Deus, mas ento tentem compreender-me! Isto no tem nada a ver 
com as vossas pessoas. No podemos permitir que se desencadeie uma 
avalancha de desordens e de dio em Hellenbrand.  esse o nico 
problema que temos de resolver. E a melhor soluo  a Corina 
desaparecer daqui at que j ningum fale dela.
-  impossvel - respondeu ela calmamente.
- Agora sou eu que te pergunto porqu.
- Antes de mais, porque no posso interromper o tratamento de certos 
doentes. A, sim, poderiam atacar-me.
Peter Beiler levantou de novo os braos ao cu.
- O tratamento! O tratamento!

- Pois , emprego a palavra "tratamento" visto poder curar os que vm 
ter comigo.
- Estou a ficar maluco!
Corina esboou pela primeira vez um ligeiro sorriso.
- Apesar do que dizem certos psiquiatras, a verdadeira loucura no se 
pode curar. No poderei, portanto, ajud-lo, senhor presidente... 
Oua bem: no fiz nada que me obrigue a fugir da cidade em que vivo. 
Curar doentes ter-se- tornado nalgum crime?
- No me interessa saber se as tuas mos tm o poder real de curar ou 
se se trata duma fraude. A nica coisa que me interessa  a cidade e 
a sua populao.  necessrio que possa dizer  equipa de televiso 
que est a chegar: "Corina Doerinck partiu para o estrangeiro por 
tempo indefinido." E isto tem de ser mesmo verdade, pois estes 
reprteres so verdadeiros ces de caa e descobriro rapidamente 
onde  que ests escondida se c ficares. Vejamos, um pouco de boa 
vontade...
- H alguma coisa mais importante do que a tranquilidade dos seus 
concidados ou a cura de doentes, digamos mesmo de um s doente, 
senhor presidente?
- Corina!
"Torce as mos com verdadeiro desespero", pensou ela. A seguir 
aproximou-se da janela e olhou atravs do vidro: a praa do mercado 
estava inundada de sol. As flores de tlia que a circundavam pareciam 
salpicadas por uma bruma de ouro. Havia sete lojas que estavam 
abertas todos os dias da semana: uma florista, um lugar de legumes e 
dois de fruta, uma leitaria e um pasteleiro. Era uma cidadezinha 
tranquila! E, de repente, a praa ia encher-se de autocarros e de 
doentes reais ou imaginrios, vindos pela estrada ou de comboio, 
movidos por uma histeria colectiva de que a histria fornece 
frequentes exemplos...
- O que fazes  ilegal, Corina.
- De maneira nenhuma.
- No  aceite do ponto de vista cientfico.
- A medicina tradicional tambm pe em ridculo a implantao de 
clulas frescas, e, no entanto, a sua mulher passou oito dias na 
Baviera numa clnica especializada, e achou que tinha ficado ptima, 
no foi?
A cura de clulas frescas que a Ellriede tinha querido fazer ficara 
quase secreta: s as amigas que a tinham encorajado a faz-la estavam 
ao corrente. Toda a gente falara duma cura em Bad para a asma. "Houve 
ento fuga de informao", pensou.
- A cura de Ellriede no deu lugar a artigos de jornal nem  
interveno da televiso, nem a peregrinaes - acabou por dizer.
Soou a campainha do telefone. Beiler lanou ao aparelho um olhar de 
dio. Tinha dado ordem  secretria para no lhe passar nenhuma 
comunicao, a no ser em caso de urgncia. Quem seria? Mais um 
curioso! Ou uma autoridade qualquer que vinha ordenar-lhe que fizesse 
cessar o escndalo?
Pegou no auscultador e disse "est?" numa voz hostil. Doerinck e a 
filha viram-no mudar de cara e crisp-la. A seguir, sufocando um 
grito, pousou brutalmente o auscultador no gancho.
- Quem era? - perguntou Doerinck. - O papa?
- j comeam! j comeam! E tudo isto por vossa causa!
- Mas o que foi?

- Nada, a no ser que o Hannes Vierholz, dono do talho-charcutaria da 
nossa cidade, e que tambm  conselheiro municipal, quer simplesmente 
pedir uma autorizao para abrir imediatamente,  entrada da tua 
granja, Corina, uma tenda de salsichas e costeletas de porco frias 
com salada de batata! E tambm quer levar um barril de cerveja para 
tirar a sede aos peregrinos! Est s  espera da minha autorizao.
- O Hannes sempre foi um excelente comerciante! - Doerinck no 
conseguia deixar de rir. - Tal como receavas, a cidade vai entrar em 
ebulio, mas no no sentido em que previas, Peter.
- No vou dar nenhuma autorizao destas!
- Mas arriscas-te a destruir a tua aurola de presidente 
progressista! O teu conselho municipal vai ficar dividido: por um 
lado, vais ter os que farejam um bom negcio tanto para eles como 
para as finanas da cidade, e, por outro, os que, no tendo dinheiro 
para ganhar, graas  Corina, se vo instituir em defensores da moral 
pblica! Ah, Peter, o ser humano  um animal horrvel, ou ento somos 
uma rica cambada de parvos!
Corina tinha ficado impassvel e muda, como se a discusso no lhe 
dissesse respeito. O presidente, depois de a ter olhado longamente, 
apelou de novo para ela.
- Ests a ver agora, Corina, por favor, que tens de sair da cidade o 
mais depressa possvel? O teu pai tambm vai ter aborrecimentos 
graves.
- No admito essa chantagem, Peter! Nunca falo da guerra, mas corri 
voluntariamente uma srie de riscos na minha vida, nem que seja s o 
de ter trazido uma russa com o meu batalho para uma Alemanha nazi e, 
excepto as minhas cicatrizes, tenho a pele mais espessa do que 
parece.
- Em resumo, recusam a minha sugesto! Vo deixar que a cidade 
inteira se precipite para a catstrofe?
Corina quebrou mais uma vez o silncio para declarar numa voz to 
firme como a do pai:
- No deixarei de tratar os que vm ter comigo para se curarem. Desde 
que me dei conta do que as minhas mos podem fazer, e sobretudo desde 
que curei a minha me, sinto-me cada vez mais obrigada a ajudar os 
que esto doentes com os meios que possuo.
Beiler, com os braos pendentes, dava pena.
- Era meu dever avis-los, mas visto que no me querem dar ouvidos... 
- Deu a volta  secretria para se deixar cair numa grande poltrona 
de couro. - Ento, avante com a televiso, a rdio, os fotgrafos e 
os cineastas...
- No. Prometo s receber os meus doentes. A minha porta ficar 
fechada para todos os outros. No concederei nenhuma entrevista nem 
me deixarei fotografar...
- Minha filha, eles dispem de muitos truques e tambm da 
cumplicidade do pblico para obterem o que querem. Vo fazer cenas e 
fingir que esto doentes...
- -lhes impossvel enganarem-me nesse ponto...
- Est bem! Na minha qualidade de presidente da cmara s lhes digo 
uma coisa: farei tudo o que puder para que a minha cidade recupere a 
calma, mesmo se a nossa velha amizade, Stefan, tiver de sofrer! A 
Corina no pode agir de outro modo, pois seja, mas eu tambm no.
Doerinck tinha-se levantado para agarrar a filha pela cintura.

- No ters nenhum aborrecimento connosco, Peter,  contra os outros 
que te deverias bater, a comear pelos teus concidados, como ns 
estamos dispostos a fazer, a Corina e eu... Podemos retirar-nos?
- Podem.
L fora, sob o sol do Vero, pararam um instante perto do carro de 
Corina.
- Levo-te a casa, papuchka?
- No, vou a p at  escola,  perto. Ainda tenho uma hora de aula 
para dar.
- O que  que o Ferdinand disse?
- Como  reitor da escola, gravita, consequentemente,  volta do eixo 
que lhe  prprio. Como cada um de ns! S no sei como  que o 
conselho da escola vai reagir.
- Que vais responder-lhes, papuchka?
- O que for necessrio responder...
Ela abriu a porta do carro e deslizou para trs do volante. Quando ia 
a arrancar, ele completou o seu pensamento.
- Dir-lhes-ei: "H algum de vocs cuja mulher, sofrendo de cancro, e 
estando condenada  morte, esteja hoje curada?"
As suas ltimas palavras perderam-se na nuvem de p amarelo que o 
pequeno carro que comeava a afastar-se tinha levantado.
Durante todo o dia, o telefone continuou a tocar, a fazer cliques e a 
zumbir: em casa de Stefan Doerinck, no atelier de Corina, em casa dos 
vizinhos mais prximos, em casa do reitor Hupp, em casa do presidente 
da cmara e na dos conselheiros municipais. Os meios de comunicao 
serviam-se das suas matilhas e, os seus ces, descontrolados, com a 
lngua pendente, e cheios de sede de escndalo,  falta de sangue, 
galopavam para Hellenbrand.  espantoso, mas sobretudo angustiante, 
verificar as situaes atrozes que pode desencadear um artigo sujo 
num jornal sujo. Vejam bem: uma mulher que cura com as mos  um 
milagre, no  verdade? Pois bem, o certo  que na nossa poca, to 
frtil em milagres de toda a espcie, milagres como este no podem 
existir.
Corina desligou simplesmente o telefone. Doerinck limitava-se a 
responder de cada vez: "Bem, podia economizar esta chamada", antes de 
desligar. Na cmara, Beiler recrutou uma secretria suplementar que, 
como uma gravao, repetia: "No sabemos de nada." Depois do referido 
artigo, ningum podia acreditar naquele gnero de desmentido, e 
imediatamente comeou a correr o rumor: "O conselho municipal esconde 
se por trs duma muralha de silncio. " E o que  que h de mais 
magnfico, para um certo tipo de jornalistas, do que poder 
descarregar contra uma administrao qualquer invocando o direito que 
o pblico tem de ser informado?  assim que o cinismo da nossa 
civilizao ocidental se pode esvaziar a grandes baldadas, fazendo 
mossas na conscincia de cada um de ns.
Os vizinhos mais prximos de Doerinck iam ser os mais solicitados. 
Vendo bem, estes caros habitantes de Hellenbrand, que habitam a casa 
contgua  da dos suspeitos, devem estar, sem dvida, bem informados. 
Ouvem e vem uma quantidade de coisas que so os nicos a poderem 
ouvir e ver. Um reprter, com um pouco de imaginao, escreve um 
excelente artigo com base na mnima palavra. Evidentemente, apenas se 
limita a sugerir algo ou a fazer certas perguntas, nunca a afirmar 
seja o que for.
"As mos de Corina podem influenciar os polticos?"

Era o gnero de perguntas que a televiso queria fazer a Corina, mas 
o dia passou sem que nenhum reprter conseguisse contact-la. Quanto 
ao pai, um professor, recusava-se a falar dela. Os vizinhos, esses, 
tinham mil coisas para contar, mas infelizmente nada de 
verdadeiramente explosivo. A no ser um pormenor: a Sra. Doerinck, a 
me de Corina, era russa, e, o que era mais importante, originria da 
Grusnia, regio do Cticaso onde os mdicos-curandeiros ainda fazem 
milagres, onde existem imensos centenrios e onde, aos cento e dez 
anos, os velhos andam todo o dia a galope atrs dos rebanhos!
Como todas as sondagens indicam, o pblico culto da nossa poca exige 
pormenores absolutamente cientficos.
A televiso s tinha mandado a Hellenbrand uma pequena equipa 
encarregada de explorar o terreno e de no sair de l durante vrios 
dias, se necessrio, a fim de nada perder da evoluo dos 
acontecimentos. No Hotel Westfalenwappen (As Armas da Vesteflia), 
onde a equipa ocupava trs quartos, o chefe, Jacob Sippenhorst, 
sentiu-se muito orgulhoso por poder revelar que Stefan Doerinck era 
um habitu e um grande jogador de xadrez e de malha. Inversamente, 
Corina s entrava raramente no caf que o pai costumava frequentar. 
Que espcie de rapariga ?, tinham perguntado os jornalistas. Pois 
bem, era muito bela, como a me, isto , com um tipo estrangeiro... 
Curas milagrosas? A Corina? Nunca tinha ouvido falar disso! Os 
mdicos de M'nster e da regio devem rir-se dessa inveno! Porque  
que os reprteres no iam ver o Dr. Hambach para falarem do assunto?
A pequena casa do Dr. Hambach aparecia no meio das flores dum jardim 
maravilhoso. Ao contrrio dos Doerinck, recebeu amavelmente a equipa 
de televiso e f-la imediatamente entrar para a sala de estar. 
Ofereceu cigarros, cerveja, aguardente alem e conhaque francs aos 
trs reprteres. Mas quando o fotgrafo quis pr a cmara sobre o 
ombro e fazer preparativos para regular a luz da sala, o velho mdico 
ops-se terminantemente, levantando as mos:
- No, nada de imagens!
- Ento porque  que nos deixou entrar? - perguntou um deles. - Isso 
no se faz, caro doutor! Abre-nos a porta e a seguir faz-nos sair com 
pontaps no traseiro! Ns somos da televiso, que, como sabe, faz e 
desfaz polticos! A ns no nos tratam assim! Estamos aqui porque nos 
disseram que o senhor  o mdico da famlia Doerinck.
-  verdade.
- Conhece-os h muito tempo?
- H um quarto de sculo!
- Fantstico! Doutor, isto vai dar uma emisso formidvel...
- A minha inteno no  fazer uma emisso de televiso formidvel, 
mas contribuir para o estabelecimento da verdade!
- Mas  precisamente o que ns queremos: a verdade sobre Corina...
O chefe da equipa voltou a respirar livremente. Nunca se deve atacar 
directamente estes velhos. Basta deix-los falar.  mnima pergunta 
perdem a cabea. Anda, velhadas! Conta-nos a histria dos milagres da 
nova virgem Corina Doerinck! Estamos  escuta!

O Dr. Hambach, calmamente, vai cheirando e bebendo o seu conhaque e 
acaba por acender um charuto. Sente uma maliciosa volpia ao fazer 
esperar aqueles jovens da televiso, to impacientes e seguros de si, 
que chegam a ameaar abrir  fora as portas que se fecham para eles. 
E o que lhes diz ento no lhes agrada mesmo nada.
- No se trata de Corina Doerinck, mas das possibilidades que a 
medicina oficial quer ignorar.
O reprter estava a ficar cada vez mais irritado.
- Peo desculpa, mas ns no pertencemos nem ao servio cultural nem 
ao cientfico, mas sim ao de actualidades. O que nos interessa  o 
que nos pode dizer sobre Corina. Visto que a conhece desde criana, 
deve ter certamente muitas coisas para nos contar sobre ela.
- Com efeito!
- Ento, comece!
Voluptuosamente, o Dr. Hambach engoliu mais um gole de conhaque.
. - Pois sim... Comecemos ento pelo mais importante: ouviu 
certamente falar do segredo mdico.
- Naturalmente!
- Ento, nesse caso, a nossa entrevista est terminada no que toca a 
Corina Doerinck.
- Mas no pode fazer-nos uma coisa destas! - Furioso, o reprter 
dificilmente conseguia controlar-se. - Faz-nos entrar em sua casa e 
depois...
- E depois o qu?
- Quer falar connosco...
- Queria falar dos limites actuais da medicina oficial...
O rapaz tinha-se levantado e fez sinal aos companheiros,
- No percamos mais tempo aqui... Doutor, no lhe fica bem ter estado 
a gozar-nos desta maneira.
O Dr. Hambach tambm se tinha levantado.
- E agora s lhe resta fazer um relatrio tpico duma televiso 
estatal, ou seja, a televiso que pagamos do nosso bolso: uma srie 
de fotografias que a voz do apresentador acompanha: "Esta pequena 
cidade tranquila da provncia de M'nster  Hellenbrand, que passou a 
ser a partir de hoje o centro da feitiaria alem..." E nenhum dos 
espectadores ter a possibilidade de vos atirar  gua com os ps e 
as mos atados com o vosso filme, seus imbecis!
Enquanto os reprteres da televiso fechavam as portas do carro, o 
Dr. Hambach pde ouvir o chefe da equipa explicar a situao  sua 
maneira.
- Um velho reaccionrio tpico.  pena que no os tenhamos 
exterminado todos em mil novecentos e sessenta e oito! Mas vamos 
tratar dele: no imagina o poder que temos...
Ao voltarem para As Armas da Vesteflia, que era o seu 
quartel-general, os trs funcionrios no prestaram nenhuma ateno 
ao pequeno carro com que se cruzaram e que era conduzido por Corina. 
Se ao menos tivessem uma fotografia da feiticeira!
justamente, um vizinho de Doerinck, Julius Mandau, empregado numa 
mercearia, estava  espera deles no hotel. Ao folhear o seu lbum, 
tinha encontrado uma fotografia de Corina que tinha dois anos e que a 
mostrava de bicicleta a fazer um gesto de adeus.
- Depois de ver isto, apresento-me como voluntrio para me deixar 
acariciar! E vocs podem filmar-me para provar a todos que ela me faz 
sentir imediatamente em forma!

Naquela noite, a campainha da porta acordou Corina em sobressalto. 
Algum devia estar a carregar sem parar na campainha ou tinha 
bloqueado o boto com a ponta de um fsforo, como ela tinha feito em 
criana para aborrecer os vizinhos
de quem no gostava e para ter o prazer de os ver precipitarem-se 
furiosos para a porta do seu esconderijo...
Os nmeros luminosos do despertador permitiram-lhe verificar as 
horas: pouco passava da meia-noite. Levantou-se, correu na ponta dos 
ps para verificar sem barulho, pelo visor, se no era, apesar de 
tudo, um visitante conhecido. Na obscuridade, distinguiu 
efectivamente uma silhueta de homem com o brao estendido para a 
campainha, que continuava a tocar.
- Que quer? Quem ? Se no se for imediatamente embora, chamo a 
Polcia'
A campainha parou de tocar imediatamente.
- Peo-lhe, abra...
Apesar da espessura da porta, aquela voz de homem no lhe era 
desconhecida. Depois de um instante de hesitao, deu a volta  
fechadura e as ltimas dvidas desapareceram.
- O senhor, doutor Wewes? A esta hora? Que deseja?
- Posso entrar?
- Naturalmente.
Ela apercebeu-se ento que s tinha vestida uma camisa de noite 
transparente. Pegou ao acaso na tapearia mais prxima para a pr  
frente como se fosse uma cortina protectora. Era um pouco ridculo, 
mais que no fosse por causa do motivo Ulisses e as Sereias. Mas o 
Dr. Wewes continuava a esboar o mesmo sorriso embaraado.
- Devo-lhe uma explicao... Sim, eu sei, j  meia-noite, mas  que 
no queria ser reconhecido...
- O cdigo de honra mdica no prev que um especialista dos pulmes 
v visitar uma curandeira, no  verdade? Isso poderia prejudicar a 
sua nomeada. Mas qual  a razo desta visita surpreendente? Tem um 
novo adenoma no pulmo?
- Agi de maneira idiota, reconheo. Depois de ouvir o professor 
Willbreit, o nosso pequeno grupo de mdicos decidiu fazer um 
inqurito sobre si e eu apresentei-me como voluntrio com o objectivo 
de a desmascarar...
- Serei assim to nociva ao corpo mdico? - comentou Corina 
amargamente.
- Diganos antes que  uma causa de perturbaes. E o artigo do jornal 
deitou fogo  plvora.
- E  por isso que vem a minha casa  meia-noite. Vai, portanto, 
transmitir-me um ultimato sob a forma dum conselho do corpo mdico: 
"Fica quieta! Pra de curar com as mos! Somos mais fortes e 
provaremos cientificamente que tudo o que fazes no passa duma 
impostura." Mas no me conhecem, doutor Wewes. No tenho medo. Por 
causa deste poder que se exprime atravs das minhas mos assumi uma 
grande tarefa e lev-la-ei a cabo. Diga tudo isto aos seus colegas.
- No. Eles aperceber-se-o disso por eles mesmos. - Olhou  volta, 
pegou numa cadeira e sentou-se. O seu rosto estava modificado e tinha 
envelhecido desde a ltima visita. - Corina, permite que a trate 
assim, no  verdade?, vim antes de mais para lhe dizer que tinha 
razo. Quando a deixei, fui consultar o professor Schwarthe...
- O especialista das vesculas.

- Sim. Todos os exames confirmaram o seu diagnstico: princpio de 
enfisema da vescula biliar. Mas houve um pormenor que espantou 
Schwarthe: foi o facto de eu ter podido sentir alguma coisa quando o 
enfisema ainda se encontrava no seu primeiro estdio.
- Naturalmente, no lhe falou de mim.
O Dr. Wewes baixou a cabea.
- Desculpe,  uma cobardia da minha parte, eu sei. Devia ter-lhe 
dito... Sim, o ser humano  horrvel... Em todo o caso, Schwarthe 
prescreveu-me doses considerveis de antibiticos e acha que seria 
prefervel intervir, etc. O resto j deve adivinhar.
-  razovel.
- Indiscutivelmente. Mas devo confessar a verdade; tenho medo da 
anestesia. Os mdicos constituem, de facto, um mundo  parte: nem 
sempre somos razoveis nem estamos dispostos a seguir os conselhos 
judiciosos que damos aos nossos clientes. Por exemplo, eu digo aos 
meus: "Mas pare de fumar! Est a envenenar-se!" Ora eu fumo os meus 
quarenta cigarros por dia. Alis, voc tambm fuma de mais!
- Eu sei, mas depois de tratar um doente, sinto absoluta necessidade 
de fumar um cigarro.
- Ento, falemos francamente: aceita tratar-me, Corina?
- A si, espio do corpo mdico?
- Esquea isso! Peo-lhe.
- No sei se o posso fazer.
- Porqu?
Sob o efeito da surpresa, levantou os olhos do cho, que fixava 
obstinadamente h j algum tempo.
- No tenho a certeza de ter em relao a si a imparcialidade emotiva 
indispensvel ao contacto que deve estabelecer-se entre o doente e eu 
para o poder tratar. No devo sentir nenhum sentimento de rancor ou 
de agressividade em relao ao doente. No que lhe diz respeito, s as 
minhas mos podero informar-me.
- Quer tentar? - Levantara-se para procurar nervosamente uma coisa 
nos bolsos do casaco e teve um pequeno riso embaraado. - Deixei os 
cigarros no carro. Fumei quatro antes de ousar tocar  sua porta. 
Teria a alguns  mo?
- Esto no meu quarto. Um momento.
Ela estava satisfeita por poder desembaraar-se da tapearia. S 
demorou o tempo de correr at ao quarto, pegar num roupo e num mao 
de cigarros, e voltou logo a seguir. Avidamente, o Dr. Wewes inalou a 
primeira fumaa.
- Gostava que os seus doentes dos pulmes o pudessem ver - disse 
Corina a sorrir.
- Eu sei... mas vim, sobretudo, para lhe fazer uma promessa: e se lha 
fao  porque acredito na fora que existe em si.
- A est uma confisso difcil de fazer para um mdico como o 
senhor!
- No. Agora j no. Eis a minha promessa: vou p-la em contacto com 
uma pessoa que encontrei em vrios congressos mdicos e que ser 
capaz de a ajudar. Porque dentro em breve, pode estar certa, 
precisar muito de ajuda. No imagina o que esto a preparar contra 
si.
- J me avisaram e estou disposta a lutar.

- A coragem no lhe chegar. Vai precisar de apoios srios. Quero 
apresentar-lhe o professor Pieter Van Meersel, um biofsico holands 
grande especialista das radiaes celulares e outras. Isso pode ser 
muito importante para si. Raros so os mdicos que se debruam sobre 
estas questes. A maior parte nem sequer sabe de que se trata e negam 
tudo o que for biofsico, indistintamente. Exactamente como dantes, 
quando os cientistas se recusaram a admitir que a Terra andava  
volta do Sol com o pretexto de que o que tinham aprendido, e ainda 
estava em vigor, a isso se opunha... Quero que o professor Van 
Meersel se interesse pelo seu caso.
- E se eu no quiser?
- Corina, voc curou a sua me dum cancro do clon, no curou?
- Curei, e ento?
- Quer que essa vitria se limite a ser o que : um caso nico em 
Hellenbrand? No tem esse direito! O professor Van Meersel vai 
abrir-lhe todas as portas: o seu poder ser estudado e apreciado 
internacionalmente. Os nossos cientistas tero de reconhecer que a 
Corina  um caso excepcional e, simultaneamente, que existem maneiras 
de tratar e de curar os doentes que eles ainda no utilizam. Talvez o 
futuro nos reserve grandes surpresas! No h muito tempo, os mdicos 
estavam limitados aos sentidos do tacto e da vista para estabelecerem 
os seus diagnsticos. Ouviam uma pieira num pulmo e concluam: 
alguma coisa no est bem! E quando o doente tinha a barriga dura 
como uma pedra, procuravam entre todas as causas possveis aquela que 
correspondia melhor s particularidades do paciente. Quem acreditaria 
ento que um dia se conseguiria ver o interior do corpo humano? Pois 
chegou Roentgen e deu-se uma exploso de novas possibilidades de 
tratamentos e de curas.
H muito tempo que o Dr. Wwes tinha acabado o cigarro e lutava 
contra uma terrvel vontade de fumar outro. Sem uma palavra, Corina 
estendeu-lhe o mao.
- E voc, Corina, possui nas suas mos, com as suas mos, algo de 
totalmente novo, desconhecido e at mesmo incompreensvel. Compreende 
o que isso significa?
- Sim. Mas no posso explicar nada. Isso est nas minhas mos e nos 
meus dedos. A nica coisa que posso dizer, : "Olhem, verifiquem!" 
Isso ser suficiente?
- Para a nossa escolstica mdica, nunca! - Passou as mos pela cara 
e apercebeu-se de que tinha a testa hmida de transpirao. - Corina, 
estou contente de a ter vindo ver. Tenho vergonha de entrar em sua 
casa s escondidas e de ter de a renegar no crculo dos meus colegas 
de M'nster. Oh! Pode desprezar-me, nem toda a gente consegue ser 
herica. Mas, peo-lhe, trate-me e trar-lhe-ei o professor Van 
Meersel.
Meia hora depois, o Dr. Wewes encontrava-se de novo na estrada de 
M'nster. Sentia em todo o corpo um calor singular, benfico. As mos 
de Corina tinham delimitado os contornos da sua vescula biliar: "C 
est. Sinto o mal. Estabeleci contacto com ele.  como uma espcie de 
picadas na ponta dos dedos... " A seguir tinha-se calado com o rosto 
repentinamente grave e contrado. Os seus olhos amendoados tinham-se 
retrado ao ponto de no serem mais do que uma fenda quase invisvel, 
e duas rugas profundas sulcavam-lhe as conussuras dos lbios. E, de 
repente, tinha sentido uma sensao estranha, uma torrente de calor 
que se espalhava nele ainda mesmo quando j ia na direco de 
M'nster.

Um milagre! Um milagre que deveria ser comunicado aos gritos com os 
braos largamente abertos a todos aqueles que encontrasse, 
dizendo-lhes: "Sou testemunha. Sou testemunha dum facto 
incompreensvel!"
Tinha verdadeiramente vontade de abraar toda a gente para comunicar 
a novidade: "Aleluia pelo milagre!"
E, no entanto, ia continuar a calar-se e a brincar  mesa dos 
mdicos, diante dos seus colegas: "Como  que se chama essa gatinha 
acariciadora? Ah,  verdade, Corina Doerinck. Esqueamo-la ento, 
camaradas! Deixemo-la perder o flego. Tudo o que est na moda passa 
depressa. O povo precisa de qualquer coisa que possa admirar e 
sabemos que todos os objectos de admirao popular no duram muito... 
Bebamos, pois, mais uma cerveja com o pequeno copo obrigatrio de 
aguardente E Prosit, caros confrades"
No dia seguinte de manh, s dez horas, a equipa de televiso ia 
gastar completamente o seu latim - se  que algum dos seus membros 
dele possua certos rudimentos - perante uma reviravolta completa da 
situao. Em vez de darem com uma porta aferrolhada e com janelas de 
persianas hermeticamente fechadas, os trs jovens tambm foram 
presenteados com um milagre: Corina Doerinck em pessoa apareceu  
porta da granja e fazia-lhes sinal para se aproximarem.
- Entrem. Vo ver e ouvir tudo o que desejarem.
Desconcertado, o reprter gaguejou com desconfiana por causa da sua 
aventura com o Dr. Hambach.
- Mas porqu assim, de repente?
- Porque se tornou necessrio. - Tinha os olhos fixos nele e 
observava-o da cabea aos ps e dos ps  cabea com um olhar agudo. 
- Na anca esquerda tem uma cicatriz demasiado proeminente. Se tiver 
outro acidente e for preciso cos-lo, previna que  do tipo que 
cicatriza mal...
O jovem reprter tinha estacado, incrdulo e gaguejando ainda mais.
-  formidvel! Verdadeiramente formidvel!  verdade... Foi no golfo 
da Gasconha: uma onda mais alta do que as outras empurrou-me contra 
um rochedo. Como  que pode ver essa cicatriz? Atravs das minhas 
calas?
- Aproximadamente...
- Meu Deus!...
Instintivamente, tinha posto ambas as mos  frente da braguilha. Mas 
Corina j se tinha voltado.
- Podemos filmar?
- Onde quiserem.
- Aqui, no stio onde expe as suas obras? Tem um lugar especial para 
receber os doentes?
- Aqui mesmo ao lado, no atelier.
- No atelier! Perfeito! Que ttulo extraordinrio: "O atelier das 
curas milagrosas!"

Foi precisa uma boa meia hora para a equipa de televiso acertar a 
iluminao e o som, sobretudo para arranjar o atelier de maneira a 
obter os melhores ngulos. O reprter ps Corina diante do tear e 
f-la dar os primeiros ns duma nova tapearia. Grande-plano sobre as 
mos. j pensava na emisso: uma voz off acompanharia o grande-plano: 
"Estas so as mos que curam e at cancros chegam a sarar! Mos que 
hoje emitem radiaes para fora da pequena cidade de Hellenbrand... A 
no ser... a no ser que se trate de mos totalmente normais que 
tiram partido da superstio dos doentes para lhes arrancar 
dinheiro?" Com palavras bem escolhidas e com a utilizao do 
condicional, no seria uma ofensa, mas uma simples pergunta, no  
verdade? Cabia a Corina Doerinck responder e dissipar as dvidas...
Para o jovem reprter, tratava-se do primeiro grande momento da sua 
vida. Hesitava ainda entre a cano, como toda a gente actualmente, e 
o jornalismo. Esta reportagem, com o picante que ele lhe ia imprimir, 
iria provocar ecos insuspeitados junto do grande pblico.
- Sustenta ento poder curar com as suas mos?
- No.
Esta primeira resposta inesperada paralisou durante um instante toda 
a equipa e a testa do reprter cobriu-se de suores frios.
- No? - conseguiu dizer.
- No. No sustento nada. Eu sei. Sei que posso curar e sou capaz de 
prov-lo.
- Pode faz-lo realmente?
- Sim.
- Pode citar casos precisos?
- Sem pronunciar o nome das pessoas que curei, posso. Curei casos de 
bronquite, de asma, de arritmia cardaca, de lcera gstrica, de 
citica, de gastrite, de prostatite, de inflamao da vescula 
biliar, entre outras.
- At o cancro?
- Isso s aconteceu uma vez com a minha me.
- Unicamente por imposio das mos?
- No. O que eu fao  pr as mos a uma certa distncia da regio 
doente. Nunca toco no doente propriamente dito. Entre as minhas mos 
e a parte a tratar produz-se um campo de foras e so as foras 
bioplasmticas deste campo que suprimem a doena ao agirem 
directamente sobre as clulas atingidas.  o caso, por exemplo, das 
inflamaes dos nervos, em que o processo de infiltrao desaparece.
- Isso parece incrvel e ao mesmo tempo bastante cientfico. Onde  
que foi buscar esses conhecimentos?  uma autodidacta?
- No, estudei medicina.
- Mas sem chegar a defender a tese. Porqu?
- Estava frequentemente em desacordo com os meus professores. Mais 
tarde, acabava por fazer-lhes notar que se tinham enganado no 
diagnstico. Era-lhes impossvel suportar a situao, o que 
compreendo at certo ponto.
- E os seus diagnsticos acabavam por se revelar exactos?
- Sim, todos.
- E isso s com as mos? No sente s com elas, tambm  capaz de 
ver, no ?
- Essa no  a maneira correcta de exprimir o que se passa: a 
irradiao que se transmite pelas minhas mos localiza e delimita com 
preciso o mal de que sofre o doente. Este fenmeno  conhecido e 
tambm tem um nome que no lhe  adequado: viso cutnea. Sempre se 
verificaram casos de viso cutnea em povos que vivem prximos da 
Natureza, como acontecia na Antiguidade.
Era o que o reprter esperava: a partir de agora ia poder passar 
francamente ao ataque.
- As suas curas situam-se, portanto, ao mesmo nvel das dos 
homens-medicina dos Bantos ou das tribos da Nova Guin.
- No. Estou apenas a dizer que o que fao no tem nada de milagroso 
nem de extraordinrio. H sculos que se conhece este fenmeno, s 
que nunca foi encarado com total seriedade.

- Porqu?
- Por ser dificilmente explicvel do ponto de vista cientfico e, 
para a medicina oficial, o que no se pode explicar de maneira 
precisa no conta. Numerosos so os que defrontam este obstculo, 
sobretudo nos nossos dias: pensem na implantao de clulas frescas 
do professor Niehans,  qual recorrem em segredo muitas das grandes 
personalidades do nosso tempo; pensem na concepo segundo a qual o 
cancro seria uma doena de todo o corpo e o tumor a manifestao 
local dum desequilbrio geral. Tudo isso ainda  acolhido com um 
sorriso irnico por parte do corpo mdico e continua-se a inundar o 
pobre doente com raios mortais ou a injectar-lhe produtos qumicos 
que ele no suporta ou suporta mal.
- E voc acaricia  distncia o corpo do doente e o cancro mostra 
imediatamente a bandeira branca e desaparece sem tambor nem trombeta! 
No acha que se tem o direito de rir disso, assim como de fazer troa 
de si? As suas mos so capazes de fazer o que os dispositivos mais 
avanados em matria de radiaes no conseguem. Como  que se 
consegue acreditar numa coisa dessas?
- No se trata de crer, mas de desejar, observar e sentir que 
finalmente se triunfou da doena que se tinha.
- A sua viso cutnea permite-lhe descobrir as metsteses que os 
nossos melhores detectores de cintilaes s tornam visveis sob 
certas condies?
- Nunca experimentei.
Olhava para a cmara de frente e todos podiam ver o seu rosto no 
ecr. A beleza especial das raparigas do Cucaso j tinha fama junto 
dos gregos da Antiguidade pensou o reprter sem dar por isso. Ela 
continuou:
- At agora s tratei de um nico cancro, o da minha me, e fui bem 
sucedida. As radiografias provam incontestavelmente que esse cancro 
desapareceu...
A entrevista durou uma hora. O que se ia ver e ouvir pela televiso 
era verdadeiramente incrvel. Se aquela rapariga sentada  frente da 
cmara estava a falar verdade, isso significava que ela era capaz de 
fazer aos olhos de todos aquilo a que Biffilia chama milagres 
divinos. Expunha-se, assim, no s aos ataques dos mdicos mas tambm 
aos do clero das religies oficiais. Transpirando por todos os poros, 
o reprter exultava: finalmente conseguira algo de sensacional!
A equipa de televiso despediu-se de Corina com tal amabilidade que 
uma pessoa mais bem informada dos hbitos dos rgos de comunicao 
teria reagido com um sobressalto de desconfiana e teria visto nisso 
sinais para alarme.
Mas Corina sentiu-se quase feliz. Imaginava ter esclarecido certos 
pontos indispensveis: primeiro, que no era uma produtora de 
milagres, mas sim o instrumento duma fora que, por mais rara que 
fosse, no deixava de ser absolutamente natural. Esperava ser 
compreendida por todos. Mas tinha cometido um erro imperdovel: no 
exigira que a entrevista fosse difundida integralmente, sem sofrer 
nenhuma das deturpaes habituais efectuadas por jornalistas de 
ltima ordem de que os iniciados desconfiam com razo. Ela no tinha 
nenhuma ideia do filme que ia aparecer nos ecrs dois dias mais 
tarde. Seno, ter-se-ia precipitado para tentar destru-lo.

E quando, no patamar da sua porta, levantava o brao para saudar mais 
uma vez o reprter e a sua equipa, no tinha podido ouvir este ltimo 
exprimir pesadamente a sua satisfao.
- E agora, negcio fechado! Depois de amanh, quando aparecerem 
alguns extractos bem escolhidos na emisso "Medicina para todos", 
isto vai fazer ondas! Felizmente, pois estvamos a ter o Vero mais 
calmo de sempre!
Durante a tarde, o Prof. Pieter Van Meersel telefonou a Corina. 
Falava muito bem alemo. Ao ouvir a voz dele, Corina teve a impresso 
de que o seu corao tinha parado de bater durante alguns instantes: 
o Dr. Wewes tinha cumprido a promessa.
- O que o doutor Wewes nos disse de si confirma uma grande parte dos 
resultados das nossas investigaes.  absolutamente necessrio que 
nos encontremos.
- Estou em Hellenbrand. Talvez seja prefervel ver-me no meu ambiente 
normal.
- Tambm acho. Pode receber-me na prxima segunda-feira?
- Regozijo-me desde j, professor.
- Segundo o doutor Wewes, at aqui s fez uso das suas faculdades num 
crculo bastante restrito, no foi?
- Foi- Mas esta manh a televiso veio entrevistar-me...
- Hum... - Van Meersel parecia surpreendido e pouco satisfeito com a 
novidade. Prosseguiu num tom diferente: - Era necessrio?
- Devo esconder-me?
- Evidentemente que no. Mas comear assim o combate, mais do que ser 
corajoso,  temerrio.
- O combate? Contra quem?
- Os vossos inimigos vo surgir do cho como se fossem cogumelos e 
sem esperarem pela primeira chuva, pode crer.
- Apresentaro todos os seus argumentos e eu os meus. Alm disso, 
tenho as minhas mos. No as podem vencer com discursos!
Van Meersel quase a interrompeu para dizer, muito depressa:
- No irei v-la na segunda-feira, mas j no sbado. E vou dar-lhe 
imediatamente um conselho importante. Se no dispe de apoios 
cientficos, vai ser alvo duma verdadeira tortura psquica, e no vai 
conseguir suport-la. Vai ser horrivelmente ridicularizada e o 
ridculo mata. A os argumentos srios deixam de contar. Quem pode 
ter confiana numa pessoa de que toda a gente faz troa? Temos de 
impedir isso, compreende? Alm disso, no compreendo que tenha dado 
essa entrevista  televiso antes de construir  sua volta uma slida 
muralha protectora. No tem ningum que a aconselhe? Um psiclogo ou 
um parapsiclogo? Um especialista?
- No. Porqu? As minhas mos curam. No  suficiente?
- Isso  o que se pensa. Todos deviam aceitar essa realidade com um 
sentimento de felicidade, de reconhecimento e at de respeito. Mas o 
mundo em que vivemos  diferente, menina Doerinck. O maior prazer da 
maior parte dos seres humanos , infelizmente, a destruio... De 
qualquer modo, estarei em sua casa no sbado bem cedo.

Lentamente, Corina pousou o auscultador. Que significavam aqueles 
avisos que lhe chegavam de todos os lados e agora, por ltimo, do 
Prof. Van Meersel? Porque  que ela s ouvia falar de conflitos e de 
furores hostis? Porque  que a partir dali comeava a inspirar uma 
espcie de medo? Porque  que toda aquela gente no era capaz de 
admitir simplesmente os factos? Sim, as suas mos podem curar, 
verificmo-lo, estamos convencidos disso,  assim e no de outra 
maneira. Porqu todas aquelas ameaas? Os doentes seriam menos 
importantes do que as doutrinas elaboradas sobre eles por 
especialistas que se recusavam a ir mais longe do que os limites 
impostos pelos seus mestres?
Corina dava-se subitamente conta do erro que cometera ao revelar a 
sua vida e as suas curas quela gente da televiso. Como pudera 
esquecer que eles no procuram a verdade, mas o que  sensacional, e 
que no se pode fazer jogo franco com eles? Tinha muito simplesmente 
fornecido munies a adversrios desconhecidos, que iam tentar 
esmag-la logo ao primeiro tiro.
Fechou atrs de si a porta da granja e atravessou a cidade de carro 
para ir a casa dos pais. Encontrou o pai num estado de efervescncia 
fora do normal, como se os ponteiros do tempo comeassem a andar para 
trs. Apesar das rugas do rosto que ela bem conhecia, j no tinha  
sua frente o professor e vice-reitor que os anos tinham acalmado, mas 
o jovem oficial valento de outrora, aquele que, com dez homens 
apenas, tinha mantido durante cinco dias a sua posio  entrada duma 
ponte a fim de permitir ao seu batalho organizar-se para recuar 
ordenadamente levando consigo os seus feridos, as armas e todas as 
munies. Recebera por isso a mais alta condecorao daquele 
conflito, a cruz de guerra alem, que nunca ostentara, visto s ter 
havido dois sobreviventes, ele e um cabo ferido no ombro. Nunca tinha 
percebido como  que conseguira sair daquele inferno apenas com 
alguns arranhes.
- Queres tarte de ma, Cora? - perguntou  filha.
Mas Ludmila sentiu imediatamente que Corina estava preocupada.
- O que  que se passa, minha querida?
- Telefonou-me um professor clebre da Holanda. Vem c no sbado.
- Pe-no na rua! - resmungou Doerinck. - Pe-nos a todos na rua! E 
conta comigo para te ajudar! Estamos fartos dos cobardes que vemos  
nossa volta! O presidente da cmara tem medo do caos. O reitor, ao 
imaginar uma interveno acadmica, faz pelas calas abaixo! Os 
vizinhos cumprimentam-me com ar embaraado ou ento evitam-me. 
Conhecem-me mal!
- Papuchka, depois de amanh a televiso apresentar a reportagem 
sobre mim.
Doerinck deu um salto da poltrona.
- O qu! Deixaste entrar em casa esses chacais? Ficaste louca, Cora!
- Mas no tenho nenhuma razo para me esconder. No fiz nada de mal. 
S socorri alguns doentes. Foi o que lhes disse e  o que todos os 
espectadores podero ouvir.
- E depois de amanh haver milhes de pessoas a saber que existe uma 
rapariga em Hellenbrand cujas mos so capazes de curar, at o 
cancro.  tua sade, Cora! Graas a ti, o caos que o Peter receava 
vai concretizar-se. Ds-te ao menos conta do que acabas de 
desencadear?

- Reconhece-me ao menos um pouco de inteligncia, pai. - Tinha-se 
sentado em cima da mesa e pegado numa fatia de tarte enquanto a me 
lhe servia uma chvena de caf. - Se Deus, ou a Providncia, ou a 
Natureza, ou seja que nome for que se d a essa entidade, me insufla 
a fora de curar doentes,  preciso que os doentes o saibam... 
Mamuchka, a tua tarte est maravilhosa...
- Vais ver a avalancha que cair sobre ns! - resmungou Doerinck.
- Ser que ests com medo papuchka? Lembra-te: ensinaste-me muito bem 
a sobreviver...

Capitulo oitavo

Passaram dois dias, dois dias de calma absoluta, naquela cidadezinha 
da Vesteflia, mas Doerinck pensou que se tratava da calma que 
precede o furaco. A inspeco acadmica no se tinha mexido. Talvez 
o inspector no lesse aquele jornal local. O seu silncio 
tranquilizara o reitor Ferdinand Hupp, que ignorava que Corina dera 
uma entrevista  televiso. O presidente da cmara, Peter Beiler, 
tambm no sabia de nada. Foi assim que  noite do segundo dia,  
hora de maior audincia, quando a entrevista de Corina rebentou como 
uma bomba, se ouviu em unssono o mesmo grito da parte deles e da 
cidade inteira.
Na tarde desse sbado, o professor Van Meersel chegou a Hellenbrand 
de carro, dado que a regio de M'nster no fica longe da fronteira 
holandesa. Era um homem de grande estatura, seco, com ralos cabelos 
brancos e olhos de um azul-claro constantemente hmidos, mas um 
movimento convulsivo do nariz, de que nenhum mdico o conseguira 
desembaraar at  data, desfigurava-o bastante. No h nada de mais 
banal que um piscar de olhos exagerado ou um tique da cara, mas uma 
convulso do nariz  extremamente rara. Os mais reputados 
neurologistas dos Pases Baixos tinham tentado faz-lo desaparecer, 
mas em vo.
Van Meersel chegou no momento em que Corina estava a acompanhar at  
porta a sua ltima "convidada" - ela evitava o mais possvel a 
palavra "cliente" ou "paciente" para designar os que a visitavam. Era 
Hilda Huiskens, a esposa do fabricante de comutadores. Por gratido, 
porque se sentia agora muitssimo bem, ps na mesa uma nota de 
quinhentos marcos. Corina protestou.
- Eu no levo dinheiro pelos tratamentos. Proibi-mo.
- Mas  um presente, minha querida. Acho que tenho o direito de lhe 
oferecer um presente. - E beijou Corina antes de partir. - Nunca me 
senti to bem desde h muitos anos. Corina, as suas mos so 
milagrosas.
O professor Van Meersel, que acabara de chegar, assistiu ao ltimo 
aperto de mo que as duas mulheres trocavam  porta da granja e 
esperou, para sair do carro, que a Sra Huiskens se afastasse, o que 
ela fez olhando curiosa para a matrcula holandesa daquele carro 
desconhecido. S ento  que o professor abriu a porta do carro, com 
o nariz a mexer, e saudou Corina com um largo gesto do brao.
- Seja bem-vindo a casa da feiticeira, professor - gritou ela 
alegremente, indo ao seu encontro.
Van Meersel queria protestar por causa da palavra "feiticeira", mas 
ficou to impressionado com a beleza fsica de Corina que s 
respondeu depois de lhe ter beijado cerimoniosamente a ponta dos 
dedos.
- H sempre novos palermas e novas palermices. Creio que  um 
provrbio alemo que diz que para cada palerma que morre, nascem logo 
dois a seguir! E, com efeito, quanto mais a nossa civilizao se 
complica, menos estamos em contacto com a Natureza... No a imaginava 
nada assim como ...
- Como?

- O doutor Wewes esqueceu-se de fazer-me a sua descrio. - Quando se 
achou na sala de exposies, lanou  sua volta um olhar cheio de 
interesse. - Conhece Marikje Kerselaar? - perguntou bruscamente.
- No. Acha que devia conhec-la?
- Marikie , se se pode dizer, uma das suas colegas. A sua clientela 
 simultaneamente exclusiva e secreta. Murmura-se que a famlia real 
holandesa a mandou j chamar frequentemente. E, com efeito,  uma 
mulher extraordinria. Trata os doentes com aquilo a que chama campos 
magnticos, e muitas vezes isso traduz-se por aplicaes de algodo 
magnetizado e pelo uso de amuletos que ela carrega, segundo diz, com 
uma energia que se espalha a pouco e pouco, com um certo atraso, pelo 
corpo daquele que os traz. Conseguiu vitrias incontestveis, mas tem 
naturalmente numerosos inimigos. H muita controvrsia  sua volta. 
Estes amuletos cheiram indiscutivelmente a charlatanismo... - Van 
Meersel levantou os ombros. - Mas o que  que se pode fazer perante o 
sucesso?
- No parece gostar muito dela...
- Diria antes que os meus aparelhos no registam nenhuma emanao 
sada dela.  por isso que me interrogo.
Inclinou-se cortesmente quando Corina lhe fez sinal para se sentar 
numa das poltronas que rodeavam a mesa sobre a qual ainda se 
encontravam os quinhentos marcos. Meersel olhou-a com ar pensativo.
- So os seus honorrios? - perguntou.
- No. A senhora Huiskens (viu-a ir-se embora) ofereceu-me quinhentos 
marcos como prova de gratido, e no sei o que lhes hei-de fazer. At 
agora, j recebi da mesma maneira quase dois mil marcos.
Abriu um armrio e pegou numa caixa rectangular de madeira esculpida. 
A nota de quinhentos marcos foi juntar-se s que j l se 
encontravam.
- Devo dar este dinheiro a uma escola infantil ou a um asilo de 
idosos? Receio que o meu poder desaparea se o utilizar.  como se se 
tratasse de algo sagrado de que uma pessoa no se pode servir para 
ganhar dinheiro.  uma fora tal que teria a impresso, se a 
comercializasse, de cometer uma verdadeira agresso, e estou 
persuadida de que os sentimentos agressivos comprometem o 
desenvolvimento desta fora psicocintica.
- Eis-nos em plena parapsicologia - disse Van Meersel a sorrir. Tinha 
fome e fez as honras ao bolo de mel que Ludinila preparara e que 
Corina tinha ido buscar  sua pequena mezinha, assim como algum caf. 
- Este bolo  delicioso!
exclamou ele.
-  uma receita caucasiana da minha me.
- Ah, pois! A sua me tambm  sua doente, conforme me disse o doutor 
Wewes. Curou-a de um cancro do clon. Confesso que, apesar da minha 
abertura de esprito, sou bastante cptico em relao a esse gnero 
de cura. Mas veremos isso mais tarde. Quando ouvi dizer que era de 
origem russa, arrebitei as orelhas. Imagine que  da Rssia que nos 
chegam informaes espantosas sobre os progressos realizados em 
matria de parapsicologia. A descoberta mais incrvel feita pela 
Universidade de Alma-Ata contempla a deslocao de objectos sem 
contacto fsico, obedecendo a ordens puramente mentais, ou seja,  
telecinesia. Os Russos inventaram um novo nome para designar este 
tipo de fenmenos: "Interveno da energia dum campo bioplasmtico". 
Esta energia, alm de fazer deslocar os objectos, transforma-os e 
reforma-os.

- Como o Uri Geller, que vimos na televiso a entortar garfos s com 
o olhar. - Estava sentada em frente de Van Meersel, mas no tocava 
nem na tarte nem no caf. - Eu vi-o na televiso e quando a seguir 
ouvi as conversas dos colegas do meu pai e dos vizinhos, que 
defendiam que aquilo era impossvel, tentei fazer algo de parecido. 
Sentei-me nesse lugar em que est e olhei para um grande copo que 
tinha posto em cima desta mesa. Nenhum resultado! Mas quando estendi 
as mos para ele afastando os dedos, o copo partiu-se aos bocados. 
Nunca falei disto a ningum, nem sequer aos meus pais.
- Nem  televiso?
- No,  o nico a sab-lo.
- Obrigado pela sua confiana. E isso levanta outro problema. Quando 
li o que se passa em Alma-Ata, senti-me de repente pouco  vontade. 
Quem pode imaginar hoje o que ser o futuro quando se puder utilizar, 
com fins malficos, um feixe de energias bioplasmticas? No  uma 
fantasia do esprito. H cem anos, o crebro era um terreno 
inexplorado e um assunto tab para os cirurgies. E hoje,  certo que 
em animais muito inferiores, dedicamo-nos a experincias que vo at 
 troca de crebros, como se se tratasse de trocar motores de carros! 
Para voltar ao que se faz na Rssia, ao passo que na Idade Mdia se 
queimavam os seres humanos dotados de poderes psquicos 
inexplicveis, fiquei a saber com espanto que o professor Venjamine 
Puchkine, da Academia das Cincias da Unio Sovitica e director do 
laboratrio de heurstica de Moscovo, apresentou a uma assembleia de 
cientistas um estudante, Boris Yermolaiev. Yermolaiev faz flutuar no 
ar, sob as suas mos, jornais, caixas de cigarros e objectos 
metlicos. Esta energia,  qual Puchkine deu o nome de 
"antigravitao", permite a Yermolaiev criar um campo de gravitao 
que lhe  prprio. Isto destri todas as hipteses adiantadas at  
data sobre a psicocinesia. Campos de foras bioplasmticas, campos de 
foras electromagnticas so expresses que, tal como as respectivas 
explicaes, parecem estar ultrapassadas. Que fora  esta, Corina, 
que faz com que um copo se estilhace sob o efeito das suas mos? - 
Van Meersel respirou profundamente e fez o gesto de mexer o caf que 
j no estava na chvena. - Foi por isso que me precipitei para sua 
casa: quero poder proclamar e defender que o que Boris Yermolaiev 
realiza em Moscovo est voc farta de fazer sozinha, j h muito 
tempo. Ora o trabalho que a minha equipa e eu realizamos, no maior 
silncio cientfico, confirma todas essas experincias... E, 
infelizmente, a televiso aparece! E no h nada pior para a cincia. 
Esta noite, s dez horas, metade da Alemanha ficar a saber que voc 
existe e, dentro de trs dias, o mundo inteiro ter ouvido o seu nome 
e visto o seu rosto. Mas em que condies? Isso pode ser um golpe 
terrvel para a verdadeira cincia! - Limpou o suor que lhe escorria 
pela cara. - Contudo, o que est feito est feito, mas vou tentar 
evitar os maiores excessos e afastar o despeito e a raiva dos 
detractores...
- E se tudo o que fao no passar de impostura? - perguntou Corina em 
tom provocante.
Com um gesto que lhe era habitual, Van Meersel levantou os magros 
ombros.
- No deixei de me interrogar sobre essa possibilidade.  por isso 
que estou aqui a observ-la.

- Tem um tique do nariz. Porqu?
- Sim, porqu? - Teve um sorriso melanclico. - S Deus o sabe...  
certamente um nervo atingido pela loucura, que faz das suas. Tenho de 
viver com ele...
- E  o senhor que diz isso? Precisamente o senhor. A Marikje 
Kerselaar viu-o?
- Naturalmente.
- E o que  que disse?
- Como trata toda a gente por tu, at a rainha, disse-me: "Pieter, o 
que tens no nariz s cessar quando te esmagarem o crebro." Fica j 
com uma ideia de como ela fala!
- A minha  diferente...
Corina tinha-se inclinado para a frente a fim de olhar Van Meersel 
nos olhos. Surpreso, viu-a levantar a mo direita, com os dedos um 
pouco encurvados, e dirigir para o seu nariz aquela espcie de 
reflector parablico. De repente, ficou como paralisado, muito 
direito e rgido na sua poltrona.
- Que sente agora? - perguntou Corina, numa voz sombria totalmente 
modificada.
- Calor... A sua energia bioplasmtica, venha ela a ter o nome que 
tiver no futuro...
Isto durou um minuto, durante o qual a mo de Corina se deslocou 
lentamente no ar a alguns centmetros da cara de Van Meersel. A 
seguir, baixou a mo. Como sempre, Corina pegou num cigarro de que 
aspirou avidamente o fumo com os olhos fechados. O professor no se 
tinha mexido. Sentia aquele estranho calor descer-lhe do rosto e 
invadir-lhe a pouco e pouco todo o corpo.
- Eis uma boa demonstrao - disse suavemente. - Era algo deste 
gnero que eu esperava encontrar em si.
- Dentro de dez dias esse tique j ter desaparecido, professor. E se 
no tiver desaparecido, pode aconselhar o mundo inteiro que esquea 
para sempre o nome de Corina Doerinck.
- Est bem. Mas se o meu tique desaparecer, comprometo-me a gritar 
muito alto: "Eis a prova de que o ser humano  mais do que um monte 
de clulas; que existe em ns uma
emanao e que esta emanao  imortal. No h ressurreio, s a 
confirmao da vida sob outra forma!"
- Vo tomar-nos a ambos por loucos!
- O que no  novo para mim - retrucou Van Meersel. - Talvez seja um 
bem que o homem no compreenda o que de facto  e de que maneira o . 
Imagine s se os nossos polticos comeassem a comunicar entre si 
pela psicocinesia. Ficariam libertos de toda a agressividade. Mas o 
que  que lhes restar? No  verdade que  em perodo de crise que 
um poltico adquire uma personalidade? Minha cara Corina, no  assim 
to simples utilizar os dons da natureza.

A emisso de televiso, a "grande entrevista" de Corina Doerinck, "a 
curandeira milagrosa de Hellenbrand", foi difundida naquela mesma 
noite.

Corina viu a emisso em casa dos pais. Tinha levado o professor Van 
Meersel, com quem Stefan Doerinck simpatizou desde o primeiro 
instante: como ele, Van Meersel gostava de alguns bons copos de vinho 
para acompanhar uma refeio excelente e eram mais ou menos da mesma 
idade. Comprazer, toda a famlia Doerinck viu o professor deglutir 
sozinho metade de um lauto jantar. Era caso para perguntar como  que 
aquele homem podia ser to magro.
A entrevista, alm de ser acompanhada por um comentrio malvolo, 
fora montada tendenciosamente no sentido de se tornar na execuo 
capital de Corina. No tinha nada a ver com uma reportagem objectiva. 
O reprter, por exemplo, insistia no carcter "inopervel" do cancro 
de que Corina curara a me, o que era evidentemente falso, visto o 
professor Willbreit ter querido justamente oper-lo. Mas um 
jornalista hbil pode levar em conta tais bagatelas? Tudo era, 
portanto, sacrificado  linha geral escolhida pelo reprter: "Olhem. 
e ouam, boa gente, eis o que a Sra. Milagre pode fazer e apenas de 
mos nuas! Eis o fenmeno capaz de repetir todos os milagres da 
Bblia!"
- Que infmia! - exclamou Van Meersel, transtornado.
Ludinila, sentada no sof, com as mos cruzadas, tinha visto toda a 
emisso de lgrimas nos olhos e sem dizer palavra. Mas observara o 
marido, cujo rosto traa a cada momento as emoes que o agitavam.
Corina estava muito calma e dir-se-ia que a emisso passava por ela 
sem a atingir. Era a nica responsvel pelo que se estava a passar. 
Tinha sido ela que, apesar de todos os avisos, concedera a 
entrevista.  evidente que no podia imaginar que tudo o que dissesse 
fosse deturpado quele ponto. Como a maior parte dos telespectadores, 
ignorava a maneira como os especialistas manipulam correntemente o 
esprito de um povo que no pode deixar de acreditar na realidade do 
que v e ouve. Nunca h, ou quase, emisso nenhuma que seja 
autenticamente verdadeira, e os protestos de alguns jornais 
revelam-se infrutferos, visto que a informao escrita perdeu quase 
todo o poder face  falsa realidade que o pblico v com os seus 
olhos em diversos ecrs. H milhares de anos, o ser humano viveu 
acreditando nos seus olhos e nos seus ouvidos. Os que dispem da 
televiso podem esmagar quem quiserem sem temer nenhuma represlia. A 
fortaleza dos media audiovisuais  inexpugnvel porque nenhum de ns 
distingue entre as imagens e os sons que nos oferecem e a realidade 
da vida.
No fim da emisso, ao ver o pai, furioso, apagar o televisor, Corina 
julgou acalmar os espritos dizendo numa voz inalterada:
- Agora j sabemos com o que contamos. Porque te zangas, pai? S se 
vive uma vez, no  verdade?
- Mas a partir de amanh vai ser necessrio defendermo-nos contra o 
mundo que nos rodeia, e que j no ser o mesmo.
com o indicador, Doerinck apontou para o aparelho.
- No sabes nada disto, minha filha. O que acabamos de ouvir  uma 
declarao de guerra. E a partir de agora  toda a famlia Doerinck, 
em Hellenbrand, que se encontra na primeira linha.
- E tudo isto porque posso e quero socorrer os doentes...
O professor Van Meersel tinha estado atento, apesar das honras que 
fizera ao jantar. Estendeu as longas pernas.
-  assim este mundo, minha cara. Pode citar-me um s exemplo da 
histria da cincia em que as descobertas duma pessoa que, no 
fazendo parte dum quadro tradicional de investigadores, tenham sido 
aprovadas imediatamente pelos membros desta confraria?

Stefan Doerinck tinha razo em estar pessimista. A campainha do 
telefone no pararia mais. A primeira chamada era dos Hillerbeck, os 
vizinhos que moravam trs casas adiante. O Sr. Hillerbeck era um 
homem amvel e culto que pedia de vez em quando emprestado um livro 
interessante, do gnero biogrfico ou uma narrativa de viagens, a 
Stefati Doerinck. A estupidez das suas perguntas levou ao rubro a 
clera de Doerinck.
- Viu aquilo, Doerinck?
- Evidentemente.
- A sua filha... Ser possvel que...
-  possvel, !
- A Corina seria ento capaz de curar todas as doenas com as mos? 
Mas ns nunca soubemos de nada at agora. Enfim, para ser franco...
Doerinck interrompeu-o grosseiramente, reencontrando de repente a 
linguagem que tinha marcado cinco anos de guerra, cinco anos 
subtrados  sua adolescncia e juventude.
- Um bom conselho, Hillerbeck! Se apanhar um bom esquentamento ou se 
ficar com um traque atravessado, j sabe onde  que a Corina est: 
ela cur-lo-...
A conversa parou imediatamente, pois ambos os interlocutores 
desligaram ao mesmo tempo. Ludinlla, muito emocionada, meneou 
lentamente a cabea.
- Fizeste mal, Stefanka. Os Hillerbeck sempre se mostraram excelentes 
pessoas.
- At esta noite - retorquiu asperamente Doerinck. -O telefone tocou 
de novo e Doerinck deu um salto para pegar no auscultador. - Daqui 
Doerinck... Ah, s tu, Ferdinand. Mas ests to sem flego... como se 
tivesses recebido um murro no estmago, meu caro reitor!
- Isto no pode ser, Doerinck. Eu avisei-te. J nada posso fazer por 
ti. Como  que a Corina pde dar aquela estpida entrevista?
- No deu.
- Mas foi o que viram e ouviram milhes de pessoas.
- As suas declaraes foram deturpadas e falseadas.
- Eu estou pronto a acreditar que assim foi, mas isso no muda nada. 
Quem o saber alm de ti, da tua famlia e de mim? Vrias pessoas 
crem absolutamente naquilo que viram e ouviram. E  isso que conta. 
A tua Corina ps-vos em bons lenis, Doerinck! Eu preveni-te. No 
tens defesa possvel!
- Ouve-me bem, duma vez por todas: estou disposto a no prestar 
nenhuma ateno queles que fazem nas calas com medo da opinio 
pblica e da dos seus superiores. E agora, Ferdinand, para bom 
entendedor...
E desligou. Ludmila suspirou.
- E agora, acabou-se a amizade do Ferdinand.
- Estou farto de o ver tremer diante da inspeco escolar, diante do 
conselho dos pais dos alunos ou diante do menor representante do 
Governo ou duma autoridade superior. Se se quisesse seguir o seu 
exemplo, seria necessrio operar todo o corpo docente e retirar a 
coluna vertebral de cada um de ns para que nos ponham bem o p em 
cima. Mais um telefonema: o presidente da cmara, evidentemente! Este 
tambm vai ouvi-las!
Mas era um annimo, com voz entaramelada.
- Mas ento onde  que se esconde a gatinha de lngua e mos 
acariciadoras? Tenho justamente aqui  mo o meu irmo mais novo que 
se queixa de estar muito sozinho e que j est a chorar grossas gotas 
s de pensar nela...
Doerinck desligou sem uma palavra.

- Quem era? - perguntou Ludmila.
- Um poeta do nosso sculo: s imagens incoerentes e nenhum ritmo. 
No fixamos uma s palavra do que deitam c para fora!
Ludinila queria protestar, mas a campainha do telefone tocou mais uma 
vez.
- Ah! Finalmente, tu! Estava  espera da tua chamada, caro 
presidente! Ento, que me dizes?
A voz de Peter Beiler quase fazia tremer o auscultador de clera e de 
emoo.
- Lembras-te do que te disse? A tua carreira est arrumada, Stefan! O 
presidente do conselho regional acaba de me telefonar...
- E no  tudo - interrompeu-o Doerinck, alegremente. - Amanh de 
manh, ser o presidente do governo local e a seguir o do governo 
federal. O que  que decidiram esses senhores do conselho regional?
- No brinques, Stefan: dizem, em unanimidade, que se trata de um 
escndalo que recai sobre ti e sobre todo o corpo docente! Mas diz-me 
c: a Corina ficou maluca? Tem ideia do mal que esta emisso te vai 
fazer? O efeito  desastroso. Todos sofremos por isso. Que contas 
fazer?
- Lutar, evidentemente! E ouve bem: da maneira como as coisas esto a 
evoluir, o curso que tomam est a ser muito instrutivo. Vo 
permitir-nos, a mim e aos meus, julgar do verdadeiro valor dos nossos 
amigos, mesmo do daqueles que temos h dezenas de anos. Na minha 
qualidade de professor, sei que vou ter de lhes dar a nota mais 
baixa: Amizade insuficiente!" Tinha concebido uma outra ideia da 
amizade!
- Ns s queremos prevenir-te, Stefan. - Peter Beiler parecia 
verdadeiramente transtornado. - Mas tu e a Corina so teimosos como 
mulas. Ouve, Stefan...
Doerinck tinha desligado. Comeava a saber de cor o que se ia seguir.
Voltou a pegar no auscultador e pousou-o ao p do gancho para impedir 
a recepo de novas chamadas.
- Agora, as mscaras caram - disse amargamente. - ser divertido ver 
o que dissimulavam. De repente, o mundo inteiro vai transformar-se 
diante dos nossos olhos. No fundo, o ser humano  cobarde e 
mentiroso. Basta que um de ns seja leal e corajoso para que todos os 
outros se atirem a ele e o oprimam. A vida , portanto, uma cadeia de 
compromissos conflituosos, essa  que  a verdade, e  nesse magma 
intelectual e espiritual que temos de abrir o nosso caminho ou pela 
razo ou, se necessrio, pela fora. O mais frequente  termos de 
chafurdar na porcaria.  o que se chama em filosofia O mal 
necessrio.
- Amanh teremos as ideias mais claras - declarou Van Meersel.
Vendo que Stefan Doerinck se preparava para abrir mais uma garrafa de 
vinho, fez um sorriso de aprovao. Mas a sua satisfao foi suspensa 
por um forte toque de campainha. Corina ultrapassou o pai a correr e 
abriu a porta, dando passagem ao Dr. Hambach. Parecia vir com o humor 
exigido pelas circunstncias: aps a emisso, tinha bebido dois copos 
de conhaque um atrs do outro. Beijou Corina e Ludmila na testa, 
enquanto declarava:

- j explodiu a bomba em Hellenbrand! Willbreit telefonou-me h um 
quarto de hora. Estava feliz da vida: "Viu? Est completamente 
desacreditado! ", gritou. "Todos os meios so bons para denunciar as 
imposturas deste gnero de curandeiros..." Respondi-lhe mandando-o 
passear...
Notou finalmente a presena de Van Meersel e esboou um cumprimento 
ao apresentar-se. Van Meersel respondeu-lhe da mesma maneira e o 
rosto do Dr. Hambach fechou-se. Como o holands achou por bem 
explicar que se ocupava de neurologia e de parapsicologia, o velho 
mdico no dissimulou a sua perturbao. Mas Van Meersel comeou:
- A sua desconfiana s lhe fica bem, caro colega. Mas chamaram-me a 
ateno para o caso de Corina Doerinck. Telefonei-lhe e ambos 
concordmos que as prximas horas poderiam ser bastante sombrias para 
ela. Esta emisso televisiva ultrapassa, infelizmente, todos os meus 
receios. Vim logo para c, a fim de, na medida do possvel, tentar 
estabelecer  volta dela uma muralha protectora perfeitamente 
cientfica.
- Sim, na medida do possvel... Tenho, no entanto, uma pergunta a 
fazer-lhe: as suas investigaes so objecto de controvrsias?
- Felizmente - respondeu Van Meersel sem hesitar. - O silncio mata e 
as crticas acerbas so a melhor publicidade que existe.
- Nesse caso, abre a garrafa que seguras na mo como se fosse uma 
vela, Stefan. Estamos a precisar. Quando penso na linha de fora que 
constitumos, sinto a pele da cabea a encolher-se por baixo dos 
poucos cabelos que me restam. Recapitulemos: uma rapariga acusada de 
fazer milagres; um cientista cujas investigaes provocam a raiva dos 
colegas; um professor com quem a partir de agora toda a gente vai 
querer ajustar contas; uma cancerosa curada possuindo o rosto e o 
corao de uma madona e um mdico de aldeia jarreta que mais parece 
um personagem de Carnaval alemo! E vamos enfrentar a cidadela da 
escolstica mdica nestas condies! Dom Quixote deu provas de maior 
prudncia ao lutar contra moinhos de vento!
Separaram-se por volta da uma da manh. Van Meersel para ir dormir no 
div do escritrio de Stefan Doerinck e Corina no seu quarto de 
menina; o Dr. Hambach, a quem Doerinck tinha confiscado as chaves do 
carro, ficou no sof da sala de estar. Todos dormiam profundamente 
quando a campainha do telefone acordou o Prof. Van Meersel. Algum, 
impaciente, devia ter assinalado  companhia o corte da linha. Van 
Meersel pegou automaticamente no aparelho e logo ficou ensurdecido 
por uma voz atroadora.
- Finalmente. Que ideia essa de desligar o telefone!
O professor achou por bem apresentar-se amavelmente.
- Daqui fala Van Meersel de Amesterdo...
- Mas eu no quero falar para Amesterdo, mas sim para os Doerinck em 
Hellenbrand. Quero falar com Stefan Doerinck.,
-  impossvel. Sou o professor Van Meersel de Amesterdo...
No teve tempo para continuar.
- Mas o que  que est a fazer na minha linha?
- Acho que  a mim que cabe fazer essa pergunta!  o senhor quem est 
a telefonar, no ?
- Oua, sou o Roemer...
O professor Van Meersel fechou os olhos e respirou profundamente.
- Romano', est bem, mas de que sculo? Sob que imperador  que vive? 
Augusto, Calgula ou Nero?

Erasmus Roemer respirou to profundamente que Van Meersel afastou 
mais alguns centmetros o auscultador, que j mantinha afastado do 
ouvido.
- Sou Erasmus Roemer, presidente do tribunal de 1.a instncia de 
M'nster e no admito este tipo de brincadeiras dignas de midos! 
Posso falar com um dos Doerinck? H horas que estou a pedir o nmero 
deles.
- Todos os Doerinck esto neste momento a dormir e eu no os vou 
acordar, seja o senhor quem for.
-  sobretudo com a Corina que desejo falar...
- Ela vai precisar de todas as suas foras durante os prximos dias.
-  justamente por isso que estou a telefonar.
- Seria arranc-la do sono de que tanto precisa.
- Quero oferecer-lhe a minha ajuda, que pode vir a ser-lhe 
indispensvel, visto que toda a gente a vai atacar. Sou um dos seus 
doentes e estou pronto a dar-lhe assistncia fazendo valer tudo o que 
sou e tudo o que tenho: o meu nome e a minha situao pessoal e 
social; tenha eu de pagar seja que preo for!
- Ento, venha c amanh muito cedo. Os doentes que ela curou 
constituiro efectivamente a sua melhor defesa.
Ouviu-se um rudo esquisito no aparelho... Van Meersel, por 
precauo, afastou uma vez mais do ouvido o auscultador, mas Roemer 
tentava apenas desembaraar-se do n que lhe apertava a garganta.
- Mas ela no me curou. Comigo no conseguiu.
De repente, Van Meersel despertou completamente.
- Diz que ela falhou? Mas ento  porque no tem nenhuma doena!
- Infelizmente, tenho, e trata-se de uma doena mortal.
- Mas  horrvel - gaguejou o holands. - Por favor, doutor Roemer, 
peo-lhe, no conte isso a ningum! Venha c amanh de manh para 
discutirmos melhor a questo. Boa noite.
Quando desligou, apercebeu-se de que as mos lhe tremiam. Ento 
Corina podia falhar. Confess-lo seria facultar ao adversrio uma 
arma terrvel contra ela.  certo que todos os dias milhares de 
mdicos tm de admitir que a sua interveno passou a ser intil e 
que o doente est condenado  morte. Mas ai daquele que, sem fazer 
parte da profisso, se confronte com um falhano ao tratar um doente.
O Prof. Van Meersel voltou para o div, mas no conseguiu voltar a 
adormecer. Continuava a atormentar-se com uma pergunta que era mais 
forte do que a sua necessidade de sono ou do que os vapores 
letrgicos do lcool: porqu aquele falhano de Corina? A que era 
devido aquele obstculo inesperado? O que  que o presidente do 
tribunal tinha que bloqueava qualquer comunicao entre a sua doena 
e Corina Doerinck?
Ainda se encontrava desperto quando surgiu a primeira claridade do 
dia e um galo da vizinhana cantou, recebendo imediatamente como 
resposta o latido distante dum co.
s sete e meia da manh, durante o pequeno-almoo, receberam o 
primeiro golpe.

Estavam todos sentados  volta da mesa oval. O cheiro do caf 
misturava-se com o dos pezinhos frescos que o padeiro deixara ficar 
num saco de plstico pendurado no porto. O mel que estava na mesa 
provinha de duas colmeias que Doerinck conservava no canto mais 
afastado do jardim. Estas colmeias tinham uma histria. O Dr. 
Assanurian tinha dez colmeias no jardim da sua datcha, em Poti, no 
mar Negro. Isto devia-se no s ao mel das abelhas que assim obtinha, 
e que consumia em grandes quantidades, mas tambm  geleia real, que 
 a substncia natural com a qual as abelhas alimentam a rainha. A 
medicina oficial negava, evidentemente, os efeitos do mel, do plen e 
da geleia real nos seres humanos, mas o Dr. Assamirian e os seus 
pacientes davam-se muito bem com estes elementos, facto que ele 
costumava explicar com termos que a sua filha nunca tinha esquecido: 
"Cada abelha  uma amiga do homem, lembra-te sempre disso. O que 
recolhem e guardam na colmeia  capaz de curar uma infinidade de 
doenas. As glndulas das obreiras produzem esta geleia real, de que 
ainda no se descobriu todos os segredos. Como  que uma larva 
qualquer, ao ser alimentada por esta geleia, se v transformada em 
rainha em vez de continuar a ser simples obreira? A maior parte das 
pessoas passa por esta maravilha sem se interrogar, mas o teu pai 
no, minha Ludinilaclika... "
E Ludmila, em recordao do pai, tinha insistido para ter em casa, em 
Hellenbrand, duas colmeias onde as abelhas acumulavam os sucos que 
transformavam com as glndulas.
O telefone tocou no momento em que Van Meersel acabara de dizer:
- Este mel  um dom do cu.
Todos pararam de comer e fixaram os olhos no prato.
Era o reitor Hupp. A sua voz estava muito baixa, parecendo crispada. 
- Ouve, Stefan... Venho pedir-te que no ds aulas hoje. O Feisel 
encarrega-se de as dar... Passarei por tua casa cerca das dez horas 
para te explicar... O pai da Corina e a me dela, Ludmila, foi 
apresentada pela televiso como sendo a testemunha principal dos 
poderes da vossa filha, visto que a prpria Corina sustentou t-la 
curado dum cancro. No  estranho que as pessoas ponham tudo no mesmo 
saco. Dizem: "Os Doerinck..." e chega! Estou muito aborrecido, 
Stefan, mas peo-te que, no teu prprio interesse, no venhas dar 
aulas hoje.
- Mas isso seria uma cobardia. Pareceria reconhecer a minha 
culpabilidade. E sou culpado de qu? Sim, porque afinal no sou eu 
quem...
- Eu sei. - A voz do reitor parecia estar a ficar cada vez mais 
estrangulada. - Sei muito bem. Trata-se apenas de no provocar 
inutilmente um grande problema. De qualquer maneira, vamos ver como  
que as coisas evoluem durante o dia, Stefan...
Sem mais uma palavra, Doerinck desligou. De que serviria continuar a 
discutir? Mas no pde deixar de dar livre curso ao desprezo que 
sentia.
- Mais um lambe-botas! Imaginem, pois, que me devo abster de dar hoje 
aulas!
- E aceita isso? - perguntou Van Meersel.
O Dr. Hambach tinha dado um salto da cadeira.
- Mete-te imediatamente no carro e apresenta-te l!
Mesmo Corina, apesar do seu autodomnio, no conseguia esconder a 
emoo.
- Mas, pai, ningum te pode tomar por responsvel do
que a tua filha faz.

-  uma ordem vinda de cima? - perguntou Doerinck num tom seco.
- No.  um pedido pessoal, Stefan.
- Irei dar aula como todos os dias desde h vinte e seis anos.
- Stefan, ouve-me sem reagires violentamente. Telefonaram-me quatro 
pais de alunos: no querem que os filhos continuem a frequentar as 
tuas aulas enquanto a Corina se fizer passar por uma fazedora de 
milagres. E isto  s o comeo! V se compreendes! Que devo fazer? 
Que farias no meu lugar?
- Faria notar que os pais tm uma obrigao legal de mandar os filhos 
 escola e explicar-lhes-ia que sou eu e no a Corina quem se ocupa 
dos alunos.
- Mas tu conheces a gente de Hellenbrand, Stefan!
Abatido, desiludido pelo abandono dum amigo de vinte anos, Doerinck 
encolheu os ombros. Olhou para Ludinila,  espera que por sua vez, 
ela tomasse posio, mas ela ficou silenciosa e ele teve de a 
interrogar.
- E tu, o que achas, matiuchka?
- Fica hoje em casa. Conheces esta gente to bem como eu, Passmos um 
tero duma vida humana nesta cidade, mas para eles continuo a ser a 
estrangeira. A russa! Como se tivesse sido eu quem tivesse abatido 
aqueles pobres camponeses, os proprietrios da granja que pertence 
hoje a Cora... Nunca me senti em casa aqui... Criei um lar antes de 
mais porque tu estavas dentro dele, primeiro tu e a seguir a 
Corinnachka, e porque, de qualquer maneira, tnhamos de viver em 
qualquer lado...
Doerinck limpou os olhos.
- Meu Deus! Mas durante todos estes anos nunca me disseste que eras 
infeliz...
- No sou infeliz. Mas a terra que piso no  a terra do Cucaso. As 
pessoas so simpticas comigo, mas s isso... Na Rssia abraamo-nos, 
beijamo-nos e dir-me-iam: "Que Deus te abenoe, irmzinha." E seria 
sincero. Aqui h pessoas que me abraam, mas sinto-lhes os msculos a 
retesarem-se...  como se estivssemos separados por um vidro 
invisvel e  nesse vidro que pem os lbios...
- Nunca me falaste disso, Ludinila...
- Com efeito. O que  que isso teria mudado? Devemos viver com o que 
o destino nos traz. Tens a tua situao em Hellenbrand,  aqui que 
ganhas a tua vida, ests satisfeito com a tua existncia e tivemos 
uma filha que se tornou uma mulher bonita, inteligente e superior... 
C entre ns, no  uma bela vida? Mas eu serei sempre aqui a eterna 
estrangeira. Os Russos so assim. Sentimos uma dor no peito cada vez 
que pensamos que a Rssia est muito longe e que no voltaremos a 
v-la. Somos rvores que podem transplantar, mas os nossos ramos 
voltam-se sempre para o vento que vem do leste.
O Dr. Hambach no mudava de ideias.
- Assim que acabar de tomar o pequeno-almoo, irei falar com o Hupp e 
o Beiler. Conheo-os. Tratei-lhes a varicela e o sarampo quando ainda 
tinham ranho no nariz e vou dizer-lhes o que penso. Uma das vantagens 
da velhice  podermos permitir-nos dizer tudo, como os bobos de 
antigamente.
Mas estava escrito que o Dr. Hambach no faria nada.
A segunda chamada do dia veio da Polcia de Hellenbrand. O inspector 
Blinker declarou que tivera de vedar a via de acesso  granja de 
Corina.

- j h um engarrafamento de trinta e quatro carros. Aplicamos o 
plano nmero trs, que consiste em desviar o trnsito para a Praa da 
Festa de Maio. A Corina est?
- Est, porqu? - respondeu Doerinck secamente.
- Pergunte-lhe o que  que devemos fazer de todos estes carros.
- Faam-nos circular!
- Impossvel! No se trata duma manifestao, mas de visitas 
particulares. Corina  a nica que pode mand-los embora. Entre ns, 
doutor Doerinck, tudo isto  de facto horrvel. S um momento, doutor 
Doerinck. Acabo de receber uma comunicao de Seppenhagen: formou-se 
uma fila de trezentos carros na via de acesso  auto-estrada em 
direco a Hellenbrand. Segundo parece, toda aquela gente quer ver a 
curandeira que faz milagres.  de ficar maluco!
Doerinck desligou o aparelho, consternado.
- Est a comear a avalancha. Nunca teria imaginado que a reaco das 
pessoas seria to violenta, to brutal. Resta-nos esperar calmamente 
a evoluo dos acontecimentos.
Corina, Van Meersel, Stefan Doerinck e o Dr. Hambach decidiram ir  
granja por caminhos secundrios e atravs dos campos. Todas as ruas 
normais, assim como os parques de estacionamento, tinham 
engarrafamentos, onde se comprimiam uns contra os outros trs vezes 
mais carros do que eles podiam conter. Estavam l dois polcias, que, 
impotentes, se limitavam a contemplar o espectculo e a responder 
laconicamente s perguntas que lhes faziam: "No sabemos."
Apareceu uma ambulncia a golpes de sirena, com uma luz azul a apagar 
e a acender no tejadilho, lutando desesperadamente para avanar metro 
a metro. Vinha de M'nster, alugada por um rico antiqurio desta 
cidade; no interior, um ancio vigiava o rosto emaciado e os olhos 
vtreos da mulher, deitada na maca: uma moribunda. Hellenbrand era a 
sua ltima esperana. S um milagre poderia ainda salv-la. Nos 
ltimos meses, o velho casal tinha visitado Ftima e Lourdes, mas sem 
resultado. "Neste estdio, o cancro  incurvel", tinham repetido os 
mdicos. Agora estavam a chegar  granja milagrosa, rezando "Santa 
Maria, Santa Me de Deus, no nos abandoneis... Salvai-me..." Corina 
e os companheiros seguiram por um caminho que conduzia a uma porta do 
antigo estbulo, cujos restos tinham sido incorporados na granja, e 
conseguiram entrar sem serem vistos. Van Meersel transpirava de 
excitao.
- Mas  uma verdadeira consagrao, Corina! Dentro de alguns dias o 
mundo inteiro falar de si!
O Dr. Hambach colocara-se perto da janela e olhava atravs das 
cortinas os carros e a multido que tinham invadido o parque de 
estacionamento.
- Meu Deus, vm de todos os lados, de Hamburgo, de Colnia e at da 
Holanda... Decididamente, no fim do sculo vinte, o ser humano 
continua exactamente com a mesma necessidade de maravilhoso de 
sempre...
- Que fazemos, Cora? - perguntou Stefan Doerinck.
- Vou falar-lhes.
- Isso no servir de nada... Olha, uma ambulncia. Esto a tirar uma 
mulher numa maca.
-  uma loucura, tio Ewald! Apesar de tudo, isto no  Lourdes.

- Mas para essa gente, esta granja  uma nova Lourdes. Quer queiras, 
quer no, tornaste-te na ltima esperana destes casos desesperados.
- Mas sou incapaz de fazer milagres! O que fao  natural e, 
portanto, limitado. Vai ter com eles e explica-lhes, suplico-te!
Meersel, que ia e vinha nervosamente na sala, abanou a cabea.
- O que  que o reprter dizia ontem no seu comentrio: "Poderemos 
esquecer a Bblia a partir de agora?" Eis o resultado de tal 
imbecilidade. Mas de todas as maneiras, h uma coisa que devemos 
fazer: deixemos entrar esta doente que vem de maca.
. - E os outros? - quase gritou Doerinck. - Quem Ir dizer-lhes para 
voltarem para casa? Vo tomar a granja de assalto e lapidar-nos.
- No os posso receber a todos I Nunca teria foras para o fazer.
Os homens que traziam a maca tinham-se aproximado e batiam 
energicamente  porta.
 preciso tomar uma deciso: abrir ou fazer de esttuas.
O Dr. Hambach, que ficara  janela, por trs da cortina, lanou de 
repente um grito.
- No  possvel!  o Probst!
- Quem?
- O Probst, o padeiro, com uma carrinha cheia de po, bolos, caixas 
de Coca-Cola e limonada! Nunca se desnorteia, este! As pessoas 
comprimem-se  sua volta.
Van Meersel interveio.
- Ficaram surdos? Esto a bater  porta cada vez com mais fora. 
Esqueceram-se da doente que est l fora numa maca?  preciso fazer 
qualquer coisa, Corina.
- Mande-a entrar... Mas s a ela e ao marido.
Durante alguns segundos, Van Meersel e Doerinck trocaram impresses 
antes de deixarem entrar a mulher que estava na maca, o marido e os 
dois enfermeiros. Doerinck fechou imediatamente a porta atrs deles. 
Da multido que se comprimia l fora, elevara-se um imenso clamor de 
alegria e de esperana: tinham tido razo em vir, "Ela" estava l. S 
tinham que esperar!
O velho antiqurio explicava com voz trmula:
- Sabemos que nenhum mdico pode j fazer qualquer coisa. Consultmos 
os melhores mdicos da Europa, dos Estados Unidos e do Japo e a 
seguir fomos a Ftima e a Lourdes. A minha mulher est condenada. Tem 
um cancro no fgado e metsteses em todo o lado. Ela sabe-o, mas tem 
ainda assim esperanas. Ela cr. Ento, vim ter consigo. No tenho o 
direito de negligenciar a possibilidade de um milagre no qual no 
acredito. Mas ajude-a pelo menos a morrer. Perdoa-me, no  
verdade...
Parou e ps-se a chorar silenciosamente sem um gesto. S a sua mo se 
estendia na direco da de Corina.
Na direco da mo que curava.

Capitulo nono

s oito da manh, Roemer telefonou para o servio de cirurgia da 
Clnica Universitria de M'nster. Tinha a certeza de que Willbreit l 
estava. A partir das sete e meia todos os chefes de servio e os 
mdicos da clnica tomavam conhecimento dos acontecimentos da noite e 
tinham uma reunio durante a qual preparavam o dia. Fora o prprio 
Willbreit quem, para grande irritao dos outros mdicos, institura 
aquele briffing matinal que os obrigava a encontrarem-se com as 
enfermeiras da noite e a informarem-se junto destas.
o professor Hellbrecht, director oficial da clnica, ocupado com as 
suas obrigaes internacionais, dera carta branca ao seu colaborador. 
Quando estava em M'nster, aparecia duas vezes por semana na clnica, 
recebia ento a sua clientela privada, operava com as prprias mos 
algumas altas personalidades e alguns casos crticos para os quais 
sempre pedia a assistncia de Willbreit.
- Se no o tivesse a si, Willbreit - dizia frequentemente. - Mas, 
francamente, no tem de facto demasiado trabalho?
Willbreit respondia sempre:
- Est tudo muito bem. Temos excelentes colaboradores e a nossa 
organizao  exemplar.
Hellbrecht cobria Willbreit de honras. Estava s no mundo desde a 
morte da mulher e do filho. A primeira contrara seis anos antes uma 
doena tropical. Um diagnstico errado tinha feito pensar numa 
bronquite crnica, o que permitira que a infeco alastrasse 
irremediavelmente. Quanto ao filho, fantico do esqui, tinha dado uma 
queda terrvel e fatal. O que recebera do seguro, o seu salrio de 
director e os honorrios mdicos faziam dilatar regularmente a sua 
conta no banco. Mas um dia confiara a Willbreit: "Ser-me-ia difcil 
gastar mais. Tenho uma casa e uma coleco de impressionistas. 
Chega-me. S consigo comer um escalope  vienense de cada vez. Ter um 
iate no me diz nada e estou demasiado velho para me entreter com uma 
amante. Assim, tudo o que possuo ir um dia para uma fundao e voc, 
meu caro Willbreit, ser o presidente... "
Willbreit encontrava-se justamente a tomar conhecimento dos casos da 
noite - duas mortes, uma de cancro, outra em consequncia dum 
desastre de automvel - quando a secretria lhe anunciou que tinha 
Roemer ao telefone.
- Erasmus! Finalmente! Que se passa? Onde ests?
- Em casa. Mas com a chave do carro na mo. Viste a emisso 
televisiva de ontem?
- Naturalmente. O fim da bela Corina sem sequer ter havido combate! 
Uma espcie de suicdio pelo qual lhe podemos estar agradecidos.
- E de que maneira! Vou pegar no carro para ir ter con ela.
- Com quem? Com a tua mulher? J voltou da Hungria e da sua caa ao 
urso?
- Mesmo com o modesto quociente intelectual de que dispes, deverias 
adivinhar pelo som da minha voz que no se trata dum acontecimento 
to horrvel.  a Corina que eu vou ver.
- E porqu?
- No para dormir com ela. Para lutar a seu lado.
- Ests louco, Erasmus.
- Sou ou no um homem doente, Thomas?

Willbreit hesitou um instante antes de responder.
- Se no te deixares operar, -lo certamente.
- Esquece essa histria da operao. Tenho confiana em Corina.
Durante um instante, Willbreit ficou mudo. Retomou dificilmente o 
flego. No se dava conta Erasmus de que a sua nica hiptese era 
justamente a operao a que recusava submeter-se? Ia falar, gritar, 
mas Roemer no lhe deu tempo para isso.
- E se caste de rabo, Thomas, levanta-te! Aquela emisso de 
televiso era infame e a Corina no merece isso. Toda aquela corja 
dos media se limitou a explorar a ignorncia que ela tem do seu meio 
e que eu conheo bem de mais. Agora,  preciso ajud-la, Thomas.
- Erasmus, ouve-me um instante! Ds-te conta do escndalo: o 
presidente do tribunal de 1a instncia toma partido por uma 
curandeira ridicularizada pela televiso!  o fim da tua carreira.
- O que  que queres que isso me faa, visto que, de qualquer modo, 
estarei morto dentro de dois ou trs meses se a Corina no conseguir 
socorrer-me? Mas os meus ltimos meses de vida pertencem-lhe! E vou 
lutar por ela, com todas as minhas foras, cheio de raiva. E 
previno-te que no te pouparei caso esboces um s gesto para te 
juntares a esses idiotas. Fui claro? Thomas, continua a ser para mim 
um enigma como  que tendo um crnio to vazio conseguiste tornar-te 
um cirurgio conhecido.
A boca de Willbreit crispou-se.
- Obrigado... Pareces estar de excelente humor esta manh.
- No sabia que eras capaz de ceder a movimentos de histeria 
colectiva...
- No meu estado, posso permitir-me seja o que for:  o nico lado 
positivo da minha doena. Eis o que queria dizer-te. Poders 
contactar-me em Hellenbrand, em casa de Corina.
Um segundo depois, Roemer atravessava o hall com uma grande mala na 
mo, chamando em voz alta a empregada para lhe dizer que estaria 
ausente durante alguns dias. Antes que ela pudesse perguntar-lhe qual 
seria a sua morada, encontrava-se j c fora e punha-se ao volante do 
seu enorme carro.
Willbreit precisou de uma boa hora para recuperar a calma e chegou 
at a abreviar a visita da manh, limitando-se a ver os casos 
verdadeiramente graves. De volta ao seu gabinete, procurou nos montes 
de papis que ainda no tinha classificado o postal que Elise Roemer 
lhe enviara h trs semanas da Hungria e onde lhe mandava a sua 
morada. Era preciso avis-la e faz-la regressar a todo o custo. Cada 
vez mais impaciente, teve a seguir de esperar longos minutos antes de 
obter o nmero do telefone do baro Janos Von Zrhney. Passou mais 
uma hora antes de obter a comunicao para a Hungria, como  de regra 
nos pases socialistas.

Na Europa oriental, onde, como se sabe, se suprimiram os empregados 
domsticos, os privilegiados do regime tm jardineiros, motoristas, 
pessoal de cozinha, etc., todos funcionrios do Estado. Foi o mordomo 
quem respondeu ao telefone. Ao dar-se conta que se tratava de um 
estrangeiro, preveniu logo Willbreit, num ingls impecvel, de que a 
"Senhora" - ento ela era a dona da casa? - estava a tomar o 
pequeno-almoo no jardim de inverno. Acrescentou logo a seguir: " 
importante?"
Willbreit ficou feliz por poder descarregar a sua raiva.
- Acha que eu teria desperdiado duas horas para telefonar da 
Alemanha para um pas socialista se no fosse importante? Diga-lhe 
que  o mdico dela e do marido.
- Oh, desculpe! Vou ver se a senhora quer receber a chamada.
Ainda teve de esperar, mexendo nervosamente nos papis. A seguir 
Ouviu a voz alta de Elise, uma voz infantil que fazia Roemer dizer: 
"Quando atinge o orgasmo tenho de dizer para ele mesmo, a fim de 
tranquilizar a minha conscincia, que estou a dormir com a minha 
mulher e no com uma menor de doze anos que estou a violar..."
- Bom dia, Thomas! Fico contente em ouvir-te. Finalmente, vou ter 
notcias de M'nster. No recebi uma s carta do Eras (tratava-se de 
Erasmus) desde a minha partida. Estar zangado por eu ter prolongado 
a minha estada na Hungria?  que continuamos  espera do urso e este 
nunca mais chega! Alm disso, aqui tudo  maravilhoso. Todas as 
manhs damos longos passeios a cavalo. Como vo as coisas em M'nster? 
O Eras est ao p de ti?
- No... Mas trata-se dele.
- Continua a ir jantar todas as noites ao Krautkramer?
- Sim, mas no se trata disso, Elise.
- Ento o que  que se passa?
- Ficou completamente louco.
- Mas sempre foi, Thomas...
- No, Elise. Agora trata-se dum verdadeiro ataque de loucura. Est a 
arriscar a vida, o seu futuro, a carreira, enfim, tudo, por causa 
duma curandeira cujas mos...
Calou-se, dando-se conta que ia perder-se em explicaes.
- O Eras sempre deu importncia s mos das mulheres, Thomas, bem 
sabes. Sempre gostou das minhas mos, por exemplo. Diz que so 
infantis.  simptico, no achas?
- Ouve, Elise. Vou falar-te brutalmente: o teu marido est doente, 
muito doente! Tem de ser operado imediatamente. No posso dar-te 
agora todos os pormenores, mas  grave.  mesmo muito grave. E sabes 
o que faz? Recusa-se a fazer o tratamento que poderia salv-lo e, em 
vez disso, faz apelo a uma mulher que pretende cur-lo acariciando-o.
- Mas isso  tpico no Erasmus! Como  que essa mulher  e onde  que 
o acaricia para o curar?
- Ele acredita nisso, Elise. Acredita que as suas carcias... 
Calou-se de novo.
- O Erasmus adora que o acariciem. Descobri que  o meio mais seguro 
para o pr de bom humor. No h nada de novo nisso, Thomas, nada de 
extraordinrio. E  para me dizeres isso que ests a telefonar?
- Tens de voltar imediatamente, Elise.
- Por causa dessa rapariga? Nunca!
- Por causa do Erasmus. Ele est mesmo doente.
- Se tu o dizes...

Havia de repente algo de inquietante no infantilismo daquela voz. 
Willbreit imaginava perfeitamente Elise Com os seus cabelos louros 
desfeitos sobre os ombros, o seu roupo encantador no meio das 
palmeiras e das flores dum magnfico jardim de inverno. Tinha ousado 
perturb-la quando se encontrava a chefiar as cerimnias a uma mesa 
bem servida. Na sua linguagem imagtica, Roemer tinha dito que quando 
Elise se encontrava diante do pequeno-almoo, os dez mais belos 
homens do mundo podiam danar  sua volta nus e com o sexo erecto que 
ela no deixaria primeiro de comer o seu pozinho com manteiga do 
campo ligeiramente salgada.
- Mas o que  que eu poderia fazer em M'nster? Conheces o Eras. Vai 
at ao fim do que decidiu. Abate-se sobre o obstculo como um carro 
de assalto. Alm disso, alguma vez teve considerao por mim?
- E tu, mostraste considerao por ele?
- Mas Thomas...
- Ests h semanas na Hungria, segundo dizes, em perseguio dum 
urso. A quem queres fazer crer que um urso se possa esconder to bem 
e durante tanto tempo? A menos que seja no fundo de uma cama e que 
ele se chame Janos...
- Que grosseiro, Thomas...
- Regressa, se queres voltar a ver o Erasmus vivo. - Estava farto de 
ouvir coisas inconsequentes e acrescentou sem rodeios: - No se pode 
exigir menos da parte duma esposa.
Quando a conversa acabou, Willbreit abanou a cabea: apesar da sua 
inteligncia, da sua situao honorfica e da sua riqueza, como  que 
se podia deixar de lamentar Erasmus Roemer? Que solido era a sua, 
qual era o vazio interior que aquele gigante tentava em vo compensar 
comendo, bebendo e representando, tanto para os outros como para si, 
a comdia de uma grosseria de campons do Danbio? Como  que uma 
pessoa podia estranhar que uma rapariga como Corina lhe aparecesse 
como sendo a promessa dum novo universo, resplandecente, como sendo o 
ltimo refgio dum desespero fundamental?
Cedendo a uma inspirao sbita, Willbreit telefonou ao Dr. Hambach, 
cuja mulher-a-dias lhe forneceu voluntariamente todas as informaes 
que possua.
- O doutor est em casa dos Doerinck. No imagina o que aqui se 
passa! H carros por todos os lados e esto a desvi-los todos para a 
Praa da Festa de Maio. Tudo isto por causa dum programa de 
televiso! Todos estes imbecis se querem deixar acariciar por Corina! 
Est tudo de pernas para o ar em Hellenbrand!
"Perfeito", pensou Willbreit. Pouco faltou para que esfregasse as 
mos. " exactamente disto que precisamos. Corina sair deste caos 
ridicularizada para sempre." Quem teria pensado que a situao ia 
evoluir desta maneira e to rapidamente".> Roemer estava apenas a 
sacrificar-se a uma iluso nefasta. Tambm ele cairia no ridculo. E 
no era essa a sorte mais atroz para um homem na sua posio?
Mas como trav-lo, como par-lo?

Com efeito, Roemer estava lanado como um blide e quando deu consigo 
apanhado nos engarrafamentos de Hellenbrand abandonou muito 
simplesmente o carro para fazer o resto do caminho a p. Na Praa da 
Festa de Maio j estavam a instalar as tendas necessrias: vendia-se 
po, salsichas e costeletas de porco frias a uma multido esfomeada. 
O dono do albergue "As Armas da Vesteflia" transformara um camio em 
bar mvel, onde as pessoas se vinham aprovisionar de gua, cerveja, 
aguardente e sumos. O livreiro-papeleiro de Hellenbrand tambm 
aproveitava o afluxo inesperado de clientes: todos queriam 
fotografias do burgo, santos benzidos, pequenas bandeiras com as 
armas da Vesteflia, em resumo, recordaes de todas as espcies. O 
presidente da cmara, depois de ter dado uma volta rpida atravs da 
multido, regressara  cmara com a cara vermelha e crispada.
- A besta humana est lanada - declarara a trs dos seus 
conselheiros, cuja expresso sombria indicava claramente que no 
tinham a sorte de ser comerciantes. - E  s o primeiro dia - 
acrescentara. - Pergunto-me em que se ter transformado a nossa 
cidade daqui a uma semana...
Erasmus Roemer chegou  granja, diante da qual se comprimia uma 
multido que esperava pacientemente que a porta se abrisse de novo. 
Dois homens da ambulncia que estavam a guardar, simultaneamente, a 
ambulncia e a porta, quiseram impedi-lo de se aproximar, enquanto a 
voz aguda duma mulher gritava:
- Esse acaba de chegar! Ele que v para a fila como toda a gente!
Roemer encheu o peito.
- Sou da famlia! - A sua voz e o seu aspecto formidveis fizeram 
calar os opositores. - A maneira como alguns de vocs se conduzem 
aqui  lamentvel! Um pouco de compostura, se fazem favor. - A 
seguir, empurrando os dois enfermeiros sem esforo, bateu  porta com 
o punho, gritando: Abre, Corina!  o tio Erasmus!
Na sala de exposio, o Dr. Hambach ps a cabea entre as mos 
olhando para Doerinck.
- Meu Deus, s c faltava o juiz Roemer! S pode ser ele, a rugir 
daquela maneira!
- Mandem-no entrar. Ele est mesmo muito mal e no consigo perceber 
porque  que falho no caso dele.
Ajoelhada perto da maca, conservava entre as mos as da moribunda que 
se crispavam  volta dum crucifixo. O marido continuava a chorar, 
silenciosamente. Sabia que tudo acabara. Um sorriso duma serenidade 
infinita comeava a descontrair o rosto emaciado da mulher.
A massa de Erasmus Roemer irrompera pela porta aberta, com 
reticncias, pelo Dr. Hambach. Mas ao vislumbrar a maca e Corina 
ajoelhada perto dela, o gigante parou, murmurou uma desculpa 
inclinando-se e retirou-se na ponta dos ps em direco  parede, 
fazendo mesmo assim estalar o cho sob o seu peso.
- O que  que vem c fazer? - perguntou num murmrio o Dr. Hambach.
Van Meersel aproximou-se deles, estendeu a mo ao recm-chegado e 
apresentou-se.
- Venho ajudar a Corina - quis Roemer responder no que pensava ser um 
murmrio e que acabou por ressoar na granja inteira.
Corina endireitou-se e recuou alguns passos para se dirigir ao 
antiqurio.
- Vou ajud-la tanto quanto me for possvel. Ela vai morrer, mas 
comigo morrer tranquilamente, feliz, pensando que se deu um milagre. 
 tudo o que posso fazer por ela.
- Agradeo-lhe do fundo do corao.
Ela voltou para junto da maca e ajoelhou-se de novo diante da 
moribunda, cujos grandes olhos pareciam ter deixado de se abrir sobre 
este mundo, apesar de o olhar seguir todos os movimentos de Corina. 
Foi num silncio absoluto que a voz de Corina se elevou e todos a 
ouviram distintamente:

- Vai sentir em si um grande calor. Vai sentir-se bem, melhor do que 
nunca, e cansao, um grande cansao. Quando acordar, prometo que se 
sentir melhor... Lentamente, muito lentamente, a doena 
abandon-la-. Temos apenas de ter pacincia, muita pacincia...
Ao mesmo tempo, as suas mos moviam-se por cima da moribunda, cujo 
sorriso respondia ao seu. Tinha a ponta dos dedos a arder. Sabia que 
tudo era em vo, mas continuava mesmo assim a irradiar aquele corpo 
para lhe subtrair a sensao de dor. O sorriso que iluminava aquele 
rosto cavado pelo sofrimento e pela doena ganhava uma aparncia 
quase celeste e viu que os olhos da paciente, j muito abertos, se 
abriam ainda mais e resplandeciam com um brilho sobrenatural. Foi no 
meio deste xtase que ela cessou de respirar.
Lentamente, Corina deixou tombar as mos antes de se levantar 
vacilando e apoiou-se logo em Van Meersel. Ao seu lado, Doerinck 
respirava dificilmente e o ranger dos dentes de Roemer ressoou 
repentinamente na grande sala.
- O que  que se passa? Porque  que no continua? Est a fazer-lhe 
to bem. Veja como est feliz.
-  a felicidade de estar perto de Deus - disse gravemente Van 
Meersel.
S ento o antiqurio compreendeu. Por sua vez, caiu de joelhos perto 
da maca e tomou nas mos aquele rosto sorrindo com um sorriso 
maravilhoso.
- Hanna, meu Deus, meu Deus! - Levantou-se, lanou um olhar  volta e 
viu Corina, que fumava avidamente u cigarro que o pai lhe preparara e 
acendera. - Obrigado. Morreu feliz, cheia de esperana... Teve a mais 
bela morte possvel.
O Dr. Hambach abriu a porta para dizer aos enfermeiros:
- Podem lev-la.
O enfermeiro que tinha entrado primeiro olhou a maca, a seguir o 
marido, que chorava, e, aps um instante, arqueou as sobrancelhas de 
surpresa.
- O que  que se passa? Morreu, no foi?
- Morreu.
- Lamento, mas no estamos autorizados a transportar um cadver.  o 
regulamento, doutor. Quando algum morre numa ambulncia, 
evidentemente,  diferente: no o podemos pr fora da ambulncia. Mas 
se assim no for,  necessrio um caixo e o caminho s pode ser o 
trajecto funerrio -
Voltou a olhar para a morta e, perturbado pelo seu sorriso encolheu 
os ombros e saiu. A ambulncia partiu quase imediatamente. Para abrir 
caminho por entre o caos de gente que esperava l fora, o motorista 
teve por vrias vezes de pr a sirena a soar e de aumentar a 
velocidade a fim de poder afastar-se rapidamente.
Van Meersel suspirou.
- Mais uma complicao! Qual acha que vai ser a reaco da multido 
quando vir chegar o carro funerrio com o caixo? A televiso est l 
fora?
- E em fora! Duas equipas completas, uma para cada cadeia.
Roemer tinha-se ocupado,  sua maneira, do marido, que conhecia de 
M'nster e em cuja loja j fizera vrias compras. Tinha-o feito 
sentar-se  fora numa cadeira e ingurgitar um grande copo de 
conhaque. O tratamento deu resultado: o homem parara de chorar.
O Dr. Hambach olhava, por sua vez, a multido comprimida  volta das 
carrinhas de televiso e que trocava impresses.
- Para estes abutres, esta morte vai ser um verdadeiro regalo! Mas, 
de momento,  preciso pr o corpo na outra sala.

Com a ajuda de Doerinck, deps a morta na sua maca no atelier, 
exactamente diante do tear. Como no tinha mais nada  mo, tapou o 
cadver com uma estreita e comprida tapearia cujos desenhos evocavam 
justamente as flores da Primavera.
Pouco depois de voltarem para a sala de exposies, bateram de novo  
porta.
- Abram.  o Beiler.
- Beiler  o nosso presidente de cmara - explicou Doerinck a Roemer, 
que se recusava a deixar entrar o importuno.
Beiler vinha acompanhado por um desconhecido que se apresentou como 
sendo da Polcia judiciria. Era um tal Fernich. No sabendo que mais 
fazer, Beiler telefonara ao director da Polcia de M'nster. Depois de 
responder que um assunto daquele tipo no era da sua competncia, o 
director acabara por consentir em enviar como observador um dos seus 
funcionrios. Muito incomodado pela misso que lhe tinham atribudo, 
Fernich comeara por afastar grosseiramente as equipas de televiso, 
que, naturalmente, tinham filmado a chegada do presidente da cmara.
Decidido a fazer reinar a ordem tanto no interior da granja como no 
exterior, o polcia mudou bruscamente de atitude ao encontrar-se 
diante do presidente do tribunal de 1.a instncia. Quem  que em 
M'nster no conhecia o presidente Roemer, que tinha as melhores 
relaes com a chefia da Polcia?
- No estava  espera de o ver aqui, senhor presidente - balbuciou.
- E porque no? Estou aqui a ttulo privado. Mas quem 
que o mandou para fora do seu territrio? A competncia da polcia de 
M'nster passou a abarcar Hellenbrand?
Beiler quis intervir.
- Fui eu que telefonei para M'nster. Estou cheio de trabalho. Se esta 
desordem continuar, ser preciso que uma autoridade qualquer 
intervenha. Tambm preveni a Direco de Higiene Pblica.
O Dr. Hambach teve um sorriso irnico.
- Que engraado...
- Era o meu dever. Est-se a exercer medicina ilegalmente nesta 
granja. Ns temos leis. Vivemos num Estado onde reina
a ordem e onde se deve respeitar...
- E  a mim que ousa dizer isso, a mim que sou o presidente do 
tribunal de M'nster e responsvel pelo que se passa em Hellenbrand! 
Alm disso, tambm parece esquecer a presena do doutor Hambach. Mas 
voc, o que  que faz aqui, sua espcie de ano? E voc, que  
polcia?
Cada vez mais furioso, com a voz cada vez mais forte, Roemer 
voltara-se para o pobre Fernich.
- Vai mencionar no seu relatrio que em Hellenbrand se passam factos 
repreensveis e ilegais? Com a presena do doutor Hambach e com a 
minha vai ter dificuldade em prov-lo. Antes de mais, repita ao seu 
director o que vou dizer e sem alterar uma palavra. Tome nota: "Caro 
Paul, mesmo que isso te faa cair o cachimbo da boca, devo dizer-te 
que estou em casa da Corina Doerinck para ser tratado..." Escreveu? 
Perfeito, Fernich. Mas o que  que tm?  curioso ver como certos 
homens tm expresses que mais os fazem parecer carneiros.
- Senhor presidente... est a querer... tratar-se... tratar-se por 
uma curandeira?

- E ento? Se calhar julga que os juzes nunca esto doentes? Com 
todos os criminosos e os polcias que tm de aturar no  de admirar.
- Mas h excelentes mdicos em M'nster.
- Isso  problema meu, meus meninos... Mas porque  que se mete na 
minha vida? Por acaso eu meto-me nas suas relaes com a auxiliar de 
polcia que se chama Ilse Lange?  parte a sua mulher, toda a gente 
sabe na polcia que alugou um quarto para se encontrarem regularmente 
na margem do lago d'Ac. Isso  consigo, e ter de sair sozinho dessa 
quando j estiver farto!
Dado que Fernich ficara interdito, sem voz, Roemer continuou com um 
largo movimento do brao:
- olhe bem  sua volta, Fernich. Tem aqui o professor Van Meersel, de 
Amesterdo, que  uma autoridade internacional em biofsica e em 
parapsicologia. Vai tambm perguntar-lhe o que  que ele est aqui a 
fazer? E eis o pai da Corina. Apoiado  porta, est o doutor Hambach, 
mdico em Hellenbrand desde h no sei quantos anos. Acha que ele 
veio cometer ou assistir a algo de ilegal, como afirma este agitado 
presidente da cmara que o foi chamar por estar a tremer de medo? No 
se chegue demasiado a ele, pois tenho a certeza de que ele fez nas 
calas de tanto medo.
- No lhe admito - gritou Beiler.
- Continuemos as apresentaes: est ainda aqui o senhor Manfred 
Zynnis, antiqurio de M'nster e bem conhecido dos cidados cultos. Do 
outro lado da porta est a mulher dele, falecida h cerca de vinte 
minutos.
O rosto de Fernich contraiu-se repentinamente.
- Quer dizer que morreu aqui uma mulher? Que morreu em consequncia 
do tratamento de Corina Doerinck?
- No, meu menino: durante o tratamento, o que no  nada a mesma 
coisa.
Mas Fernich tinha recuperado toda a sua segurana policial.
- Uma morte tem causas que  necessrio determinar. Tenho de registar 
a ocorrncia, senhor presidente. Posso ver o cadver?
- Naturalmente - disse Hambach, precedendo-o at ao atelier.
- Porque  que fala em registar a ocorrncia? - perguntou Corina.
- Porque se esquece da prudncia com que um polcia deve agir. - 
Julga ter descoberto um grande caso e pensa ter o direito de agir 
fora do seu distrito, quando apenas pode testemunhar! O seu 
espiritozinho pra na fronteira do que lhe ensinaram. Se um doente 
morrer em casa do mdico, isso parece-lhe perfeitamente normal! De 
qualquer maneira, tem de se morrer um dia. Mas esta mulher expirou 
nas mos de Corina Doerinck, contra a qual ele foi precavido pelo 
presidente da cmara, que aqui est. Se esta mulher tivesse morrido 
l fora, o Fernich nem pensaria em intervir. Quer mostrar-se muito 
zeloso.
- Mas ela j estava moribunda quando aqui chegou - disse Doerinck.
- Morreu no momento em que Corina sustinha as mos por cima dela. A 
est o busilis da questo. O nosso Polcia acha isso inadmissvel. 
Nunca passar de um policiazinho! E esquece-se de uma srie de outras 
coisas: a presena do doutor Hambach...

Fernich voltava justamente do atelier com o Dr. Hambach. Apesar de 
estar habituado a ver mortos, no tinha podido deixar de empalidecer 
ao levantar a tapearia e ao ver aquele rosto em que a pele se colava 
aos ossos, mas que parecia encontrar-se iluminado por um sorriso 
radioso. Tinha ouvido a ltima frase de Roemer, mas estava bem 
decidido a dar mostras de autoridade.
- Ento? - lanou-lhe Roemer. - O que faz agora a nossa brigada 
criminal? Vai suster, depois de ter visto o cadver, que ningum tem 
o direito de lhe tocar at  autpsia? Mesmo apesar da certido de 
bito do doutor Hambach?
- De qualquer maneira, oponho-me a que faam uma autpsia - declarou 
firmemente o antiqurio. - A minha mulher estava moribunda quando 
aqui chegou.
- Ento, porque  que a trouxe a esta granja?
- Porque ela queria. Por ser o seu ltimo desejo.
- Ento ela estava plenamente consciente quando aqui chegou?
- Exacto.
- E Corina Doerinck comeou o seu tratamento e ela morreu?
-  verdade.
Fernich pensava ter ganho um ponto. Endireitou-se e declarou 
secamente:
- Ningum volta a tocar neste cadver antes da chegada da Polcia. E, 
alis, porque  que o mudaram de stio?
- Oponho-me a essa medida e declaro-o pessoalmente responsvel - 
gritou Zynnis. - A minha mulher tem direito  paz.
A voz zangada de Roemer cobriu as suas ltimas palavras assim como a 
rplica do polcia.
- Creio que j  tempo de fazer alguns telefonemas para resolver a 
questo da mudana do cadver e lembrar a este homenzinho, que se 
encontra fora do seu distrito, quais os limites da sua competncia. 
Vai aprender que da parvoce  prepotncia s vai um passo e que ele 
j o deu. Portanto  melhor que no v mais longe.
o presidente da cmara foi o nico que ousou falar, apesar de a voz 
lhe sair estrangulada pelo desespero.
- Mas l fora esto, pelo menos, cento e cinquenta pessoas. Que lhes 
fao?
- Ordene-lhes que voltem para casa. Vi l fora dois agentes que 
pertenciam certamente  Polcia Municipal. D-lhes ordens. Ou 
apresente a demisso. Mas resolvamos antes as nossas questes. Senhor 
Zynnis, primeiro,. a sua mulher. Doente como estava, o senhor j 
tinha certamente pensado no seu enterro...
- j. Contactei Ewig e Filho. Tenho aqui o nmero do telefone.
Em menos de um quarto de hora, Roemer tinha resolvido tudo. 
Telefonara a Ewig e Filho e a seguir ao director da Polcia e ao 
procurador. A estes ltimos, explicou que o Dr. Hambach tinha 
assinado a certido de bito e atestava que a Sr. Zynnis morrera de 
morte natural em consequncia de um cancro incurvel. Na presena 
deste mesmo mdico, na de vrias pessoas e na dele prprio. Um 
policiazeco tinha pensado dever mostrar-se zeloso, mas podia-se 
esquecer tal incidente, que podia ser-lhe prejudicial. No havia nada 
de "Obscuro" no caso e era prefervel no falar dele para no deitar 
mais lenha na fogueira e excitar ainda mais o pblico.
Fernich, com os maxilares contrados, ouvira as trs conversas. Mas 
no quis deixar de protestar contra a maneira como Roemer o tratara.
- Gostaria de ter podido falar com esses senhores...
Foi interrompido por um rugido.

- Insinua que estou a mentir? Passei em silncio a sua presena aqui 
e nem sequer me agradece! Quer de facto que lhes comunique as suas 
acusaes? Tem mesmo vontade de ter uma nota especial no seu dossier?
Era o fim. Beiler tentou intervir uma vez mais.
- No posso deixar essa gente passar a noite aqui.  proibido acampar 
fora do parque de campismo.
Van Meersel aproveitou a deixa.
- Ora bem, eis, por fim, um bom argumento para os obrigar a sair 
daqui.
Beiler e Fernich deixaram a granja cabisbaixos. Alguns instantes 
depois tinham juntado  volta deles um grupo de pessoas a quem se 
esforavam por explicar a situao. O Dr Hambach, pensativo, 
dirigiu-se de repente a Roemer.
- Diga-me c, doutor Roemer, como  que se explica que o director da 
Polcia e o procurador tenham nmeros de telefone apenas com trs 
algarismos?
Roemer voltou-se para olhar para ele e s respondeu com uma espcie 
de grunhido.
Mas Hambach no desistiu.
- Tenho a certeza de ter visto bem. Marcou seis algarismos para a 
agncia funerria e somente trs para os outros.
A cara do colosso alargou-se pouco a pouco at no ser mais do que um 
enorme sorriso cheio de ironia.
- A srio? Ainda tem uma excelente vista, doutor Hambach!
- Isso quer dizer que no falou com o director da Polcia nem com o 
procurador. Mas porqu?
- Nunca se deve complicar as coisas. De qualquer maneira, j est. 
Podemos respirar at amanh. E quem sabe o que o mundo ser amanh?
- Isso pode causar-lhe graves aborrecimentos, doutor Roemer.
- J no existem graves aborrecimentos para mim, doutor, e o senhor 
sabe-o. Encontro-me na situao dum homem fulminado, o que me liberta 
de qualquer obrigao e me permite dizer e fazer o que quero. Nada me 
pode atingir: estou pronto para a eternidade
Corina olhava-o com ar pensativo.
- Tem a certeza? - perguntou docemente.
- Evidentemente. Visto as suas mos falharem quando se trata de mim, 
j nada me pode dar esperanas.
- Vamos tentar mais uma vez.
- Corina! - Foi como se o gigante desabasse. Encontrou-se sentado 
numa cadeira com a cabea mergulhada nas suas enormes mos. - j fiz 
as minhas despedidas de tudo. Agora j no creio que uma cura seja 
possvel...
- Levante-se, doutor Roemer.
Tinha-se aproximado dele a sorrir. Roemer levantou-se com os lbios a 
tremer.
- Olhe para mim! Fixe os meus olhos. Fixe-os bem como se fossem um 
espelho no qual se olhasse. Procure a sua imagem, procure-se nos meus 
olhos... Isso! Acaba de se descobrir a si mesmo...
A sua voz ecoa, muito segura de si mesma, no silncio absoluto. 
Imvel, Roemer quase no ousa respirar.
Com uma solene lentido, Corina levanta as mos, dobra-as em forma de 
taa, acariciando  distncia o corpo do gigante...
Van Meersel, com as costas coladas  parede, no tira os olhos dela. 
De repente, sente as pernas a dobrarem-se-lhe.

"Ser possvel que os outros no vejam nada", interroga-se com uma 
espcie de desespero! Por pouco, gritaria: "Mas olhem! Olhem bem para 
ela! No vem a luz que vibra  volta da sua cabea?"
A pouco e pouco a multido, compreendendo que a porta da granja no 
lhe seria aberta, comeou a debandar. S ficaram no parque de 
estacionamento alguns casmurros que viram o carro funerrio da Ewig e 
Filho levar o cadver de Hanna Zynnis num magnfico caixo de 
carvalho esculpido.
A Praa da Festa de Maio tambm se tinha esvaziado. Trs carrinhas 
que queriam mesmo instalar-se tiveram de se dirigir para o parque de 
campismo, onde encontraram stio para ficarem. O presidente da cmara 
e a Polcia local respiraram ento, apesar de no poderem deixar de 
pensar na segunda invaso que se preparava para a manh do dia 
seguinte. O noticirio da televiso teve de se contentar com a 
chegada e a partida do carro funerrio com uma imagem rpida do rosto 
Plido do vivo e a frase,, que est a tornar-se clssica, de todos 
em relao aos quais os media se obstinavam a violar o desgosto: 
"Deixem-me em paz... "
Fiis  sua tcnica, os jornalistas "interpretaram" da maneira que 
lhes era mais favorvel a frase, que julgavam ter um sentido oculto: 
s podia ser o testemunho da dor dum homem cuja mulher morrera sob o 
efeito das mos pretensamente milagrosas da curandeira. O que lhes 
permitiu acrescentar imediatamente, como uma gota de veneno bem 
destilada, que a Direco de Sade Pblica estava prestes a abrir um 
rigoroso inqurito sobre as actividades de Corina Doerinck.
O grupo, cercado, aproveitou a obscuridade para sair da granja e 
voltar por caminhos secundrios para a casa dos Doerinck, onde Van 
Meersel iria passar a noite. Roemer seria hspede do Dr. Hambach
Roemer j no era o mesmo homem. Depois do tratamento Corina tinha 
ficado muda, sem lhe confiar o que pensava do resultado possvel. Por 
seu lado, ele sentira um calor agradvel, como uma sucesso de vagas 
a invadirem-lhe o corpo. "Sim, ela pode curar-me. A maldio 
inexplicvel cessou" pensara. Um arrepio tinha-lhe percorrido a massa 
dos msculos e da carne. Tinha vontade de fechar os olhos e de se 
abandonar quele bem-estar, ao sono, mas o olhar de Corina parecia 
t-lo hipnotizado, obrigando-o a lutar e a manter os olhos bem 
abertos.
E depois tudo se dissipara. As mos de Corina tinham voltado a cair 
ao longo do corpo. Ele vira-a a atirar a cabea para trs, dar alguns 
passos vacilantes, agarrar sem uma palavra o cigarro aceso que o pai 
lhe estendia e ir sentar-se a seguir perto da mesa, onde ps 
pesadamente os cotovelos, com a cabea baixa. Lentamente, os seus 
traos tinham-se descontrado e dir-se-ia que a beleza ressurgia no 
seu rosto como saindo de guas turvas. Suspirando, com um primeiro 
movimento da mo, afastara da testa os cabelos que a tinham coberto.
Roemer, em geral to exuberante, no se mexera. Sentia a garganta 
repentinamente apertada por uma angstia que o impedia de interrogar 
a jovem que estava sentada diante dele. Iria ouvi-la dizer uma vez 
mais: "No senti nada nas minhas mos. No posso fazer nada por si"? 
Bem que olhava para ela, esperando um sinal... Notava somente que ela 
estava muito cansada, extenuada. E aquele rosto cavado pelo esforo 
inspirava-lhe involuntariamente uma louca esperana. A fora que a 
abandonava talvez tivesse penetrado nele e comeado o seu trabalho de 
destruio da doena...

Foi s ao fim de dois minutos de imobilidade absoluta que ousou 
finalmente mexer-se. Agarrando na garrafa de conhaque, levou-a aos 
lbios para beber pelo gargalo. Van Meersel arrancou-lha das mos.
- Mas eu tenho sede - protestou Roemer.
- Beba gua...
- Eu, gua?... - O seu horror era real. - Ter-me-ei transformado num 
bicho?
- Exactamente.
Surpreendido, Roemer encolheu os ombros.
- Vamos a isso! Onde est o balde? A no ser que haja aqui um 
bebedoiro!
Doerinck abriu o frigorfico que estava incorporado numa estante e de 
l tirou uma garrafa de gua mineral que abriu e estendeu a Roemer. 
Depois de beber dois golos com circunspeco, Roemer voltou a p-la 
no stio donde sara.
- Se os meus amigos me vissem - suspirava aps um soluo provocado 
pelo gs da gua -, no acreditariam. Diriam que isto acontecia na 
sequncia de uma convulso geolgica.
Mas Corina, a quem a brincadeira se destinava, no sorriu. Parecia, 
de facto, ausente, e, quando todos saram da granja, Roemer ainda 
ignorava se aquela tentativa tinha sido a primeira de um tratamento 
completo.
No havia nada de novo em casa dos Doerinck, onde Ludmila os 
esperava. Uma hora antes, pelo sim, pelo no, batera na grade do 
jardim uma equipa de televiso que depressa perdera a coragem. O 
inspector do ensino tinha telefonado para Doerinck.
- O que  que ele disse? - indagou Stefan.
- Nada, a no ser que desejava falar contigo. Foi duma extrema 
delicadeza. Mas est uma pessoa  espera da Corina... - Como o marido 
arqueava as sobrancelhas, apressou-se a acrescentar: - Um homem novo, 
um jovem pintor. Muito simptico...
- Que ideia essa de deixar entrar algum aqui em tais circunstncias! 
Agora vais ver a que velocidade o vou pr l fora!
- Mas ele quer mostrar uma coisa a Corina e eu acho-o interessante...
Quando Doerinck fez a sua tumultuosa entrada na sala de estar, o 
jovem deu um salto da cadeira e esboou um cumprimento. Trazia jeans, 
uma camisa aos quadrados, e os seus cabelos louros como o trigo 
tapavam-lhe o colarinho. Tinha uma cara um pouco ossuda, mas que era 
imediatamente simptica. Os olhos, sobretudo, chamavam a ateno. 
Eram dum azul profundo, com um olhar jovem, despreocupado, leal.
Apresentou-se imediatamente.
- Chamo-me Herbert, Marius Herbert. Peo desculpa por vir incomodar.
Apesar de Doerinck se ter acalmado um pouco com a apreciao da 
mulher, a sua resposta s podia ser desconfiada e muito seca.
- Como v nesta vivenda no falta nada. No precisamos nem de papel 
de parede nem de mandar pintar as portas.
- No sou construtor de construo civil. Sou um artista.
- Tambem no precisamos de quadros.

Marius Herbert lanou um olhar por cima do ombro de Doerinck, Roemer, 
Van Meersel e o Dr. Hambach entravam uns atrs dos outros. Atrs 
deles, Corina parara ao v-lo e sob o efeito do olhar grave que nele 
fixava, Marius Herbert apercebeu-se de que o seu corao batia mais 
depressa. Chamando a si toda a sua coragem, dirigiu-se a ela 
directamente,
- Eis o que se passa: sou um bom pintor, mas no tenho xito nenhum. 
As minhas telas esto expostas em algumas galerias cujos marchands as 
apreciam, mas no aparece nenhum comprador. Para ganhar a vida, pinto 
anncios, cartazes nas paredes e nas fachadas das lojas. O que fiz de 
melhor no gnero, quero dizer, o que me foi mais bem pago, foi a 
parede da cantina de Huschel e Co., conservas de carne e comida 
congelada. O servio de publicidade deles teve uma ideia monstruosa: 
encher a parede com um exemplar de cada animal que entra vivo na 
fbrica e de l sai em conserva ou congelado: do carneiro  lagosta, 
do faiso ao arenque, etc. Era repugnante e atroz, mas ganhei trs 
mil marcos. Por esse preo at teria enchido a parede com sardinhas 
em conserva. Trs mil marcos! Senti-me como um Picasso ou um Dali!
O riso de Corina impediu Doerinck de pr o jovem pintor na rua sem 
mais uma palavra.
Ela foi ter com ele e estendeu-lhe a mo. De repente, parecia 
transfigurada: a fadiga e o rasto inegvel de um longo dia de 
preocupaes tinham desaparecido.
- E que pretende de mim? - perguntou alegremente. - Como v, no 
tenho nenhuma parede para pintar!
- Foi um programa de televiso que me deu uma ideia... No as 
histrias de curas milagrosas nem o que conseguiram faz-la dizer. 
Pensei nisso tudo e achei que eram parvoces... Mas quando falou das 
suas tapearias e mostraram algumas que me agradaram, arrebitei a 
orelha. Tive bruscamente uma ideia. Pensei: aqui est uma rapariga 
que faz tapetes e tapearias modernas. Talvez eu possa fazer alguns 
desenhos que ela materializar em imagens. Seria um novo mercado. E 
a  que eu entro: "Desenho, de Marius Herbert." Talvez que o que 
fao agrade mais em tapearia do que em tela! - Fez um grande 
sorriso, como para pedir perdo. - Pus-me logo  boleia. No fazia 
nenhuma ideia do caos que o programa tinha provocado. A sua me foi 
muito amvel e deixou-me entrar. E aqui estou. - Voltou-se para 
Doerinck. - Se quiser pr-me na rua, no poderei impedi-lo de o 
fazer.
- Mas em que outra coisa pensou ao vir aqui?
- Nada, ou, antes, pensei simplesmente que dentro de duas semanas j 
no terei um s tosto dos trs mil marcos. Em vez de pintar  
maneira dos impressionistas, vou ter de me pr outra vez a ornamentar 
as paredes com canecas de cerveja e cachimbos de porcelana.
- No deve pintar como os impressionistas - disse gravemente Corina 
-, mas  maneira de Marius Herbert. - Deu uma olhadela  sua volta. - 
E se nos sentssemos todos? - props.
- Este rapaz fica? - perguntou Stefan Doerinck, surpreendido pela 
evoluo dos acontecimentos.
- Sim, se no vs inconveniente nisso, papuchka. - Voltou-se para 
Marius, para lhe indicar uma cadeira, onde ele se sentou, hesitante. 
- Fale-me de si.
No sabia porque o estava a reter. Via nos seus olhos algo que lhe 
inspirava o desejo de o conservar junto dela.

Depois de ter barafustado durante algum tempo na cozinha, onde 
Ludmila preparava bifes enrolados  ucraniana, Doerinck declarou 
finalmente que estava em sua casa e que ia pr fim quela comdia, 
acompanhando este jovem desconhecido at  rua donde ele viera.
Mas no iria poder passar das palavras aos actos. Corina, sentada em 
frente de Marius Herbert, interrompeu-o quando este lhe contava a 
histria da sua vida. Numa voz inaltervel, fez-lhe uma pergunta que 
pregou Doerinck ao cho.
- Porque  que no me diz "tenho um cancro no estmago"?

Captulo dcimo

Ao contrrio de Roemer a quem a revelao do seu mal tinha 
transtornado, Marius recebeuesta condenao  morte placidamente. Ao 
passo que todos os que estavam presentes retinham o flego, 
estupefactos, olhando para Corina, agarrou no copo de laranjada que 
tinha perto dele e bebeu um grande golo.
- Se  voc quem o diz, talvez seja verdade. At aqui nunca dei por 
isso.
- Nunca sente dor ou algum incmodo no estmago?
- Incmodo? De vez em quando. Quando estou deitado do lado direito. 
Ou quando fao uma boa refeio, o que  raro. Uma espcie de cibra. 
Mas passa depressa.
- Foi a algum mdico?
- No. Faltam-me os meios. No sou funcionrio pblico nem sequer 
assalariado. Por isso teria de ser eu a pagar o meu seguro de sade. 
S que  caro de mais para mim.
- E se ficar mesmo muito doente e o mdico decidir mand-lo para o 
hospital? - perguntou Doerinck, quase sem dar por isso.
Marius Herbert encolheu os ombros.
- Na minha idade no se pensa nisso. Talvez me deixem simplesmente 
morrer no meu canto. Talvez exista um fundo social para casos como o 
meu...
Roemer, interessado pela orientao jurdica que a questo estava a 
tomar, interveio.
- No tem parentes?
- Sou filho de pai incgnito. A minha me era mulher-a-dias em casa 
de um empresrio rico que na altura estava a construir bairros 
sociais e hoje constri centros de frias no Bltico com hotis, 
marinas, etc. A minha me afirmou sempre que era ele o meu pai, mas 
nunca o pde provar, porque por altura da minha concepo ela tinha 
mais dois amigos. O nosso s da construo mostrou-se ainda assim 
generoso: deu dez mil marcos  minha me em troca duma declarao 
escrita em que ela reconhecia que no era ele o pai da futura 
criana. Os dois outros amantes da minha me no tinham um tosto. 
Resumindo, na minha certido de nascimento vem a meno: pai 
incgnito. Quanto  minha me, continuou a ser mulher-a-dias at  
sua morte, que ocorreu h seis anos. Eu estudei graas a bolsas. A 
ltima foi da Academia de Belas-Artes de Dusseldrfia. A comida e 
necessidades gerais paguei-as com o que ganhava fazendo pequenos 
trabalhos nos mercados... O meu ltimo emprego foi o de ajudante de 
jardineiro num cemitrio: decorava os novos tmulos com coroas e com 
flores frescas e artificiais. Quando os parentes mais prximos 
voltavam dois ou trs dias depois do enterro para se despedirem pela 
ltima vez e verificar os trabalhos efectuados, apresentava-me com um 
quadrito do tmulo tal como eles o viam. Vendia-o logo. Imaginem: um 
quadro do tmulo do av!
No momento de silncio que se seguiu, ouviu-se a voz forte de Roemer, 
cujo tom tinha algo de admirativo.
- Isso no  nada estpido! O que me espanta  que ainda no tenha 
sado da sombra como pintor!

- Tambm a mim! - disse Marius ironicamente. - Pense bem, sa da 
Academia de Belas-Artes de Dusseldrfia com as melhores notas do 
curso e o encorajamento de todos: "V, jovem! Mostre agora o que sabe 
fazer." E andei de galeria em galeria. S que todas tinham as paredes 
cheias de nomes conhecidos. E o meu no o era. Cada galeria tinha os 
seus pintores e, s vezes, at mesmo o seu gnero prprio de pintura. 
"Porque  que no faz como os franceses em Paris, na Place du Tertre? 
Exponha na rua!" Mas na rua as minhas telas tambm no se venderam: 
cinquenta marcos era demasiado caro. Ento pus-me a pintar por vinte 
marcos ramos de flores e os edifcios clebres da cidade. Em trs 
meses, economizei mil seiscentos e setenta marcos, instalando-me num 
lar da misso catlica. Esse dinheiro foi-me roubado durante a noite, 
no dormitrio' e nunca foi encontrado. Ento sa de Dusseldrfia... - 
Marius Herbert calou-se, olhou longamente para os que o rodeavam e a 
seguir, encolhendo os ombros, esboou um sorriso bastante triste. - 
No se pode dizer que tenha tido muita sorte at agora...
- E no pensou em fazer outra coisa? - perguntou Doerinck.
- No. Eu sei o que posso fazer e um dia os outros tero de 
reconhec-lo. Tive, alis, uma data de ofcios para poder viver, isto 
, alojar-me, comer, vestir-me, etc. De momento, pinto anncios, fao 
pintura mural e vou-me safando. Mas quando vi a televiso na outra 
noite, pensei que tambm poderia fazer desenhos para tapetes e 
tecidos. E agora, voc d-me uma nova martelada na cabea... L que 
queira pr-me fora, est bem! Vou-me embora! Mas essa histria de 
cancro no estmago  de mais!
Com a calma de que nunca se separava, Corina disse simplesmente:
- Cur-lo-ei... Sei que posso faz-lo.
Marius Herbert fez um enorme sorriso, verdadeiramente insultante.
- Com as suas mos? Claro.
- Estamos entre ns e prometo que no a trairei, palavra de honra... 
mas isso  uma manobra para fazer montes de dinheiro, no ?
Van Meersel interveio com voz forte.
- Sou de opinio que devemos pr este rapaz na rua! A grosseria tem 
limites.
-  o que eu acho h muito tempo - aquiesceu Doerinck, levantando-se, 
enquanto no murmrio sbito que se instalara Roemer resmungava alguma 
coisa que ningum conseguiu compreender, mas cujo som era claramente 
ameaador.
Marius Herbert tinha-se levantado tambm como se fosse responder a 
uma agresso. O Dr. Hambach quis dizer qualquer coisa, mas mudou de 
ideias, pois a voz de Corina estalou de repente como um chicote.
- Marius Herbert vai ficar aqui. Sente-se.
- Mas...  impossvel! O dono da casa quer que me v embora.
- Mas eu digo-lhe para ficar.
- Gostava de saber a quem devo dar ouvidos: se a si se aos outros. - 
Voltou-se para Ludmila. - E a senhora, que me mandou entrar em sua 
casa e me deu de comer e de beber como se adivinhasse que eu tinha 
fome e sede, diga-me o que devo fazer.
- Se a minha filha o quer curar, tem de ficar.

- Ento,  verdade? Acredita, de facto, que tenho um cancro no 
estmago? - Olhou para uns e para outros, incrdulos. - Vejamos, 
estou aqui sentado tranquilamente. A menina olha para mim e logo sai 
o diagnstico: "Tem um cancro!" E querem que eu leve isso a srio! 
Sou muito compreensivo, mas  pedir de mais...
- Se aceitar que eu o examine - interveio o Dr. Hambach -, f-lo-ei 
de boa vontade. E gratuitamente. Tambm pagarei uma radioscopia no 
radiologista de Billerbeck. Ento, acredita-me?
-  extraordinrio! - disse Marius Herbert ao fim de algum tempo.
Tinha agarrado o estmago com as mos. A sua cara, j naturalmente 
plida, transformara-se numa mscara de cera. Ainda duvidava, mas a 
gravidade da sua situao comeava a impor-se-lhe. "Um cancro no 
estmago", repetia. "Meu Deus, ainda mais esta! Mas nunca cometi 
excessos, at passo fome, e no bebo lcool. Os mdicos pem os que 
sofrem do estmago a seguir a minha dieta habitual. Talvez tenha 
comido demasiada fruta quando me era possvel colh-la por ser de 
graa..."
- Mas porque  que tenho um cancro? - perguntou finalmente.
O Dr. Hambach s podia responder com outra pergunta:
- Porque  que h crianas com cancro? Se o soubssenos, teramos 
logo um meio para o combater, no ?
Ento  verdade que a menina curou a me?
- .
- Mas a televiso ridicularizou o caso.
-  uma das faces da liberdade de opinio e no  a mais feliz. O que 
 terrvel  que um rapaz inteligente como voc acredite na 
interpretao que os reprteres fazem dos factos que querem  partida 
deformar...
- Est a conseguir fazer-me medo - disse Marius em voz baixa. Com as 
mos sempre crispadas sobre o estmago, olhava gravemente para o Dr. 
Hambach. - O senhor  mdico, no ? Peo-lhe, examine-me!
Quase simultaneamente tocou a campainha do telefone. Roemer, que era 
quem se encontrava mais perto do aparelho, foi o primeiro a levantar 
o auscultador para o levar ao ouvido. A seguir estendeu-o a Doerinck, 
cujo rosto se contrara.
-  a granja! A granja de Corina! Est a arder!
Ludinila voltara-se para o canto da sala onde se encontrava o cone e 
balbuciava com as mos juntas:
- Protege-nos, Santa Virgem... No nos abandones!
Doerinck voltara a pousar o auscultador.
-  prefervel que a Ludinila e a Corina fiquem aqui. Vamos ver o que 
se passa
- Vou convosco.  a minha granja, no  verdade?
Ao longe, viram reflectir-se no cu os reflexos do incndio.
Estavam l trs carros de bombeiros e um deles comeava j a lanar 
gua sobre as chamas, enquanto as equipas dos outros dois estavam a 
montar as mangueiras. Uma fumaa sufocante impedia que as pessoas se 
aproximassem do edifcio. Pelas janelas, e atravs do tecto que 
rura, elevavam-se as chamas pelo interior. A madeira seca das vigas 
seculares e o vento que se levantara com a noite avivava o fogo e 
projectava ao longe uma chuva de falhas acompanhada por um calor 
intolervel.
As outras duas bombas entraram rapidamente em aco, mas as chamas 
nem por isso deixaram de subir cada vez mais alto atravs do fumo, 
que engrossava. De sbito, ouviram-se duas fortes exploses.

O chefe dos bombeiros, com o capacete descado sobre a cara 
enegrecida, precipitou-se para Corina e Ludmila, que se tinham 
aproximado o mais possvel daquele braseiro apesar da sua impotncia.
- O que  que tinha l dentro? Reservas de plvora de canho?
- No. Diluente para a tinta de l. S dois bides.
- S! Quer  dizer que eram duas verdadeiras bombas! Afastem-se, 
depressa! E voc tambm!
Dirigia-se a Roemer, que avanara e cuja massa fsica lhe estava a 
barrar o caminho.
- Sou o magistrado Erasmus Roemer, presidente do tribunal de M'nster.
- Ento chega mesmo a tempo de verificar: os tapetes, a l e agora o 
diluente para a tinta, est tudo a arder como palha! Se as paredes 
ficarem de p, teremos sorte. Como  presidente do tribunal, venha 
ali ver uma coisa! Venha! Espero que a polcia venha depressa...
O que tinha para mostrar era um bocado de carto que encontrara 
pregado a uma rvore.
- Olhe... Leia isto: "Se no te puseres a andar,  a ti que vamos 
queimar da prxima vez..." Um incndio criminoso...
- Se viver, trato disso - declarou Roemer sombriamente.
- Mas quem  que pode ser suficientemente louco para cometer um crime 
destes? - perguntou Van Meersel, impressionado.
O Dr. Hambach encolheu os ombros.
- Somos ns,  toda a sociedade que  responsvel por isto. Alguma 
vez ensinamos s crianas a pensar como deve ser, a trocar impresses 
e a serem tolerantes? Quais so os exemplos que lhes damos,  parte o 
assassnio, as bombas, os atentados, os incndios e a violncia sob 
todas as formas! Os media transformam assassinos em heris. Pobre do 
desgraado do contribuinte que  vtima deles! O assassino 
beneficiar no nosso pas duma cela de luxo, com rdio, televiso, 
mquina de escrever, os livros, os discos e as cassettes que ele 
deseja ler e ouvir e os guardas tm de ter mozinhas de veludo para 
se dirigirem a ele sem lhe causar o mnimo incmodo, quer moral, quer 
fsico! Hoje em dia, ser assassino  a soluo para todos os 
problemas pessoais: uma vida segura, uma alimentao vigiada pelos 
nutricionistas, exerccio fsico vigiado pelos especialistas do Body 
building, visitas femininas, conjugais e no s, autorizadas; no h 
trabalho obrigatrio, nem impostos a pagar... Pergunto-me como  que 
as nossas crianas no se transformam todas em assassinas...
o inspector principal do primeiro Comissariado da Polcia de M'nster 
acabara de chegar ao mesmo tempo que os carros da Polcia. Ao ver o 
bocado de carto que Roemer lhe estendia, o inspector principal 
abanou a cabea.
- E, ainda por cima, ameaas de morte! j estava  espera disto 
depois da emisso do outro dia... Infelizmente, quando se trata de 
incndios,,uma pessoa debate-se a maior parte das vezes com nevoeiro. 
 quase sempre por acaso que se encontra o culpado. E o barulho que 
se gerou  volta de Corina Doerinck ainda vai complicar mais as 
pesquisas. Pode-se dizer que  um caso para arrumar.
Durante quatro horas os bombeiros obstinaram-se em vo. S as quatro 
grandes paredes com as pedras enegrecidas e fumegantes ainda estavam 
de p enquanto os bombeiros continuavam a apagar os poucos focos que 
ainda subsistiam.

Corina tinha-se sentado no degrau dum dos carros de bombeiros. Em p, 
perto dela, a me acariciava-lhe docemente os cabelos sem ousar falar 
com ela. Afastados, Roemer e o chefe dos bombeiros trocavam 
impresses com o inspector. O incendirio conseguira; faltava agora a 
ameaa de morte que provava que o assassino vigiava Corina e estava 
perfeitamente ao corrente das suas idas e vindas. A nica hiptese 
que a Polcia tinha era apanhar o culpado em flagrante delito... 
concluiu o polcia.
Doerinck sobressaltou-se.
- Vai talvez propor-nos que a minha filha se associe ao seu plano e 
lhe sirva de isca, como uma cabra na caa ao tigre! Deve estar a 
brincar!
Vindo da granja, onde ainda reinava um calor insuportvel, Marius 
Herbert ia-se aproximando lentamente. Tinha os olhos vermelhos por 
ter contemplado durante demasiado tempo o braseiro. Sentou-se no 
degrau, ao lado de Corina. Ao fim dum instante, a sua mo foi 
pousar-se no joelho da rapariga.
- Ento, perdeu tudo?
-  verdade.
- Todos os desenhos, o atelier, as matrias-primas, os tapetes e as 
tapearias? Vai recomear do nada.
- Exactamente.
- A partir de agora  como eu... E se recomessemos juntos?
- Voc e eu?
- Porque no? Voc tem ideias e eu tambm. Se se acreditar no que 
diz, tem umas mos que curam e as minhas so fortes e sabem pintar, 
esculpir, etc.  natural que possamos realizar algo de novo a partir 
deste monte de runas.
- V as coisas de maneira muito simples, Marius. Eu no o conheo.
- Ora essa! Sabe o que mais interessa... - Olhou-a com os seus 
grandes olhos azuis, simultaneamente inteligentes e ingnuos. - Sabe 
que tenho um cancro no estmago. Isso no  suficiente?
Comeara a rir. Corina olhou-o por sua vez, longamente. Ainda estava 
a agarrar na mo da me, que, por sua vez, continuava a fazer-lhe 
festas no cabelo e que a ouviu dizer docemente,, com um sorriso, ao 
jovem estranho:
-  um rapaz estranho, Marius Herbert. Mas agrada-me.
Como era natural, a imprensa noticiou o incndio da granja de maneira 
espectacular.
As fotografias mostravam as runas ainda a fumegar. Alm do breve 
comunicado da Polcia, todos os jornais citaram extractos duma 
entrevista do Prof. Van Meersel, autoridade reconhecida 
internacionalmente no campo da investigao parapsicolgica. Este 
afirmava que Corina Doerinck era um fenmeno e confirmava que as suas 
mos emitiam uma irradiao capaz de curar. Evidentemente, nenhum 
jornal publicava as explicaes cientficas que acompanhavam esta 
declarao: a maior parte dos leitores no as compreenderiam - Essa 
gente seria, em contrapartida, atrada pelos ttulos e subttulos que 
anunciavam, em letras garrafais, que as mos de Corina curavam tudo.
Os reprteres dos grandes semanrios ilustrados apareceram ento em 
massa em Hellenbrand, assim como as agncias de imprensa, que pediam 
para tirar fotografias e fazerem entrevistas. O fenmeno Corina 
Doerinck tornou-se objecto de debates apaixonados.

O inqurito da Polcia continuava, mas estava-se ainda ao nvel das 
hipteses quanto  maneira como o incendirio tinha actuado. Na 
prpria noite da catstrofe, o inspector ludwig exprimira a sua 
opinio.
- A coisa  simples: o incendirio tinha partido um vidro e atirado 
para o interior um grande pacote de palha previamente incendiada. A 
granja estava cheia de materiais inflamveis: ls, papis, tapetes, 
pinturas a leo, tinturas, diluente, etc., sem contar com a estrutura 
feita de secular madeira seca. E o tear. Quanto  ameaa, estava 
escrita em maisculas e com esferogrfica azul. O bocado de carto 
provinha da capa dum caderno escolar. A prpria letra mais parecia 
infantil.
o procurador olhou ento para Doerinck com ar pensativo.
- Um caderno escolar! Pode ser um primeiro indcio importante...
- Stefan Doerinck  muito apreciado pelos alunos - interrompeu o Dr. 
Hambach.
- Certamente, mas mesmo assim pode-se pensar na vingana dum aluno...
- Acho isso completamente impossvel - afirmou Doerinck com voz 
rouca.
Roemer abanou a cabea.
- Com os midos nunca se sabe. Lembram-se certamente do caso Plunner. 
Foi um duplo assassnio: uma senhora de sessenta e cinco anos e um 
rapaz de doze. Av e neto. O assassino tinha-lhes dado grandes golpes 
na cabea antes de lhes cortar a garganta para acabar com eles. Quase 
ca de pernas para o ar quando o resultado do inqurito revelou a 
identidade do culpado: uma mida de quinze anos, irm do rapaz e, 
portanto, neta da velha senhora. Parecia um anjo com os seus longos 
cabelos louros e os olhos azuis, cor da inocncia! Depois de se 
desembaraar da av e do irmo, passaria a ser a nica herdeira! 
Impossvel de acreditar, no ?
O procurador abanou gravemente a cabea.
- Vamos examinar a fundo esta primeira pista: qual foi o aluno que 
castigou mais recentemente? Houve alguma tenso particular entre si, 
doutor Doerinck, e algum deles? At o estilo da ameaa  o dum jovem 
apreciador de filmes e de livros Policiais.
- As pessoas esto contra a minha filha e no contra mim - resmungou 
Doerinck, cujo humor se estava a tornar cada vez mais aguerrido.
. Foi tambm no momento em que iam abandonar o local do incndio que 
se voltou para Corina, inquirindo:
- E o que  que fazemos do pintor? Onde  que ele vai dormir?
Marius Herbert tinha ficado melancolicamente sentado no degrau do 
carro dos bombeiros.
- No sei, pai.
- Tem dinheiro para alugar um quarto em qualquer lado? De qualquer 
maneira, no pode dormir l em casa...
- E tambm no podemos deix-lo aqui no meio da rua. Sobretudo, 
porque j lhe disse para nos seguir.
- O qu? - exclamou Doerinck. - E por que razo?
- Est doente e quero tentar cur-lo, papuchka. Sinto que tenho 
hipteses de poder faz-lo. Ser-lhe- proibido sobreviver s porque 
no tem dinheiro? Eu tenho. Posso alugar-lhe um quarto. Por esta 
noite pode ficar no meu. Eu dormirei muito bem no div da sala de 
estar...
- E o professor Van Meersel ficar no meu escritrio! Ests a 
transformar a nossa casa num verdadeiro serralho!

No conseguia esconder a sua antipatia pelos jovens que tinham o 
cabelo demasiado comprido, o que lhe lembrava 1968, a poca da grande 
confuso. Olhou durante um instante para a filha: o que  que ela via 
naquele indivduo de cabeleira mal tratada que com os dez dedos que 
tinha s sabia pintar? Para ele era apenas um marginal, o vestgio 
dum perodo destrutivo, desprezvel e odiado...
- Primeiro  preciso enfiar o teu protegido numa banheira - declarou 
num tom em que se manifestava todo o seu rancor. - E se quiseres 
tratar dele, d-lhe cinco marcos para ir amanh ao barbeiro.
- Ele vai ser um grande pintor, papuchka. - Lanou um ltimo olhar 
aos resqucios fumegantes do seu atelier. "No  assim que 
conseguiro pr-me de joelhos", pensou. "Voltarei a construir aqui, 
no mesmo stio, servindo-me destas paredes que resistiram s chamas. 
E se voltarem a pegar-lhe fogo, voltarei a construir. Ningum me por 
de joelhos e todos vo ter de compreender." - Ento, papuchka, o 
Marius pode ir connosco? No haveria problemas se no fosse o 
incndio da minha granja. Mas fica descansado que ele no te 
incomodar durante muito tempo...
Foi uma longa noite.
Durante o caminho, Roemer tentou convencer o Dr. Hambach de que no 
se podia pr fim  sede que um incndio daqueles provocava com gua 
mineral. Tinha mesmo necessidade de qualquer coisa forte.
- Quer lhe agrade, quer no, doutor, mesmo se tiver de morrer dentro 
de duas semanas, tenho de beber. Seno, ser esta mesma noite que vou 
bater a bota: em sua casa e de sede! O que  que tem de reserva?
- Aguardente alem.
- Uma garrafa chegar para esta noite. j me sinto melhor! Alm do 
mais, do ponto de vista mdico, no  aconselhvel privar subitamente 
um drogado da sua droga. Mas diga-me, o que  que pensa deste 
incndio?
- Esse que lhe queima o estmago? Vai mat-lo... Se fala do da 
granja, no pensei que as pessoas daqui reagissem com tanta 
crueldade.
- Tambm pensa que foi algum de Hellenbrand? Por causa do bocado de 
carto?
- Tambm por causa disso.
- Mas porqu?

-  uma histria muito longa e no se pode compreender um acto destes 
se no se conhecer os nossos hellenbrandeses. Stefan Doerinck , sem 
dvida, professor e vice-reitor da escola deles, mas no  de c. 
Instalou-se aqui depois da guerra como tantos outros imigrantes da 
Alemanha Oriental e, ainda por cima, com uma russa. Isso, as pessoas 
daqui nunca o esqueceram nem compreenderam. E, depois, Corina comprou 
o terreno da quinta que os prisioneiros russos tinham incendiado na 
embriaguez da libertao, depois de terem massacrado toda a famlia 
que os tinha explorado... E h anos que certos rumores correm: Cora  
uma bruxa, voltou as pginas de um livro que estava em cima da 
secretria do professor s com o olhar, etc. E agora a televiso 
revelou ao mundo que existe na sua cidade uma curandeira que foi 
ridicularizada pelos media. Ela mancha, pois, a imagem que eles tm 
da sua cidadezinha. Alm disso, no  verdade ser ela filha daquela 
russa que ainda hoje parece uma habitante das estepes? Ento, tal 
como os seus antepassados, pensaram no fogo que tudo purifica!
- O que quer dizer que o incendirio nem sequer ter remorsos. - De 
repente, Roemer travou to bruscamente que a testa do Dr. Hambach 
teria ido bater contra o tablier se no tivesse posto o cinto de 
segurana. - E que, consequentemente, a ameaa que pesa sobre Corina 
pode ser levada  prtica.
- Talvez ele no pense em mat-la. H muitos outros meios para deitar 
abaixo uma pessoa. Com milhares de picadas de alfinetes, consegue-se 
chegar a perturbar-lhe os nervos at dar cabo dela... No domnio do 
mal, a imaginao humana  inesgotvel. Vimo-lo durante esta ltima 
guerra.  por isso que acho que se deve estar  espera duma nova 
agresso, mas que no ser possvel prever de que gnero ser...
Em casa dos Doerinck, a atmosfera era tempestuosa. O cheiro a 
queimado e a fumo que lhes tinha impregnado as roupas espalhara-se na 
sala. Num silncio pesado, Ludmila preparara um ch to forte que era 
quase preto. Com limo para Van Meersel, com leite para Doerinck e 
com rum para Marius Herbert, que acabava de comer o bolo que no 
tivera tempo de terminar, e a clera que este jovem de cabelos 
demasiado compridos inspirava a Doerinck tinha-se tornado quase 
incontrolvel quando o vira pr mais rum do que ch na chvena. 
Explodiu de repente ao recapitular, numa voz cheia de amargura, os 
acontecimentos do dia.
- O comeo da popularidade de Corina  verdadeiramente dramtico: 
acabou-se a granja, o atelier, as tapearias e as matrias-primas, os 
desenhos e os esboos. No esperava por esta, professor Van Meersel, 
no  verdade? Imaginava as trocas de ideias caracterizadas pela 
cortesia acadmica... Pois eu tambm! Ambos conservmos um pouco da 
cultura que os nossos pais, que nasceram noutro sculo, nos 
transmitiram. No sculo deles reinavam as boas maneiras e a paz. E 
pergunto-me se estas no sero indissociveis! Hoje em dia, no  
assim que se resolvem os problemas. Prefere-se dar cabo do opositor: 
 mais simples, mais rpido e muito mais eficaz. - Sentou-se no sof 
ao lado de Ludmila, inclinado para a frente, com os cotovelos nos 
joelhos e os punhos cerrados. - O que  que se vai passar agora?
A pergunta dirigia-se a todos, mas foi Corina quem respondeu 
calmamente:
- No me curvarei perante o terror.
- Bravo! - exclamou Van Meersel.
O rosto de Doerinck crispou-se.
- Tanto uma resposta dessas como os aplausos passam ao lado da 
questo. A Corina perdeu tudo!
- Mas vou reconstruir, pai.
- Isso leva tempo. E entretanto? Depois da publicidade gerada pelo 
incndio, os doentes vo afluir de todos os lados. Vais receb-los 
num prado, ao ar livre?
O tom da sua voz era cada vez mais duro e agressivo. Marius Herbert, 
que acabara de comer o bolo, sacudiu com as costas da mo as migalhas 
que tinham ficado presas s calas antes de dizer numa voz to calma 
como a de Corina:
- Tenho uma ideia...
- Que interessante! - resmungou Doerinck.
- Podia alugar-se uma sala, mas aqui no se encontrar nenhuma.

- Somos suficientemente inteligentes para chegarmos  mesma concluso 
sem si!
- Foi por isso que tive uma ideia... Veio-me por pensar no parque de 
campismo. Em M'nster h lojas que vendem ou alugam tendas para 
festas, quermesses e outras reunies. Ento porque  que no se 
alugaria uma que se montaria no local da granja?
Estupefacto, Doerinck viu e ouviu Corina aplaudir com ambas as mos.
-  uma ptima ideia, Marius. Vamos alugar uma tenda amanh mesmo.
- Ainda ser mais fcil deitar fogo a uma tenda!
Marius abanou a cabea.
- Contra esse risco h seguros. E uma tenda  fcil de substituir. 
Mas ter ainda outro seguro: dormirei l com o meu co.
- Tem um co? - perguntou Doerinck, admirado.
- Um bastardo fruto de misturas indefinveis, grande como um 
co-polcia e com cabea de boxer, maxilares de dobermann, plo de 
colley e rabo de caniche. Chama-se Molly, porque  rapariga. Para 
ela, constituo metade do mundo. Foi em Dusseldrfia h quatro anos, 
cerca das seis da manh. Voltava do mercado onde descarregara camies 
durante toda a noite quando ouvi um gemido muito fraquinho a sair de 
um dos caixotes do lixo alinhados sobre o passeio, diante de um 
edifcio. Os homens do lixo ainda no tinham passado. Levantei a 
tampa: no interior estava um cozinho de cerca de seis semanas, 
dentro de um saco de plstico quase cheio de lixo! Era Molly. Mais 
meia hora e tinha ido para o triturador. Ela deu-me logo um beijinho. 
Disse-lhe: "s uma rejeitada pela sociedade, talvez como eu, por isso 
nunca mais nos vamos separar." O proprietrio do caixote tinha 
pintado nele o seu nome, Alberts, e o nmero do seu apartamento. 
Antes de me afastar, subi ao segundo andar para lhe bater  porta. 
Era um tipo enorme e furibundo, que, naturalmente, reconheceu a Molly 
e comeou a gritar. Pus a cadelinha no cho para ficar
com as mos livres e quando voltei a descer as escadas com a Molly s 
faltava continuar a esmagar o tipo no triturador da fbrica.
- Mas onde  que ela est? - perguntou Doerinck, j inquieto.
- No jardim. No se preocupe. A Molly aprendeu a ter boas maneiras, 
como se diz. Sabe ficar horas  minha espera, sem se mexer e sem se 
fazer notada. Tenho sempre comigo a coberta dela. Podem ter a certeza 
que est sempre deitada em cima dela e ningum ousou penetrar no 
jardim durante a vossa ausncia. 
E vai ser igual para a sua tenda...
- Tenho de ver essa Molly - disse Corina levantando-se. - A sua ideia 
 excelente, Marius.
Ainda furioso, Doerinck bateu com o punho na coxa.
- E os media vo falar do "Circo da Curandeira"! Isso vai aumentar a 
tua nomeada, Cora.  a minha vez de aplaudir, bravo!
- Deixe-os dizer e escrever o que quiserem, doutor Doerinck. Nunca 
caiu nenhuma rvore por um co lhe ter feito chichi em cima, no  
verdade?...
- Mas no  um co,  uma caricatura - exclamou alegremente Van 
Meersel.

Molly estava deitada sob a folhagem de um arbusto em cima de um velho 
cobertor cinzento, com a enorme cabea pousada entre as patas da 
frente. Os seus grandes olhos no se afastavam daquela quantidade 
inesperada de humanos que paravam diante dela, mas como o dono estava 
no meio destes, reprimira o princpio de um rosnido e, pelo 
contrrio, o seu rabo tufado tinha comeado a bater no cho  laia de 
boas-vindas, sem deixar de vigiar atentamente os outros.
- E  isto que vai pr os malfeitores em fuga? - insistiu Van 
Meersel.
Sem levantar a voz, Marius ordenou:
- De p, Molly, e mostra os dentes ao professor holands. Se no 
chegar, podes espetar-lhos nas ndegas!
Molly levantou-se. O seu tamanho era o de um grande co-polcia e 
quando arreganhou os beios deixou a descoberto dois maxilares 
herdados de um animal selvagem qualquer, armados com formidveis 
caninos. Van Meersel deu dois passos para trs ao ouvi-lo rosnar com 
ar pouco satisfeito, mas Molly seguiu-o logo sem deixar mais de um 
metro entre eles.
- Absolutamente convincente! Retiro tudo o que disse. Ao contrrio, 
estou pronto a crer que Molly descende directamente de Cerbero, que 
estava de guarda  porta dos infernos. S com a diferena de que 
Cerbero tinha trs cabeas e, portanto, trs pares de maxilares como 
estes!
Marius Herbert chamou Molly, que se sentou  sua direita.
- Quando acordarmos, trataremos da tenda. Para j,  quase uma hora 
da manh. Posso estender-me aqui, doutor Doerinck, na erva, ao lado 
da Molly?
Antes mesmo que Doerinck, aliviado, tivesse podido abrir a boca, 
Corina interveio.
- Que pssima ideia!
Inclinou-se na direco de Molly, fixou durante um instante os 
grandes olhos fiis e distantes, apesar de tudo, da cadela, avanou 
lentamente com a mo e acariciou a grande cabea redonda. O corpo do 
animal contraiu-se enquanto os seus olhos continuavam a fixar o dono. 
S os beios estavam ligeiramente levantados. Algum que no 
conhecesse os ces poderia pensar que estava a sorrir.
- Bravo! Ganhou! - disse Marius Herbert. - E isso  uma surpresa! At 
agora, a Molly nunca se tinha deixado acariciar por outra pessoa. Ela 
gosta de si!
Como se fizesse parte da casa desde sempre, Molly precedeu-os atravs 
do jardim, esperou que lhe abrissem a porta de trs, introduziu-se na 
sala de estar, cheirou o sof no stio onde Ludmila se sentava e 
enrolou-se em si mesma, logo ao lado. Doerinck hesitou, mas escolheu 
uma poltrona.
Marius Herbert foi o primeiro a retomar a conversa interrompida.
- Ento o que  que diz  minha proposta? Arranjamos uma grande tenda 
imediatamente?
Corina abanou a cabea.
- Tenho muitas formalidades a cumprir depois do incndio: tenho de 
ficar em Hellenbrand.
- Se tiver um meio de transporte, posso deslocar-me sozinho a 
M'nster...
Corina olhou-o rapidamente.
- no? Pode ir no meu carro, Marius... tem carta de conduo,
- Tenho. Por esse lado estou em ordem. O que no  o caso do meu 
estmago, no  verdade?

O seu breve riso pretendia ser irnico, mas dissimulava mal o medo e 
a amargura contra os quais lutava.
Corina conduziu Marius ao seu antigo quarto e, depois de lhe ter 
mostrado a casa de banho, estendeu um cobertor para Molly perto da 
cama. Marius comeou a rir.
- Molly, agradece amavelmente a esta menina pelo cobertor, mas 
confessa-lhe que dormes sempre ao meu lado, bem colada a mim. Ressona 
como um tubo de rgo!
"Quanto tempo  que isto vai durar?", pensou ele. "Primeiro, um bom 
banho, uma boa cama, um pequeno-almoo amanh de manh... talvez ch, 
visto a me ser russa, mas um bom ch muito forte, tambm isto  raro 
na minha vida. Restam-me exactamente cento e trinta e seis marcos e 
alguns pennings, que so o que sobra dos duzentos marcos que ganhei 
com a ltima encomenda, a da tabuleta da padaria... "
- Em que est a pensar - perguntou bruscamente Corina.
- Sobretudo no que se passa aqui: acho que  bom viver em famlia, e 
penso no pequeno-almoo de amanh de manh, com pezinhos bem 
dourados e ainda quentes, com manteiga, e marmelada, com ovo e talvez 
at com salpico!
- E mel proveniente das nossas prprias colmeias. Talvez tenha ainda 
fome? Quer uma fatia de po com manteiga e mel?
- Agora, s duas da manh?
- Porque no? Nunca se deve contrariar um desejo que se pode 
satisfazer imediatamente, se nele no houver nada de repreensvel...
Na cozinha encontrou o pai que estava  procura de uma garrafa de 
gua mineral e que olhou para ela com ar de reprovao ao v-la 
juntar ao po barrado com manteiga e mel uma pequena garrafa de 
cerveja.
- Po, mel e cerveja... que curiosa mistura.
- Que vem dos nossos antepassados, os antigos Germanos, pai - 
respondeu Corina, imediatamente na defensiva.
- Enganas-te, Cora: tratava-se de po, mel e hidromel.
- Obrigada, senhor professor!
- No achas um pouco imprudente confiares o teu carro a um vagabundo 
como ele!
- Tenho de arranjar rapidamente uma tenda, pai. E o que  que achas 
que ele pode fazer ao carro? Desaparecer com ele? Para ir onde? S 
deseja poder trabalhar para mim.
- H casos em que demasiada confiana  prejudicial...
- E outros em que a confiana  recompensada.
Para qu discutir?, pensou Doerinck. Com um suspiro, viu a filha sair 
da cozinha levando um tabuleiro onde o po com mel convivia com a 
garrafa de cerveja. Lanou um segundo suspiro ainda mais profundo do 
que o primeiro quando apagou a luz, antes de voltar para o quarto, 
onde encontraria Ludmila.
- Deveramos ter cuidado com Corina - disse assim que se deitou perto 
dela.
- Stefanka, olha que a Corina  adulta! j podamos ter netos h 
muito tempo.
Aps um longo silncio, Stefan Doerinck suspirou uma terceira vez 
antes de dizer:
- No gosto do tipo de cabelos compridos.
O tipo de cabelos compridos, instalado em cima da cama, devorava o 
seu po com mel, sem no entanto se esquecer da parte de Molly, 
enquanto Corina, sentada numa cadeira, com as mos cruzadas, o olhava 
fixamente. Quando acabou de comer, levantou-se e aproximou-se dele.

- Estenda-se de costas.
Surpreendido, Marius obedeceu sem protestar.
- Porqu? Vai comear o tratamento? Comigo no precisa de 
representar. L que tenha descoberto que tenho qualquer coisa no 
estmago, ainda v que no v! Agora, quanto a curar um cancro! Ao 
ver a televiso, disse para comigo: ora aqui est uma que encontrou 
um bom truque! As pessoas vo sempre atrs do que  mistrio, f e 
esperana de cura.  sem dvida um bom negcio e deve dar bom 
dinheiro.
- No levo nem aceito dinheiro.
- Ento,  uma loucura! Porque  que faz isso?
- Chame a isso o que quiser, no tem importncia. - Com as mos 
cruzadas, continuava a concentrar-se na estranha tenso que sentia a 
crescer em si. - Estenda-se. - Como ele quisesse voltar ao tema da 
comdia que ela representava, interrompeu-o bruscamente: - Estende-te 
e cala-te! Nem mais uma palavra!
Ele deu consigo de costas, espantado por ter obedecido to 
facilmente.
- Est bem, est bem, no me mexo mais... - murmurou ainda.
Para Corina tudo se passou como tantas outras vezes. As suas mos 
deslizaram por cima do corpo do doente, sem nunca lhe tocar. Por seu 
lado, ele sentiu um calor quase sbito e as suas plpebras, 
repentinamente pesadas, fecharam-se-lhe.
Sem nenhuma preocupao, abandonava-se a um cansao salutar...
Antes de mergulhar no esquecimento, ainda viu o rosto de Corina 
endurecer e tornar-se no de uma mulher sem idade, com duas pregas que 
acentuavam as comissuras dos lbios e um par de olhos que lhe parecia 
estarem a enterrar-se literalmente nas rbitas.
Corina teve a impresso de ser invadida por uma felicidade 
indescritvel. Tinha dado imediatamente com o stio onde o adversrio 
se escondia, apanhado de surpresa no seu incessante corroer. O 
inimigo, o mal, no lhe resistiria. Ela sabia que ele lutaria em 
vo... "A partir deste primeiro confronto sou eu a mais forte... "
Parou de lutar dez minutos depois, completamente exausta, e deixou-se 
cair numa cadeira. Procurou, tacteando, o mao de cigarros para 
fumar, fumar: aquele cancro no lhe deixaria nem um segundo de 
repouso: vou queim-lo, sec-lo, destru-lo. Marius Herbert saa 
pouco a pouco do ninho de calor e de lassido que o tinham envolvido. 
Levantou a cabea para olhar para Corina.
-  tudo? - perguntou.
Gostaria de voltar a brincar e a conversar, mas um breve "Agora 
dorme!" p-lo no lugar. Notou com uma espcie de terror a fadiga 
misteriosa que ainda cavava o rosto da rapariga e que a sua voz, 
mudada, parecia ensurdecida. Ouviu a desconhecida trat-lo por tu.
- Amanh pegas no meu carro e vais buscar uma tenda a M'nster.  
noite, continuarei o tratamento...
Uma vez mais, ele esforou-se para se libertar daquele ascendente. 
Mas subitamente deu-se conta de que Molly, estendida perto dele, no 
se tinha mexido nem rosnado. Tambm ela tinha os olhos fixos em 
Corina.
- No  possvel! - disse. - Mas o que  que se passou?...
- Dorme!

Como num sonho, ele viu Corina levantar-se, sair do quarto, fechar a 
porta atrs de si e a seguir ouviu os seus passos - o passo de outra 
mulher, maior e mais pesada - diminuir enquanto ela descia a escada, 
degrau a degrau. Sentindo-se liberto, teve vontade de apertar a 
cadela contra ele e de lhe falar.
- Estranha rapariga, hem, Molly? E linda... Demasiado bonita para 
ns. Mas se a servirmos, comers todos os dias bem, Molly, e eu 
tambm! Vou poder pintar como sonho, alm do trabalho que farei para 
ela e terei, talvez, a sorte de vender alguns quadros. A Corina 
tratar os doentes e eu vender-lhes-ei as minhas telas. Que rica 
combinao, hem, Molly? Vamos ambos sonhar, tu e eu, vamos sonhar que 
a nossa vida de vagabundos acabou. Boa noite, Molly, e no me ds 
demasiado cabo dos ouvidos a ressonar, sua... cadela!
No dia seguinte de manh, Stefan Doerinck entregou-lhe as chaves e os 
documentos do carro de Corina com um comentrio muito breve:
- Da parte da minha filha!
O seu tom era exactamente o que teria utilizado para dizer: "E agora 
pe-te a andar!"
A seguir subiu para o carro e tomou o caminho da escola, exactamente 
como fazia desde h vinte e sete anos.
Quando entrou na aula, apercebeu-se que faltava um tero dos alunos.
Nos seus bancos, aqueles inesperados espaos vazios tinham algo de 
sinistro e de ameaador. Apertando os lbios, apontou as faltas. 
Naquele dia devia dar uma aula de geografia regional.
- Quem  que j viu um incndio a srio?
Todas as mos se levantaram. Em Hellenbrand, que no passava dum 
burgo, todos se dirigiam ao local dum sinistro assim que soava o 
primeiro toque da sirena colocada no telhado da cmara.
- Peguem nos cadernos de redaco. Cada um ir descrever o incndio a 
que assistiu, contando tudo o que viu e ouviu...
Os olhos dos alunos estavam fixos nele, e ele sentiu que este dia 
seria decisivo tanto para si como para eles.
- O autor da melhor redaco ir l-la na festa da escola.
Cerca das dez, entrou no ptio da escola um carro que vinha de 
M'nster. Dez minutos depois, Doerinck ouviu bater  porta da sua 
aula. Entrou um aluno do quarto ano.
- O senhor reitor pede-lhe para fazer o favor de ir ao gabinete dele, 
senhor doutor...
- Continuem. Volto j - disse Doerinck aos alunos.
Endireitou o n da gravata, abotoou o casaco e saiu da aula num passo 
rpido e decidido. Repentinamente recuperara intacto o esprito do 
jovem chefe de batalho que j tinha sido. No precisava de trazer ao 
peito a mais nobre condecorao que ganhara em circunstncias bem 
mais difceis. Tinha de l  sado com vantagem de situaes muito 
mais perigosas. E, de
repente, quase teve vontade de rir.

Captulo dcimo primeiro

Todos os professores alemes sabem que existem duas espcies de 
inspectores: aquele cuja jovialidade  tal que nos faz primeiro 
pensar que  com ele que se vo resolver todos aqueles problemas que 
surgem quando se esvazia em conjunto uma garrafa da melhor cerveja. 
Comea por nos comunicar as relaes que connosco tm em comum; 
quando o professor comea a dizer para si mesmo que um homem assim s 
pode dar provas duma compreenso fraternal em relao s suas 
dificuldades pessoais e profissionais, acaba por se aperceber 
bruscamente de que aquela boa vontade no passa duma rasteira, duma 
astcia para lhe arrancar mais do que queria dizer e para o manter 
apertado numa trela que o estrangula. A seguir, h o outro tipo de 
inspector, que  fechado, impenetrvel, e que est sentado atrs da 
secretria como no alto dum estrado, pronto a brandir repentinamente 
o gldio com o 1 qual est decidido a decapitar todos os subordinados 
que tem para julgar. Tudo o que se pode dizer e evocar perder-se- 
contra o primeiro num magma sufocante de que no se consegue mais 
sair e esmagar-se- contra uma muralha de granito.
Franziskus Hollenbock era do tipo jovial. Era preciso ter nascido na 
regio de M'nster e de l no ter sado para no sofrer com um nome 
que era ridculo no resto da Alemanha. Por isso, tinha feito o 
possvel e o impossvel para nunca sair da sua regio, nem como 
estudante nem como professor.
Algumas das frias passadas em regies prximas, como a Rennia, a 
Baviera e a Sua, tinham-lhe mostrado que no podia pr o nariz fora 
da sua provncia natal sem se arriscar a ser vtima de graas 
atrozes.
Na sua qualidade de inspector era apreciado, mas tambm temido. Tinha 
um prazer satnico em fazer perguntas de te11dncia poltica aos 
jovens professores, obrigando-os a refugiarem-se em frases feitas e 
desprovidas dum sentido preciso.
Estava de p perto da janela quando Doerinck entrou no gabinete do 
reitor, depois de ter batido  porta. Ferdinand upp chupava uma 
cigarrilha e, sem dizer uma palavra, lanou a Doerinck um olhar de 
aviso.
- Aqui estou! - disse Doerinck com a sua mais bela voz de oficial.
Hollenbock deu meia volta. A sua cara redonda, sempre amigvel, no 
tinha mudado nada apesar da gravidade da situao. Avanou na 
direco de Doerinck e pegou-lhe na mo, que conservou na sua da 
maneira mais amigvel possvel.
- Ento, Doerinck, o que  que se passa consigo? - O tom era paternal 
e perigosa a sua jovialidade. - Primeiro, aquela entrevista imbecil e 
a seguir o incndio de que todos os jornais falam... E agora o seu 
colega Hupp comunica-me que os pais dos seus alunos refilam...
- S alguns, senhor inspector. - Tinha finalmente conseguido libertar 
a mo do aperto do outro. - No se deve sobrestimar o facto.
- Claro, mas deve ser analisado na sua justa medida.  a primeira vez 
que me encontro perante tal problema aps trinta e dois anos ao 
servio do ensino: pais a boicotarem um professor! Mesmo que s 
fossem dois ou trs, seria um indcio a no negligenciar. Isso deve 
fazer-nos reflectir.

- Com efeito, tenho pensado em certas hipteses a propsito do 
incndio desta noite...
- Naturalmente.  um caso horrvel.
- O facto de haver nesta cidade, onde vivi metade da minha vida de 
homem, algum capaz de tal acto perturba-me profundamente, senhor 
inspector... Confesso que isso abala um pouco a f que tive at aqui 
na bondade profunda do ser humano.
- Compreendo. - Interrompeu-se para tossicar e continuou em voz mais 
firme: - Por outro lado, a sua filha deixou-se levar por um caminho 
que perturba o esprito das pessoas, assim como o dela prpria, 
alis... E o meu.
- Curar  perturbar a ordem pblica? Eu prprio verifiquei o caso da 
minha mulher, que a minha filha curou.
- De um cancro.
- Sim, de um cancro.
- A  que est a questo. A j comea o misticismo e a superstio. 
Uns aceitam esses pretensos milagres porque buscam o maravilhoso e o 
inexplicvel; outros, que constituem felizmente a maioria dos nossos 
concidados, sentem respeito pela medicina e pela cincia oficial, 
insurgindo-se contra esses regressos ao passado, que eles acham 
ultrapassados.
Doerinck lanou uma olhadela a Hupp. No havia nenhum auxlio a 
esperar do seu lado. O reitor era um homem que exercia correctamente 
a sua profisso, sem ir mais longe. O que Doerinck ainda ignorava era 
que o nico amigo do seu colega Dechaut Wilm, o pastor de 
Hellenbrand, lhe tinha feito um sermo naquela manh: "Se Corina se 
obstina desta maneira, no podes manter Doerinck na tua escola." Esta 
declarao por parte dum padre cuja influncia era considervel na 
regio de M'nster tinha abalado o reitor.
Quanto a Hollenbock, esse sentia-se cada vez menos  vontade. O 
comportamento inflexvel de Doerinck lembrava-lhe que tinha  sua 
frente um homem a quem fora atribuda a cruz de guerra, que era a 
mais alta condecorao da ltima guerra para feitos de bravura. Ora, 
por diversas razes, ele prprio tinha passado em gabinetes a maior 
parte daqueles terrveis anos e essa lembrana, que no gostava de 
evocar, deixava no fundo de si uma ferida de amor-prprio que vinha 
juntar-se s dificuldades causadas pelo nome ridculo que possua. 
Mais uma vez, o seu nico objectivo era evitar o perigo a qualquer 
preo. Uma interveno do governo podia ter consequncias temveis 
para ele. Ora, o que  que se passaria na escola de Hellenbrand se a 
presena de uma "bruxa" no burgo se tornasse uma novidade sensacional 
em toda a Repblica Federal? A revolta dos pais no podia expandir-se 
de maneira nenhuma.
- Doutor Doerinck, eu sei que os pais j no tm autoridade sobre os 
filhos como acontecia antigamente. A sua filha  adulta. Tudo isto  
exacto, mas trata-se duma argumentao que no nos serve para nada. 
Estamos a ser confrontados com uma crise de emoo popular que no 
podemos controlar. Temos de fazer qualquer coisa para preservar a paz 
nesta escola, que tambm  a sua. Seno, vai-nos cair em cima uma 
verdadeira avalancha. Como  que vamos sair disto, doutor Doerinck?
O reitor interveio.
- Propus ao nosso amigo que a sua filha deixe provisoriamente 
Hellenbrand

- Excelente soluo: poderemos dizer que o doutor Doerinck no  
solidrio com a filha e o assunto fica arrumado.
Doerinck respirou profundamente.
- O qu? Querem que atraioe a minha prpria filha? Senhor inspector, 
para a defender estou pronto a comprometer-me totalmente e a lutar 
por ela. A minha filha encontrar-me- sempre a seu lado quando 
precisar de mim.
- Ora vejamos, no vai defender uma causa to irracional. - gritou 
Hollenbock, bastante indignado.
- Defendo uma causa que salvou a vida da minha mulher. Como  que 
reagiria se sua mulher, condenada pelos mdicos por causa de um 
cancro no clon, voltasse subitamente  vida?
Doerinck ignorava que estava a cometer uma falta imperdovel. 
Subitamente, a jovialidade fictcia de Hollenbock desapareceu-lhe da 
cara. Dois anos antes, a sua mulher morrera de um cancro da mama que 
fora descoberto e tratado demasiado tarde. Ps o tom mais oficial 
para comunicar qual era, do seu ponto de vista, a nica soluo ainda 
possvel.
- Doutor Doerinck, concordaria se lhe concedssemos uma licena 
ilimitada durante a qual, naturalmente, receberia o seu ordenado 
integralmente? Eu apoiaria pessoalmente o pedido por razes de 
cansao ou de doena...
- No! - disse secamente Doerinck. - A minha sade est em perfeito 
estado.
- Stefan! - gritou o reitor. - Olha que  a soluo mais elegante...
- A elegncia, a meu ver, deve vir depois do dever. Ganhei sempre a 
minha vida com o trabalho que desenvolvi, correctamente, nesta escola 
durante vinte e seis anos. No me podem afastar como se tivesse peste 
por causa da minha filha.
- Poderia transferi-lo...
- Nem pensar. Apelarei para as autoridades regionais. Por que motivo 
seria transferido ao fim de vinte e seis anos de bons e leais 
servios? Alm disso, deixaria de ser o pai da minha filha no stio 
para onde me mandassem?
- E se a greve dos pais se prolongar? Se se recusarem oficialmente a 
enviar os filhos s aulas enquanto o pai da Corina Doerinck, que a 
apoia, estiver ao servio? Ento qual  a sua soluo? A lei obriga 
os pais a mandar os filhos  escola,  verdade. Mas como  que a 
faremos aplicar? Teremos todos os Media contra ns! Para eles seria 
um manjar do cu!  exactamente o que procuram! Abaixo os 
funcionrios que pretendem saber melhor do que os prprios pais o que 
 bom para os filhos! Vo dar livre curso a todos os rancores 
acumulados desde h anos por culpa de certos pedagogos imprudentes. 
Est pronto a enfrentar tal desencadear de paixes? Doerinck, voc 
defendeu magnificamente uma cabea-de-ponte na Rssia, toda a gente o 
sabe, apesar de voc nunca falar disso, e todos o admiram! Mas creia 
que no se resiste  infmia dum certo jornalismo. Vai descobrir que 
os ataques dos Russos eram menos temveis. j outros tentaram 
resistir e deram com eles de joelhos e de cabea baixa.
- Nunca cederei a presses tendenciosas. Nunca!
- Ento, este escndalo vai continuar?
- No  a mim que deve perguntar.  uma pergunta a fazer  minha 
filha, ou, melhor, aos que a atacam.
- Mas aqui  um professor e  o adjunto do reitor...
-  justamente isso: eu c no curo ningum. Ensino e fao-o desde h 
vinte e seis anos, repito.

O inspector, com as mos juntas atrs das costas, esperou um instante 
antes de recuperar o flego.
-  um crculo vicioso e  preciso sair dele. Vou, portanto, 
dirigir-me s autoridades superiores e propor que entre de licena 
ilimitada...
- Apresentarei oficialmente queixa contra esse abuso de poder.
- O doutor Hupp lembrar aos pais dos alunos que tm a obrigao 
legal de enviar os filhos  escola e convoc-los- para uma reunio 
especial. Eu prprio falarei com eles.
-  mnima observao desfavorvel sobre mim ou a minha famlia, 
previno-o, apresentarei queixa...
- Muito bem. Definimos as respectivas posies, doutor Doerinck... - 
Verdadeiramente perturbado, Hollenbock balanava-se da frente para 
trs na ponta dos ps. - Nestas condies, sou obrigado a comprovar 
que  impossvel colaborarmos calma e proveitosamente. Devemos 
esperar pelas consequncias. Obrigado, doutor Doerinck.
Sem uma palavra, Doerinck voltou para a aula, sentou-se  secretria 
e olhou longamente para os alunos, que tinham todos a cabea curvada 
sobre a redaco. Vinte e seis anos, pensou. Hellenbrand: um novo lar 
depois duma guerra horrvel. Vice-presidncia do clube do jogo das 
bolas, direco do coro paroquial, amizade aparente com todos... nada 
disso contava j. "Meu Deus, a minha vida ter mesmo de acabar com 
este vmito?"
A campainha tocou: fim da aula. Recolha dos cadernos. Sada dos 
alunos.
Fica um instante s, sentado  secretria. A seguir, levanta-se, sai. 
Desce lentamente as escadas. No primeiro patamar, Ferdinand Hupp 
parece esper-lo, com o rosto descomposto.
- s uma verdadeira mula, eis o que tu s, Stefan. Uma verdadeira 
mula!
- Talvez. S que uma mula s vezes  necessria, no extremo dum 
abismo, por exemplo, exactamente no stio onde alguns escorregam com 
a sua honra... ser como uma mula permite ter ps seguros...

Marius Herbert apareceu ao almoo. Vinha de M'nster. O carro de 
Corina no tinha um arranho e Marius estava irreconhecvel.
Tinha cortado o cabelo!
- No vai acreditar - disse ele a Stefan Doerinck. - Foi por sua 
causa, porque no lhe agradava, que cortei o cabelo! Logicamente, 
para mim isso era mais uma razo para no lhe tocar.
- Obrigado - disse Doerinck, empertigado.
- Pois bem, no foi nada disso. Foi s por causa da tenda... Na 
primeira loja olharam-me de lado: pensaram que eu queria organizar 
aqui na parvnia um asilo de punks ou um local de reunio de 
fumadores de haxixe... Resolvi logo ir ao barbeiro: "Quero um corte 
que me d um ar capitalista!" E resultou! Entregam a tenda amanh de 
manh. Haver lugar para cem pessoas. O cho  de tbua e a estrutura 
de madeira da porta vem incorporada. - Abanou a cabea. - No  
curiosa esta coisa do corte de cabelo? Ter-me-ei, de facto, tornado 
noutro homem por ter agora o cabelo curto? Vo ter mais confiana em 
mim por causa disso? No  nada lgico, doutor Doerinck.

Erasmus Roemer tambm apareceu  hora do almoo. Anunciou que a sala 
de espera do Dr. Hambach ainda estava mais cheia do que era costume. 
Conhecendo a amizade que ligava o mdico aos Doerinck, cada doente 
queria conhecer quais as consequncias do incndio. Todos faziam 
imediatamente as mesmas perguntas: "O que  verdade no caso de 
Corina? Que histria  essa das mos que curam? O que pensa disso, 
doutor?"
O Dr. Hambach protegia-se atrs duma citao aproximativa que no o 
comprometia.
- H mais coisas do que se julga entre o cu e a terra... - Depois 
duma longa pausa significativa, o velho mdico acrescentava: - Sim,  
assim, acredite...
Era uma resposta que satisfazia toda a gente e provocava em alguns um 
estranho arrepio nas costas.
Erasmus Roemer, assim que entrara, pusera-se a cheirar o ar com as 
narinas dilatadas, para melhor aspirar o odor do liuliakebab que 
Ludmila preparava: almndegas de carne com cebola. A sua voz estava 
mais forte do que nunca.
- O Willbreit telefonou-me. Inquietou a minha mulher, que vai voltar, 
sem dvida nenhuma, para me suplicar que me faa operar. Com os seus 
olhos de vaca e com lgrimas como os cristais do lustre que ilumina o 
meu salo,  capaz de ganhar a partida! No consigo resistir quando 
ela chora, apesar das boas resolues que tomo antes. Se no fosse 
isso, j me tinha divorciado h muito tempo... Tem um buraco onde 
possa esconder-me? Corina, no pode falar com a Elise e faz-la dar 
ouvidos  razo?
- De boa vontade, s que ela deve estar sob a influncia do professor 
Willbreit.
- Desse ocupo-me eu. Estou muito mais  vontade com os homens do que 
com as mulheres.
Van Meersel tinha comeado a rir.
- Penso que se quer de facto esconder-se  melhor procurar uma 
caverna aberta por um obus de grande calibre do que um buraco de 
rato...
- At quando poderei ainda fazer honras  boa cozinha, Corina? Acha, 
de facto, que pode curar-me?
- Desde ontem que acho que sim.
- Aleluia! - Tinha aberto os braos para acolher a confirmao da boa 
nova. - Agora s me falta o pedao de paraso que Ludinila Davidovna, 
se no me engano, vai fazer descer do cu para a mesa.

 tarde, Corina deu uma primeira conferncia de imprensa no prprio 
stio da granja incendiada. O cheiro persistente a queimado no 
deixou ningum indiferente. Tinha aproveitado a manh para organizar 
tudo. Pedira bancos emprestados ao proprietrio do albergue As Armas 
da Vesteflia, que aproveitara para instalar um bar com carnes frias. 
A notcia espalhara-se como um rastilho de plvora no meio dos 
jornalistas. Tinham afludo de todos os lados, mesmo de avio, 
utilizando o aeroporto M'nster-Osnabruck, prximo dos cimos de 
Hilltrup. O presidente da cmara e o reitor da escola tambm tinham 
sido convidados e o inspector acompanhara-os, desejoso de assistir ao 
espectculo e dele tirar todas as lies possveis. As cadeias de 
televiso haviam enviado equipas de grandes especialistas, diferentes 
do reporterzinho que se dedica  pequena histria mrbida e que est 
sempre vido de sensacionalismo. O que  que iria sair daquela 
segunda interveno de Corina?, perguntava-se o presidente da cmara, 
arrepiando-se. Provavelmente, uma imagem ainda mais negativa da sua 
cidade.
A conferncia desenrolou-se de maneira completamente diferente da que 
ele previra, tal como muitos outros. Depois de algumas palavras de 
apresentao de Corina, o Prof. Van Meersel, com a autoridade que 
ttulos universitrios despertam no pblico alemo, descreveu um 
interessante quadro dos ltimos progressos realizados em matria de 
parapsicologia, eliminando assim todas as perguntas idiotas que 
muitos se preparavam para fazer sobre as "mos irradiantes" da jovem. 
Citou factos irrefutveis, controlados por universidades cuja 
competncia era mundialmente reconhecida, esforando-se por tornar 
compreensvel a fora misteriosa que existe em alguns de ns.
O pastor de Hellenbrand, Dechaut Wilin, no deixou de franzir as 
sobrancelhas. Aquele professor holands estava a pr em causa os 
milagres de Cristo. Jesus tinha-se simplesmente servido duma 
bioenergia, que era um fenmeno puramente humano? Do ponto de vista 
da f, isso era uma nova catstrofe.
-  absolutamente necessrio que nos oponhamos  propagao de tais 
erros - murmurou ao inspector Hollenbock, que estava a seu lado.
Este ltimo escutara Van Meersel atentamente com as sobrancelhas 
franzidas, invadido pelo problema que se lhe levantava. Irritado, 
respondeu bastante secamente:
- As proibies por razes religiosas j no vingam na nossa poca, 
caro pastor.  preciso opor a uma argumentao destas uma 
argumentao contrria. Se no me engano, no se trata apenas de 
negar factos irrefutveis...
Depois da comunicao de Van Meersel, abateu-se sobre Corina uma 
chuva de perguntas, quase todas respeitantes ao mesmo ponto: 
"Acredita que as suas mos podem curar todas as doenas que se 
julgavam at hoje incurveis?"; "Pretende poder curar a asma crnica, 
contra a qual a medicina actual ainda  impotente?"
Corina respondeu calmamente a todas as perguntas.
- Nunca tenho a certeza de poder curar antes de comear. Ao 
princpio, tal como o doente, limito-me a ter esperana. Nunca 
prometo nada. Quando h cura  para mim quase um milagre. Aquilo de 
que tenho a certeza  que nunca falhei at agora.
- Nunca?
- Nunca.
- Como  que pode ter a certeza?
- Porque os doentes que me vm ver vo a seguir ao mdico e este 
verifica que esto curados. Se a medicina oficial atribui um valor 
absoluto aos seus diagnsticos quando eles so desfavorveis, tambm 
deve estar segura daqueles que faz quando nota uma cura 
incompreensvel, no  verdade?
Roemer, sentado ao lado de Doerinck, enterrou-se no banco.
- Aqui est uma frase que  uma espcie de bofetada e que lhe vai 
valer um bom ataque por parte dos seus inimigos.  pena que a Corina 
seja alem. Em Frana, Itlia, Estados Unidos e tambm na Rssia 
estudar-se-ia apaixonadamente o fenmeno Corina Doerinck... Mas 
juro-vos que Erasmus Roemer vai investir como um carneiro contra 
essas corporaes que se recusam a abrir os olhos para olhar a 
verdade de frente..

A conferncia de imprensa durou quase trs horas. A seguir Corina 
meteu-se no carro, rodeada de fotgrafos que a metralharam com os 
flashes at ela arrancar. O inspector aproximou-se ento de Doerinck 
e do crculo que formavam  sua volta: o presidente da cmara, o Dr. 
Hambach, Roemer e o Prof. Van Meersel.
- Tem um minuto para mim, doutor Doerinck?
- Tenho sempre tempo para si, senhor inspector.
Roemer interps-se.
- Ah! Ento o senhor  que  o inspector, o representante das 
autoridades pedaggicas que transformam as nossas crianas num bando 
de idiotas e de criminosos que me cabe a min, julgar a seguir!
- Como? Desculpe, quem  o senhor?
- Erasmus Roemer, presidente do tribunal de 10 instncia de M'nster.
- Lamento, mas no frequento o meio do crime.
Roemer ficou um instante de boca aberta, mas como era o gnero de 
resposta que lhe agradava e que provava que o interlocutor tinha 
presena de esprito, limitou-se a perguntar:
- Que pensa ganhar ao pr o doutor Doerinck de licena ilimitada?
- Restabelecer a calma na escola. Receio que haja greve dos pais, 
sobretudo agora, depois desta formidvel conferncia de imprensa. A 
greve seria...
-... a prova de que a sua poltica escolar anda sem rumo. O nosso 
nvel escolar  inferior ao das boas escolas das misses africanas. 
As jovens geraes j nem sequer falam convenientemente a lngua 
materna. A ortografia e a gramtica so criadas a um arbitrrio 
primitivismo. O vocabulrio est reduzido a mais ou menos trezentas 
palavras, entre as quais se contam cinquenta onomatopeias! No venham 
dizer-me que  a mesma coisa na Europa toda. Isso no me consola:  
fora de guerras internas e de cobardia moral, os povos europeus so 
hoje constitudos por gente meio imbecil orgulhosa da sua idiotice. 
Disso  que o senhor inspector se devia ocupar e no do que 
ultrapassa, e muito bem, a nossa cincia actual do Universo, que 
ainda no conseguimos compreender.
Durante a diatribe de Roemer, os olhinhos de Hollenbock tinham-se 
encolhido ainda mais.
- V mas  repetir esse discurso aos ministros de Dusseldrfia e de 
Bona - disse finalmente. -  desses ministrios que eu recebo ordens 
e deles no sou mais do que um rgo de execuo. E o senhor, tem 
alguma influncia sobre o novo cdigo penal? Os polticos que mandam 
em mim preparam-se sem si e mesmo contra si, tendo como principal 
preocupao a proteco dos criminosos. Se um dia tiver de julgar um 
terrorista clebre e receber cartas annimas em que ameaam a sua 
mulher e os seus filhos, e caso ouse punir esse assassino como ele 
merece, que far?
- Nunca ningum me ameaou nem nunca ousar faz-lo. A minha 
reputao de severidade protege-me: toda a gente sabe que bastaria 
exercerem sobre mim qualquer tentativa de Presso para que eu aplique 
a lei com um rigor ainda mais implacvel.
Hollenbock mediu o gigante dos ps  cabea, impressionado.
- Est bem. Mas  com o doutor Doerinck que eu quero falar e no 
consigo. Permite que nos retiremos um instante?
Quando se afastou com Doerinck, o inspector comeou a limpar a testa 
com o leno. De sbito, voltou a pr a cara jovial que tanto 
contribura para o seu xito na carreira.

- O discurso do professor holands foi uma obra-prima, uma abordagem 
cientfica de que, devo confessar, s compreendi um quarto, seno 
menos... A concluso a que chego com isto tudo  que Corina Doerinck 
est prestes a tornar-se numa celebridade internacional ou como uma 
maravilhosa rapariga benfeitora da humanidade ou como uma bruxa! 
Sendo actualmente a mentalidade do nosso povo o que , inclino-me 
mais, infelizmente, para a acusao de bruxaria. Por isso, Doerinck, 
receba o conselho dum colega: faa qualquer coisa para evitar um 
drama que lhe seria prejudicial, assim como  sua famlia. No lhe 
posso dizer mais. No que toca  sua licena, defenderei a sua causa 
junto do governo: no vai ser fcil por se tratar dum caso sem 
precedentes.
- Ento, inclina-se diante de alguns pais demasiado zelosos.
- No! - A cara do inspector voltara a ter uma expresso muito grave. 
- No. O reitor Hupp continua a receber telefonemas: so apenas 
alguns pais, como voc diz, mas j so cerca de trinta e esto 
decididos a manterem os filhos em casa e, dos seus protestos, 
transparecem velhas histrias e velhos dios: a sua mulher, a mulher 
do vice-reitor  russa!
- Quem diria que vivi aqui vinte e seis anos! No fundo, talvez 
devesse ter escutado os Russos e ficado em Poti, l no mar Negro. 
Pensei nisso, mas como era preciso desertar, isto , abandonar os 
meus camaradas...
- Evidentemente, teria sido nojento. Era o oficial e os seus homens 
tinham confiana em si, no ? - Estendeu a mo a Doerinck. - Perdoe, 
mas tambm eu tenho de fazer o meu dever. Prometo defender a sua 
causa o melhor possvel, pois, como lhe disse, trata-se dum caso sem 
precedentes. No serei eu a tomar a deciso, mas compreenda bem uma 
coisa: uma greve de pais no pode acontecer sem ter graves 
consequncias...
Logo no dia seguinte, de manh, aps trs horas de trabalho, 
erguia-se a tenda no local da granja.
Era uma bela tenda rectangular com uma espessa porta de madeira, cuja 
ombreira era feita de slidas pranchas. O Outono aproximava-se e 
seria preciso passar tambm o Inverno. Com a ajuda do soalho 
levantado e de quatro radiadores elctricos, a temperatura interior 
seria suportvel.
Quando deu a assinar o contrato de aluguer dum ms, o director da 
empresa, que tambm se ocupava da montagem, tinha-se desculpado por o 
montante do seguro ser elevado.
- Toda a gente sabe quem  e ainda est impressionada com o incndio, 
no ? No posso fazer nada...
A arrumao interior durou todo o dia. Tabiques amovveis dividiriam 
o espao num atelier, num quarto para Marius Herbert e Molly, numa 
sala de exposio e numa pequena sala de espera. Tambm se arranjou 
uma casa de banho. De tarde, durante uma pausa em que Corina estava 
sozinha com Marius Herbert, este perguntou-lhe bruscamente:
- E ainda falta construir a casa. Mesmo comeando imediatamente, s 
ficar pronta dentro dum ano. Tem dinheiro que chegue?
- No. S algumas economias que devem chegar para as obras mais 
importantes. A seguir terei de pedir um emprstimo ao banco. E 
hipotecarei o terreno, que  meu.

Com ar subitamente muito cansado, Marius, sentado numa cadeira, bebia 
uma pequena garrafa de cerveja. No interior da tenda, o odor a 
madeira fresca e a tela nova misturavam-se com um vago cheiro a 
queimado. Abanou repentinamente a cabea.
- Que porcaria de vida! Se ao menos a pudesse ajudar.
- Mas pode, Marius.
- Fazendo discursos absurdos?
- Pintando.
- O qu? O sino de Hellenbrand? O Sol por cima dum campo de trigo?
. - Porque no? Chagall pintou a Torre Eiffel, flores numa jarra e 
artistas num circo. E no se esquea dos campos de trigo de Van Gogh.
- Chagall, Van Gogh! Mas nem sequer sou digno de lhes lavar os 
pincis!
- Pelo contrrio, tem de dizer constantemente para consigo mesmo, 
alis como sonha frequentemente fazer, que ao lado de Chagall, Van 
Gogh e Picasso haver um dia um Marius Ilerbert. Um artista 
diferente, mas to original e com a mesma estatura que eles!...
- E diz-me isso assim numa tenda vazia, numa altura em que levo uma 
vida tal que me contento com a segurana de ter uma cama para 
partilhar com a Molly e em pensar que isso vai durar uma semana, 
eventualmente quinze dias, enquanto voc me aturar. Isso enche-me 
duma louca alegria!
- Pois ento pinte essa louca alegria.
- Uma orgia de cores, ?
- Formidvel!
- E quem comprar uma tal porcaria?
- Espere!
Aproximara-se dele por trs e, como ele dava uma volta  cabea para 
poder seguir os seus movimentos, viu-a de repente numa perspectiva 
estranha: o rosto extremamente longnquo, com os olhos, o fino nariz, 
o desenho dos lbios quase sem cor e, muito perto, exactamente por 
cima dele, os seios, cujos bicos se espetavam sob um pulver de l 
fina. Um estremecimento percorreu-lhe o corpo. Estenderia as mos na 
direco do peito daquela mulher? Mas como os olhos dela o fixavam, 
soube de sbito que lhe era impossvel mexer-se, levantar as mos ou 
mexer os dedos... s lhe restava respirar calmamente e mergulhar 
naqueles olhos para neles se dissolver. E ouvia a voz dela.
- Tu s Marius Herbert. Podes pintar como Chagall, Van Gogh e todos 
os grandes mestres que te precederam. O mundo  uma embriaguez de 
cores e tu pint-lo-s, pint-lo-s como s Marius Herbert o v. s 
um grande pintor... um grande pintor.
A fadiga que o invadia era tal que nem sequer sentia a cabea a 
oscilar para trs e a entrar nela como num ninho. Tinha apenas a 
impresso de mergulhar cada vez mais profundamente no sono. Nem 
sequer sentiu as mos que se lhe pousavam nas tmporas e que 
descarregavam nele uma onda repleta de energia, descendo a seguir at 
ao stio onde deviam comear a batalha contra o mal que o corroa...
Aquilo durou s cinco minutos, mas ela ficou exausta e fumou 
avidamente, engolindo o fumo de dois cigarros de seguida, com o rosto 
alterado. Na cabea ressoavam-lhe confusamente tudo o que pudera ler 
durante aqueles ltimos anos sobre a fora que nela existia.

"Consegui?", interrogava-se. "Ser que tenho em mim o gnero de fora 
de que falam os professores soviticos Leonid L. Vassiliev, na 
Investigao Experimental sobre a Sugesto Mental, e VIadimir Raikov, 
que conseguiu utilizar a sugesto mental para influenciar os 
espritos e neles libertar talentos adormecidos ou em potncia, 
mobilizando a sua criatividade. Alguns estudantes do seu Instituto de 
Moscovo puseram-se a pintar como Rafael e Van Gogh depois de terem 
voluntariamente recebido as sugestes mentais adequadas. No 
Conservatrio de Moscovo houve alunos que, sem terem a experincia 
necessria  abordagem da tcnica avanada do piano, se tornaram 
imediatamente virtuosos do teclado. Para isso bastara que Raikov lhes 
sugerisse que fossem outros Chopin, Ritcher ou Rubinstein..."
O mais estranho nestes progressos fulminantes  a sua persistncia: 
os alunos, posteriormente s sesses de sugesto do professor Raikov, 
no voltavam nunca ao nvel da experincia anterior. As faculdades e 
os talentos revelados pela sugesto continuavam a evoluir dentro do 
quadro das capacidades naturais de cada um, mas sempre ao nvel 
superior a que a sugesto lhes permitia elevar-se. Assim, aqueles 
jovens tornavam-se bons pintores e pianistas conhecidos. O Prof. 
Raikov, para explicar o fenmeno, deu-lhe um nome: a "identificao". 
Este processo permite a qualquer estudante elevar-se to alto quanto 
puder em direco ao nvel do modelo que escolheu livremente. S ter 
de se expandir na sua prpria direco, mas ao mais alto nvel de que 
for capaz.
E, portanto, no pas onde durante mais de meio sculo se defendeu o 
materialismo absoluto que hoje se reconhece, com o maior rigor 
cientfico, a primazia do esprito. Os cientistas soviticos, depois 
de terem atingido o impasse materialista, esto a redescobrir a 
quarta dimenso da conscincia humana, que  a mesma que verificaram 
outrora os grandes cientistas da velha China, do Japo, do Tibete, da 
ndia, os filsofos da Grcia antiga, 'os alquimistas da Idade Mdia 
e os xams dos Povos primitivos. Foi a esta realidade, que ultrapassa 
o tempo e O espao, que o psicanalista suo Cari Gustav Jung chamou 
O "inconsciente colectivo". Contm todo o tesouro da experincia 
humana ou, tal como Plato a exprimiu, a Ideia imortal sempre 
presente.  a fora invisvel  qual ainda s tm acesso, sob nomes 
diversos, alguns privilegiados.
Outro cientista sovitico, desconhecido dos cientistas pretensiosos 
do nosso ocidente,  o Prof. Venjamine Puchkine, membro da Academia 
das Cincias da URSS de Moscovo. Na sua obra Experincias de 
Heurstica defende a teoria segundo a qual  possvel juntar toda a 
cincia humana numa espcie de enciclopdia geral, que seria como que 
uma memria universal de que o homem se serviria como de um 
computador...
Corina acabou o seu segundo cigarro. Pouco a pouco despertou do seu 
estranho torpor. Marius Herbert, com a cabea inclinada para trs, 
rgido naquela postura pouco natural, com os olhos ainda fechados, 
respirava lenta e calmamente. Iria levantar-se e comear a pintar, 
como acontecia nas experincias russas em que a criatividade jorrava 
com a potncia e a brusquido duma exploso vulcnica? Corina 
olhava-o' duvidando do que lera e ainda mais de si mesma. Precisava 
de uma certeza. Fazendo um esforo, conseguiu levantar-se e ir para 
junto dele para voltar a pr entre as palmas das mos as tmporas 
cavadas do jovem pintor, dizendo-lhe docemente:

- Viste um mundo cheio de cores em que mergulhaste. Agarra nesse 
mundo e tr-lo contigo! Olha, lana um olhar  tua volta: esse mundo 
 tambm teu a partir de agora. E s-lo- sempre!
Lentamente, Marius Herbert abre os olhos e recupera a conscincia: 
por cima dele, esto os seios que o perturbaram e, por cima destes, 
os seus olhos extraordinrios, estrelados com pontos de ouro.
Sorri fracamente, endireita-se e volta a cair. Os braos pendem-lhe 
para trs, as mos tocam as ancas da mulher, agarram-se a elas, e a 
sua cabea volta a encontrar aquele corpo, o lugar que tinha quando o 
sono se apoderou dele e que esqueceu. Corina no o afasta, pelo 
contrrio, pe-se a acariciar docemente, com a mo esquerda, a cabea 
inclinada na sua direco.
-  horrvel estar to cansado! Pus-me mesmo na sorna, hem?
- Se  que  a expresso acertada... - respondeu ela a sorrir.
- At sonhei. Um sonho absurdo! Encontrava-me em qualquer parte do 
Sul da Frana, mas noutro sculo. As mulheres tinham vestidos 
compridos e os homens uns casacos esquisitos. Encontrava-me numa 
vinha a pintar um cacho de uvas e, no interior do cacho, um rosto de 
mulher, um sol dourado e uma paisagem que se perdia ao longe. Uma 
viso da beleza do mundo num cacho de uvas... Era extraordinrio e 
magnfico!
-  o que vais pintar! - Deu um passo para trs para se libertar e 
ele teve repentinamente a impresso de ter frio e de estar 
abandonado. - Onde est o teu material de pintor?
- Em M'nster, em casa dum amigo. Um velho cavalete, uma velhssima 
caixa toda amassada com tintas de leo e dois ou trs pincis bem 
usados... H muito tempo que no pinto na tela.  demasiado caro para 
mim. Ultimamente utilizei sempre madeira e papel de esboos.
- Vais meter-te no meu carro e ir imediatamente a M'nster. - Tirou 
duas notas do bolso do casaco e p-las  fora na mo de Marius. - 
Compra tudo o que precisares para pintares o que viste no teu sonho.
- Mas so duzentos marcos...
- Vai depressa!
O som, o tom da voz dela agem sobre ele como se fosse um golpe de 
chicote. Fica de p, apanha a chave que ela lhe atira em pleno voo e 
sai da tenda. Molly, deitada no cho, assistiu dormitando a tudo o 
que se passou entre eles. Vendo o dono partir precipitadamente, 
soergueu-se para o seguir com um olhar interrogativo. A seguir, dando 
um profundo suspiro, volta a deitar-se de barriga para baixo com a 
cabea entre as duas patas da frente, j com os olhos semifechados 
fixos melancolicamente em Corina.
Era a primeira vez que no seguia o dono.

No dia seguinte, foi o princpio da avalancha. Tudo o que o grupo que 
se concentrava  volta de Corina Doerinck tinha esperado e receado 
simultaneamente, caiu de repente sobre eles.

Os dirios estavam cheios de resumos e de artigos contraditrios, 
conforme o temperamento do reprter ou a tendncia do jornal, e o 
mesmo acontecia com os comentrios das numerosas fotografias. Na 
televiso, cada cadeia apresentou o seu programa particular sobre a 
jovem curandeira das "mos irradiantes". Em que  que se devia 
acreditar? Na rdio houve uma sondagem a partir da pergunta "Que 
pensa das curas milagrosas?" que deu origem a respostas completamente 
inesperadas: para trinta e dois por cento, tratava-se de histrias 
idiotas, dezasseis por cento no tinham opinio e mais de cinquenta e 
dois por cento achavam que as curas ditas "milagrosas" eram 
possveis. O qu? Numa Alemanha evoluda do ponto de vista tcnico e 
mdico, mais de metade da populao ainda acreditava em curas 
impossveis por outros meios, isto , milagrosas! Era incrvel!

Erasmus Roemer continuava como hspede do Dr. Hambach. Recebia todos 
os dias, durante trs minutos, tratamento de Corina, entrando e 
saindo pela porta das traseiras e passando o resto do dia a preservar 
de Elise, a mulher, aquilo a que chamava o seu "espao vital". 
Obedecendo  sugesto do Prof. Willbreit, ela voltara da Hungria e 
fazia um cerco  casa do Dr. Hambach sem obter sucesso. Com ar 
contrito, Hambach tinha tido de a dissuadir de entrar em casa dele.
- Peo-lhe desculpa, minha senhora, mas o seu marido prometeu fazer 
em bocados a minha moblia se a autorizasse a entrar. No passo dum 
velho mdico de aldeia e gostaria de passar o resto do pouco tempo de 
vida que me resta no meio dos mveis a que estou habituado... Conhece 
o seu marido:  capaz de executar a ameaa.
- Mas ainda tem foras para isso? Como  que ainda pode, com to 
terrvel doena? - gaguejava Elise Roemer.
O Dr. Hambach no conseguira deixar de sorrir.
- O seu marido tem uma fora de mamute. Quanto  doena,  preciso 
esperar. Ainda no se pode dizer nada: mas objectivamente parece 
estar melhor.
- Melhor? Com o tratamento dessa curandeira? Meu Deus!
Desmanchou-se em lgrimas. Tinha um ar to infeliz e to frgil que o 
Dr. Hambach, apesar das repetidas advertncias de Roemer sobre o 
poder que ela exercia sobre ele quando
chorava, sentiu-se comovido.
- Agora j conheces a razo da minha fraqueza, Ewald - disse-lhe 
Roemer, que o esperava. - Sabes, antigamente ela era uma rapariga 
deliciosa e impressionou-me. Era um pouco parva, mas bonita. E 
chorava to bem! E o pap fabricante pusera milhes aos seus ps. 
Resumindo, disse para comigo: aqui est uma bela rapariga, rica, 
dcil e estpida. Vou ter uma bela vida! Ora, quando se vive com uma 
mulher, perde-se de vista os milhes que ela possui quando ela julga 
que Alexandre, o Grande,  a marca de um produto que faz crescer 
(Alexandre, o Grande, no ?), e que Xerxes  a marca verdadeiramente 
difcil de pronunciar, dum verniz para as unhas. Com o tempo, 
torna-se insuportvel. E depois tem a mania snob de falar ingls em 
alemo, os five o'clock teas, Os golf-parties, os cocktails-parties, 
os tenis-parties, uma gala aqui, uma gala acol, um evening em casa 
de uns, um lunch em casa de outros, uma season na Cte d'Azur, outra 
season nas Antilhas...  incrvel o nmero de seasons que ela 
arranja: no ficava nem uma para mim! E tem uma conversa que se 
adapta a todas as paisagens: o azul  sempre de safira, o vermelho de 
rubi e o verde de esmeralda! Ai, Ewald, meu caro doutor, como se est 
bem em tua casa! Que calma! Aviso-te, Ewald, se a deixares entrar dou 
cabo de tudo aqui em casa, palavra de honra!

A reconstruo da nova casa no mesmo stio da granja s comearia na 
Primavera: no se podia ir mais longe para fazer o projecto e obter a 
seguir as autorizaes necessrias. As firmas nunca tm pressa. Sob a 
tenda, no espao arranjado para o quarto de Marius e de Molly, o 
sonho de Marius tinha logo renascido no cavalete: era um universo de 
beleza num cacho de uvas.
Foi um quadro estranho e maravilhoso. To maravilhoso e estranho como 
a embriaguez que se apoderou de Marius Herbert durante as longas 
horas que passou a pintar. A Corina acontecia-lhe sentar-se atrs 
dele, com as mos cruzadas, para assistir  organizao daquela 
desordem aparente numa ordem suprema. Uma vez, no mpeto do seu 
entusiasmo, Marius, voltando-se, quisera tom-la nos braos. Ela 
tinha-se libertado imediatamente e, estupefacto, vira-a fugir como um 
animal que estivesse a ser perseguido. Tivera a impresso de que uma 
erupo de lava ardente explodira nos olhos negros da rapariga.
Entretanto, os doentes afluam de todos os lados. De toda a Alemanha 
Federal tinham sido organizadas, por astuciosos empresrios de 
transportes, verdadeiras peregrinaes a Hellenbrand. Em Coesfld, a 
primeira cidade da regio, fora aberto um centro de peregrinos e em 
M'nster uma oficina onde se tentava reparar os carros dos que vinham 
em busca da cura junto da jovem das mos irradiantes. Se bem que 
Corina no lhes cobrasse dinheiro, os doentes gastavam fortunas em 
meios de transporte e na estada.
O presidente da cmara, impotente, abandonara a luta. A Polcia local 
tivera, no entanto, de destacar dois agentes para dirigirem o acesso 
dos carros  "Tenda Milagrosa". s aulas de Doerinck continuavam a 
faltar cerca de trinta alunos. O Dr. Fritz Kroluneyer, director dos 
Servios de Higiene do bairro no se apressava a intervir, apesar da 
insistncia da Ordem' dos Mdicos. Desde o primeiro encontro com o 
procurador que se apercebera de que no seria nada fcil resolver um 
problema daqueles. At  data no parecia que Corina Doerinck tivesse 
dado azo a acusaes justificadas. Os doentes iam ter com ela 
voluntariamente, ela no fazia nenhuma forma de publicidade e no 
aceitava qualquer remunerao em troca dos tratamentos que 
dispensava.
Das nove ao meio-dia, recebia os doentes, que se comprimiam na parte 
da tenda que fora transformada em sala de espera. Contava trs 
minutos para cada doente, mais o tempo de fumar um ou dois cigarros e 
de recuperar foras. Ao meio-dia em ponto, Marius Herbert fechava a 
pesada porta de madeira atrs do ltimo doente e deparava-se-lhe 
ento o espectculo de uma Corina exausta, de olhos encovados e 
envoltos numa mancha azulada.
- No vais aguentar!  uma loucura! - dizia ele levantando os ombros 
enquanto lhe preparava uma mistura de aguardente branca de 
cana-de-acar, xarope de groselha, licor de laranja amarga e gelo 
picado.
 tarde, Corina no aparecia.
Trs semanas aps a montagem da tenda, num domingo de Outono, 
apareceu em Hellenbrand uma mulher cujo dio em relao a Corina 
Doerinck se ia mostrar duma violncia irracional, simultaneamente 
terrvel e eficaz: era Marikje Kerselaar, a curandeira holandesa de 
que tinha falado o Prof. Van Meersel. Apesar das semelhanas do 
destino de ambos, e talvez por causa destas, ele sempre receara 
aquele choque.

O Prof. Pieter Van Meersel voltara h cinco dias para a Holanda, de 
maneira que ningum conseguiu pr Corina de sobreaviso contra as 
consequncias da chegada de Marikje Kerselaar. O professor tinha 
passado as suas ltimas semanas em Hellenbrand a fotografar, a filmar 
e a entrevistar os doentes. Estava convencido de que o caso de Corina 
Doerinck era excepcional. A bioenergia que irradiava das suas mos 
continuava a ser inexplicvel no quadro da medicina oficial. A cura 
de uma prostatite, de uma obstruo da uretra e de uma gastrite 
aguda, por exemplo, conseguida por simples gestos executados  
distncia do corpo do doente, tinha algo de anticientfico e de 
milagre. Evidentemente, a medicina continuava a falar de fenmenos 
histricos, mas a paragem da proliferao das clulas de um cancro, a 
sua secagem progressiva e o seu desaparecimento final levantavam 
questes to perturbantes que era prefervel negar os factos, pura e 
simplesmente. Estas curas, confirmadas por radiografias cuja 
autenticidade era inegvel, iam fazer da prxima publicao de Van 
Meersel um monumento  glria de Corina, aquela "Eleita de Deus", 
como lhe chamara ao despedir-se dela. Perante a onda crescente de 
doentes, um dirio de importncia nacional dera ao seu artigo de 1.a 
pgina um ttulo espectacular:
HELLENBRAND, A NOVA LOURDES ALEM?
Marikje Kerselaar desceu em Havixbeck, arranjou quarto no albergue 
Wasserburg, sentou-se alguns minutos na cama para acalmar uma 
enxaqueca persistente com trs copos de genebra e a seguir ps-se a 
caminho de Hellenbrand. Era um domingo e cerca das onze horas da 
manh. Diante da tenda, no parque de estacionamento recentemente 
organizado, pairava uma atmosfera de quermesse; o odor das salsichas 
e da carne assada misturava-se ao da cerveja. Vrios conselheiros 
municipais tinham sido os primeiros a prever o bom negcio e, 
consequentemente, no tinham podido recusar a seguir aos outros 
comerciantes a autorizao para aproveitar, cada um  sua maneira, do 
man que era o afluxo de peregrinos.
Diante da grande tenda com espessa porta de madeira estavam trs 
ambulncias estacionadas com prioridade, cada uma trazendo um doente 
deitado na maca. Desde o princpio que Marius Herbert tivera de 
atribuir a cada doente um nmero de ordem para evitar discusses e 
conflitos. Os doentes acatavam sem problemas esta disciplina e 
esperavam pacientemente a sua vez, mesmo quando s deviam ser 
recebidos no dia seguinte.
Marikie Kerselaar observou durante alguns minutos aquele 
extraordinrio espectculo. Era uma mulher de estatura mdia, nos 
cinquenta, de cabelo pintado e encaracolado  africana. O nariz 
abatatado, os olhos cinzentos com olhar astuto, o duplo queixo, as 
pernas grossas e um pouco tortas no faziam dela nenhuma rainha de 
beleza e, desse ponto de vista, no tinha absolutamente nada em comum 
com Corina Doerinck. Mas era conhecida como curandeira na Holanda. 
No se contentava com uma simples imposio das mos, vendendo tambm 
aos doentes uma mistura misteriosa, magnetizada por ela e que 
cheirava a mentol e a alcauz. Podia ser utilizada em poo contra a 
tosse persistente, as perturbaes da menstruao e da menopausa, a 
celulite, a impotncia nervosa e tanto para a frigidez como para a 
ninfomania. A sua grande especialidade era o tratamento das verrugas 
que secavam, caam e nunca mais voltavam.

Comeou a misturar-se com os doentes, ouvindo-os discorrer e comparar 
os seus males e assim recolhendo uma massa de informaes sobre 
Corina por doentes j encantados com os seus tratamentos. Observou 
tambm a diferena que existia entre estes e os seus prprios 
pacientes, que muitas vezes diziam em voz alta que nunca mais 
voltariam.
Viu de repente um grupo de holandeses que conhecia afastar-se dela. 
Ferida no seu orgulho, ultrapassou o embarao e decidiu ir direita a 
eles. Notando at que ponto a sua apario os incomodava, sentiu uma 
alegria sdica que dificilmente conseguiu dissimular.
- Lindo dia! - disse.
O seu tom era amigvel, mas mesmo assim cada um dos seus pacientes 
teve a impresso de receber uma bofetada. Estava ali uma asmtica 
crnica, uma mulher que sofria duma inflamao dos ovrios, dois 
casos de artrite e at Mijnherr Van Beveren, o banqueiro que s tinha 
ido a casa dela j de noite, escondendo-se, e que aqui se mostrava a 
todos, sentado a uma mesa de campismo a comer uma fatia de po com 
queijo e a beber cerveja Anistel.
- Que encontro inesperado - disse ela o mais amavelmente que 
conseguiu.
- Tambm est aqui!?
Era um certo Ludwig Linzer que fora a casa dela durante um ano sem 
que ela conseguisse faz-lo melhorar da citica de que sofria. Ela 
nunca o suportara, pois ele lembrava-lhe sem cessar o nmero de 
florins que ele j lhe tinha dado sem que as suas dores diminussem.
Corina continuava a tratar gratuitamente os que apareciam, mas no 
podia recusar as notas que os doentes, reconhecidos, deixavam em cima 
da mesa quando partiam. Marius Herbert anunciava diariamente os 
resultados: "Hoje, quinhentos e dezassete marcos... hoje, mil cento e 
cinquenta e seis marcos... Se isto continuar, vais poder em breve 
financiar tu mesma a construo da nova casa... "
Mas, de cada vez, Corina interrompia-o secamente.
- Faz bem as contas e guarda o dinheiro! Ai de ti se tocares num s 
desses marcos.
No grupo dos holandeses, Ludwig Linzer, grande fabricante de tapetes, 
fora o primeiro a fazer frente a Marikie Kerselaar, ao passo que os 
outros orientavam o olhar para os carros estacionados, como se ela os 
tivesse surpreendido em plena conspirao. De facto, s se tinham 
reunido por serem todos holandeses.
- Sabia que os ia encontrar aqui. S queria verificar que c 
estavam...
Seria que pretendia convenc-los da sua clarividncia com aquela 
observao? Ludwig Leinzer, interrompeu-a logo.
- No ser antes porque veio ver se aprendia com a concorrncia? 
Alis, no podemos deixar de a aconselhar a faz-lo!
Mijnherr Van Beveren, o banqueiro, sucedeu-lhe depois de ter aclarado 
a garganta, tossindo.
- Voc foi incapaz de me ajudar, Marikje. Fui v-la dez vezes de 
seguida depois do meu ataque cerebral... e melhoras, nada. Depois de 
trs sesses, com trs dias de intervalo, noto uma diminuio da 
presso na cabea e sinto-me muito melhor.

- E o mesmo se passa com a minha citica. Veja s: consigo 
aguentar-me numa perna s, na perna que tanto me fazia sofrer. Ela  
mesmo fantstica, no acham? E tudo gratuito, sem ter de gastar um s 
florim!
S restava a Marikje Kerselaar afastar-se. Acabava de nascer nela uma 
ideia monstruosa. " ela ou eu", pensou, impelida por uma verdadeira 
loucura.
Deu consigo diante da tenda, no meio dos que acabavam de chegar. Ao 
receber de Marius o seu nmero, apertou os maxilares.
- Quanto tempo  que vou ter de esperar?
- Ser certamente vista amanh. No  um caso urgente, Pois no? - 
acrescentou ele, depois de ter medido a silhueta robusta que tinha 
perante si.
- Ento voc tambm distingue as doenas s com um lance de olhos? Se 
eu fosse um esqueleto ambulante, talvez no necessitasse da sua 
Corina...
Perante o olhar fixo da desconhecida, protegido atrs dos culos, 
Marius sentiu-se incomodado. Ainda hesitou um instante antes de 
dizer:
- Espere aqui. Vou ver o que posso fazer...
Marijke Kerselaar, de p diante da espessa porta de madeira, olhou 
para a multido com um sorriso satisfeito. O polcia que se 
encontrava perto dela desviou o olhar. Estava farto de estar de 
servio para vigiar todos aqueles semiloucos que acreditavam 
conseguir curar-se das suas doenas deixando-se "irradiar", como 
diziam os jornalistas! Porque  que as autoridades no punham fim 
quela farsa? De que apoios secretos  que beneficiava aquela bruxa?
Marius Herbert apareceu e fez sinal  holandesa para entrar. Como os 
enfermeiros da primeira ambulncia j estavam a levantar o doente, 
dirigiu-se a eles.
- S cinco minutos...
Marikje Kerselaar atravessou primeiro a sala de espera onde s havia 
algumas cadeiras e uma mesa com alguns jornais. Estava aberta uma 
porta numa das divisrias e ela ouviu Marius dizer:
- Ento ento... No tenha medo.
- Eu, medo?
Aquilo ressoou como um grito de guerra e, com a cabea enterrada nos 
ombros, Marikje precipitou-se literalmente para a frente.
Corina, sentada numa poltrona de madeira e fumando um cigarro, 
apareceu-lhe exactamente como no ecr da televiso ou nas fotografias 
das reportagens: trazia um vestido muito simples, cinzento-claro, com 
um bordado em cada ombro, e era duma beleza impressionante, como um 
ser vindo do outro mundo, o que fez aumentar ao mximo o dio da 
holandesa. Ora a est o segredo desta rapariga: atrai os homens, 
fascina as mulheres e todos estes imbecis acreditam que, quando ela 
estende as mos, lhe passa pela ponta dos dedos uma fora 
desconhecida...
- O Marius disse-me que estava muito doente. Onde  que lhe di?
- No corpo todo.
A cara da holandesa tinha-se tornado insondvel. "Vou dar-lhe uma 
resposta que a desconcerte", pensou. "Podes deitar-te a adivinhar e 
tentar safar-te com algumas frases que do para tudo. Mas a mim no 
consegues enganar... "

Os seus olhares cruzaram-se como se fossem espadas. Mas Corina j 
estava junto dela. As suas mos deslizavam lentamente a dez 
centmetros do corpo da holandesa, paravam e a seguir continuavam 
logo. Os seus olhos fecharam-se de repente, toda a sua cara se 
crispou, as mas do rosto pareceram esticar-lhe a pele e 
apareceram-lhe gotas de suor na testa e nas abas do nariz. Sem 
querer, Marikje ficou estupefacta. Que actriz!, pensou com algum 
respeito. Naturalmente, agarra as pessoas pelo corao. De novo, todo 
o seu ser foi inundado pelo cime e pelo dio.
As mos de Corina voltaram a tombar lentamente, mas ainda ficou muito 
tempo de p com os olhos fechados e a cara repleta de suor. Que 
momento inesquecvel, pensou Marikje. Como  que consegue?
- Di-lhe certamente o esterno e as costelas...
Por trs dos culos de armao dourada, os olhos da holandesa 
tornaram-se maiores.
-... e tambm lhe di a cabea como se lhe estivessem a apertar...
Marikje Kerselaar quis sorrir.
- Tenho enxaquecas como quase todas as mulheres.
- No. - Corina, com a cabea baixa, limpava a testa e a cara. As 
suas mos tremiam de tal maneira que dificilmente conseguia tirar um 
cigarro do pacote e acend-lo. Depois de ter aspirado o fumo 
avidamente, por vrias vezes, sentiu-se incapaz de continuar a falar. 
- No posso fazer nada por si. Mas v imediatamente a um hospital ou 
a uma clnica de nomeada internacional. Aconselho-lhe Erlangen, 
Friburgo ou Munique.
- O que  que isso significa?
A voz da holandesa traa o seu furor, mas tambm um grande medo.
- Que est doente, muito doente...
- E consegue ver isso com as mos, de olhos fechados? - A holandesa 
desatara a rir com um riso de demente. - Um diagnstico  vista 
desarmada feito com os olhos fechados! Quando para c vinha j sabia 
que podia esperar tudo, mas nunca uma coisa destas!
Corina tinha-se servido duma chvena de ch frio e, sem responder, 
com os olhos fixos naquela visitante cujo comportamento cada vez lhe 
parecia mais estranho, bebia lentamente, a pequenos goles...
- Eu no estou doente! - gritou Marikje de repente. - S queria 
observar pessoalmente o que aqui faz e o que  realmente! Anuncia s 
pessoas que tm doenas e quando os xams mostram que no tm nada, 
gaba-se de as ter curado! Parabns por esta comdia, mas comigo no 
pega...
- Ainda no sente nada ou quase nada. Mas traz em si a morte. Sou 
clara? Todas as dores que sente no so enxaquecas nem os efeitos 
duma artrose.  exactamente o contrrio. A substncia celular dos 
seus ossos est atingida. No perca tempo! Faa-se hospitalizar. 
Previna os mdicos de que tem um mieloma mltiplo. Fixe bem este 
nome: mieloma.
- Mieloma... Vo chamar-me louca!
- Talvez se riam ao princpio, mas depressa assumiro um ar de 
gravidade.

- Ah, porque voc nunca se engana, no ?  a mulher mais 
desavergonhada que eu j vi. Toda a gente acredita em si, mas eu c, 
no! - Com a cabea inclinada para trs como uma vbora pronta a 
lanar o seu veneno e com os olhos brilhantes de dio, no podia j 
deixar de maldizer nem de insultar. - Sabe bem a que ponto  
perigosa: provoca o desespero das pessoas quando no as pode embalar 
com falsas esperanas. No  uma santa, voc. O que ,  um demnio 
fmea! Sei-o agora.
Ao sair lanou desdenhosamente uma moeda dum marco para cima da mesa 
onde se encontravam notas.
- No vale mais - lanou a Marius, quando passou diante dele.
Ele foi imediatamente ao encontro de Corina, que continuava a fumar 
de p, diante da mesa.
- O que  que se passou? Saiu a correr como se tivesse fogo no 
rabo...
- Como  que ela se chama?
- No sei. Disseste-me para no insistir quando as pessoas se 
recusassem a dizer o nome.
- Nesse caso,  pena. Vai morrer num sofrimento atroz. O mieloma 
mltiplo que ataca os ossos  incurvel. Quase no se consegue 
atenuar as dores que provoca... Vai atrs dela, Marius! Insiste para 
que se faa hospitalizar e examinar.
Mas Marikje Kerselaar tinha desaparecido no meio da multido de 
doentes. Quando Marius Herbert voltou, j Corina estava ajoelhada 
perto duma rapariguinha, deitada numa maca, cujos grandes olhos 
imploradores esperavam um milagre. Tambm naquele caso, Corina ficou 
impotente: a leucemia estava demasiado avanada. O que  que podia 
dizer, Visto no poder fazer nada? De cada vez, vivia minutos 
intolerveis em que sentia amargamente a sua total impotncia.
Sem rudo, Marius Herbert voltou a sair. Quando Corina falava 
docemente a um doente em vez de o tratar, ele sabia o que se passava. 
Raros so os grandes doentes aos quais se pode dizer a verdade e 
Corina no o ignorava.
A confiana que alguns tinham nela raiava a superstio. Na semana 
precedente, uma famlia da Baviera tinha erguido um altar diante da 
tenda e celebrado trs servios religiosos por dia em inteno do pai 
moribundo. A televiso, evidentemente, filmara os encontros daquela 
pobre gente com o prelado que viera especialmente de M'nster e 
acabara finalmente por convenc-los de que aquilo era superstio, 
paganismo, e no religio...
Ao meio-dia, Marius fechou a porta, esperou um pouco que os doentes 
partissem para ir buscar o carro em que Corina entrou a correr para 
ir almoar, como fazia todos os dias, a casa dos pais.
Nem ela nem Marius repararam no carro de matrcula holandesa que 
parou atrs deles numa rua adjacente. Tremendo de raiva e de dio, 
Marikje Kerselaar viu-os entrar no jardim onde os esperava Stefan 
Doerinck. Com os punhos cerrados, seguiu-os com o olhar enquanto eles 
desapareciam no interior.
- Criatura ignbil! Queres destruir-me fazendo-me crer que sofro duma 
doena mortal... Seu demnio fmea, serei eu quem te destruir!
A tarde daquele dia trouxe ao pequeno grupo de defensores de Corina 
toda a espcie de contrariedades.
Primeiro, Elise Roemer conseguiu apanhar o marido quando este se 
esquivava da casa do Dr. Hambach pela porta das traseiras. 
Atirou-se-lhe literalmente ao pescoo e nele se suspendeu como uma 
gata, chorando com grandes soluos.
- Porque  que me tratas assim, meu amor? S razovel! Volta! S 
quero que te cures. Essa Corina vai matar-te! Porque  que no 
confias no teu amigo Willbreit?

 noite, em casa de Stefan Doerinck, Erasmus Roemer contaria a cena 
da maneira que lhe era peculiar.
- E salta-me logo ao pescoo como se eu fosse um negro a sair da 
floresta virgem, completamente nu, e com um sexo gigantesco pronto a 
funcionar: mas eu c pus o meu ar mais digno: "Engana-se no objecto, 
minha senhora. No sou o seu baro hngaro nem o urso que procura em 
vo h tanto tempo..." Respondeu-me: " meu amor, morro de desgosto 
por tua causa! Ningum consegue compreender-te", etc. Ento, 
respondi-lhe: "Minha senhora, as pessoas podem dizer o que quiserem. 
Nada j me interessa. Tenho a inteno de me reformar 
antecipadamente. Vai ser uma catstrofe para si, visto j no poder 
dizer: sou a esposa do presidente do tribunal de 1.a instncia!" Foi 
ento que fugiu como se eu j fosse um cadver em putrefaco.
O Dr. Hambach tambm tinha uma grande novidade a comunicar. O Prof. 
Willbreit tinha telefonado.
-  s para lhe dar uma informao, caro confrade: o sindicato 
profissional dos mdicos apresentou queixa contra Corina Doerinck com 
base no exerccio ilegal da medicina. Propus-me como especialista... 
A propsito, o Erasmus Roemer continua a viver em sua casa?
- Continua - respondeu brevemente Hambach.
- Como  que ele est?
- Bem. O tratamento da Corina Doerinck parece ser muito eficaz. 
Dentro de trs semanas, procederemos a um controlo radiolgico do 
estado em que se encontra. Enviar-lhe-ei as radiografias, que lhe 
serviro para fazer o seu relatrio de especialista.
- E se os resultados forem absolutamente negativos?
- Nesse caso, tambm receber as radiografias. No somos daqueles que 
perseveram no erro, como  o caso de tantos confrades nossos que se 
agarram  medicina oficial.
Furioso, Willbreit tinha desligado sem dizer uma s palavra mais.
Por seu lado, Stefan Doerinck, convocado para o gabinete do reitor 
Hupp, tomara conhecimento duma comunicao oficial da Inspeco-Geral 
e que vinha assinada por Hollenbock. O Ministrio de Dusseldrfia 
concedia a Stefan Doerinck, por razes de sade, o benefcio duma 
licena ilimitada. Hollenbock terminava a carta desejando ao "doente" 
um pronto restabelecimento e o regresso, igualmente breve, s suas 
actividades na escola de Hellenbrand...
Perante os seus protestos indignados, Hupp respondera:
- Sobretudo, Stefan, no apeles! No te esqueas que vo continuar a 
pagar-te.
- No fao parte desses novos professores do sindicato que s pensam 
no ordenado e muito pouco nos progressos dos alunos a quem no param 
de dizer que todo o mal vem do ocidente e todo o bem dos pases de 
Leste! Continuarei a trabalhar, visto que sou pago, e quando o meu 
substituto vier poder sentar-se num canto, escutar-me e aprender com 
o
que digo!
- Sobretudo, no faas escndalo, Stefan! Beneficias de condies 
excepcionais! Vai fazer campismo com a tua filha...
- A vida da minha filha pertence-lhe inteiramente. Porque ser que 
nenhum de vocs quer admiti-lo?

Era mais uma vez uma conversa de surdos. Furioso, Doerinck fora de 
aula em aula para comunicar aos colegas, espantados, a deciso da 
inspeco.
- Encostam-me  parede. No sei o que pensam disto. Tudo se modificou 
to brutalmente nos ltimos tempos, at as minhas relaes com amigos 
de h vinte e cinco anos que eu julgava conhecer bem... Pacincia! A 
vida  feita de decepes! Venho s dizer-lhes que no espero nada de 
vocs. A coragem e a camaradagem ficaram nos campos de batalha com os 
mortos da minha gerao. Sejam bons egostas, tal como exige a 
sociedade moderna. No ficarei zangado convosco.
Isto era tocar num ponto que era sensvel para muitos dos colegas. s 
perguntas deles, o reitor Hupp s respondia: "Ele no  bom da 
cabea. Foi demasiado marcado pela guerra e nunca conseguiu 
adaptar-se ao mundo de hoje. No nos dvamos conta disso antes 
porque, ento, ele era um dos nossos. Mas bastou uma situao difcil 
como a desta idiotice das curas milagrosas para que os nervos se lhe 
fossem abaixo... Espero que volte rapidamente para ns."
No mesmo dia, Doerinck enviara  inspeco um protesto formal e 
apresentou igualmente queixa por abuso de poder no tribunal de 
M'nster.
- Para um caso desses, conheo o melhor advogado do mundo - rugira 
Erasmus Roemer. -  o doutor Willy Fernhorst. Quando defende uma 
causa todos os seus adversrios fazem nas calas e imploram ao cu 
que Deus o leve para Junto dele. Mas o malandro tem uma sade de 
ferro e o seu motorista conduz impecavelmente, de maneira que Deus 
no os ouve.
Antes do jantar, Corina acompanhou Marius Herbert  tenda para l 
deixarem Molly. Nenhum deles prestou ateno aos rosnidos da cadela, 
que estava sentada no banco de trs, nem ao carro verde com matrcula 
holandesa que seguia o deles. Molly rosnia frequentemente quando 
passava um gato ou um pssaro e Marikje Kersellar seguia a uma tal 
distncia deles que teriam de ter sido prevenidos para a notarem. 
Parou alis, longe da tenda e, protegida pela obscuridade, fez o' 
resto do caminho a p. Instalou-se atrs duma rvore que ficava 
bastante perto da porta e tirou dum xaile uma srie de objectos 
estranhos que pareciam ser bocados de bambu, mas que tomaram forma 
quando ela se ps a junt-los para fazer um tubo de cerca de um metro 
de comprido, que levou  boca para experimentar... A seguir, 
prudentemente, pegou num dardo de ponta afiada munido duma fina pena 
na outra extremidade que servia para estabilizar o seu trajecto 
areo.
"H quanto tempo no mato com esta arma", perguntou-se, manejando com 
precauo a ponta envenenada. Pensou primeiro na sua adolescncia nas 
florestas virgens de Bornu, em casa do seu tio Johan Van Middelhuis, 
que era fazendeiro e a recolhera aps a morte dos pais. Vivia no meio 
de indgenas e acompanhava-os nas expedies de caa. O tio at a 
felicitara no dia em que com a sua zarabatana abatera com uma flecha 
envenenada o seu primeiro javali. Fora h trinta e oito anos. De vez 
em quando, ainda treinava atirando contra alvos improvisados e um dia 
at tinha trespassado um coelho selvagem que se encontrava perdido no 
jardim... O demnio fmea ia morrer logo. Uma mulher  um alvo maior 
do que um coelho e basta tocar-lhe, levantar-lhe a pele em qualquer 
stio...

Esperou pacientemente alguns minutos, escondida atrs de uma rvore. 
No interior da tenda, apagaram-se as luzes e ela franziu as 
sobrancelhas. Iriam passar a noite ali? Mas no, a porta comeava a 
abrir-se. Levou a zarabatana  boca e respirou fundo lentamente, para 
estar pronta a lan-la dum s golpe, com toda a sua fora, como se 
fosse uma exploso.
Marius Herbert saiu primeiro, sendo seguido por Molly, que se ps a 
andar  sua volta, agitando a cauda e ladrando alegremente levantada 
nas patas traseiras. Mas logo parou abruptamente para a seguir se pr 
diante do dono como se quisesse proteg-lo, com os beios 
arreganhados deixando  mostra as temveis presas, ladrando 
furiosamente. os seus grandes olhos avermelhados sondavam a 
obscuridade e o nariz hmido captava um cheiro que a inquietava e que 
era o dum ser humano que no se mostrava...
- Mais um gato! Deixa os pobres bichos em paz! - disse Marius.
A seguir apareceu Corina. Deu um passo para a frente e imobilizou-se 
ao lado de Marius. Era um alvo perfeito, assim iluminada pelo luar.
o dio que encheu de repente o corao de Marikje Kerselaar f-la 
visar um ponto preciso: o rosto demasiado belo de Corina. Era o 
momento! A flecha envenenada voou para o seu objectivo projectada 
pelo ar que a holandesa acumulava h longos segundos nos pulmes.
No mesmo instante, Molly endireitou-se uma vez mais, desta vez na 
direco daquela que aceitara como dona, cobrindo-a totalmente. 
Tratava-se dum mpeto supremo de alegria ou uma misteriosa 
premonio? Quem sabe o que se pode passar naquilo a que se  
obrigado a chamar o instinto de um animal? Sem rudo, o dardo 
enterrou-se-lhe na nuca e l ficou implantado.
O co fez um gemido agudo e a seguir voltou a cair para rolar no 
cho, partindo o cabo da flecha e enterrando ainda mais na carne a 
ponta envenenada.
- Ficaste louca, Molly?  uma pulga? j vou ver isso.
Marikje afastara-se, indo ao encontro do carro com o corao cheio de 
raiva. Um co, um sujo bastardo, desempenhando o papel do destino, 
acabava de fazer falhar o seu plano! Mas porque  que s trouxera um 
dardo? Para no multiplicar o risco por dois? Com os punhos crispados 
sobre o volante, batendo com a cabea contra o pra-brisas, quase 
gritava de furor e decepo. Todo o seu corpo lhe tremia ainda quando 
voltou a pr o carro a funcionar... Quando  que se lhe apresentaria 
outra vez uma ocasio daquelas?
Molly tinha rolado por terra durante alguns segundos, cada vez mais 
lentamente, at acabar por se imobilizar, com as patas repentinamente 
rgidas, numa posio to estranha que Marius, que dera alguns passos 
para a frente com Corina, voltou para trs.
- Ento, Molly, de p! Que brincadeira  essa?
Mas a cadela continuava como que petrificada, com a lngua pendente, 
a cabea apoiada de lado contra o cho e os olhos muito abertos 
reflectindo o luar como dois berlindes.
De repente, Marius compreendeu.
- Molly... Molly! - Primeiro ps-se de joelhos tentando levantar nos 
braos o animal que era a sua nica companhia. Acabou por se estender 
junto dela, desesperado. Ainda estava quente, mas insensvel, sem 
respirar, sem vida. - Molly...

. O seu gemido prolongado gelou Corina. Nunca tinha ouvido um ser 
humano lanar um grito assim. Correu para ele e foi ento que viu a 
cabea da cadela. Marius, de joelhos agarrou-se ento a ela com a 
cabea enterrada no meio dos seus seios, e chorando. Ela s lhe fazia 
festas no cabelo louro que ele cortara - tinha-o adivinhado - s por 
causa dela. Para tentar ficar perto dela. O olhar de Corina fixou-se 
no corpo de Molly, apoiado nas patas desesperadamente rgidas. A sua 
cara de animal tinha uma expresso torturada, e quase humana. Incapaz 
de compreender o que se passava, sentiu os olhos encherem-se-lhe de 
lgrimas e apertou contra si, com mais fora, a cabea de Marius, que 
soluava como uma criana abandonada.
Ficaram muito tempo junto do corpo de Molly, at que ele conseguiu 
dizer:
- Mas o que  que aconteceu? Porque  que ela morreu? - Como Corina 
no dizia nada, acrescentou: - Agora j no tenho mais nada, no 
tenho mais nada no mundo.
- No deves falar assim, Marius. Tens toda a tua vida para construir.
- Com Molly a minha vida tinha um sentido. De manh ela olhava para 
mim e isso queria dizer: "Levanta-te. Faz alguma coisa. Tambm tenho 
de comer. Temos de continuar a viver... "
- Tens o teu talento, a tua arte... Alm disso, no estou eu aqui?
- Tu?... - Fixou nela os seus olhos infinitamente tristes e abanou a 
cabea. - Tu? Tu caste do cu. s inacessvel.
- No te estou a apertar nos braos? No me sentes perto de ti? No 
podes estender a mo e tocar-me? Sou verdadeiramente inacessvel?
- Com a Molly dormi em granjas, em caves de construo inacabada, em 
casas em runas... Mas s estou a dizer loucuras! Se te dissesse: 
"Corina, amo-te", punhas-me na rua e com razo. Rir-te-ias de mim.
- Estou a rir-me? No, ouo-te e choro contigo porque choras um co 
que tambm me pertencia.
Levantou-se. De repente, tambm ele tinha muito frio, apesar de ainda 
estar calor.
- Vamos levar a Molly para dentro da tenda. Enterro-a amanh. - Como 
 que se pode morrer to bruscamente. Um co tambm pode ter um 
enfarte e morrer em segundos? Saltou para mim e a seguir deixou-se 
cair...
Transportaram Molly e estenderam sobre ela o cobertor que sempre fora 
seu. Depois, Marius aproximara-lhe do focinho o prato de plstico em 
que ela gostava de comer. Mesmo em plena luz, nenhum deles dera pelo 
bocado de bambu partido que se encontrava dissimulado no meio dos 
espessos plos da nuca.
- E agora? - disse ele levantando-se.
- Agora vamos jantar a casa dos meus pais, como previsto. A seguir 
chamaremos o doutor Mayer, veterinrio.
- Para qu? No vai poder ressuscit-la!
- No. Mas ficaremos a saber como morreu.  importante. Primeiro 
deitam fogo  granja e a seguir matam a Molly...
Marius sobressaltou-se.
- O que  que ests a dizer?
- Olha bem para ela, Marius... Devem t-la envenenado; o doutor Mayer 
confirm-lo- amanh de manh.
Ele inclinou-se sobre Molly para lhe ver o focinho e a lngua. A 
seguir arranjou o cobertor.
- Malandros! - Voltou-se para Corina. - Vamos deix-los fazer o que 
querem sem reagirmos?
- No. Vamos retribuir cada golpe.

- juntos?
- Sim, juntos.
- Corina, amo-te.
Foi ter com ele. No resistiu quando ele a tomou nos braos. O beijo 
que trocaram ainda era fraterno, puro. Os lbios de ambos no se 
entreabriram quando se tocaram.
Marius conseguiu dizer:
- Se a Molly nos visse... Ela tambm gostava de ti, Corina...
Stefan Doerinck esperava impacientemente pela filha. Marius e ela, 
surpreendidos, viram-no correr ao seu encontro. Ludmila tambm 
apareceu, gritando de longe antes de Stefan poder dizer alguma coisa.
- Temos uma surpresa, Corina! Uma surpresa formidvel!
Mas onde  que estavam. - Sem sequer conceder um olhar a Marius, 
levou a filha para dentro. - Agarra-te bem para no cares de 
espanto. O conselheiro cultural da Embaixada sovitica telefonou-te: 
convidam-te a ires a Moscovo a um congresso. O professor Maxime 
Victorovitch Nerochenko, grande investigador em telecinesia, quer 
ver-te... A carta com o convite oficial chega amanh! - Apertou a 
filha nos braos. - Quero ver a cara destes mdicos daqui, to cheios 
dos seus privilgios! Vem depressa! A tua me fez-nos um jantar de 
festa com uma tarte Alexandre.
Corina voltou-se para Marius, que Doerinck continuava a ignorar 
apesar dos cabelos curtos, para ir com ele at  sala. Ele ainda 
tinha a garganta apertada, mas foi suficientemente forte para no 
desatar a soluar. "Sim, amo-a", pensou. "Oh, meu Deus, faz com que 
isto no seja apenas um sonho..."

Captulo dcimo segundo

Foi durante aquela noite que Marius e Corina voltaram juntos para a 
tenda.
Marius queria ir para l a p, mas Corina estava preocupada com ele. 
Pressentia confusamente que, desequilibrado como estava com a morte 
do "nico ser que gostava de mim", segundo a sua expresso, podia 
levar consigo o cadver da cadela e desaparecer para sempre noite 
dentro.
O quadro que comeara, a tal orgia de cores, ainda no estava 
acabado. A sugesto de Corina tinha feito dele um outro homem, 
libertando, como numa exploso, todas as possibilidades do seu ser. 
Mesmo Stefan Doerinck, depois de o ter visto pintar, confiara  
filha: "Nunca o julguei capaz... este rapaz tem mesmo qualquer coisa 
nas tripas... "
Mas nada  mais frgil do que um artista. De repente, a sua vida 
interior desmoronara-se como um castelo de cartas e tinha voltado a 
ser o que era  chegada a Hellenbrand: um "vagabundo", segundo a 
terminologia oficial. Era um ser de que no se podia conhecer o 
valor, visto ele prprio o desconhecer.
Deix-lo ir-se embora sozinho naquele estado era correr um risco no 
momento em que o convite do conselheiro cultural da Embaixada 
sovitica vinha abrir a Corina, e em consequncia tambm a ele, novas 
possibilidades.
S Erasmus Roemer mostrara algum cepticismo a esse respeito.
- Esperem pela carta oficial. Porque  que a Embaixada telefonou se a 
carta j fora enviada? Este telefonema suprfluo parece-me suspeito. 
E se for obra dum engraadinho? No me disseram que a cidade nunca se 
habituou  presena de Ludinila, a "Russa"?
Doerinck abanou a cabea.
- O homem com quem falei tinha um sotaque tpico dos Russos quando 
falam alemo...
- E eu falei com ele em russo - confirmou Ludmila. - At lhe cheguei 
a dizer: "Tudo isso me parece incrvel, camarada. Como  que em 
Moscovo conhecem a minha filha?" Respondeu: "E como  que pode fazer 
uma pergunta dessas, Ludinila Davidovna? julga que no vemos 
televiso nem lemos os jornais? Tudo o que  cientfico nos 
interessa." No, no pode ser uma brincadeira.
O Dr. Hambach encolheu os ombros.
- Esperemos... Eu acreditarei em tudo isso quando a Cora tiver o seu 
bilhete de avio na mo.
- A nica dificuldade - disse Doerinck - pode provir das condies 
que estabeleci para a viagem: a Ludinila e eu acompanharemos a nossa 
filha. A ele foi muito evasivo: "Vou transmitir o seu pedido..." O 
que nos impressionou a seguir foi que ele chamou "Ludmila Davidovila" 
a Ludinila. Sabem, portanto, que Corina  neta do doutor David 
Assanurian, que morreu deportado na Sibria...
- Isso poder ter consequncias aborrecidas - admitiu Roemer.
- No creio. Nesse caso, eles tambm sabem que o av de Ludinila era 
um cirurgio clebre pela ousadia das suas operaes e um mdico que 
fazia curas espectaculares. Este "Ludmila Davidovna" faz-me pensar 
que tambm sabem que raptei a filha dele h trinta e seis anos e que 
a trouxe para a Alemanha disfarada de soldado da Wehrmacht!

- No somos ns que lhes interessamos, mas sim Corina - disse 
Ludinila com a sua calma habitual. - Agradeamos ao Senhor por nos 
ter dado tal filha.
A morte de Molly, que Marius contou numa voz baixa e por vezes 
sufocada pelas lgrimas, fez-lhes esquecer momentaneamente a viagem a 
Moscovo. Por fim, Roemer exprimiu a sua estranheza.
- O veterinrio tem de vir examinar o co amanh de manh. H a 
qualquer coisa que me choca: a Molly comeou a saltar de alegria e a 
seguir torceu-se com dores no cho e morreu em alguns segundos. j 
tratei de dois casos de assassnio por envenenamento com um exrcito 
de especialistas que no concordavam em nada uns com os outros, a no 
ser em relao a dois pontos precisos: primeiro, um veneno mortal no 
deve ter gosto nem cheiro e a seguir  necessrio um certo tempo para 
que ele aja passando do estmago para o sangue! O que no parece ser 
o caso. Uma coisa  certa: todos os venenos deixam rasto no 
organismo. Um envenenamento nunca , portanto, um crime perfeito. Mas 
tratando-se duma morte to repentina, penso que  de excluir a 
hiptese do veneno.
- No entanto - disse o Dr. Hambach - os servios secretos dos pases 
de Leste liquidam os refugiados com uma simples injeco: a vtima 
morre em alguns segundos. At nos mostraram como podia funcionar a 
arma do crime, que era uma espcie de esferogrfica.
O riso de Roemer quase deitou a sala abaixo.
- Marius Herbert, diz-me a verdade: Molly era um agente 
anti-sovitico, no era? Viram o indivduo suspeito que se aproximou 
dela com uma esferogrfica?
- A Molly era s um co, um pobre co bastardo, to horrvel que 
ningum o queria. Para mim, ela era outra coisa. Um ser como ela 
tinha mais valor do que o resto do mundo,  parte certas pessoas que 
aprecio.
- Obrigado - disse Doerinck secamente.
Um olhar da filha f-lo deitar-se para trs na cadeira em que se 
tinha endireitado. No. Mesmo com a Corina a abrir-lhe os olhos, ele 
no gostava daquele gnero de rapazes, quer tivesse o cabelo curto ou 
no, quer fosse ou no um pintor genial. H muito tempo que o teria 
posto na rua se no fosse o cancro do estmago que a Corina quer 
absolutamente curar, pensou.
- Compreendo perfeitamente o seu desgosto, mas a questo que a morte 
de Molly levanta parece-me ser muito mais importante: foi um 
acidente, ou seja, envenenou-se a ela prpria, comendo qualquer coisa 
ao acaso, ou trata-se dum atentado no gnero do incndio?
- Isso  o que o doutor Mayer nos vai dizer amanh-
Vendo que Marius se dirigia para a porta, Corina levantou-se.
- Aonde vais?
- Tenho de voltar para a tenda. Quem matou Molly pode estar 
interessado em fazer desaparecer o seu corpo. Acabo de pensar 
nisso...
Os seus receios no tinham fundamento. A Molly estava deitada tal 
como ele a deixara, debaixo do cobertor. Depois de ter levantado uma 
ponta deste e contemplado por um instante o focinho agora relaxado da 
cadela, voltou-se para Corina.
- Obrigado por me teres acompanhado. Vou tirar daqui a minha cama e 
passar a noite ao lado dela. Amanh vais ver trinta ou quarenta 
doentes diante da porta. Tens de descansar. Volta depressa para casa.
- No podes ficar sozinho.

- Quantas vezes  que j fiquei sozinho e tive de me aguentar?
- Sim, mas como, em que estado? Tens de acabar o teu quadro, a tua 
primeira obra-prima.
Ele desatou num riso desesperado.
- Vou acab-lo a golpes de faca reduzindo a tela a pedaos.
Para a obrigar a ir-se embora, tirara os sapatos enquanto falava e 
estava agora a desabotoar ostensivamente as calas, deixando-as cair 
at aos tornozelos. Como ele ficou diante dela, de p e em cuecas, 
Corina pde ver pela primeira vez a misria daquele corpo descarnado 
por vrios anos de fome e pela doena. Ao ver que ela o olhava, 
ps-se de novo a rir.
- Pois .  esta a figura que tem o teu pintor sem camisola nem 
calas! Para que uma mulher o tome um dia nos braos ter de ser cega 
ou tero de lhe pagar caro! No asilo de Colnia consegui dormir uma 
vez com uma mulher. S tinha a pele e o osso, como eu. Ao 
esfregar-nos um contra o outro, os nossos ossos fizeram um tal 
barulho de castanholas que acabmos por acordar toda a gente...
- Cala-te. Porque  que mentes?
- Pois . Minto. No entanto, parece bem verdade... Olha bem para mim: 
o que  que vs? Um esqueleto, mais nada...
- Dentro de um ano estars diferente: ter-te-s curado, ters comido 
bem e os teus quadros ter-te-o tornado clebre.
Sem responder, saiu um instante e reapareceu puxando e empurrando a 
cama de campanha que disps entre Molly e a divisria. Sentou-se nela 
com as pernas pendentes.
- Boa noite - voltou a dizer.
-  assim que dormes, sem lenis e quase nu?
- Primeiro, tenho dois cobertores e no est frio. Depois, no tenho 
dinheiro para me dar ao luxo de comprar um lenol e um pijama.
- Porque no me disseste?
- Para qu? No vim ter contigo para mendigar, mas sim porque tive a 
louca ideia de poder ser-te til. Queria ganhar dinheiro, imagina. Em 
vez disso, a tua granja incendeia-se e matam a minha cadela. No  o 
que tinha imaginado.
Foi ento que ela se sentou na cama, ao lado dele, tambm com as 
pernas pendentes, olhando a direito sem compreender o que fazia. Pela 
primeira vez, desde h muitos anos - parecia-lhe que era h sculos 
-, um corpo masculino despertava nela um sentimento estranho sem que 
ela tivesse nenhum reflexo de defesa. Com as narinas dilatadas, 
respira sem medo aquele cheiro particular meio a animal de caa, meio 
a feno recentemente cortado, que  o do corpo dum homem. Surgiu-lhe 
de repente a ideia que estava a sentir a mesma irresistvel atraco 
sexual que aqueles insectos que percorrem quilmetros para se unirem 
e apercebe-se com estupefaco que no faz nenhum movimento de recuo 
apesar de ele lhe ter passado o brao  volta da cintura e de estar a 
sentir a mo dele a agarrar-lhe a anca. Ouve-o gaguejar.
- No sei o que  que se passa comigo... Vai-te embora! Vai-te embora 
depressa!
Aquela voz rouca ecoa dentro dela como numa espcie de sonho.

- No quero que chores toda a noite junto a Molly - ouve-se a dizer. 
Aps um momento, acrescenta: - Vou ficar. Deita-te. Vou contar-te a 
minha vida, a dos Doerinck.  uma longa histria que comea como um 
conto de fadas em Poti, no mar Negro, entre um jovem tenente alemo e 
uma rapariga maravilhosa que se chamava Ludinila. Amaram-se como se 
tivessem deixado de estar rodeados pela guerra e por povos que se 
exterminavam reciprocamente, como se tivesse deixado de existir um 
dio inspirado por ideologias loucas, imperfeitas e, 
consequentemente, falsas, pois eram obra dos homens. Vem, deita-te...
Ele hesita um instante e a seguir estende-se debaixo dos cobertores. 
Com os braos cruzados debaixo da nuca fica imvel durante um momento 
a olhar para o movimento ondulatrio que tem a tela da tenda por cima 
da cabea, sob o efeito do vento nocturno. Estremece quando Corina 
apaga a luz principal, s deixando aceso o pequeno candeeiro que est 
em cima da mesa.
"Qual  o sentido da minha vida? Aqui estou eu deitado numa tenda 
onde repousa o cadver da minha cadela, ao lado da mais linda mulher 
que eu j vi, que est para aqui a falar, certamente sem se dar 
conta, dum pas longnquo e dum mdico que curava os doentes por 
imposio das mos... E de dois jovens que se amaram... E eu s tenho 
de estender as mos se quiser tocar-lhe, atra-la a mim, despir-lhe a 
blusa e fazer-lhe deslizar a saia. Mas no devo faz-lo... 
Deitar-me-ei ento sobre ela e serei, pelo menos uma vez, totalmente 
feliz." Apercebe-se ento de que a sua mo est j a tocar a anca da 
mulher e a subir ao encontro dos seus seios.
- No... isso no... - disse numa voz estranha que j no era a sua.
- Ento fala, continua a contar a tua histria, a do velho mdico 
morto, deportado na Sibria e dos dois jovens que se amaram...
Mas ela no diz nem mais uma palavra, pois ele, deitando-se de lado, 
libertou a outra mo, que veio pousar-se no seu corpo mais abaixo, 
sempre mais abaixo... Ele sente que ela est a ficar cada vez mais 
rgida.
 que comea a apoderar-se repentinamente dela um medo e uma 
recordao atrozes.
- No, no - repete ela -,  impossvel...
- Corina, no podes agir assim. No podes ficar perto de mim, 
falar-me do amor dos outros e recusares-te a mim...
Tinha-lhe pegado na mo e guiava-a quase  fora ao encontro do seu 
sexo em ereco. Estupefacto com a felicidade que o invadia, 
apercebeu-se de que os longos dedos dela, que admirava desde o 
primeiro dia, se abriam e fechavam  volta do seu membro. Ele ousou 
beij-la: tinha a cabea inclinada para trs', os olhos fechados e a 
sua boca era um simples trao vermelho.
- Amo-te - murmurou - Amo-te perdidamente.
Agora as suas mos estavam a levantar-lhe a blusa, descobrindo-lhe os 
seios duros, nus, com os bicos espetados, tal como os sonhara. A sua 
cara procurava todas as reentrncias daquele corpo, aspirando 
simultaneamente o odor da pele quente e lisa e dos lbios que se 
entreabriam, no, que se abriam completamente, transfigurando aquele 
rosto que se apresentava ainda mais maravilhoso. No sentiu os punhos 
que lhe batiam nas costas quando a sua boca tocou os bordos dum 
abismo hmido nem as unhas que se lhe enterravam nos
ombros. Nem sequer se apercebeu de que ela resistiu de novo, 
desesperadamente, quando ele a guiou para debaixo dele.
Mesmo assim, teve a impresso de que de repente ela se abandonava 
completamente.

Sim, durante alguns minutos, ela fizera tudo o que podia, lutando, 
no contra ele, mas contra uma recordao horrvel. Deus queira que 
aquilo no se reproduza, pensara para consigo mesma, tentando 
afast-lo, batendo-lhe, arranhando-o, mordendo-o. No, aquela coisa 
horrvel, no! No podia acontecer com Marius o que se passara na 
primeira e ltima vez em que amara.
Chamava-se Holger Bemau. Estava no quinto ano de Medicina. Iam  
mesma aula de Anatomia, que se passava  volta duma mesa de 
dissecao, junto a bacias onde estavam partes de cadveres 
mergulhados em formol. Tinham-se olhado e tinham voltado a ver-se 
naquela mesma noite. Ele beijara-a longamente quando a levara a casa. 
Era um rapaz grande, bonito e de ombros largos. Era do tipo 
desportivo, feliz por estar vivo, sorria francamente e tinha um corpo 
esplendidamente musculado. Corina teve a impresso de que aquele amor 
a encheria de felicidade at ao momento em que algo de 
incompreensvel os separara.
Foi na noite em que, por fim, ela aceitara acompanh-lo at ao seu 
quarto de estudante. Beberam champanhe e danaram, abraando-se cada 
vez mais,  luz das velas. Tudo aquilo era poesia e romantismo... Mas 
no prprio momento em que, depois de terem cado sobre a cama de 
casal, ela ia conhecer a felicidade suprema e se sentia cheia de 
ternura e de reconhecimento por aquele que lhe estava a revelar o 
amor, ouviu-o lanar um grito horrvel. Ele caiu no cho ao 
afastar-se dela. Levantou-se a correr em direco ao grande espelho 
do guarda-fatos e ps-se a examinar as costas.
- As tuas mos queimaram-me, Corina. Tive a impresso de que estavam 
a espetar-me um ferro rubro nas costas.
A seguir, sentara-se numa cadeira, longe dela, e olhara-a 
horrorizado, abanando a cabea e gelado de terror.
- Meu Deus, o que  que tens nas mos?... Isto nunca me aconteceu... 
Isso no  normal...
Ela tinha ficado deitada, nua, envergonhada, mas olhava-o com olhos 
secos, detestando de repente as mos e todo o seu corpo, e, 
sobretudo, aquela fora que conseguia curar doentes mas que a 
impediria, sem dvida para sempre, de ser uma mulher como as outras. 
Esforara-se por representar.
- Que disparate! As tuas costas no tm nada! Como  que queres que 
eu te tenha queimado com as mos?
- Queimaste-me - repetiu ele.
Como ela encolhia os ombros, ele correu para o lavabo, onde molhou 
uma grande toalha em gua fria que ps a seguir sobre os ombros e as 
costas. Depois foi sentar-se perto dela e ps-se a olh-la com olhos 
de espanto.
- Mas ainda sinto uma espcie de queimadura nos stios onde puseste 
as mos. O que  que se passou?
Continuar a mentir, para qu? Com a cabea baixa, respondeu:
- No sei...

Depois daquela noite, tudo se modificou entre eles. Ela evitava 
Holger ao ponto de se esconder cada vez que o via  espera dela  
porta da faculdade. Quando, apesar das precaues tomadas, se deixava 
surpreender, encurtava as conversas. Quando ele lhe telefonava, cada 
vez com mais desespero, respondia por monosslabos.  noite passava 
longas horas encolhida na cama. Mordia at ao sangue aquelas mos que 
odiava. Mergulhava-as longamente em gua fria e a seguir em gua 
quase a ferver, como se desejasse puni-las. Mas j estava convencida 
da inutilidade de tudo o que fazia: nunca poderia ter uma vida normal 
de mulher.
Como ele continuava a persegui-la, um dia esbofeteou-o 
paulatinamente, por duas vezes, sem razo, sem uma palavra, diante de 
todos os colegas. Nunca conseguiu esquecer o seu olhar de espanto, a 
sua expresso perturbada, a interrogao muda daquele homem que 
ferira cruelmente. Depois, voltara lentamente as costas e 
desaparecera para sempre.
Naquela mesma noite, sentada na banheira com um escalpelo na mo, 
tinha pensado em matar-se. Bastaria cortar-se as veias dentro de gua 
quente. Sabia que era a morte mais misericordiosa que existia: 
bastava um nico golpe profundo em cada pulso para sentir uma fadiga 
cada vez maior que acabaria por se transformar em desmaio insensvel 
 medida que o seu corpo se dissolveria num espao infinito.
O pai salvara-a ao bater  porta.
- Corina, o doutor Hambach est c. Desces?
Ela respondera, controlando a voz.
- No sei, papuchka. Acabo de entrar no banho... ainda vou demorar um 
bocado.
- Acho que ele no se sente muito bem: imagina que nem sequer aceita 
o seu habitual copinho de aguardente.
Ela encontrou foras para rir.
- Ento deve ser, efectivamente, muito grave - respondera.
Pela primeira vez na vida, ia sentir um estremecimento nos dedos ao 
olhar para o velho mdico da famlia, o tio Ewald, como ela lhe 
chamava. Ele trazia consigo, tinha de repente a certeza disso, um mal 
sub-reptcio qualquer que ela no conseguia distinguir: era uma 
espcie de irradiao negra inimiga da sua. S mais tarde, quando j 
conseguira ultrapassar aquela crise e resolvera abandonar os estudos 
de medicina para criar um atelier de tecelagem, comeou a lutar 
contra a prostatite do velho.
A partir daquela altura, Corina passou a afastar todos os homens que 
lhe faziam a corte. Ao primeiro beijo, ficava como que petrificada, 
pensando nas mos e no fogo devorador que se escaparia dela caso se 
deixasse arrastar pelo fervilhar do seu sangue e perdesse o controlo 
do seu corpo. Ela via os homens afastarem-se, estupefactos, vexados, 
perguntando-se como  que uma mulher de aspecto to sensual podia 
tornar-se num bloco de gelo assim que lhe tocavam.
Por isso, vivera com medo de si mesma at quele dia. Agora estava 
deitada numa cama demasiado estreita, com os olhos fixos na tenda que 
oscilava por cima dela sob o vento. Marius ainda conservava as pernas 
entrelaadas nas dela. Pusera-se de lado, respirando 
descompassadamente. Com a cabea quase vazia, balbuciava palavras de 
amor que ela julgava nunca mais voltar a ouvir. No, no tinha 
gritado: "Ests a queimar-me... As tuas mos queimam. " No a 
afastara para a seguir se pr a correr como um louco em todas as 
direces  procura dum pouco de gua para apagar o fogo que ela 
sentia nela e que o tinha devorado no stio em que as suas mos se 
tinham agarrado a ele. Aquelas costas to magras que tinha 
parcialmente sob os olhos, e que ainda estava a acariciar, 
apresentavam, no entanto, traos de sangue: os que as suas unhas lhe 
tinham deixado na carne.
- Rasguei-te a carne - disse ela docemente.
- No senti nada.

- Nada?
- Nada, a no ser a maior felicidade do mundo.
Ela insistiu ainda incrdula.
- Mas bati-te, arranhei-te e mordi-te. Tens os ombros em
sangue.
- No senti nada, nada a no ser a ti, a ti... E um grande medo, medo 
que j tudo tivesse acabado e que amanh, quando amanhecer, acorde a 
dizer: "Evidentemente, era um sonho... "
Agarrou-se a ela com tal fora que quase a fez perder o flego. Como, 
por sua vez, tambm ela o apertou nos braos, sentiu que aquele corpo 
frgil e ossudo se distendia lentamente.
Foi assim que adormeceram: com os ombros misturados 
inexplicavelmente, to colados um ao outro que nada os poderia 
separar.
No dia seguinte, o Dr. Mayer recebeu-os e examinou o cadver de 
Molly.
- O co foi envenenado,  claro. - Com as mos enluvadas abriu o 
focinho do animal e ficou a olhar longamente para o interior como 
para adivinhar o seu segredo. - Mas para determinar qual  o veneno, 
se isso lhes interessa,  preciso uma autpsia. Para isso, existe em 
M'nster o Instituto de Medicina Veterinria... Vale verdadeiramente a 
pena?
- Quero saber como  que ela morreu. Aos olhos de todos, ela no 
passava duma rafeira, mas era a minha cadela.
- Muito bem, vou convosco a M'nster. Este assunto interessa-me.
Ao levantar-se, acariciou as costas do animal. Mas, bruscamente, 
interrompeu o gesto. Inclinando-se de novo sobre o cadver com ar 
intrigado, ps-se a afastar os plos da nuca. Estava um bocado de 
madeira enterrado na carne. Com a ajuda duma tesoura e da pina, 
abriu e cavou a ferida para conseguir extrair um bocado de madeira em 
bico que mostrou a Marius e a Corina, mudos de surpresa.
- Sobretudo, no lhe toquem! Foi, sem dvida, isto que matou o vosso 
co: uma ponta de flecha, de flecha envenenada, ficou-lhe enterrada 
na nuca...
- Mas  impossvel - gaguejou Marius.
- No viram nem ouviram nada?
- No. A Molly estava a brincar e a saltar  nossa volta e de repente 
caiu.
- Porque a flecha envenenada a atingiu. Trata-se de um Veneno que age 
incrivelmente depressa.
Marius, com as lgrimas nos olhos, estava mais abatido do que nunca.
- Mas no  possvel, Cora. Numa pequena cidade como Hellenbrand, 
quem  que pode pr-se a atirar flechas envenenadas? E, ainda por 
cima, para assassinar a Molly! Mas porqu?...
O rosto de Corina tornou-se impenetrvel, rgido como mrmore.
- Tem de ser a Polcia a encarregar-se do sucedido e a proceder  
busca do veneno. Vamos levar o corpo de Molly. Os nossos caros 
hellenbrandeses vo ter mais uma vez motivo para se espantarem!

Ao ir chamar Corina para o pequeno-almoo, Stefan Doerinck verificou 
que ela no passara a noite no quarto. Evidentemente, no tinha de 
maneira nenhuma nem o direito nem a inteno de se meter na vida 
privada da filha: com trinta anos, era ela a nica responsvel pelos 
seus prprios actos. Quando desceu, no pde deixar de dizer  
mulher:
- No sei o que  que achas, mas pensar que um indivduo daqueles 
anda a dormir com a minha filha d-me ideias de assassnio!
- Quando nos conhecemos, pensaste em como  que o meu pai podia 
reagir  ideia de eu estar apaixonada por ti, Stefan?
- No  a mesma coisa. Eu era oficial...
- Eras um inimigo. Os Alemes tinham atacado o nosso pas e morto 
milhares de compatriotas nossos. Tinham destrudo cidades e aldeias e 
praticado a poltica da terra queimada de cada vez que eram obrigados 
a recuar... O que  que achas que a minha famlia e os vizinhos 
pensaram de mim, que tinha o dever de te enterrar uma faca nas 
costas? Chamaram-me todos os nomes. E o que  que eu respondi na 
altura? Dizia-lhes: "Enforquem-me, ento, camaradas. No posso 
comandar o meu corao: amo-o..." A Corina tambm tem o direito de 
amar quem quiser.
- No passa de um falhado a morrer de fome. E est doente: tem um 
cancro!
- Eu tambm j tive um cancro. A Corina vai, provavelmente, conseguir 
cur-lo. E no interessa que ele venha ou no a ser um grande pintor: 
amam-se. Isso  que  importante. Ou achas que eu sabia o que me 
esperava aqui na Alemanha, neste pas horrvel que nos tinha querido 
destruir? Mas eu amava-te e isso chegava-me como futuro. Anda, toma 
este pozinho: est dourado e torrado como gostas.
Duas horas depois, a vivenda dos Doerinck foi palco dum acontecimento 
decisivo.
o cadver de Molly estava estendido no banco de pedra do jardim. 
Roemer tinha telefonado  Polcia judiciria de M'nster e reclamado a 
presena imediata do inspector Hellwig. Na sala de estar estava o 
presidente da cmara, que olhava aterrado para a ponta envenenada.
- Deve evitar-se a todo o custo que os media se apoderem desta 
histria! j esto a imaginar os ttulos: "Em Hellenbrand h ndios 
que matam com flechas envenenadas... "
Mas a voz atroadora de Roemer sobreps-se s suas queixas.
- Isso  que  preciso, abafar o caso! Faa como o Hellwig, que se 
recusava a c vir por se tratar de um co. V l que mudou de ideias 
ao ouvir o resto... - Parou ao ver a expresso de Corina. Foi 
sentar-se no mesmo sof que ela e disse-lhe numa voz to suave quanto 
possvel: - Pois , trata-se duma tentativa de assassnio! Era a ti 
que queriam matar, Corina. O co, ao saltar para ti,  que recebeu a 
flecha no teu lugar. Foi um atentado criminoso.  disso que se 
trata...
Duas horas depois, chegava o inspector Hellwig acompanhado por um 
toxiclogo da Faculdade de Medicina. Hellwig, muito rgido, 
inclinou-se diante de Roemer e foi imediatamente examinar o co. O 
toxiclogo examinou com a lupa a ponta partida e a seguir pousou-a de 
novo com precauo, abanando a cabea.
- No h engano possvel - declarou em voz firme. - Trata-se da ponta 
de um dardo igual aos que utilizam vrias tribos primitivas. E est 
envolta num veneno fulminante. Para ser mais preciso, trata-se da 
ponta de um projctil de zarabatana.
O presidente da cmara tinha ficado muito plido.
- Se isto se souber, vai ser horrvel.

- Mas o meu dever  telefonar para o Comissariado de Munster - disse 
Hellwig.
- O caso deve seguir o seu curso...
- Tanta coisa por causa de um co!
- No, senhor presidente. Por causa de uma tentativa de assassnio de 
um ser humano! Ao saltar, o co apanhou com a flecha que se destinava 
 vtima que se pretendia assassinar. Proponho-lhe que nos 
desloquemos ao local do crime para procedermos a uma reconstituio 
dos factos. Quer seguir-me?
A reconstituio que ia ser feita diante das autoridades competentes 
eliminou todas as dvidas, mesmo as do presidente da cmara. s onze 
horas da manh, a polcia local mandara evacuar o parque de 
estacionamento. O comissrio Blinker, que viera de M'nster, tomara 
conta do caso. Aceitara, a pedido do presidente da cmara, erigir um 
muro de silncio  volta da tenda. Os doentes e os jornalistas, estes 
ltimos misteriosamente avisados, tinham protestado. Finalmente, o 
inspector Hellwig, enervado, acabara por gritar: "De que  que 
andamos aqui  procura? Mas v-se logo: dum trevo de quatro folhas.  
noite j corria o rumor de que tinham identificado "irradiaes 
telricas" no terreno, o que explicava a cura espontnea de vrios 
doentes com a qual Corina Doerinck nada tinha a ver!
- O pblico no tem o direito de ser informado? - exclamou um 
jornalista quando lhe estavam a fazer notar a idiotice da notcia.
Antes de se afastar, o inspector Hellwig, como que apanhado pelos 
remorsos, aproximou-se de Roemer.
- Senhor presidente, posso comunicar-lhe confidencialmente uma 
informao que lhe pode ser til, visto ter a ver consigo? Abriram 
uma dezena de queixas contra Corina Doerinck, por exerccio ilegal da 
medicina e por ataque fsico... Uma das queixas provm da sua mulher.
- Da minha mulher! - exclamou Roemer. - Digamos antes que  Willbreit 
quem se esconde por trs dela. Que pena j no se infligirem castigos 
corporais nos nossos dias! S no Oriente, senhor presidente...
- Pois , Hellwig. L, o Sol levanta-se sempre mais cedo do que aqui!
- E agora, o que  que vamos fazer? - perguntou o presidente da 
cmara, abanando a cabea com ar desolado, a seguir  partida de 
todas as entidades para M'nster.
Stefan Doerinck parou de distribuir os clices que estava a encher de 
aguardente.
- Tm de se identificar os nossos concidados que viveram em pases 
onde se utilizam zarabatanas.
- No h nenhum, Stefan. Posso garanti-lo. Se houvesse algum que 
tivesse trazido uma zarabatana para Hellenbrand, tinha-a levado logo 
ao albergue para a mostrar triunfalmente!
Sabes como  que somos! 
- Em todo o caso, algum quis matar a minha filha comuma flecha 
envenenada...
O atentado falhado contra Corina constituiria para sempre um 
mistrio. Marikje Kerselaar, cada vez mais desequilibrada, morreria 
alguns meses depois no meio dum sofrimento atroz pensando 
incessantemente na advertncia daquela que considerara sua rival. 
Muitos outros acontecimentos iam produzir-se... E, em primeiro lugar, 
a viagem a Moscovo.

Apesar das dvidas de Roemer e do Dr. Hambach, a carta oficial 
anunciada pelo conselheiro cultural da Embaixada chegara. Vinha 
redigida num alemo correctssimo. O convite
era formulado pela Academia das Cincias de Moscovo e pelo grupo de 
investigao sobre a telecinesia e a energia bioplasmtica. O Prof. 
Mxime Victorovitch Nerochenko, presidente do grupo, congratulava-se 
antecipadamente com o facto de ir conhecer a Sra. Corina Doerinck e 
por com ela ir iniciar uma colaborao regular.
- So estes os factos - comentou Stefan Doerinck depois de ter lido a 
carta em voz alta. - Que dizes, Cora?
- Aceito, evidentemente! - Puxou para si Ludmila e Stefan inclinando 
a cabea para trs como sempre fazia quando se sentia verdadeiramente 
feliz. - Escreve hoje mesmo  Embaixada, papuchka. Vou... vamos... a 
Moscovo!

Captulo dcimo terceiro

O Tupolev sovitico vindo de Fraricoforte preparava-se para aterrar 
no aeroporto de Cherernetievo, que servia Moscovo.
Estava um lindo dia de Outono: o cu tinha reflexos de ao azul e um 
sol esbranquiado, sinais certos dum rude Inverno. O ar j estava 
como que gelado e os Moscovitas comeavam a preparar as suas roupas 
almofadadas, as botas forradas e a proteger as frestas das janelas 
com fitas adesivas.
O avio, que estava adiantado, descreveu um largo crculo por cima da 
cidade, esperando que a pista ficasse livre. Via-se
a fita prateada do Moscova e as cpulas douradas das igrejas do 
Kremlin. A universidade parecia um bolo da primeira comunho. Tambm 
se via a cintura verde da floresta... Da sua janela, Corina 
contemplava aquela grande cidade moderna que sempre se apresenta 
envolta num certo mistrio. Pouco a pouco, a Rssia sovitica 
abrira-se aos turistas mas com precaues, como arrependida, s 
oferecendo aos visitantes itinerrios escolhidos que transformavam, 
por exemplo, a Sibria, terra de lgrimas, num paraso do futuro.  
um pas imenso, infinito, mais rico do que qualquer outro do mundo, e 
persegue, no entanto, um nvel de vida que parece escapar-lhe... 
Rssia eterna e impenetrvel. E so to raros os ocidentais que 
desejam compreend-la.
Ludmila e Stefan nunca tinham tentado l voltar. "No se deve tentar 
o destino", dizia Ludmila cada vez que amigos deles, depois de 
passarem trs semanas de frias no mar Negro, evocavam o luxo e o 
conforto do hotel, a brancura das praias, as excurses, os concertos, 
e, sobretudo, a cordialidade extraordinria do povo. Ela acrescentava 
ento: "No lhe mostraram o edifcio do KGB em Poti. Creio que seria 
l que me instalariam se eu quisesse rever a cidade em que nasci... "
Ludmila, um pouco rgida, pensava no que se ia passar a seguir  
aterragem. O controlo dos passaportes era, diziam, particularmente 
rigoroso. Ela imaginava um polcia a folhear atentamente o seu, com 
as sobrancelhas franzidas e a levantar em seguida os olhos para ela, 
dizendo numa voz neutra de funcionrio: "Ludmila Davidovna? Faa o 
favor de me seguir... "
Tambm ela estava sentada junto duma janela, exactamente atrs de 
Corina, e apertava nervosamente a mo de Stefan. Atrs dela, o Dr. 
Hambach, com um mapa de Moscovo aberto sobre os joelhos, tentava 
reconhecer o desenho das grandes artrias. Marius Herbert reagia 
doutra maneira. Com os olhos fechados e a nuca assente no encosto da 
cabea, tentava dissimular a Corina a que ponto se sentia enjoado. 
Que ideia, beber sete copos de vodca desde a partida de Francoforte! 
No conseguia digerir a perna de frango que comera e o resto de 
jantar tambm no estava a descer l muito bem...
Finalmente, o aparelho, inclinando-se sobre uma das asas, comeou uma 
descida mais rpida. A mo de Ludinila crispou-se pela ltima vez na 
de Stefan. A aterragem teria lugar dentro de alguns minutos. Para a 
tranquilizar, Stefan bateu-lhe suavemente no brao a sorrir.

Durante trs semanas, a Embaixada sovitica em Bona tinha mostrado 
duas faces. s vezes uma face reservada e, mais frequentemente, a 
duma compreenso extrema. Corina tinha imposto desde o princpio as 
suas condies: "Durante a minha estada na URSS serei acompanhada 
pelo meu pai, Stefan Doerinck, pela minha me, Ludmila Davidovna 
Doerinck, pelo meu noivo, Marius Herbert, e pelo meu mdico pessoal, 
o Dr. Ewald Hambach, de Hellenbrand. Naturalmente, as pessoas que me 
acompanharem pagaro as suas despesas e no custaro, portanto, nada 
s autoridades soviticas... "
A resposta de Moscovo chegara por teletipo: naturalmente, a Sra. 
Doerinck e a sua comitiva eram bem-vindos  URSS, onde todos seriam 
considerados como convidados da Academia das Cincias.
- Isto deve tranquilizar-te, Ludmila - disse Doerinck. - Sou de 
opinio que devemos tentar a nossa sorte.
- E eu tenho uma proposta a fazer - exclamara Roemer. Longe de sentir 
dores atrozes, como previra Willbreit, estava a ficar cada vez 
melhor. Tinha perdido cinco quilos, coisa de que ningum se apercebia 
ao v-lo, dada a massa de que era constitudo, mas sentia-se muito 
menos oprimido. Conformava-se corajosamente com os menus que Ludinila 
lhe confeccionava segundo as indicaes da filha. Nem sempre o fazia 
sem protestar e prometia em voz alta que assim que estivesse curado a 
sua primeira visita iria para o seu amigo Krautkramer, o restaurador 
do lago de Hilitrup, para saborear um assado de veado bem entremeado 
com toucinho que faria acompanhar por uma garrafa do melhor Borgonha. 
Curado, e tendo realizado tal sonho, seria o mais feliz dos mortais.
- Proponho que se faa o maior barulho possvel nos media a propsito 
da viagem de Corina a Moscovo. Primeiro, Porque assim ser ainda mais 
difcil para os Russos fazerem desaparecer um de vocs? Por outro 
lado, para barrar a ofensiva dos Willbreit e companhia...
A primeira carta de Corina para a Embaixada dera lugar a uma 
discusso severa entre ela e o pai. Ao ler o nome de Marius Herbert, 
Stefan teve um sobressalto.
- Porqu, ele? Porque  que esse indivduo iria a Moscovo?
- Primeiro, no  um indivduo no sentido que atribuis  palavra. A 
seguir, vais ter de te habituar  sua presena. Tenho trinta anos, 
pai. No te esqueas disso. - No elevara a voz, mas o facto de lhe 
chamar "pai" em vez de papuchka f-lo compreender que era intil 
insistir. J por duas vezes se tinha visto confrontado com aquele 
"pai" categrico. A primeira vez fora quando ela abandonara os seus 
estudos de medicina, pois ele nunca tinha suspeitado qual era a causa 
da perturbao evidente de que a filha sofrera durante a poca que se 
seguira ao drama da sua primeira noite de amor com Holger Bernau. 
Mais tarde, uma nova confrontao tinha-os separado quando ela 
renunciara aos seus estudos paramdicos para abrir um atelier de 
tecelagem, o qual, apesar das profecias pessimistas do pai, tinha 
conhecido um grande sucesso. 
Acabara simplesmente por renunciar a compreender a filha, mas cada 
vez que via Marius o corao apertava-se-lhe. Era-lhe impossvel 
queixar-se a algum. Roemer via o problema numa ptica puramente 
quantitativa. Batendo com as mos uma na outra, o gigante exclamara:
- S vs o exterior das calas do rapaz e no o que h l dentro! 
Isso, Stefan, s a Corina  que pode avaliar! Por isso, deixa-os em 
paz.
O Dr. Hambach respondera-lhe docemente:

- Stefan, mostraste-me fotografias tuas de quando ainda eras muito 
novo. Antes de usares uniforme. Parecias um esqueleto. O uniforme 
deu-te melhor aspecto,  certo, mas mesmo assim ainda me espanta que 
um anjo como a Ludmila tenha podido abandonar tudo para te seguir e 
nunca mais te tenha deixado...
Foi tambm antes da viagem a Moscovo que Willbreit conseguiu, por 
fim, contactar com Roemer. Foi o Dr. Hambach quem atendeu, como 
sempre. Para chamar a ateno de Roemer, sentado um pouco mais longe 
a beber gua mineral morna, exclamara:
- Ah! Bom dia, professor Willbreit, ia telefonar-lhe, gine: qual  a 
evoluo da sua queixa ao procurador?
- Normal - respondeu secamente o cirurgio, vexado com o tom de troa 
do mdico de aldeia. - Posso falar com o Erasmus?
Willbreit conseguiu ouvir o rugido do amigo: "Diga a Willbreit que se 
v lixar para outro stio!"
Como Willbreit estava habituado ao vocabulrio do gigante, no se 
zangou.
- Pergunte-lhe simplesmente se  demasiado cobarde para me responder.
Roemer s precisou de tempo para se levantar dum salto e arrancar o 
aparelho das mos do mdico, antes de gritar:
- Ouve c, meu dissecador, meu fornecedor de cadveres...
- No! Tu  que me vais ouvir: a Elise quer o divrcio! Vai ser um 
escndalo terrvel...
- Quer o divrcio? Cantem, passarinhos! Celebrem o Senhor! Pe-te a 
pau, no v a Lydia seguir-lhe o exemplo!
-  de ti que se trata, Erasmus... Como  que ests do ponto de vista 
da sade?
- Formidvel! O resultado das ltimas radiografias  excelente!
- Como?
- O doutor Meersmann, de Billerbeck, caiu de rabo: "Confesso", disse 
ele, "que nunca vi uma coisa assim. Nunca teria acreditado."
No extremo do fio, Willbreit ficou mudo, como que abatido pela 
notcia que j receava, alis. Desde h dias que a imprensa se tinha 
apoderado dum escndalo que, sem lhe dizer pessoalmente respeito, o 
perturbara profundamente: dois operados tinham acabado de apresentar 
queixa contra um conhecido professor de Medicina. Um colega deste 
ltimo ousara escrever: "De dois em dois anos, um motorista de txi 
tem de se fazer examinar do ponto de vista fsico e psquico por ser 
responsvel pela vida dos que transporta. Mas um cirurgio, at mesmo 
um simples mdico, pode operar at aos noventa anos sem ningum 
exigir que controle os reflexos... "Willbreit sentiu o sangue 
afluir-lhe s tmporas: imaginava Roemer diante do tribunal, agitando 
vitoriosamente as radiografias. E j havia o cancro de Ludinila 
Doerinck...
- Preciso de te ver, Erasmus.
- Deixa-me em paz!
- Convido-te a ir ao Krautkramer...
- Ainda no. Eu  que te convidarei, Thomas, quando a Corina me 
disser: "Agora ests completamente curado."
A voz de Willbreit de repente ficou quase queixosa.
- Volta ao menos para casa, Erasmus. Tens uma bela moradia, um 
magnfico parque, um lago cheio de peixes, mveis antigos, uma 
coleco de porcelana de Saxe...

- Tudo comprado com o dinheiro do meu sogro. Mas tambm sei que ele 
tambm comprou a situao social que a minha posio dava  filha. 
Agora que ela andou a dormir com um baro hngaro, tudo  diferente: 
pode vir a ser baronesa! Por isso, toca a avanar com o divrcio!  
essa a verdade, Thomas. Mas eu no lhe criarei dificuldades. Comeo 
j a dar grandes passeios: meu Deus, como a nossa terra  bonita! E 
penso em todos os albergues que me esperam na berma das estradas, 
cada um com as suas especialidades, a sua cerveja, os seus vinhos e 
os seus digestivos. Se soubessem o que perdem ao ficarem nos vossos 
sales! Sei agora o que  uma pessoa endireitar-se no cimo duma 
colina e olhar para as quintas dispersas  sua volta, para os campos, 
para as florestas. A vida  bela, Thomas, tranquila...
- Pois, fora o incndio da vossa granja e as flechas de zarabatana...
- E vais manter a tua queixa contra Corina?
- O caso segue o seu curso...
- Ento tem cuidado contigo, querido Thomas. Estarei l no tribunal e 
vou esmagar-te. E no venhas mais dizer que s meu amigo: 
consideraria isso um insulto!
Desligou to violentamente que o Dr. Hambach chegou a pensar que a 
mesinha em cima da qual estava o aparelho ia quebrar-se.
- Pergunto-me se essa ruptura  sensata - disse Hambach suavemente. - 
Eis-te com mais um inimigo!
- Nunca! O Willbreit  mais sensvel do que uma actnia! Imagino-o 
sentado  secretria, desesperado. E a vida dele com a mulher  um 
drama, pois ele pe sempre a cirurgia  frente... Na realidade,  um 
pobre tipo cheio de vaidade profissional  qual chama tica!
Sem que Willbreit soubesse, um dos seus amigos mdicos tambm se 
sentia reviver, tal como Roemer, depois de ter visitado sete vezes 
Corina no maior segredo. O Dr. Wewes, o grande especialista de 
doenas pulmonares, tinha ido consultar um dos seus colegas a 
Hamburgo. Passara uma semana na clnica de Eppendorf para ser 
examinado a fundo, com o pretexto de que um especialista de M'nster o 
prevenira de que sofria dum princpio de enfisema do fgado. Quando 
os exames terminaram, Wewes suspirou aliviado: Corina tinha-o curado. 
S ento mostrou ao mdico de Hamburgo o dossier que trouxera de 
M'nster e onde se preconizava a ablao imediata da vescula biliar, 
insistindo sobre a provvel explicao que lhe podia advir do facto 
de o pncreas ser atingido.
o professor hamburgus sobressaltara-se. Visivelmente nervoso, 
comeara a analisar todas as radiografias e os resultados das 
anlises. A seguir, abanara a cabea.
- No observmos nada disto em si. No compreendo. Nenhuma medicao 
pode eliminar um enfisema do fgado em to pouco tempo. Caro colega, 
na altura tinha mesmo de ser operado, mas agora j no. Isso deixa-me 
absorto...
No dia seguinte,  noite, o Dr. Wewes entrou em casa dos Doerinck 
pela porta das traseiras, como sempre fizera. Stefan Doerinck viu-o 
do primeiro andar e desceu imediatamente, resmungando para prevenir a 
filha.
- Ali est um que eu no suporto. Faz-se tratar por Corina, mas  
demasiado cobarde para a defender.

- A cobardia  humana - disse Roemer, que acabava de ouvir Ludinila 
explicar-lhe a receita do chachlik caucasiano que se encontrava a 
preparar. No estava muito disposto a pensar noutra coisa e tinha 
tomado a deciso de interromper a dieta. - Mesmo que tenha de atrasar 
a cura por um ms, esta noite s pararei de comer quando estiver 
prestes a rebentar.
Corina recebeu o Dr. Wewes no escritrio do pai.
- Afirmar-lhe o meu reconhecimento, Corina,  demasiado pouco. Que 
posso fazer por si? Como queimaram a sua casa, precisa talvez de 
ajuda financeira? Se assim for, disponha de mim  vontade.
- No preciso de dinheiro. Toda a gente mo quer dar, mas, eu no 
aceito.
- Faz mal. Mande construir uma clnica, eu ajud-la-ei. No quer? Mas 
o que  que faz dos donativos que as pessoas lhe deixam em cima da 
mesa quando se vo embora?
- No lhes toco. Marius, o meu noivo, faz as contas.  dinheiro que 
no me pertence. Verdadeiramente, no sei que fazer dele...
O Fisco no podia deixar de se meter na questo. As denncias 
annimas no tinham faltado.
 Dez dias antes da partida de Corina para Moscovo, logo de manh 
muito cedo, apareceram dois senhores muito bem educados da parte do 
inspector das Finanas de M'nster.
Explicaram que a sua interveno se devia a certas queixas, e 
nomeadamente a uma do sindicato dos mdicos, que acusavam Corina 
Doerinck de exercer medicina ilegalmente. Quem exerce uma profisso, 
seja ela qual for, tem de declarar os seus ganhos e de pagar 
impostos.
Corina e Marius estavam sozinhos na tenda. Se bem que impressionados 
com o aspecto de Corina, os dois homens no perderam um instante.
- H mais de quatro meses que no faz nenhuma declarao de volume de 
vendas...
- No tenho volume de vendas: o meu atelier, que era a minha casa, 
ardeu, como devem saber. Agora vivo com os meus pais e com as minhas 
economias.
- E da sua actual profisso de... curandeira.
Tinha utilizado um tom to irnico que Marius Herbert teve vontade de 
levantar o inspector da cadeira e de o pr fora a pontaps.
- No levo dinheiro pelos meus tratamentos.
- Mas ns sabemos de fonte segura que os seus clientes lho do.
- Deixam-no em cima dessa mesa, mas eu no o aceito.
Os dois homens trocaram um olhar satisfeito: aquela m contribuinte 
acabava de confessar o delito.
- Senhora Doerinck, segundo o direito alemo, se os doentes lhe 
deixam dinheiro, tem de o declarar mensalmente e de pagar impostos 
sobre ele.
- No. - Antes que ela pudesse continuar, Marius interveio. - Os 
doentes deixam o dinheiro em cima da mesa. A senhora Doerinck no lhe 
toca e nem sequer o v. Todas as noites sou eu que o conto. Depois, 
inscrevo a soma num caderno e fecho o dinheiro neste armrio que aqui 
est.
- O que faz com o dinheiro no nos interessa. Tem de pagar impostos 
em relao ao que recebe.

- No - disse Corina acenando com a cabea. - os presentes no podem 
constituir um volume de negcios. E tambm no podem considerar que 
fazem parte dos meus rendimentos, visto que os no aceito. Este 
dinheiro no me pertence. Nunca lhe toquei e nunca lhe tocarei.
Uma vez mais, Marius parecia divertir-se muito.
- No fundo, trata-se de objectos perdidos, cujo montante  esta 
manh, de... - tirou um caderno do bolso - sessenta e dois mil e 
quatrocentos marcos.  incrvel, no ? Esta noite o montante ser de 
cerca de sessenta e cinco mil marcos...
- Sessenta e cinco mil marcos! - repetiu aflito um dos inspectores. - 
Era mais do que ele ganhava por ano. E aquela soma provinha dos 
truques de prestidigitao daquela mulher que se queria subtrair aos 
impostos! Pagaria caro aquela injustia revoltante. - Tem de pagar 
impostos sobre o montante global dessa soma.
- No tenho, visto ela no me pertencer. Pertence aos doentes, que 
podem vir reclamar o que  deles a qualquer momento. Ns no o 
queremos. Recusamos estes donativos.
os dois homens comeavam a enervar-se visivelmente.
- Toma-nos claramente por dois imbecis - interveio o mais velho. - 
Faz mal. Como recebeu dinheiro, est sujeita ao imposto.
. - No recebemos nenhum dinheiro, repito.  contra a nossa vontade 
que as pessoas que aqui vm depositam esse dinheiro em cima dessa 
mesa. Guardamo-lo at que venham reclam-lo.
Mas nunca o faro!
 exactamente o que receio - disse Marius a rir. - Ento, o que  que 
fazemos? Digam-nos os senhores, que so especialistas.
- Podemos confisc-lo.
- Estamos perfeitamente de acordo, mas, naturalmente, s em presena 
da imprensa e da televiso, para que todos os doentes saibam que o 
Estado vai confiscar-nos o dinheiro.
- Isso  uma ameaa?
- Uma ameaa? Mas ns vivemos num pas democrtico onde qualquer acto 
oficial deve ser levado ao conhecimento do pblico. Se esto assim 
to seguros da vossa posio jurdica, porque  que reagem dessa 
maneira  eventual presena dos representantes dos media?
Era a primeira vez que os dois funcionrios se encontravam perante um 
caso daqueles: a presena duma soma importante que ningum queria. 
Evidentemente, os "objectos perdidos" pertencem ao Estado, mas s ao 
fim dum certo prazo e caso ningum os reclame. Aquele caso podia 
originar muito baru lho, o que a administrao das finanas deseja 
quase sempre evitar.
- Posso ver o dinheiro? - perguntou o mais teimoso, que se tinha 
apresentado ao princpio como "inspector principal Vackrnulier".
Sob a sua vigilncia, o acompanhante contou e voltou a contar o 
dinheiro.
- A soma corresponde exactamente ao montante inscrito no caderno: 
sessenta e dois mil e quatrocentos marcos - admitiu, contrafeito. 
Depois de ter tomado nota, achou por bem fazer uma observao 
incendiria. - Mas nada nos prova que uma parte do dinheiro deixado 
em cima desta mesa no tenha servido para gastos pessoais, pnhamos 
duzentos marcos por dia, e que s tenha inscrito no caderno o que 
ficava.
Marius Herbert dirigiu-se para a porta e abriu-a completamente. No 
se podiam enganar quanto ao significado do seu gesto.

- A est uma frase que no esqueceremos, pode crer. Acuse-nos, pois, 
de roubo, de fraude fiscal e de tudo o que quiser...
- Trata-se apenas de uma ideia que nos pode surgir - disse o 
inspector principal, j arrependido da sua ltima frase.
De cara fechada, os dois homens saram da tenda e voltaram para o 
carro, bem decididos a tudo fazer para dar uma lio queles dois 
loucos que julgavam poder opor-se  omnipotncia da administrao 
fiscal alem. Tudo est arranjado para que, no fim, seja ela a ter o 
brao mais longo. O Fisco nunca se esquece de quem tiver ousado 
resistir-lhe nem que tenha sido s por uma vez e com razo manifesta.
 tarde, Roemer apareceu como habitualmente em casa dos Doerinck. 
Depois de ouvir Corina contar o que acontecera, cedeu uma vez mais ao 
seu mau temperamento e, resfolegando como um paquiderme furioso, 
precipitou-se para o telefone e pediu a administrao das finanas de 
M'nster. Como o director se encontrava ausente, o subdirector afirmou 
que no estava ao corrente de nada e que, alis, os dois funcionrios 
em questo no tinham ainda feito o seu relatrio.
- Isto vai ter implicaes judiciais, garanto-lhe! - exclamou Roemer. 
Quando se acalmou, teve de reconhecer que a sua interveno s 
poderia ter um efeito negativo. - No nosso mundo ocidental existem 
duas divindades todo-poderosas - declarou solenemente -: o corpo 
mdico, a "cidadela", como lhe chamou um romancista clebre, e, ainda 
mais poderosa, a administrao fiscal.
O professor Van Meersel telefonou da Holanda para felicitar Corina 
por causa do convite para ir a Moscovo. Estava entusiasmado. Em 
primeiro lugar, porque, na sua opinio, Corina ia ser recebida pelos 
melhores investigadores do mundo em matria de parapsicologia, e 
tambm porque queria confirmar o desaparecimento total do seu tique 
nasal, subsequente ao tratamento dispensado pela rapariga. A seguir 
acrescentou algo que dissipou as ltimas dvidas de Corina. Marikje 
Kerselaar, a curandeira que mantinha relaes estreitas com a famlia 
real da Holanda, havia sido vtima, h quatro dias, de uma crise de 
nervos tal que fora hospitalizada de urgncia. Tinha perdido 
completamente a razo. Um exame geral permitira descobrir que sofria 
duma doena incurvel: um mieloma mltiplo...
Corina ficou muda por um instante, com a cabea inclinada para a 
frente.
- Ento foi ela quem c veio - acabou por dizer. - No me disse o 
nome. Mas preveni-a de que sofria de um mieloma mltiplo...
-  fenomenal. - exclamou Van Meersel.
No podia ver que Corina, com os lbios fechados e de repente muito 
plida, respirava dificilmente pelo nariz.
- Acontece-me cada vez com mais frequncia ter medo de mim mesma - 
acabou por explicar. - Quase poderia pensar que lhe roguei uma 
praga...

Inconscientemente, estava a relacionar este facto com a anlise 
realizada no laboratrio da Polcia judiciria de Wiesbaden: j se 
conhecia qual era a natureza do veneno muito raro que matara Molly. O 
tubrculo quase desconhecido de que provinha s crescia em Bornti e 
em Sulawesi, nas antigas Celebes: os indgenas ainda h poucos anos 
se serviam dele para ervar as flechas de zarabatana. No seu 
relatrio, o inspector Hellwig confessava a sua incapacidade para 
chegar a uma concluso. Nenhum habitante de Hellenbrand tinha algum 
dia possudo uma zarabatana ou viajado at  Indonsia. Ele Pensara 
naturalmente numa das numerosas pessoas vindas de fora, por exemplo 
da Holanda, antiga metrpole de Bornu e das Celebes. Mas a maior 
parte dos doentes de Corina preferiam manter o anonimato. Esta pista, 
 partida incerta, conduzia portanto a um impasse.
No entanto, as colunas de carros e de autocarros cheios de doentes 
continuavam a convergir para Hellenbrand, que se transformara numa 
verdadeira Meca. As pessoas vinham de todos os cantos do pas, da 
Blgica, da Holanda e at de Frana, onde, com grande alarde de 
publicidade na imprensa, os homens de negcios organizavam viagens 
com tudo incluido: a viagem, a estada e a visita gratuita  
curandeira das "mos irradiantes"! Estes "turistas" voltavam para 
casa com uma bebedeira de cerveja forte, aguardente e vinhos de 
Mosela e do Reno, vomitando e cantando como loucos no autocarro. 
Entretanto, tinham chegado de Moscovo as confirmaes oficiais. Todas 
vinham ao encontro dos desejos de Corina. Os passaportes, decorados 
com magnficos carimbos soviticos - os Russos adoram todas as 
espcies de carimbos, sentindo por eles uma espcie de venerao -, 
tinham-lhes sido devolvidos pelo correio quase ao mesmo tempo que os 
bilhetes de avio. Stefan Doerinck tinha-os agitado alegremente na 
mo...
- Partida de Francoforte dentro de seis dias, num avio da Aeroflot! 
Finalmente, vou voltar a Moscovo. Em mil novecentos e quarenta e dois 
fiz parte da tropa que l ficou bloqueada pela neve, sem comida de 
nenhuma espcie e sem roupa de Inverno apropriada. Na altura s vi de 
longe as grandes avenidas de Moscovo. Foi preciso esperar at 
agora...
Roemer deu uma gargalhada sarcstica.
- Os Russos so muito susceptveis em relao a isso, meu caro. Se 
estivesse no teu lugar, no me arriscaria com esse tipo de 
brincadeiras.
- Sabem perfeitamente que, sendo um simples tenente, acabei por fazer 
as vezes de chefe de batalho durante a nossa longa retirada e que me 
conduzi corajosamente. Tambm sabem que a Ludinila  filha do doutor 
Assanurian, que era conhecido pelas suas curas milagrosas, dom que, 
Deus l sabe como, foi transmitido a Corina. Contam estabelecer, 
graas a ela, que a energia bioplasmtica  um fenmeno hereditrio 
de ordem gentica e, consequentemente, que  natural e imortal 
enquanto houver seres humanos, visto fazer parte deles, bastando 
apenas defini-lo e cultiv-lo...
No tinha de se preocupar com licenas, visto j lhe terem concedido 
uma por razes de sade. Ao princpio julgara poder lutar contra 
aquela deciso que lhe continuava a parecer indita: durante trs 
dias seguidos, o reitor Ferdinand HUPP - "tremendo nas calas", dizia 
Doerinck - vira-o chegar de manh e dar aulas como se nada se tivesse 
passado.
- A tua teimosia vai deitar-te a perder - gemera. - j te deste conta 
de que s pago para no fazeres nada? Isso  o sonho de tantos...
- No sou nem um oportunista nem um mendigo. Ganho honestamente o meu 
dinheiro - respondera.

Ao quarto dia, no entanto, renunciara a lutar. Despediu-se dos alunos 
como se nunca mais voltasse. Estes, sabendo pelos media, tal como os 
seus pais, que ele partia em breve para a URSS, tinham-se levantado 
de repente e entoado o velho hino alemo: "Aquele a quem Deus concede 
os seus justos favores,  enviado por Ele atravs do vasto mundo!... 
"
Ao deixar a escola quase chorara... Vinte e seis anos de leais 
servios recompensados desta maneira, pensara, indignado. Quando 
entrou em casa, instalou-se na cadeira habitual e estendeu as pernas.
- Os velhos ces deixam-se morrer diante do lume - declarou 
melancolicamente.
Apesar de lhe oferecerem os bolos mais tentadores, no tinha comido 
nada em todo o dia, deixando a Roemer e ao Dr. Hambach o cuidado de 
limpar os pratos.
Agora, tudo estava longe: o avio sobrevoava as florestas sombrias de 
Cheremetievo, por trs das quais fica o aeroporto de Moscovo. No 
momento em que as rodas do aparelho tocaram o solo russo, Ludimilla, 
como teria feito a sua me, fez um grande sinal-da-cruz: "Senhor Deus 
e tu, Virgem Maria, protejam-nos!"
A travagem dos reactores fez vibrar o enorme avio que continuou a 
andar durante algum tempo diante dos importantes e majestosos 
edifcios nos quais se destacava em enormes caracteres cirlicos o 
nome da cidade: MOSKVA.
Estava em Moscovo.
Se tinham pensado serem os nicos a terem de se debater contra a 
burocracia sovitica, depressa se desenganaram. Em nenhum pas do 
mundo h talvez tantos "estatutos especiais".
Enquanto os outros passageiros se dirigiam para o balco de controlo 
dos passaportes, viram dirigirem-se-lhes dois indivduos sorridentes, 
de fato claro, acompanhados por um Oficial da milcia encarregado, 
evidentemente, de eliminar o mnimo contratempo imprevisto.
- Doutor Latichev... Doutor Boganorov. - Apertaram a mo de Ludmila e 
inclinaram-se simplesmente diante de cada um dos membros da sua 
"comitiva". - Sejam bem-vindos a Moscovo. Trazem convosco um tempo 
esplndido. Ainda ontem chovia.  bom sinal.
Tudo isto foi dito num alemo quase sem sotaque. A seguir, o Dr. 
Latichev acrescentou algumas palavras que confirmaram a boa impresso 
que Stefan Doerinck j tinha.
- No tm de se preocupar com os passaportes, com a alfndega ou com 
as bagagens. Vamos esper-los numa sala  parte onde estas senhoras 
podero tomar refrescos e estes senhores provar a nossa vodca...
- A est uma boa ideia - exclamou o Dr. Hambach, enquanto Marius, 
que sentiu um novo enjoo, pensou: "Se a Rssia  isto,  aqui que vo 
ter de me enterrar." Convidado por uma piscadela de olhos discreta 
dum dos cientistas, o oficial de milcia, que abandonara subitamente 
o seu ar de indiferena, esboou um largo sorriso s  ideia de 
participar nas libaes.

A pequena sala para onde os tinham feito entrar estava mobilada com 
poltronas estofadas e com mesas. S tinha porta, pensou Doerinck, e 
tinha de se carregar num boto que accionava uma campainha para ser 
aberta do exterior: reconhecia a desconfiana tradicional tipicamente 
russa a manifestar-se aqui mesmo em relao a hspedes de honra. 
Enquanto o Dr. Latichev tratava das bebidas trazidas de fora por uma 
hospedeira da Aeroflot, o Dr. Boganorov, sentado entre Corina e 
Ludmila, conversava amavelmente.
- O professor Nerochenko espera-a com impacincia, Corina Stefanovna. 
Tudo o que lemos sobre si nos espantou verdadeiramente. Ouviram falar 
na nossa Djuna Davitaclivili?
- Na Alemanha escreveram-se numerosos artigos sobre ela.
- Ela tambm  de origem caucasiana, como voc, Ludmila Davidovna. 
Nasceu em Kuban, que  uma pequena aldeia cujos habitantes a iam 
visitar para serem tratados quando ela era ainda uma criana. Agia 
por instinto, tal como voc, por imposio das mos, Corina...
Interrompeu-se um instante para beber um golo enquanto Marius se 
sentia de novo bastante mal.
- Aos catorze anos partiu com toda a famlia para Tflis, essa grande 
cidade. Queria ser uma jovem como as outras, de maneira que trabalhou 
primeiro como operadora de filmes e a seguir como criada de caf. Mas 
o seu dom no a deixou descansada. Teve de se ocupar de ginstica 
mdica num hospital. Um camarada importante f-la vir at Moscovo, 
onde se tornou clebre perante o mundo inteiro.
- Na Alemanha diz-se que esse camarada importante era o prprio 
Brejnev.
- isso  aquilo a que chamamos a pura propaganda capitalista. Djuna 
recebe actualmente os doentes em casa e trabalha igualmente nos 
hospitais...
- No nosso pas - interveio amargamente o Dr. Hambach - organizaram 
uma verdadeira caa s bruxas contra Corina. Os mdicos so seus 
inimigos fidagais.
-  curioso... quando o renome de Djuna se espalhou em todo o pas, 
foram justamente as maiores autoridades do campo mdico que acolheram 
e estudaram com entusiasmo aquele conjunto de fenmenos. Toda a gente 
participou! O Instituto de Fisiologia, o grupo de investigao do 
professor Alexandre Gurvitch, o instituto do clebre professor 
Venjamine Puchkine, os investigadores Iviuchine e Grichenko, de 
AIma-Ata, e a equipa do professor Navinov, director do Congresso para 
a Investigao Parapsicolgica de Moscovo. Todos se interessaram pelo 
caso de Djuna e puseram os seus dons  prova. Ns vamos agir da mesma 
maneira consigo, Corina Stefanovna. Os melhores cientistas do 
professor Nerochenko j esto reunidos. No fique muito orgulhosa, 
mas, segundo o que sabemos de si, eles contam obter resultados ainda 
superiores aos que obtiveram com Djuna...
- No sinto nenhum orgulho. Eu prpria no compreendo o que se passa 
em mim. Os meus dedos "vem" o mal e a irradiao que de mim escapa 
destri as clulas doentes, restabelecendo equilbrio geral do 
organismo.

-  exactamente isso. - O Dr. Boganorov encheu outra vez os copos. - 
Vo ajudar-nos a convencer os que negam os poderes misteriosos do ser 
humano. At agora s descobrimos partes isoladas do edifcio. A 
realidade deve ultrapassar tudo o que imaginamos. O tempo, por 
exemplo, que j era considerado relativo por Einstein, tem de nos 
comunicar os seus segredos. Sabemos que o tempo pra  velocidade da 
luz e que os relgios ficam imveis. Mas a uma velocidade superior  
da luz, o tempo deveria, consequentemente, recuar. O homem nunca 
poder penetrar nesse universo de seis dimenses, mas o seu esprito, 
o seu campo de foras, sim!  por isso que precisamos de si! Voc  
um dos elementos do imenso mosaico duma nova viso do universo.
- Peo desculpa - disse Stefan Doerinck -, mas acho isso to 
fantstico que no consigo acreditar.
O Dr. Boganorov fez um grande sorriso.
- Ningum o censurar por duvidar. Essa  uma viso normal, humana, 
da realidade.  preciso ter um crebro como o do professor Nerochenko 
para conceber dimenses diferentes daquelas em que vivemos.
Vinte minutos depois, todas as formalidades estavam cumpridas. Um 
miliciano trouxera todos os passaportes e anunciara que as bagagens 
se encontravam j na mala de um carro que se encontrava sob a 
vigilncia de um empregado da Aeroflot, visto que na Rssia tambm 
podem desaparecer malas e ainda mais quando tm a qualidade das que 
chegam do ocidente...
- O Hotel Metropol, onde ficaro hospedados, fica na Praa Marksa, no 
corao de Moscovo, mesmo em frente do Teatro Bolchoi. Vo ficar 
voltados para o Kremlin. - o Dr. Latichev lanou um olhar cmplice a 
Stefan Doerinck e ao Dr. Hambach. - E o hotel tem um ptimo 
restaurante. Ficaro satisfeitos.
o trajecto foi feito numa grande limusina Volga, com matrcula 
especial, atravs de florestas e de campos semeados de datchas, 
atravessando largas estradas. Em cada canto estavam polcias a 
orientar o trnsito.
Pararam um instante diante do monumento comemorativo da agresso 
alem. Doerinck teve vontade de dizer que, um pouco a sul daquele 
stio, tinha vivido alguns dias enterrado numa cratera de obus, 
pensando no sobreviver  crueldade do Inverno. Tinha visto os 
membros gelados de vrios dos seus camaradas quebrarem-se como se 
fossem vidro. Enterrado no seu buraco de homem e envolto em dois 
cobertores, tinha pensado pela primeira vez que a Rssia, protegida 
pela sua vastido e pelo seu clima, nunca seria vencida...
A seguir surgiram ao longe as torres de Moscovo, brilhando ao sol - 
Ludmila agarrou uma vez mais na mo do marido: sim, era Moscovo, o 
corao da sua ptria de antigamente.
No hall do Hotel Metropol, luxuoso palcio construdo entre 1899 e 
1903, aproximou-se deles a sorrir uma bela rapariga discretamente 
maquilhada. Tinha cabelos de um louro veneziano e estava vestida com 
um tafficur azul-claro duma elegncia ocidental. O Dr. Boganorov 
ps-lhe a mo no ombro.
- Aqui est Soya Igorovna Glebova, que ser a vossa intrprete 
durante toda a vossa estada. Ser o vosso anjo bom.
- E, naturalmente, o nosso anjo-da-guarda - murmurou o Dr. Hambach a 
Doerinck.
Com a voz peculiar das mulheres eslavas, capaz, teria dito Roemer, de 
agarrar pelas tripas qualquer homem normal e de fazer esquecer por um 
momento que era uma encarnao do KGB, a rapariga, sorridente, estava 
j a ocupar-se deles.
- Bem-vindos a Moscovo. Podem dar-me os passaportes, por favor? No 
vo precisar deles durante a estada...
- Aqui temos o pas da liberdade! - resmungou o Dr. Hambach 
procurando o seu no bolso do casaco.
Apesar de tudo, aquele primeiro contacto com Moscovo era fascinante.


o Prof. Maxime Victorovitch Nerochenko no tinha nada o aspecto de 
ser um grande cientista de reputao internacional. Pequeno, tinha 
uma enorme barriga e passava sem parar a mo por cima da calva como 
se quisesse alisar uma cabeleira ausente. Tinha as bochechas 
avermelhadas dos diabticos. Os seus colaboradores citavam a sua 
filha Tatiana, assistente do Instituto Biolgico de Odessa. Dois anos 
antes tinha acompanhado o pai numa viagem de estudo  Papusia. Como 
lhes faziam notar que a tribo onde se encontravam tinha praticado o 
canibalismo at h poucos anos, Tatiana declarara: "O pai nunca se 
arriscaria a acabar a sua vida como assado, j que eles o teriam 
antes conservado como fbrica de acar... "
O primeiro encontro de Nerochenko com Corina deu-se no bar do Hotel 
Metropol. Ela viu-o dirigir-se-lhe com os braos estendidos e 
gritando num alemo com horrvel sotaque:
- AH! C ests! Natural ainda mais bonito que fotografia! D mo 
direita. - Com efeito, pegou-lhe na mo direita, que ps entre as 
suas e que no mais largou, como se quisesse sentir a irradiao que 
dela se escapava. Tambm podia ser que estivesse simplesmente  
procura das palavras para construir mais uma frase. Por fim, disse: - 
Tu melhor que Djuna!
- V-la-ei? - perguntou Corina, interessada.
O Dr. Latichev libertou o chefe da obrigao de falar alemo por 
cortesia.
- Djuna est de frias em Ialta, na Crimeia.
- Partimos amanh para Tcheliabinsk - anunciou alegremente 
Nerochenko. - L, Urales, muita neve... Muito frio.
O Dr. Latichev explicou imediatamente.
- O Instituto do professor Nerochenko foi recentemente transferido 
para Tcheliabinsk, onde teremos bem melhores as possibilidades de 
trabalho. O Instituto possui o seu prprio
avio e Moscovo s fica a mil e oitocentos quilmetros.
- No compreendo o que dizem - interveio Corina
creio tratar-se das experincias que me esperam.
O Prof. Nerochenko dirigiu-se subitamente a Ludmila,
desta vez em russo.
- A senhora tambm me interessa!
- Sou apenas a me de Corina, jospodna, professor.
- A me de Corina  a filha do doutor David Assanurian.
Que homem! Poderia ter ajudado a transformar o mundo. Infelizmente, 
as autoridades, imbecis, mandaram-no para a Sibria, onde acabou por 
ser morto por um marido ciumento
cuja mulher andava a tratar! Que desperdcio! Mas ele continua a 
viver em si e na neta. Encontra-se  nossa volta, noutras dimenses.
A um canto do bar, Marius, que no tocara no seu
copo de aguardente do Cticaso, lutava contra o sono e as plpebras 
fechavam-se-lhe sem ele querer.
- Porque  que este rapaz tambm veio? - perguntou
Nerochenko a Ludmila.
- Sofre dum cancro do estmago e a minha filha est a
trat-lo. E ama-o. Ele pinta. Tem muito talento.
- Nunca sentiu em si uma fora secreta, Ludinila Davidovna?
- Nunca. Mas sempre tive a curiosa impresso de viver
com o meu pai, como se ele fosse entrar por aquela porta.
Nunca pensei que ele estava realmente morto. Penso muitas
vezes que a porta se vai abrir e que ele vai aparecer com o seu 
grande sobretudo de Inverno, que lhe tapava as pernas at
aos tornozelos, e dizer-me na sua voz profundamente baixa:
"Quem  que vai trazer-me imediatamente uma boa chvena

de ch? Tenho uma destas sedes... "
- E  o que se passa, na realidade. Neste momento ele est sentado 
perto de si a olhar para a neta. Vamos viver dias extraordinrios em 
Tcheliabinsk!
- O que  que ele diz? - murmurou o Dr. Hambach a Stefan Doerinck.
- Digo-te depois...
Seguira apaixonadamente a conversa da mulher com o professor e, num 
russo que devia ser to execrvel como o ale' mo de Nerochenko, 
perguntou:
- Que espcie de experincias  que fez, professor?
- Cientficas. s vezes perigosas. Mas interrompemos sempre a 
experincia antes de a situao se tornar crtica.
- Com efeito, trata-se das experincias que vamos fazer consigo - 
explicou o Dr. Latichev.
- Bem me parecia. - Endireitou-se e, a sorrir, estendeu a mo a 
Nerochenko. - O que quer que exijam de mim, f-lo-ei! Quero descobrir 
quem sou.
Durante a noite telefonaram para Hellenbrand. Para sua grande 
surpresa, Roemer, que na ausncia deles vigiava trs casas - a dos 
Doerinck, a do Dr. Hambach e a tenda
respondeu instantaneamente:
- O Willbreit est ao meu lado. A sua conscincia profissional 
incitou-o a acorrer assim que soube que j c no estavam. Estamos a 
embebedar-nos com gua mineral para festejar uma feliz novidade: o 
Thomas trouxe-me a cpia do pedido de divrcio da Elise: 
descrevem-me, utilizando termos jurdicos que apreciei imenso, como 
um objecto de terror! Naturalmente, no vou protestar. Outra coisa: 
falei com o procurador. Disse-lhe que se queria cobrir-se de ridculo 
s tinha de instruir com o maior cuidado e a maior objectividade as 
queixas apresentadas contra Corina. Quanto a este pobre Willbreit, 
ficou completamente abatido ao comprovar que estou curado. Para o 
convencer, fiz-lhe uma demonstrao de rock durante a qual, 
infelizmente, parti uma das tuas cadeiras que me estava a servir de 
par, Stefan.
- E que mais? - perguntou Corina a rir.
- Ora bem, a vaga de doentes diminuiu, mas continuam a vir. Perguntam 
se a Corina Doerinck no deixou um leno, Um bocado de tecido ou de 
papel em que tenha tocado! Ento, pus-me a distribuir bocados de 
papel! Diante de mim, houve uma mulher que ps cuidadosamente um 
entre os seios, que muito admirei.
- Isso no lhe vai fazer mal e, por vezes, at se obtm milagres - 
disse Corina.
- Felizmente que Willbreit no nos ouve, Corina. Cairia da cadeira. 
Que acham de Moscovo?
- Ainda quase no vimos nada.
- Estive a h trs anos. A propsito, esqueci-me de dar uma boa 
morada ao amigo Hambach: o nmero nove da Uliza Babiegoirodski...  
uma coisa grandiosa, s com raparigas trtaras!
Corina desligou.
Manifestamente, tudo estava a seguir o curso habitual em Hellenbrand.
A bela Soya Igorovna j estava  espera deles na sala do 
pequeno-almoo. O Dr. Hambach mostrou-se imediatamente bastante 
caloroso. Parecia ter rejuvenescido vrios anos.

- Se as manhs de Moscovo comeam assim, como  que ser o resto do 
dia! - declarou.
- Apanhamos o avio cerca do meio-dia para Tcheliabinsk - anunciou 
Soya Igorovna. - Mandei vir um autocarro para vos proporcionar uma 
primeira impresso da cidade e a seguir vamos procurar o professor 
Nerochenko  Academia das Cincias.
Depois de uma rpida volta pelas grandes avenidas de Moscovo, tiveram 
de ir ter com Nerochenko, antes mesmo de terem podido visitar o 
Kremlin.
Nerochenko transbordava de energia. Beijou Corina e Ludmila nas duas 
faces, apertou Doerinck, Marius e o Dr. Hambach nos braos e bateu 
com a ponta dos dedos na face de Soya Igorovna.
- Est tudo pronto. Vamos depressa ao Instituto Fisiolgico. Vamos 
proceder s primeiras medies. Vo conhecer um membro do Conselho 
Supremo, o camarada Katoviev. Vai cumpriment-los em nome do partido.
- E o passeio que estava previsto em Moscovo?
- Moscovo est aqui h muito tempo e ainda c estar dentro de dois 
mil anos. Reencontr-lo-emos, pois. Mas o tempo voa e ns ainda no 
sabemos ret-lo. Moscovo pertencer-vos- assim que terminarmos o 
nosso programa.
Os dois grandes Volgas rodaram a par at um edifcio moderno que se 
estendia  sombra da Universidade de Lornonosov, que  a mais alta do 
mundo. A sua torre central tem duzentos e quarenta metros. Tambm  a 
maior do mundo: tem vinte e oito andares de anfiteatros, de salas, de 
laboratrios e de bibliotecas.
 entrada do instituto, esperavam-nos vrios investigadores de bata 
branca que cumprimentaram Corina como se ela fosse uma amiga de longa 
data. Nerochenko, infatigvel, quase corria diante de toda a gente em 
cima das suas pequenas pernas ao longo de imensos corredores 
impecavelmente limpos. Foi o primeiro a entrar numa grande sala onde 
se encontravam vrios instrumentos. Corina s reconheceu logo dois: 
um cardigrafo e um encefalgrafo.
- No percamos tempo com discursos preparatrios - disse ele. - Vou 
proceder consigo s mesmas medies que fiz a Djuna... Minha querida 
Corina Stefanovna, desaparea por trs deste biombo. Vai l encontrar 
um fato de banho. Pensmos em tudo: deve estar-lhe bom.
Soya traduziu em voz baixa, o que fez dizer ao Dr. Hambach:
- Os nossos camaradas soviticos associam decididamente a cincia ao 
prazer dos olhos.
Com efeito, fez-se silncio quando Corina reapareceu ao fim de alguns 
minutos num encantador biquini que realava o seu fsico 
verdadeiramente espantoso. Marius teve at um sobressalto de cime, 
que no ousou exprimir.  como se estivesse nua, pensou. Naquele 
momento uma cmara de televiso comeava j a filmar; um aparelho com 
trs microfones orientveis estava a ser colocado por cima da cabea 
de Corina, pronto a registar os comentrios de Nerochenko e qualquer 
outro rudo eventual. Soya Igorovna continuava a traduzir em voz 
baixa as palavras do Prof. Nerochenko. Stefan congratulava-se por ter 
alimentado o seu conhecimento do russo com a ajuda de Ludmila.
- O tecido do biquini de Corina  de pura l neutra e, portanto, no 
apresenta nenhuma reaco electromagntica. Agora, Corina, lave as 
mos.

Um dos assistentes guiou Corina, que era seguida pela cmara e pelos 
microfones, at uma grande bacia repleta com uma soluo leitosa com 
um forte cheiro a tomilho, na qual ela mergulhou os braos at aos 
cotovelos. Imvel, deixou-os mergulhados at Nerochenko fazer sinal. 
O pequeno russo tinha ficado repentinamente muito grave. Sem se 
secar, Corina sentou-se a seguir diante duma longa mesa onde estavam 
dispostos vrios copos, uma caixa de fsforos, uma bssola, alianas 
de ouro, trs bolas metlicas de diferente grossura, algumas folhas 
de papel e duas tigelas de porcelana. Corina abanou mais uma vez as 
mos para lhes tirar o excesso de humidade.
- As mos de Corina esto a partir de agora completamente isoladas - 
disse de repente Nerochenko. -  impossvel que contenham uma s 
partcula magntica ou de utilizar um subterfgio qualquer. Corina 
Stefanovna pode agora utilizar a irradiao da sua energia psquica 
para criar um campo de foras que vai pr em movimento os objectos 
que vem sobre a mesa e que esto aparentemente mortos. Digo 
"aparentemente", porque, na realidade, tudo vive, tudo se compe de 
tomos e de molculas que se recompem constantemente. Tudo  
movimento em ns e  nossa volta, s que os nossos olhos imperfeitos 
so incapazes de distinguir. A psicocinesia (chamem-lhe 
biocomunicao ou campo bioplasmtico, se quiserem) permite 
concentrar subitamente a energia psquica...
Interrompeu-se bruscamente para se dirigir a Corina em alemo:
- Est bem?
Corina aquiesceu com um aceno de cabea. H j um momento que tinha 
fechado os olhos. A seguir, dum s lance, sentiu-se como se se 
tivesse expandido s dimenses mltiplas dum infinito indescritvel. 
No momento em que abriu de novo os olhos, o copo mais prximo dela e 
que ela viu primeiro rebentou com um barulho seco. Na sala houve uma 
espcie de estremecimento. O Dr. Hambach engoliu a saliva, Doerinck 
sentiu a cara a arder. Soya Igorovna, crispada, olhava fixamente para 
a mesa e todos ouviram Marius Herbert murmurar algumas palavras 
indistintas.
Continuou-se. Como Corina se tinha inclinado para a frente com os 
braos estendidos, as alianas de ouro comearam a deslizar sobre a 
madeira lisa da mesa. Depois chegou a vez das tigelas de porcelana, 
das folhas de papel, que se voltaram, e da agulha da bssola, que, 
descontrolada, se ps a girar nove vezes de seguida. E as bolas de 
metal elevaram-se no ar, a dois centmetros da mesa. Era claro que 
nenhum dos que a se encontravam tinha j assistido a um espectculo 
daqueles. Nerochenko pegou na caixa de fsforos e esvaziou-a em cima 
da mesa. Os bocados de madeira comearam a mexer-se, a deslizar, a 
elevarem-se e a formarem um monte, obedecendo  fora invisvel que 
os comandava. Para terminar, Corina estendeu mais uma vez as suas 
mos e um grande copo, o maior de todos, desintegrou-se em mil 
bocados como se estivesse carregado com plvora.
Bruscamente, as mos de Corina tombaram-lhe pesadamente ao longo das 
ancas e todos a viram vacilar, prestes a cair. O pai precipitou-se 
para a suster.
- Cigarros, depressa! - gritou em russo.
Um dos assistentes saiu do seu pasmo para gaguejar:
- Mas  proibido fumar.
- Ento  o fim das experincias! - gritou Doerinck.
- Dem-lhe um cigarro, depressa! - ordenou Nerochenko. - Esta 
necessidade de nicotina  em si mesma interessante...

Marius dera tambm um salto na direco de Corina, mas os seus 
joelhos tremiam de tal maneira que teve de se sentar.
-  um assassnio - gaguejou.
Apesar de no esconder a emoo, Nerochenko voltara a ser o cientista 
que s pensa na sua tarefa.
- Devemos agora proceder, sem perca de tempo, a controlos e a 
gravaes diversos; vrios encefalogramas e cardiogramas e, por 
exemplo,  medio da taxa de acar no sangue...
Estava a falar calma e friamente ao microfone, anotando cada 
resultado com palavras simples destinadas ao grande pblico de 
amanh.
- O corao e o crebro esto profundamente perturbados. O corao 
sofre de arritmia e o traado dos encefalogramas testemunha uma 
extraordinria excitao emotiva.  como se a energia misteriosa que 
existe em Corina Stefanovna tivesse necessidade de todas as foras 
fsicas dela para se concretizar. O campo de foras do crebro 
posterior e do crebro anterior diferem geralmente numa proporo de 
trs para um. No caso da Corina Stefanovna Doerinck, o campo de 
foras do crebro posterior  cinquenta e trs vezes mais potente do 
que o do crebro anterior!  absolutamente inacreditvel!  um 
exemplo sem precedentes de energia psicocintica.
O resultado destas primeiras experincias era, portanto, sensacional: 
provavam que a irradiao das mos de Corina no tinham nada de 
fantstico e que se podia medi-la e torn-la visvel com instrumentos 
de fsica apropriados.
Nerochenko, sem j conseguir esconder a emoo que sentia, 
aproximou-se de Corina, que, enrolada em si mesma, estava j a inalar 
o seu terceiro cigarro.
- s excepcional, minha filha. Graas a ti vamos penetrar em 
dimenses que at agora pareciam interditas ao homem. - A seguir, 
dirigiu-se aos operadores. - Naturalmente, suprimam estas ltimas 
palavras: temos de ficar dentro do campo cientfico!
s 15 horas partiram do aeroporto de Vmikovo rumo a Tcheliabinsk. A 
organizao continuava a ser impecvel. Tinham encontrado as bagagens 
j no avio. Soya recuperara os passaportes e o embarque processou-se 
sem controlo. Apenas viram dois polcias que estavam de guarda ao 
avio e que os saudaram amavelmente.
O piloto trazia um uniforme que no indicava a sua categoria. Durante 
o trajecto, Soya Igorovna ia desempenhar com perfeio o seu papel de 
hospedeira.
A trs mil metros de altitude conseguiam ver desfilar lentamente 
florestas imensas, campos sem limites, uma paisagem to depressa 
plana como ondulada, pradarias e estepes, aldeias e pequenos burgos, 
estradas e caminhos que se perdiam ao longe. O conjunto dava uma 
impresso de vazio, de silncio e de solido. S as vias-frreas, 
onde longas serpentes negras pareciam arrastar-se, quebraram aquela 
imobilidade aparente. A seguir a Caz, o avio subiu at quatro mil 
metros e o cho cobriu-se de branco: eram as primeiras neves do 
Inverno.
Corina pousou a mo em cima do joelho de Marius, que estava sentado 
perto dela.
- Tenho de te anunciar uma coisa: no tive o perodo.
Ele olhou-a estupefacto, gaguejando involuntariamente.

- No  possvel. Talvez seja da excitao da viagem ou da mudana de 
clima...
- No...
Do outro lado do estreito corredor, Doerinck inclinou-se para eles.
- O que  que se passa? Esto a ver qualquer coisa de particular?
- No, papuchka. - Ela encostou-se para trs na cadeira com um 
sorriso feliz. - Estou a alegrar-me s de pensar no que se vai 
seguir... Talvez v, finalmente, descobrir quem sou...
No se perde nada em no conhecer Tcheliabinsk.
Em contrapartida, numerosos so os que se lembram de Sverdlovsk, mais 
a norte e mais importante, onde ficava outrora uma das centrais dos 
campos de deportao da Sibria. Ainda hoje  em Sverdlovsk que est 
estabelecida a administrao principal dos Gulags que controla e gere 
os campos penitencirios e os campos de trabalho.
Tcheliabinsk, situada na vertente leste dos Urales, interessa-se 
muito pouco pela sua grande vizinha. Como todas as cidades 
siberianas, compe-se duma cidade nova com unidade
de habitao de estilo oficial sovitico, com ruas largas, um osis 
de rvores com bancos para as pessoas se sentarem, um parque do povo, 
um teatro, um grande nmero de estabelecimentos escolares, uma 
luxuosa casa do povo e um estdio: tudo o que  necessrio para 
satisfazer os habitantes. Tambm h a velha cidade moribunda com as 
suas belas casas de madeira; os frisos esculpidos das portas e das 
janelas, com as cornijas pintadas, cada uma rodeada por um jardim 
separado dos outros por uma paliada de toros. Tudo isso vai sendo, 
infelizmente, substitudo pouco a pouco pelo moderno.
Na periferia da cidade, as ruas, por altura do degelo das neves da 
Primavera e sob as grandes chuvas do Outono, perdem-se em oceanos de 
lama e, no Vero, transformam-se em pistas sufocantes de p. S no 
Inverno se pisa um solo gelado, mas, no entanto, mais ou menos firme. 
Foi a que se construiu o instituto do professor Nerochenko, 
reforado com ao, beto armado e vidro isolante, rodeado por 
muralhas como uma fortaleza, e onde cento e vinte e trs jovens 
cientistas trabalham na tarefa mais extraordinria do mundo: 
transformar totalmente a nossa concepo das dimenses do Universo 
pela psicocinesia e pela biocomunicao.

O avio aterrou numa pista salpicada de neve. Sob a brisa glacial, 
Nerochenko esfregou alegremente as mos: no gostava muito de 
Moscovo, ao passo que aqui se sentia em casa. Poucas pessoas, mesmo 
as da Academia das Cincias, compreendiam alguma coisa da sua 
investigao. Certos funcionrios batiam na testa com o indicador ao 
falarem do Instituto de Tcheliabinsk: "Aquela gente evoca os 
espritos e quer falar com o de Lenine... ", dizia-se s vezes, e 
criticava-se o facto de o Estado continuar a gastar rublos naquele 
gnero de fantasias... Mas os que estavam mais bem informados falavam 
de eventuais aplicaes no domnio militar. Nerochenko no tinha nada 
a ver com os burocratas de Sverdiovsk e de Tcheliabinsk: 
consideravam-no uma personalidade de grande estatura que tratava 
directamente com Moscovo e que contribua para o prestgio da cidade. 
Pelo contrrio, deviam era prestar-lhe honras. Durante uma 
conferncia na casa do povo sobre a hipnose e a telepatia, ele tinha 
hipnotizado um dos membros do Soviete Municipal, o camarada Marat 
Leonidovitch Roikov, que, tendo subido ao palco diante de mais de mil 
espectadores, deixara cair as calas at aos tornozelos. Resumindo, 
em Tcheliabinsk, Nerochenko era um reizinho, presidindo a um nmero 
cada vez maior de associaes.
No avio tinha prevenido os seus hspedes.
- Vimos do Vero e vamos enfrentar o Inverno e nada  mais 
desagradvel do que ter um membro gelado. As minhas assistentes vo 
trazer-lhes casacos de pele confeccionados segundo as indicaes do 
doutor Boganorov, que deve ter tirado as medidas a cada um de vs. 
Raposa! Eu prefiro a pele de co, mas no Ocidente tem-se repugnncia 
em utilizar a pele dos nossos fiis companheiros...
Com efeito, as duas assistentes, uma russa loura do Norte e uma 
tungunza de salientes malares, olhos rasgados e cabelos de bano, 
tinham-se precipitado para dentro do aparelho chamando em voz alta:
- Doutor Hambach... Gospodine Doerinck... Gospocha Corina... Ludmila 
Davidovna... Gospodine Herbert... - ajudando cada um a enfiar o seu 
casaco.
Entretanto, todos os soviticos vestiam as suas peles de co, menos 
Soya Igorovna, que tinha tido direito a uma maravilha de um casaco de 
raposa-azul.
O trajecto no pequeno autocarro teve rasgos de aventura. O veculo 
derrapava, danava aqui e ali batendo fortemente nos carreiros cujas 
profundas faces internas, feitas da lama do Outono, j estavam 
geladas. Seria necessrio muito mais do que isso para perturbar o 
motorista siberiano, habituado desde sempre a fazer frente queles 
obstculos naturais e peridicos.
No interior do instituto tudo era diferente: as salas eram claras e 
quentes e duma limpeza clnica.  entrada, os sapatos foram 
desembaraados do mnimo gro de poeira e da neve por escovas 
rotativas com comandos elctricos. Os seus ps tinham sido ento 
invadidos por uma impresso de calor enquanto lhes subia s narinas 
um forte cheiro a fenol. Nerochenko explicara, a rir:
- J estamos desinfectados, mas no esterilizados. No receiem nada!
Os quartos destinados a Corina e aos outros alemes ficavam num 
edifcio anexo ao qual tiveram acesso por uma passagem exterior 
envidraada. Nerochenko e o seu assistente, o Dr. Boganorov, tambm 
l moravam. Todos os seus colaboradores viviam na cidade com a 
famlia. S cinco deles tinham um carro particular  sua disposio, 
j que o pequeno autocarro assegurava os servios regulares para 
todos os outros. No Vero, a maior parte utilizava bicicletas.

Durante uma viagem  China, Nerochenko tinha assistido espantado  
ginstica matinal do pessoal de todas as administraes. Tinha 
voltado convencido de que era necessrio assegurar uma forma perfeita 
ao corpo, esse habitculo dum esprito que ele tentava definir. Por 
isso, institura sesses obrigatrias de shadow boxing chins, em que 
todos os movimentos so feitos ao ralenti. Primeiro cochichou-se que 
ele estava a sofrer de senilidade precoce e a seguir todos se tinham 
habituado e reconhecido que ao fim de vinte minutos daquele tipo de 
exerccio se sentiam mais despertos, tanto fsica como mentalmente: 
entrava-se no dia de trabalho num estado de esprito diferente.
Os alemes iam descobrir que tudo tinha sido preparado para lhes 
mostrar a Sibria sob o seu aspecto mais hospitaleiro. Havia largas 
camas de madeira com cobertores de l e de pele de marmota, edredes 
de penas, cadeiras estofadas, um div com uma mesa baixa, flores 
mudadas todos os dias e um rdio. O cho estava coberto por tapetes 
feitos  mo por nmadas. Os armrios rsticos eram de madeira 
esculpida. Os pormenores eram abundantes e as atenes chegavam a ser 
tocantes.
Assim que Corina e Marius se tinham fechado no quarto, este 
precipitou-se para ela.
- Se  certo que vais, que vamos... tem de se interromper esta 
viagem.
- Esperemos pelo prximo ms para termos a certeza absoluta. - 
Tinha-se sentado na beira da cama  espera de ir  casa de banho que 
ficava no primeiro andar e fora logo ocupada pelo Dr. Hambach. - No 
ests feliz por eu ir ter um filho?
- Estou como se me tivessem batido. E ainda ficarei pior quando o teu 
pai ficar a saber. E a tua maneira de o dizeres! Tinhas utilizado o 
mesmo tom indiferente alguns minutos antes quando querias que eu 
olhasse pela janela: "Olha! Vs aquele cabrito-monts que corre pela 
taiga... "
- Mas um filho no  uma catstrofe, Marius.
- -o, quando o pai tem um cancro...
- Primeiro, o cancro no  hereditrio. E depois o teu cancro est 
quase seco: os meus dedos encontram cada vez menos resistncia. As 
prximas radiografias vo confirm-lo.
- Falas como se fssemos de facto casar-nos.
- Evidentemente. Amo-te... Amo aquele em que te vais tornar muito 
rapidamente, o grande pintor Marius Herbert. E a nossa vida vai 
mudar. Retirar-nos-emos para um stio tranquilo, onde ningum nos 
conhea e onde viveremos para ns, num pequeno mundo bem nosso: uma 
casa, um jardim, um atelier onde s receberemos os meus pais e alguns 
amigos como o tio Ewald e Erasmus Roemer. Ters um agente para vender 
os teus quadros e irs de vez em quando encontrar-te com ele na 
cidade.
- E as tuas mos irradiantes?
- Esquec-las-emos. Quando uma mulher tem um filho,  para ele que 
ela deve viver antes de mais.
- Como conseguirs resistir  viso dum doente que sofre? E depois 
das experincias de Nerochenko, nunca mais ters repouso. Por isso, 
tens de lhe falar: tens de lhe dizer que no podes continuar.
-  demasiado tarde, Marius. Estamos aqui a expensas do Estado 
sovitico a fim de efectuar determinado trabalho. Tem de se ser 
honesto. - Olhava para a frente, com as mas do rosto repentinamente 
mais salientes, como se fossem iluminadas do interior. - E quero ir 
at ao fim.  a primeira vez que vou poder manifestar tudo o que 
existe em mim. Quero conhecer os meus limites, percebes?
- E se o teu poder no tiver limites?
-  impossvel. Sou apenas um ser humano, Marius.

- Como diz Nerochenko, s uma das raras pessoas a poder abrir uma 
porta para as outras dimenses do nosso Universo. Soya traduziu-me 
quase palavra por palavra o que ele tinha dito sobre o assunto, e 
parecia estar to impressionada como eu. Ele quer demonstrar, 
servindo-se de ti, que o esprito do homem  imortal. E esta 
revelao cientfica vir do pas que prega o materialismo histrico! 
Haveria em ns um campo de foras, uma irradiao, que continua a 
viver, a agir, e ao qual se pode fazer apelo em certas condies. E 
tenho medo, Cora. Talvez haja uma barreira que no deva ser ultra 
passada neste tipo de experincias.
- Eu no tenho medo, visto ser exactamente o que vou ficar a saber: 
at onde posso ir...
- Tenho medo, Corina. Durante milhares de anos, os homens viveram num 
Universo cuja realidade nunca puseram em dvida, dado a conceberem 
com mais ou menos facilidade.  verdade que sempre existiu em ns uma 
certa ansiedade perante o espectculo do Universo e, portanto, um 
esprito religioso que se exprimiu atravs de cultos diferentes e 
tambm de sobreposies. Mas tu, Corina, tu vais servir para revelar 
ao mundo no somente que o tempo e o espao se confundem, como 
afirmou Einstein, mas tambm que esse espao-tempo no existe! Como  
que podes falar da nossa casa, do nosso jardim e do nosso filho que 
brincar nele quando vais contribuir para a destruio da nossa 
concepo do mundo e da segurana que nos permite expandirmo-nos no 
interior do que nos parece ser a realidade?
- Nunca te ouvi falar assim.
Olhava-o, repentinamente inquieta. A seguir levantou-se e foi ter com 
ele para o beijar longamente, mas ele no conseguiu reprimir a 
angstia que sentia.
- Se soubesses as noites que passei a ler, a estudar e a reflectir 
antes de te conhecer. E desde que te conheo no houve nada que no 
tivesse lido dizendo-te respeito.  por isso que tenho cada vez mais 
medo, Cora. Se houver uma fronteira que no deva ser transposta... 
Vamo-nos embora depressa daqui para podermos levar os dois, ns os 
trs, uma vida normal.
Bateram  porta. A voz do Dr. Hambach fez-se ouvir.
- A casa de banho est livre. Cuidado com a gua quente. No regules 
a mistura acima dos sessenta graus:  o mximo. Quase queimei o 
rabo...
- Eis a realidade que  para mim compreensvel! - disse Marius numa 
lamria. - As outras dimenses no conseguiro mudar nada...
A partir da manh do dia seguinte, Corina teria duras experincias  
sua espera.
Primeiro, uma srie de anlises fundamentais executadas por dois 
mdicos, um homem e uma mulher: anlises ao sangue e  urina, novas 
radiografias ao corao e aos pulmes, novos electrocardiogramas, 
fotografias Kirlian de alta frequncia, etc. Todos estes exames 
complicados foram executados rapidamente, quase sem barulho, pelos 
dois Mdicos, perfeitamente treinados. Seguiu-se um exame 
ginecolgico.
- Temos de eliminar qualquer possibilidade de controvrsia, 
Corinnachka - disse Nerochenko. - No imagina o que as mulheres podem 
dissimular nas profundezas do sexo: desde a herona at aos 
diamantes!
Logo a seguir subiram para o pequeno autocarro, que tomou a estrada 
das montanhas at ao momento em que a pista se interrompeu diante 
duma ravina onde a neve acumulada impedia o avano.
- Kanietchnaa stantsiyia! (Trmino!) - gritou o condutor.

- C estamos! - anunciou jovialmente Nerochenko. - L fora esto 
vinte e oito graus abaixo de zero! Na Sibria isto  quase Primavera. 
- E rindo da sua prpria graa, acrescentou: - O doutor Boganorov vai 
explicar-vos...
Atrs do deles, tinha parado outro carro. Dele desceram quatro 
tcnicos que traziam uma srie de cmaras de filmar e de aparelhos de 
medida. Puseram-se imediatamente a tirar a neve s pazadas para 
formar uma espcie de plataforma onde instalaram todo o equipamento. 
S ento o Dr. Boganorov tomou a palavra.
- Em todas as lendas, baladas e outras tradies populares dos 
nmadas siberianos se fala de xams que possuem faculdades 
extraordinrias: curas milagrosas, telepatia e dons de prever o 
futuro e de falar com os animais. E melhor, graas ao que hoje 
chamamos a sua irradiao bioplasmtica, conseguiam abalar algumas 
leis fsicas. Ora, nos nossos dias a maior parte dos cientistas 
prefere ignorar tudo o que lhe parece incompatvel com as doutrinas 
que lhe ensinaram. E, no entanto, como  que se pode explicar, por 
exemplo, que todas as religies representem os seus santos com uma 
aurola, se no for por uma irradiao tornada visvel de repente? 
Que vemos nos lugares de peregrinao? Muletas de paralticos que, de 
repente, voltaram a andar e ex-votos de doentes inexplicavelmente 
curados. Do nosso ponto de vista, que  o da investigao 
psicolgica, todos estes factos fazem parte de uma realidade, quer se 
trate de xams, de curandeiros ou de santos que compreendem a 
linguagem dos animais e falam com estes ou curam doentes com uma 
simples imposio das mos. Negar tudo isso globalmente  
anticientfico. Ns estudamos esses factos cientfica e logicamente.
O Dr. Boganorov retomou o flego, enquanto Doerinck e o Dr. Hambach 
trocavam um olhar mudo.
- Esses pretensos milagres nunca cessaram e ainda hoje se produzem. 
Mas at os que neles acreditam s os admitem sob um aspecto 
religioso, no quadro dum culto, como em Lourdes e em Ftima,. e 
noutros lugares consagrados a uma entidade, quase sempre feminina, 
como a Virgem Maria. Mas estes factos so negados e combatidos por 
todas as autoridades mdicas que s aceitam para eles a explicao 
religiosa e "milagrosa". E, no entanto, Ludmila Davidovna, quando a 
sua filha a curou dum cancro que estava to avanado que j quase no 
era opervel, se esse "milagre" se tivesse verificado em Lourdes a 
imprensa do mundo inteiro ter-se-ia apoderado dele e o Vaticano 
t-lo-ia certamente reconhecido como sendo autntico. Mas quando se 
trata somente dum ser humano que realiza um acto destes, em 
Hellenbrand, uma cidade como as outras, desencadeia-se imediatamente 
uma vaga de perseguies, de calnias e de presses de toda a 
espcie:  preciso que aquilo no seja verdade!
- No vai fazer da minha filha uma santa de altar - interveio 
Doerinck.
- No, no  o que ela ! Ela  a mediadora de uma energia 
psicocintica latente. Recebe e emite foras de um campo eternamente 
existente e um dos elementos de ligao que vo permitir-nos provar 
que existe, em ns e fora de ns, algo de imortal! - O Dr. Boganorov 
fez mais uma pausa antes de concluir: - Queremos compreender e fazer 
compreender o que foi incompreensvel at agora.

- Aqui, na neve dos montes Urales, com vinte e oito graus abaixo de 
zero? - exclamou o Dr. Hambach.
Havia uma ironia vincada no tom usado pelo velho cptico.
- O que hoje vamos fazer  apenas uma parte do nosso programa. No seu 
livro O Xamanismo e a Tcnica Arcaica do xtase, o investigador 
Mircea Eliade, a quem devemos um estudo exaustivo do xamanismo, 
escreveu que se tratava "de um fenmeno siberiano e da sia central, 
por excelncia". Ora Corina interessa-nos especialmente por causa do 
que descobrimos sobre o passado da sua famlia. O seu pai, Ludmila, o 
doutor David Semionovitch Assanurian, no foi s um grande mdico, 
mas tambm um xam...
- No! - gritou Ludmila. - Engana-se completamente a respeito do meu 
pai...
- Voc era demasiado nova para se aperceber disso.
Mas Ludmila continuou a negar, incomodada, sem dvida, pela palavra 
"xam".
- Ajudei-o frequentemente quando estava a receber os doentes: fervia 
as seringas e as agulhas, encarregava-me dos ultravioletas e 
preparava as inalaes...
- Mas no estava presente quando ele visitava certos pacientes e 
quando altos funcionrios do partido se introduziam l em casa,  
noite, para serem tratados em segredo por processos inabituais. 
Apesar de a maior parte j ter morrido, conseguimos mesmo assim 
encontrar os seus nomes... E o que  que lhes fazia? O que a Corina 
faz actualmente. Mas sabemos que a muitos doentes s prescrevia 
placebos, simples comprimidos de clcio absolutamente andinos. O que 
os curava era, ao fim de quatro ou cinco sesses, a emanao das suas 
mos. Para lhes desviar a ateno, falava-lhes enquanto aproximava as 
mos da parte do corpo que os fazia sofrer. Segundo a lgica 
bioplasmtica, David Semionovitch est hoje presente na sua filha...
Sem uma palavra, Ludmila olhava para Corina, quase horrorizada.
-... Mircea Eliade e Evans-Wentz, o grande especialista do Tibete, 
descreveram como os xams utilizavam em certos casos esta energia que 
Corina herdou de David Semionovitch. Trata-se do "calor mgico" ou 
"calor psquico", segundo Evans-Wentz. Aceita prestar-se a esta 
experincia, Corina?  uma experincia perigosa, mas ns 
controlaremos tudo, naturalmente.
- j lhe disse: estou pronta a fazer tudo o que quiser.
- Primeiro temos de saber o que  exigido dela.
Era Marius Herbert: desde a vspera que parecia transformado. Corina, 
depois de o ter tratado do cancro que sofria, segurara durante muito 
tempo a cabea de Marius entre as mos. Quando este acordou, 
sentiu-se com uma renovada energia psquica. Assim que viu Soya, 
pediu-lhe que procurasse folhas de papel de desenho ou placas de 
contraplacado. "Quero pintar a cidade velha de Tcheliabinsk debaixo 
de neve e algumas perspectivas dos Urales. No preciso de mais nada, 
j tenho a minha caixa de tintas."
- Tenho curiosidade em ver o que vai pintar - respondera ela. - Antes 
de ser intrprete frequentei durante quatro semestres as aulas da 
Academia de Belas-Artes de Moscovo.
E agora ali estava, para surpresa de Doerinck, para proteger Corina.
- Oponho-me a tudo o que possa ser perigoso para ela.

O Dr. Boganorov, igualmente admirado, preferiu no lhe responder e 
dirigiu-se directamente a Corina.
- Fica incomodada, Corina Stefanovna, se lhe pedirmos que se ponha 
completamente nua? Deve considerar-nos, ao professor e a ns todos, 
objectos totalmente neutros.
Foi a vez de Doerinck intervir.
- Para mim e para a me, assim como para o doutor Hambach, isso no 
tem nenhuma importncia, mas talvez fosse melhor pr uma venda a 
Marius Herbert.
Marius tinha baixado a cabea e fechado os punhos para conseguir 
conter-se. Corina olhou-o por um instante e disse em voz alta e 
clara:
- No.  intil tapar os olhos a Marius. Ele conhece perfeitamente o 
meu corpo! - E como viu que Doerinck, perante tal confisso, se 
voltava para Marius com ar revoltado, acrescentou no mesmo tom calmo: 
- Marius e eu amamo-nos, pai... No percamos tempo: que devo fazer, 
doutor Boganorov?
- Dispa-se e saia do autocarro.
Desta vez foi o Dr. Hambach quem protestou.
- A minha viagem at aqui no teria sentido se no interviesse na 
minha qualidade de mdico. Com vinte e oito graus negativos,  uma 
perfeita loucura.
- No vai acontecer-me nada, tio Ewald.
J tinha comeado a despir-se, ajudada pela me, cujos dedos tremiam. 
Quando ficou nua, Soya estendeu-lhe o espesso casaco de peles.
- Repito que me oponho a tal experincia - disse o Dr. Hambach com a 
voz estrangulada pela emoo.
Nerochenko e os seus colaboradores j tinham deixado o autocarro e 
ido direito aos instrumentos de medida colocados sobre a plataforma 
de neve. Pareciam sados da Pr-Histria, com os seus longos casacos 
de plos eriados, os gorros de pele, os passa-montanhas e as ls que 
lhes escondiam as caras quase por completo. Doerinck reprimiu um 
grito ao ver Corina descer do autocarro e andar descala na neve. 
Estes russos so loucos, pensou. O Dr. Hambach voltou-se para ele 
para lhe implorar:
- Stefan, faz qualquer coisa. Esta gente vai matar a tua filha!
Mas ainda antes de ele ter tempo para reagir, j Marius Herbert tinha 
saltado para fora do autocarro e ento precipitaram-se todos atrs 
dele.
Stefan doerinck parou quase imediatamente, com a respirao cortada 
pelo frio, e a impresso de ter recebido uma facada que lhe penetrara 
at aos pulmes. Como antigamente, pensou, quando s conseguamos 
respirar atravs dum cachecol que se transformava num bocado de gelo 
em alguns minutos, exactamente por causa da nossa respirao... E a 
Corina, descala, decidiu enfrentar este frio assassino. Ser 
possvel?
O professor Nerochenko tinha voltado a ser um cientista possudo por 
uma ideia fixa e cuja autoridade se impunha a todos. Corina tinha 
sido ligada a uma cardigrafo porttil e a sua temperatura interna 
estava tambm a ser observada electronicamente. O seu rosto parecia 
petrificado pelo frio e os seus olhos pareciam bruscamente enormes. 
Apesar de estar descala, no parecia sofrer com o frio.

- Ao que se vai passar damos o nome de "experincia tibetana". A 
Corina vai tirar o casaco de peles e deitar-se nua na neve. Tenho 
aqui cobertores de l que acabam de ser mergulhados em gua e que 
gelaram imediatamente. Vamos cobrir Corina com eles. A sua energia 
psquica vai descongel-los. Esta descongelao bastar-nos-.  
intil sec-los completamente, pois isso exigiria vrias horas, o que 
 suprfluo tendo em conta o que queremos saber. Corina, est pronta?
Ela estava de tal maneira concentrada que se limitou a responder com 
um sinal da cabea. O Dr. Hambach estava cada vez mais desesperado. 
Stefan Doerinck achava-se petrificado. Ludinila abenoou mais uma vez 
a filha com um sinal-da-Cruz. S Marius Herbert continuava a 
resmungar.
- Se lhe acontecer alguma coisa, mato-os, mato-os a todos.
Soya Igorovna, com o rosto lvido, pegou no casaco de COrina. Guiada 
por Nerochenko, Corina avanou at  plataforma de neve, onde, depois 
dum sinal do professor, se estendeu
completamente ao comprido sem um estremecimento sequer.
A seguir, fechou os olhos. Pouco a pouco, a sua respirao
tornou-se visivelmente mais lenta e cada vez menos profunda.
- Basta! Basta! - gritou Marius.
Queria precipitar-se para ela, mas dois dos tcnicos, dois
colossos siberianos, retiveram-no sem esforo. Imobilizado,
no acreditando ainda nos seus olhos, viu duas assistentes cobrirem o 
corpo de Corina com os cobertores gelados.
Nerochenko olhou  volta antes de pr a funcionar a agulha
do seu cronmetro. Ludmila tinha-se ajoelhado na neve perto
da filha e rezava. Num silncio absoluto, impressionante,
apenas se escutava o queixume das antigas litanias da Igreja
ortodoxa. Ludinila tinha aprendido aquele salmo com a me e
Deus no poderia deixar de a ouvir.
O silncio prosseguiu, cada vez mais sufocante, s tendo
sido quebrado pelo afastamento de Soya Igorovna, cujos nervos, 
incapazes de suportar aquele espectculo, tinham cedido
subitamente.
Os minutos sucediam aos minutos. Nerochenko ia e vinha
nervosamente  volta do estranho cadafalso onde Corina repousava. 
Tambm ele, apesar da preocupao, sentia o frio
glacial que conseguia insinuar-se sob as roupas grossas. Os
dois siberianos, ao fim de vinte minutos, tinham sido obrigados a 
levar Marius Herbert  fora para o autocarro, onde continuava 
prostrado com a cara entre as mos. Tinha recusado o copo de vodca 
que um dos guardas lhe tinha estendido.
- Assassinos - limitara-se a lamuriar. - Assassinos, se
lhe acontecer alguma coisa, mat-los-ei a todos.
De vez em quando, Boganorov e Latichev ajoelhavam-se
cada um por sua vez para verificar o estado dos cobertores.
De repente, Boganorov levantou a cabea na direco de Nerochenko e 
anunciou com uma voz rouca de emoo:
- Os cobertores esto agora a amolecer muito rapidamente... mexem-se 
debaixo da minha mo...

Sob o corpo nu de Corina, a neve tambm tinha mudado de aspecto e a 
sua transformao estava a acelerar-se a olhos vistos: primeiro, 
tornava-se numa pasta esbranquiada e a seguir em gua clara que 
enchia a espcie de molde em que o corpo de Corina se enterrava cada 
vez mais. "Eu sabia, eu sabia", repetia Nerochenko para si mesmo. 
"Soube-o a partir do momento em que o detector estabeleceu que o 
campo de foras do cerebelo posterior era cinquenta e trs vezes mais 
potente do que o do anterior. Assistimos agora  concentrao duma 
energia que existe desde sempre e que  eterna. Corina transps a 
fronteira das nossas trs dimenses e do espao-tempo. O seu esprito 
deve agora fazer parte duma esfera em que o universo que conhecemos 
j no  nada, onde deixa de haver frio para haver apenas uma energia 
brilhante..."
J tinha passado uma hora horrivelmente longa para todos, mas mesmo 
assim bem menos do que previra Nerochenko e os seus assistentes 
principais. Os cobertores tinham ficado completamente moles;  volta 
de Corina a gua escorria e espalhava-se por regos cavados  pressa. 
A um sinal de Nerochenko, Boganorov e Latichev comearam a tirar os 
cobertores que cobriam Corina e estavam a perder rapidamente a 
humidade. Mal os levantaram do corpo nu, comearam a fumegar ao 
reencontrarem a horrvel temperatura do exterior. Os dois homens 
retiraram imediatamente Corina da fossa de neve fundida que se cavara 
 sua volta. A sua pele estava branca, imaculada e flexvel. O Dr. 
Hambach apercebeu-se de que estava a morder os punhos atravs das 
luvas: o que acabara de ver ultrapassava todas as leis da medicina, 
da fsica e da biologia. Corina, segundo a nossa cincia actual, no 
devia passar dum cadver gelado, rgido para sempre, repetia consigo 
mesmo.
E todos viram Corina abrir lentamente os olhos e emitir uma espcie 
de gemido. O seu olhar ainda estava como que voltado para o infinito 
donde emergia a pouco e pouco. Nerochenko bateu-lhe suavemente nas 
faces, por duas ou trs vezes, para acelerar o seu regresso a este 
mundo. Quando lhe entregaram o casaco, aconchegou-o  volta do corpo, 
com sbitos arrepios. Reconhecendo finalmente os que a rodeavam, teve 
um fraco sorriso e murmurou:
- Um cigarro, um cigarro, depressa... Agora tenho frio...
Todos se comprimiam  volta dela, enquanto os assistentes a cobriam 
completamente com cobertores de pele para a levarem para mais perto 
dos aparelhos de medida. Impiedoso, Nerochenko no podia omitir 
nenhum dos exames cujo plano tinha ele prprio elaborado: o pulso, a 
electrocardiografia e os campos de fora do crebro. Dir-se-ia que a 
natureza estava a vingar-se: o frio penetrava atravs dos cobertores 
e Corina batia os dentes enquanto fumava o primeiro e a seguir o 
segundo cigarro que o Dr. Latichev lhe mantinha entre os dentes. 
Incrdulo, Nerochenko fez com que todos verificassem que a agulha 
tinha ficado bloqueada no mximo do controlador de energia, demasiado 
fraco para medir a que se desprendia do corpo de Corina.
- Incrvel! - murmurou suavemente, passando a mo pelas sobrancelhas 
cobertas por pequenos pedaos de gelo.
Sim, era incrvel. Aproximou-se de Corina para pr os lbios, 
docemente, sobre as suas plpebras.
- O que  que sentiste, Corinnachka, minha filha? Como era?

- Estava envolvida em calor. - Olhava para a fossa que se tinha 
cavado por baixo dela e que, de novo gelada, conservava as marcas do 
seu corpo. - Sim, tinha a impresso de flutuar no seio do calor que 
me envolvia e, apesar de ter os olhos fechados, apercebi-me de algo 
de leve, como uma nuvem ou como um nevoeiro atravessado por milhares 
de raios de luz dum Sol muito prximo. E ouvi distintamente uma voz 
que me dizia: "Est tudo bem. Agora ests perto de mim. Sou David 
Assanurian, o pai da tua me... "
Todos se agitavam  volta deles. Ludinila, que, ao ouvir a filha, 
sentira os joelhos dobrarem-se-lhe sob o efeito da sbita emoo que 
sentia, era amparada pelos assistentes. Marius acorreu, gritando numa 
voz abafada pelo ar gelado:
- Cora, Cora!
Nerochenko acariciava a testa de Corina.
- Acabamos de entreabrir a porta que nos dissimulava uma realidade 
desconhecida. O nosso olhar, graas a ti, mergulhou pela primeira vez 
no domnio da imortalidade...
Ainda iam ficar uma semana em Tcheliabinsk.
A lista de experincias de Nerochenko era longa e fatigante, mas 
nenhuma delas era comparvel ao "calor psquico".
Tratava-se, sobretudo, de gravar e verificar de novo as manifestaes 
da fora, simultaneamente benfica e temerosa, que enchia as 
dimenses dum universo que o homem comeava apenas a delimitar ou, no 
mximo a antever. Nerochenko assistia a cada uma das experincias. 
Iria revelar-se muito til durante uma delas. Ao tocar, por acaso, o 
peito dum dos tcnicos, um tal Nikita Mikhailovitch Mazurov, Corina 
tinha sentido um grande sobressalto: no era a faca que tinham 
escondido debaixo da bata do homem e que Corina tinha quase 
imediatamente descoberto, mas algo de muito mais profundo que acabava 
de se lhe revelar inopinadamente imobilizando-lhe de repente as mos. 
A cmara e o microfone convergiram imediatamente para aquele ponto 
preciso. O microfone s gravou um nico som que de outra maneira no 
teria sido tomado em considerao.
- Tem uma lcera no estmago - disse lentamente Corina num tom 
estranho, como se algo dela prpria se encontrasse ainda preso ao 
interior do corpo do tcnico.
Este ltimo comeou a rir com ar embaraado assim que Soya Igorovna 
lhe traduziu as palavras de Corina. Mas, depois de olhar longamente 
para ele, a jovem alem voltou-se para Nerochenko.
- Tem, sim. Sinto-a e vejo-a muito bem. Est na pars descendens (na 
parte descendente) do rgo. O estado deste tcnico  grave: se no 
for tratado imediatamente, sofrer uma perfurao da parede do 
estmago...
As suas mos voltaram a cair e o Dr. Boganorov acendeu-lhe 
imediatamente um cigarro. Depois de ter aspirado rapidamente trs 
baforadas, voltou-se para Mazurov, olhou-o mais uma vez, e disse 
calmamente:
- Sim, este homem est doente.
Era um rapaz muito alto, mas de constituio herclea e apreciador de 
carnes gordas - as gorduras eram indispensveis para resistir queles 
frios -, assim como de mulheres, como toda a gente sabia em 
Tcheliabinsk, onde se ia embebedar regularmente duas vezes por 
semana. Era uma espcie de touro transbordante de vitalidade e de 
sade. Tendo recuperado um pouco de confiana, ria a bandeiras 
despregadas batendo no estmago,  maneira dum gorila, com os seus 
punhos macios.
- Eu, doente! Deve estar enganada, Gospocha Doerinck! Se a parede do 
meu estmago tivesse de se perfurar, isso teria acontecido agora sob 
esta avalancha de pancadas. E no aconteceu nada! Desta vez, Corina 
Stefanovna, enganou-se!

-  o que ficaremos a saber amanh de manh. Vamos fazer-te uma 
radiografia, camarada - disse Nerochenko, que tinha ficado 
impressionado com aquele incidente.
Durante a noite, Corina acordou sobressaltada e s teve tempo de 
calar os sapatos e de pr o casaco para ir abrir a porta a 
Nerochenko, que estava acompanhado por Boganorov. Marius, que fora 
ter com ela ao quarto, tentava em vo esconder-se sob os cobertores.
- Tinha razo, Corina Stefanovna. Mazurov passou a noite a dar 
espectculo dando pancadas no estmago como fez diante de si. E a 
parede do estmago rebentou. Est a cuspir e a vomitar todo o seu 
sangue e sofre como um danado...
Era uma coisa que s podia acontecer na Sibria: aquela hemorragia 
era fatal, Nerochenko sabia-o, e mesmo assim decidira recorrer a 
Corina, anulando assim a transferncia para o hospital, que se 
impunha... Tinha mandado acordar todos os seus colaboradores, 
enquanto Mazurov era transportado numa maca para a sala de 
experincias. As cmaras comearam logo a filmar a cena: Mazurov 
deitado, agarrado ao estmago com as duas mos, tossindo e vomitando 
sangue, naturalmente angustiado ao mximo.
- No me deixem morrer, camaradas. Faam o que lhes for possvel.
- Temos a sorte de ter c a Corina - disse Nerochenko quase 
alegremente. - Depois da experincia do "calor psquico", vamos poder 
gravar um novo exemplo da potncia da energia psicocintica. O qu, 
Boganorov, est com ar de quem duvida. Decepciona-me...
Todos os aparelhos estavam prontos e zumbiam suavemente quando Corina 
entrou na sala e se aproximou da maca onde Mazurov jazia. O olhar 
angustiado que ele lhe lanou tocou-lhe o corao como se fosse um 
golpe de punhal. Ele gaguejou algumas palavras que ela no 
compreendeu, apesar de saber exactamente o que ele queria dizer. O 
homem sabia em que estado se encontrava. Sabia que se o transferissem 
para o hospital iriam passar-se trs horas antes de o poderem operar 
e que no tinha trs horas de vida  sua frente... Pode fazer alguma 
coisa por mim, Corina Stefanovna?
Diante desta muda interrogao, ela voltou-se para Nerochenko.
-  demasiado tarde - disse ela em alemo.
-  o que todos pensamos - disse Boganorov. - Mas o professor 
Nerochenko quer que tente o impossvel...
A boca contrada e a cara fechada do assistente traam 
involuntariamente o que estava a pensar: no fundo condenava aquela 
experincia inumana. Quando chegou, Corina teve a mesma reaco, um 
verdadeiro sobressalto de dio contra o homenzinho que, em p, do 
outro lado da maca, passava nervosamente a mo pela calva. Mas tudo o 
que aquela situao comportava de aparentemente intil e inumano 
encheu-a de repente de uma vontade monstruosa de desafiar o destino. 
Pela primeira vez na sua vida, chamou o que nela existia como se 
rezasse: "Socorre-me agora! No me abandones." Pensou de repente no 
nevoeiro trespassado por mil raios de luz que, parecera-lhe, acabara 
por tomar uma forma quase humana para proferir palavras em que ela, 
ao acordar, se tinha recusado a acreditar: "Sou David Assanurian, o 
pai da tua me..." Lembrou-se da neve fundida debaixo dela e dos 
cobertores gelados que tinha aquecido e quase chegado a secar. E 
ouviu-se a dizer:

- Acalma-te! No receies nada! Vou socorrer-te, mas  preciso que 
acreditemos ambos que posso faz-lo, est bem?
Ele no deve ter compreendido, mas - ou por causa do som da voz dela 
ou dos seus olhos negros fixos nele e cujo olhar parecia embrenhar-se 
numa noite constelada por estrelas de ouro - esqueceu, por um 
instante, o medo e a dor e todos o viram sorrir fracamente. 
Nerochenko afastou com a mo Boganorov, que queria traduzir.
Exteriormente, tudo se passou como sempre: aproximao das mos em 
forma de taa e a seguir um lento vaivm a dez centmetros da pele e 
a sua paragem sbita por cima da ferida, por onde o sangue continuava 
a escapar-se em fluxos. Todos viram mais uma vez aquele rosto 
transformar-se e tornar-se numa mscara de taumaturgo com faces 
cavadas, os ossos das faces parecendo atravessar a pele e aqueles 
grandes olhos negros mergulhados na sua prpria noite constelada de 
astros... A seguir as mos tombaram-lhe por si mesmas. Era o fim. A 
busca febril dum primeiro cigarro a que se seguiu um segundo, que 
Boganorov lhe estendeu.
No entanto, tudo era diferente, pois Nikita Mikhailovitch Mazurov, 
apesar do sorriso que descontraa ainda o mrmore lvido dos seus 
traos, no dava nenhum sinal de vida. Os seus braos tinham cado de 
cada lado da maca e parecia j no respirar.
Nerochenko, no silncio que se prolongava, mexia na calva como um 
possesso.
- Morto? - disse finalmente em alemo. - Morto?
Corina, sentada numa cadeira, continuava a fumar.
- No - disse ela finalmente. - Estamos a lutar...
Depois de ouvir a traduo do assistente, Nerochenko deixou-se cair 
pesadamente numa cadeira perto de Corina. A cmara e os microfones 
continuavam a trabalhar. Nada se perderia do que se tinha passado 
durante os minutos que durara aquele "milagre", como costumamos dizer 
quando nos encontramos perante o que no somos capazes de explicar.
Sete minutos e nove segundos - tudo tinha de ser medido - foi o que 
durou exactamente a perda de conscincia de Mazurov, cujo olhar 
parecia transfigurar-se repentinamente. Quando as suas plpebras se 
abriram, um dos assistentes fez parar a agulha do cronmetro e anotou 
a hora. Nerochenko quis falar-lhe, acolh-lo... mas mordeu os lbios 
e calou-se. Corina inclinou-se e pousou a mo sobre a testa de 
Mazurov, cujo olhar pareceu de repente transfigurar-se.
- Ainda ter dores durante algumas horas. Mas depois ficar muito 
melhor. j parou a hemorragia. Amanh continuaremos a combater o seu 
mal, Nikita Mikhailovitch.
O Dr. Boganorov traduziu desta vez, mas tropeando de emoo em 
algumas palavras. Mazurov aquiesceu lentamente com a cabea, cruzou 
as mos sobre o peito, fechou os olhos e adormeceu. A sua respirao 
era calma e regular.
Nerochenko levantou-se e, sem uma palavra, beijou docemente a testa 
de Corina. Enquanto Mazurov era transportado para outra dependncia e 
o zumbido dos aparelhos cessava, o Dr. Latichev foi o primeiro e o 
nico a ousar perguntar:
- Est salvo?
- Est.
- E a lcera gstrica?

- Comea a secar. - Levantou-se a seguir, ainda vacilante. - Posso 
ir-me embora, professor? Estou morta de cansao... Foi um dia difcil 
para mim...
O Dr. Boganorov acompanhou-a at  porta do quarto e esperou no 
patamar que ela desse a volta ao fecho do interior.
- O que  que se passou? - perguntou Marius. - No tive tempo de me 
vestir e no sabia onde  que podia ir ter contigo...
Estava sentado na borda da cama apenas com uma toalha sobre os ombros 
magros. Apresentava um ar frgil na sua nudez.
- Havia um homem que estava a morrer, Marius. Era o tcnico 
Mazurov...
Deixou cair no cho o casaco de pele que era a nica roupa que trazia 
e estendeu-se, tambm nua, ao p dele.
- Mazurov? Aquele que no queria acreditar que tinha uma lcera?
Ia acomodando os cobertores sobre ela, aproveitando para lhe 
acariciar os seios.
- No, agora no - disse ela.
- E esse Mazurov sobreviveu?
- De vez em quando fazes cada pergunta mais idiota, Marius...
Tinha fechado os olhos e voltara-se, pondo as mos debaixo duma das 
faces, para adormecer. Parecia muito jovem, quase uma rapariguinha, 
com os seus longos cabelos espalhados, o jeito infantil dos lbios e 
as narinas palpitando a cada movimento respiratrio.
Ele olhou-a longamente antes de se estender ao seu lado, sem lhe 
tocar.
"Que fiz eu para te merecer? Sou to feliz que isso chega a 
magoar-me. Deixar-me-ia cortar aos pedaos por ti. Amo-te. Ofereo-te 
toda a minha vida, que j tens entre as mos... nessas tuas mos 
irradiantes... Sem ti, estaria perdido. Meu Deus,  possvel que haja 
na Terra uma criatura como ela?"
Deu-se conta que tinha comeado a chorar, que precisava de chorar...
"S posso viver atravs de ti. Sem ti, j no haveria mais nada para 
mim. Sem ti, eu no seria mais nada... "
Durante aquela semana, Marius Herbert pintou trs telas.
Soya Igorovria tinha-lhe trazido de Tcheliabinsk telas, molduras, um 
cavalete, uma paleta, essncia de terebintina e tudo o mais que era 
necessrio. Como ele ficasse admirado, ela tinha posto o seu ar mais 
irnico para lhe responder:
- Os capitalistas julgam que a Sibria  um deserto de gelo e que os 
Russos ainda jogam ao domin com caganitas de lebre. Tcheliabinsk  
uma grande cidade moderna, camarada Marius. Tem trs escolas de 
belas-artes, h exposies no Palcio da Cultura, uma orquestra 
sinfnica, uma escola de ballet, uma academia tcnica, quatro teatros 
e um grande centro desportivo. O que  que pensam no Ocidente da 
nossa Sibria? Ningum sabe, ou no quer saber, que  na Sibria que 
est a nascer o futuro do novo milnio...
Trs quadros de gnio. Era o termo que se impunha, e nenhum outro, 
para descrever aquela dissoluo das formas que ressuscitavam no jogo 
e no delrio das cores. Bastava dar trs passos para trs para que 
aquele caos aparente se ordenasse numa realidade superior de 
inspirao original.
Nunca se tinha visto uma coisa daquelas. Cada quadro exercia no 
observador uma espcie de fascnio exttico. O primeiro era uma 
evocao de Tcheliabinsk mergulhada numa bruma ensolarada. Ao v-lo, 
Doerinck estendeu espontaneamente a mo a Marius.
-  formidvel, meu caro...

Marius contou orgulhosamente a cena a Corina. A sua metamorfose 
tomava-se evidente aos olhos de todos: agora j acreditava em si 
mesmo e na sua arte; por isso pintava como um possesso da manh  
noite, trocando impresses com Soya Igorovna, a quem expunha os 
projectos que fervilhavam nele...
Aps uma semana de trabalhos e de exames intensivos, o professor 
Nerochenko declarou que j no havia mais nada para filmar ou gravar. 
Depois, bruscamente, props a Corina e  famlia uma oferta que fez 
com que o resto da sua estada tomasse um rumo inesperado...
Foi durante uma festa em que apareceu Mazurov, completamente 
ressuscitado: tinha abandonado a cama e embora tivesse ainda, 
evidentemente, as pernas vacilantes, j no sentia nenhuma dor. 
Avanou para Corina com um largo sorriso. Ao fim da terceira sesso, 
ela dera o tratamento por terminado. "j no  necessrio", 
dissera-lhe.
Nerochenko tinha autorizado Mazurov a ir at ao hospital de 
Tcheliabinsk. O director do servio de radiologia desconhecia 
totalmente o que tinha acontecido ao jovem tcnico, que apenas se 
queixava de dores indefinidas na regio do estmago. Uma endoscopia 
confirmou os primeiros exames radiolgicos. Na pars descendens do seu 
estmago inteiramente so s se observavam cicatrizaes provenientes 
duma lcera que, segundo parecia, se tinha curado por si mesma. As 
dores que o camarada Mazurov sentia deviam ser atribudas a um estado 
puramente nervoso.
No dia seguinte, durante um jantar, Nerochenko mostrou-se cada vez 
mais encantado e todos os russos multiplicaram os avisos.
- Corina Stefanovna, dentro dum ms o seu nome ser clebre no mundo 
inteiro!
O espumante da Crimeia acompanhou primeiro blins com caviar e a 
seguir um prato do Cucaso que Ludmila acolheu com expresses de 
alegria: bocados de esturjo e de espadarte grelhados no espeto e que 
se chamam tart tchamporzch chamtsuari. A seguir veio uma grande 
saladeira cheia de sabsi pies - uma mistura de cenouras estufadas e 
de cebolas douradas. Nerochenko, a cada brinde, repetia a Corina:
- Vai tornar-se numa das mulheres mais ilustres do mundo.
Foi ento que o Dr. Hambach ensombrou a atmosfera. Abanando a cabea, 
no pde deixar de dizer:
- Sim, mas tambm uma das mais odiadas, professor Nerochenko. Que 
poderemos esperar encontrar no regresso? Uma aprovao entusiasta? Um 
reconhecimento espontneo dos mritos de Corina? No, ser 
exactamente o contrrio, infelizmente. Uma matilha de ces 
enraivecidos vai atirar-se a ela para a magoar fsica e moralmente. 
Vo deitar sobre tudo o que ela disser e fizer baldadas de injrias e 
de zombarias. As autoridades utilizaro contra ela a omnipotncia do 
Estado e dos media para a acusar de charlatanismo e de exerccio 
ilegal da medicina. No vivemos numa ditadura, mas existem no nosso 
pas numerosos meios "legais" para levar algum exausto at a 
pessoa tropear e cair: comeam por trapalhices fiscais, processos 
por escamoteao de rendimentos, por fraudes ou vigarice.  maldade 
nunca falta imaginao. A Corina j foi vtima de um incndio e de 
uma tentativa de assassnio.

Nerochenko s estava  espera daquilo. Bruscamente, mudou de cara 
para pronunciar solenemente as palavras sobre as quais meditara 
longamente e que iam talvez mudar o curso da existncia deles. Para 
impor o silncio  mesa inteira, comeou por bater vrias vezes as 
pequenas mos e foi num silncio absoluto que se dirigiu aos 
hspedes.
- Reflictam bem na minha proposta. Fiquem aqui connosco. No haver 
dificuldades, apenas algumas formalidades. Na Unio Sovitica os 
investigadores beneficiam de todas as vantagens e at mesmo de 
privilgios! H muito tempo que se compreendeu perfeitamente em 
Moscovo que o pas que possui a mais avanada actividade de 
investigao ocupa automaticamente o primeiro lugar entre todas as 
naes do Mundo. No existe nenhum domnio respeitante ao homem e ao 
Universo, no microcosmo e no macrocosmo, que a cincia sovitica 
negligencie. Fora do pas isto  ignorado, pois s comunicamos ao 
Ocidente uma fraco das nossas descobertas, apenas o suficiente para 
inspirar aos nossos colegas e aos governos dos outros pases o 
respeito indispensvel pelo nosso trabalho. - Parou e ps-se a rir. A 
seguir continuou: - A Rssia sabe coisas que o resto do mundo ignora. 
O Ocidente cr que ainda estamos no estdio do urso-da-sibria. 
Lembram-se que Bismarck dizia: "Deixem dormir o urso russo..." Mas 
no dormiimos. Crimos um mundo novo na mais absoluta serenidade. 
Voc, Corina, e eu, no passamos de pequenas peas dum vasto mosaico. 
- Voltou-se para Ludmila. - Fique aqui, Ludinila Davidovna! A sua 
velha ptria espera por si. Abre-lhe os braos!
Ludinila fixou longamente o olhar em Stefan Doerinck e ningum teve 
dificuldade em interpretar este. Aquele olhar dizia: "Reflecte bem, 
Stefanka. Na Alemanha vo obrigar-te a pedir uma reforma antecipada. 
Actualmente, j nem te deixam ensinar, o que era a tua razo de 
viver. At ao ltimo suspiro, sers um proscrito entre os teus, no 
porque mataste, roubaste, maltrataste ou perverteste as crianas que 
te confiaram, mas porque temos uma filha cujas mos conseguem curar. 
A tua Alemanha ainda  o nosso pas? Oferece-nos um lar? Ainda 
podemos viver e repousar em paz, quando morrermos, numa terra que no 
nos aceitou? V bem o que te fizeram, a ti, que no cometeste nenhum 
crime. E o que ir acontecer-nos quando as experincias de 
Tcheliabinsk forem publicadas no mundo inteiro? Que devemos fazer, 
meu amor?"
Com o rosto impassvel, Doerinck esperou bastante tempo antes de 
responder bruscamente a Nerochenko:
- Para quando est prevista a nossa partida?
- Para daqui a trs dias. O aparelho descolar de Moscovo para 
aterrar em Francoforte.
- Os nossos lugares foram reservados?
- S reservados - disse Soya Igorovna -, mas posso perfeitamente 
anul-los...
Perante o olhar de Stefan Doerinck, parou imediatamente.
Depois de ter abanado a cabea, endireitou-se para dizer com orgulho:
- Outrora, no Cticaso, no desertei e nessa altura bem tinha razes 
para o fazer... Visto que teremos uma luta para sustentar na 
Alemanha, no  agora que vou desertar...
Aps um longo silncio, Nerochenko declarou numa voz cuja emoo 
deixara de controlar:
- Ainda tm trs dias para decidirem. Posso anunciar-vos 
oficialmente, da parte do secretariado do Ministrio do Interior, que 
Ludmila Davidovna est autorizada a voltar com vs todos para Poti, 
nas margens do mar Negro, onde vos esperam duas datchas...

- Stefanka - balbuciou Ludmila -, Stefanka.
Ele apercebeu-se de que ela chorava, mas repetiu numa voz ainda mais 
dura:
- Partiremos... Peo-lhe que no falemos mais desta possibilidade. 
Sei que se trata duma oferta excepcional, meo a grande generosidade 
que lha inspirou, professor, mas quero morrer no pas que  o meu.
- Posso perguntar-lhe se a sua resposta seria a mesma se esta oferta 
proviesse de Washington? Se duas vivendas americanas estivessem  
vossa espera em Miami ou na Califrnia? - perguntou de repente o Dr. 
Latichev.
No escondia a sua decepo e o seu tom de voz era duma tal 
impertinncia que Stefan Doerinck ficou a olhar longamente para ele, 
antes de responder.
- A minha resposta seria a mesma, palavra por palavra, senhor doutor. 
Mas, naturalmente, s falo por mim. No entanto, algo me diz que a 
deciso da minha filha no diferir da minha.
- Tens razo, papuchka. Tambm eu me baterei at ao fim, tal como tu. 
- Tinha levantado o copo e convidava todos a beber com ela. - Do 
corao vos agradeo a oferta, mas partiremos.
Depois de um gesto que exprimia o seu pesar, Nerochenko bebeu o copo 
at  ltima gota e, imitado por todos os russos, atirou-o contra a 
parede.
Aps um momento de hesitao, Marius projectou igualmente o seu no 
monte de cacos que se erguia contra a parede. Havia tristeza no seu 
olhar e nas palavras que pronunciou.
-  verdade, temos de partir, mas os dias que passei aqui foram muito 
bons e muito belos.  um perodo que conservarei sempre dentro de 
mim. E mesmo que nunca mais nos voltemos a ver, manter-nos-emos 
sempre juntos...
Dois dias mais tarde partiram para Moscovo, acompanhados apenas por 
Soya Igorovna, a intrprete.
No momento em que sobrevoavam os cumes nevosos dos Urales, Marius 
pousou a mo na coxa de Corina. O Dr. Hambach dormia. Stefan Doerinck 
e Ludmila olhavam atravs da janela, como se pretendessem gravar nos 
respectivos coraes os ltimos quilmetros da taiga, os rios gelados 
e a estepe branca que se sucediam lentamente por baixo deles.
- Como te sentes? - perguntou Marius docemente.
- Cansada... E tu?
- Eu? Seria capaz de pintar cem telas ao mesmo tempo!
Comeou a rir e ele teve a impresso de que os pontos dourados das 
suas pupilas se tinham posto a danar.
- Veremos isso quando estivermos em casa...
Em casa, o que  que isso queria dizer, o que  que aquilo ia ser? 
Teriam por habitao uma tenda assaltada por uma matilha de 
reprteres de toda a espcie. Os habitantes de Hellenbrand estariam 
divididos em dois campos. Esperava-os tambm a hostilidade da 
medicina oficial, que no desarmaria nunca e cuja vaidade ferida se 
recusaria a qualquer troca de ideias, j para no falar das 
autoridades prontas a atac-la nem das queixas na justia... "Em casa 
teriam, ao menos, tempo para respirar? Seria isso o seu lar, a "sua" 
casa?
- Quando  que vais dar a grande notcia aos teus pais? -cochichou 
Marius.
- Quando as coisas estiverem mais calmas.

Olhou para os pais. Doerinck apertava a mulher contra si, ternamente, 
mas com bastante fora, como se se tivesse arriscado a perd-la... E 
Corina leu-lhe nos lbios as palavras que estava a pronunciar:
- Agora despedimo-nos de um sonho que ambos tnhamos h dezenas de 
anos: voltar a ver a Rssia, no ?
H meses que podem passar, arrastar-se, numa angstia torturante e 
que parece no ter fim. Os segundos caem-nos sobre a cabea como se 
fossem gotas de gua. A insignificncia do quotidiano gasta 
lentamente a coragem que possumos. Quando  noite nos voltamos a 
encontrar na cama e voltamos a ser o que somos, a angstia do futuro 
aperta-nos a garganta e o corao e compreendemos que os meses se vo 
transformar numa priso obscura e esmagadora de que nunca sairemos. 
Mas o tempo tambm pode fugir de ns como um turbilho de folhas 
mortas em plena tempestade.  em vo que corremos atrs delas. As 
horas e os dias no chegam para conter a plenitude duma vida que se 
deseja reter ou apertar contra ns para dela desfrutar para sempre.
O que era ento a vida em Hellenbrand para os "siberianos", como eram 
chamados desde o seu regresso, cuja notcia se tinha propagado como 
um fogo na estepe? De todo o lado tinham chovido telefonemas. Menos 
por parte dos seus adversrios. Os comerciantes esperavam que os seus 
negcios conhecessem novo impulso. As barracas continuavam no stio, 
e visto que os doentes tinham regressado em maior nmero do que 
anteriormente, o padeiro, o homem do talho, o estalajadeiro, o 
vendedor de recordaes tinham voltado, adaptando os seus artigos do 
Outono  chegada do Inverno que se aproximava: salsichas e pratos 
cozinhados, castanhas e amndoas assadas, vinho quente, etc. Como 
deixar escapar tal fonte de lucro, mesmo quando se era um dos piores 
inimigos da mulher de mos irradiantes? Negcios so negcios e o 
dinheiro no tem cheiro, como dissera um imperador romano. Quanto  
moral, foi coisa que nunca deu lucro, a no ser s seitas ditas 
religiosas e  Cruz Vermelha! Nada nos  oferecido gratuitamente na 
vida e se se tem mos e crebro  para trabalhar...
No dia do regresso, os "siberianos" tinham encontrado em casa Erasmus 
Roemer, que os esperava com uma mesa cheia de comida e de bebidas.
- Bem-vindos a casa! - gritara ao apert-los, um aps outro, contra o 
seu peito de mamute.
Seguiu-se uma cascata de perguntas, todas do mais puro gnero Roemer.
- Ento, Ewald, como  que achaste as russas? Sempre verdade que na 
cama so elas que comandam as operaes gritando como os oficiais 
soviticos na hora ag: "Fperiot! Fperiot! (Para a frente! Para a 
frente!)" - Levantando Corina do cho, ps-se a danar  volta da 
mesa, gritando: - Vitria! Vitria, minha querida menina! Fui ver 
Willbreit na sua serrao de ossos e ele radiografou-me. Estou 
curado! Estou curado! Comea uma nova vida para mim e que bela vida! 
Graas a ti!
Tinham-se passado muitas coisas em M'nster e em Hellenbrand durante a 
dezena de dias que durara a ausncia deles.

Elise Roemer pedira formalmente o divrcio e para evitar as perguntas 
e as censuras do pai tinha-se refugiado numa espcie de 
clnica-sanatrio cujo mdico-chefe lhe passara um atestado afirmando 
que ela precisava de repouso completo e que no devia ter nenhum 
contacto com o mundo exterior. O pai dela conseguira localizar Roemer 
e tinha censurado amarguradamente a conduta deste, que, na sua 
opinio, era a causa daquele escndalo social. No entanto, 
acalmara-se rapidamente quando Roemer lhe deu uma verso mais exacta 
dos factos: a sua filha abandonava um presidente de tribunal para se 
casar com um baro!
- Que mais queres? - dissera ao sogro, estupefacto. -Vais trocar um 
magistrado de toga que tira os macacos do nariz para no morrer de 
tdio durante as sesses do tribunal por um membro da alta 
aristocracia hngara!  o que se chama subir socialmente! E quando a 
Elise abrir as pernas, receber...
O sogro ps fim  comunicao com um grunhido de indignao.
Ao professor Willbreit acontecera o que Roemer sempre prevera: a bela 
Lydia, a ardente esposa que ele descurava nos momentos em que vibrava 
de desejo at  ponta dos cabelos, tinha-lhe dado uma possibilidade 
de escolha: ou comeava a passar mais tempo com ela ou ento, se 
pusesse a profisso em primeiro lugar, ela arranjaria um amante.
- No o poderei suportar - gemera Willbreit. - Que devo fazer, 
Erasmus?
- Faz como eu! Isto , metemo-nos no carro e vamos ao Krautkramer, 
onde nos ofereceremos um extraordinrio jantar acompanhado por um 
extraordinrio Bordus e comeremos e beberemos alegremente para 
celebrar a nossa libertao! Vou reservar mesa imediatamente.
- Pensava que estavas a seguir uma dieta rigorosa!
- Isso j l vai! Estou curado, professor, mesmo que isso te 
desagrade! Fui ontem consultar o doutor Meersmann para fazer a ltima 
radiografia. j deixei de ser um cadver cheio de pus e em processo 
de decomposio. E devo isto s mos irradiantes e maravilhosas de 
Corina!
- Nunca acreditarei nisso! Todas essas histrias de raios, de 
bioenergia, de bioplasma, de campos de foras psicocinticos so pura 
loucura.
- Queres ver as radiografias do doutor Meersinann?
- Prefiro radiografar-te eu prprio.
Foi assim que Willbreit levou Roemer  clnica da universidade. 
Depois de radiografias e de exames sem conta, o Prof. Kranzwiller 
confessou ao seu colega Willbreit que no percebia nada do que via.
- Caro Thomas, desapareceu tudo, menos algumas cicatrizes que no 
apresentam nada de suspeito. j no h estrangulamento nem 
endurecimento do fgado. - Tinha tirado de um grande sobrescrito as 
primeiras radiografias de Roemer e estava a confront-las, incrdulo, 
com as que acabara de tirar. -  incrvel! Nas primeiras via-se 
claramente o fibroma e as excrescncias do fgado. E agora este 
fgado est empastado e gordo, o que se explica por tudo o que Roemer 
come e bebe, mas mais nada. O que  que se passou, Thomas?
- Ento rev os ltimos pormenores do tratamento e publica depressa 
os resultados.  um xito formidvel!
No Krautkramer, o regresso de Roemer foi espectacular. Abraou o dono 
num entusiasmo delirante de amizade.

- Abram depressa uma garrafa do meu Bordus preferido. Espero que 
ningum tenha tocado nas minhas garrafas durante a minha ausncia, 
pois aqui estou eu de volta! E agora, depressa, apresentem-me as 
vossas sugestes para um festim digno dum rei. Meu caro Krautkramer, 
estamos aqui a festejar uma ressurreio!
Willbreit teve de acompanhar Roemer a Hellenbrand j muito depois da 
meia-noite e ficou l at de manh. Mas no conseguiu dormir. As 
radiografias do fgado de Roemer no o deixavam descansar e 
desfilavam, sob as suas plpebras fechadas. Roemer estava ento 
curado graas s irradiaes de duas mos de mulher... Era obrigado a 
reconhec-lo, mesmo se lhe parecia inacreditvel. S lhe restava 
agora encontrar uma explicao mdica vlida para tal fenmeno.
Durante estes dez dias, Roemer conseguira finalmente contactar com o 
procurador, que devia instruir dez queixas individuais de mdicos, e 
a dcima provinha do sindicato dos clnicos. A isto vinha juntar-se 
uma carta da administrao das finanas exigindo a abertura dum 
processo por fraude fiscal.
- Tm todos merda no lugar do crebro! - resmungou Roemer. - No pode 
levar isso a srio, senhor procurador.
Sou obrigado a faz-lo... H manifestamente infraco 
lei...
- Quer dizer que a lei probe as pessoas de curarem outras?
O procurador fazia todo o possvel por manter o sangue-frio.
- No nos percamos em polmicas sem sada, caro presidente. Os 
mdicos existem para tratar e curar os doentes...
- E quando os mdicos reconhecem a sua impotncia e nos dizem "j no 
posso fazer nada por si". Ento?
- Verdadeiramente, no sei...
- Mas eu sei: segundo os exames e as radiografias dos mdicos, j h 
muito que devia estar morto e enterrado. Aps seis semanas de 
tratamento com Corina Doerinck, eis-me aqui fresco como uma alface e 
provam-no os novos exames e as novas radiografias que fiz. Pois , 
senhor procurador, aquela que quer levar a julgamento salvou a vida 
do presidente do tribunal de 1.a instncia desta jurisdio! O que  
que acha que farei? Instrua os processos e eu'irei testemunhar a 
favor de Corina Doerinck. Garanto-lhe que o meu testemunho far 
barulho suficiente para partir todos os vidros do nosso tribunal.
- No posso impedi-lo de o fazer, caro presidente. -Mas, 
manifestamente, o procurador no estava  vontade. No previra o rumo 
que a conversa iria tomar. - Pode citar-me outros casos de... curas 
milagrosas?
- Uma srie deles! Ficar surpreendido quando receber os vrios 
testemunhos: toda a nata da sociedade de M'nster vai desfilar ao meu 
lado diante da barra do tribunal! Previno-o: depois dos pontaps que 
terei dado no rabo de todos os que atacarem Corina Doerinck, ningum 
poder sentar-se durante uma semana.
- E a propsito do conflito da senhora Doerinck com as finanas, 
tambm sabe alguma coisa?
- Essa gente no est boa da cabea.
- Mas a senhora Doerinck recebeu somas avultadas. Dois funcionrios 
fiscais so disso testemunhas.
- Trata-se de presentes que no aceitou nem aceita. Esse dinheiro 
pertence, portanto, aos que lho deram. Eles que o vo buscar de 
volta!
Roemer exultava verdadeiramente de alegria e o procurador bem se dava 
conta disso.
- Mas, como sabe, toda a gente est sujeita ao imposto sobre o 
rendimento.

- No se trata dum rendimento, e o facto de o Fisco no compreender 
isto estabelece com rigor qual o quociente intelectual dos seus 
agentes!
A conversa terminou aps estas palavras, deixando o procurador 
bastante abatido: aquele caso era to perigoso para ele como uma 
bomba pronta a explodir.
No que dizia respeito  tentativa de assassnio de'que Corina fora 
vtima por meio de uma flecha envenenada, o inqurito, como era de 
esperar, no avanava e o caso seria em breVe encerrado.
O inspector declarou que, em M'nster, nunca constou que alguem 
tivesse usado uma zarabatana para disparar uma flecha envenenada.
Korina contou ao Dr. Hambas que estava grvida.
- E os teus pais j sabem?
- No.
- E Marius?
- Dedicou-se de corpo e alma  pintura.
- E nesse caso, que papel te est reservado? - PerguntOU Hambach, 
levado por um Pressentimento indefinido.
- Comecei a tratar um dos reprteres com asma crnica, tio EWald.
- Que seria do Marius sem ti, minha filha?
- Que seria cada um de ns sem outro ser capaz de o apoiar, tio 
EWald? - Levantou-se e estendeu-lhe a mo. - Encarrego-me dos Pais- 
Queria s que fosses O Primeiro a sab-lO como mdico.
No se Pode dizer que Stefan tenha lanado um grito de alegria quando 
Corina lhe declarou com brevidade:
- Eu e o Marlus vaMO-nos casar no Natal. Estou grvida de trs meses, 
pai.
- Que maravilha, Corina. Simplesmente, eu sempre tinha imaginado o 
Pai do meu neto muito diferente.
- Sou eu que vou viver com ele e no tu. Quanto a ns, ambos sabemos 
que temos  nossa frente uma vida completa, conseguida e maravilhosa. 
Tenho trinta anos e ele trinta e um. No dizes nada, mamuchka?
Ludmila sorriu.
- Em russo diz-se que no se deve contar as batatas quando se trata 
de amor. Sei que sers feliz.

As grandes revistas ilustradas dos Estados Unidos, da Itlia, da 
Frana, da Espanha, da Holanda, do Japo, da frica do Sul e da 
Austrlia provocaram uma tempestade de comentrios e de discusses 
apaixonadas. Por parte das cidadelas mdicas, as reaces foram mais 
marcadamente negativas como era de esperar. Um ilustre francs 
publicou a primeira caricatura: Corina aparecia a cortar a barba de 
Deus com uma tesoura e a dizer-lhe: "Anda, deixa-me cortar-te a barba 
e sai desse trono ridculo! A partir de agora passars a sentar-te na 
nuvem n.o 32. Sabes bem que no s mais de que uma irradiao 
bioplasmtica!"
E visto que o mundo inteiro conhecia agora o nome de Corina Doerinck, 
os doentes voltaram a afluir a Hellenbrand.

As agncias de viagens organizaram de novo excurses de autocarro com 
tudo includo.  volta da pequena cidade, os hotis, estalagens e 
penses arriscaram-se a provar que se podia resistir s condies 
deplorveis do fim do Outono da regio de M'nster. A "feiticeira 
siberiana", como a baptizara ousadamente um reprter, alcunha 
adoptada por todos com um frenesim quase lbrico e de que ela nunca 
mais se livraria, voltou a tornar-se num objectivo turstico e a ser 
pretexto de numerosas noitadas de copos. Os negcios dos 
comes-e-bebes e das barracas atingiram o apogeu. Cada dia era 
praticamente uma festa popular e ao domingo, depois da missa, a 
fanfarra municipal tocava na praa marchas militares e aberturas de 
operetas. Meu Deus, como a vida era bela em Hellenbrand onde j no 
se protestava contra a presena da "feiticeira siberiana", antes pelo 
contrrio -  parte os mdicos, naturalmente... Mas os fogos 
contrrios que tentavam acender no dissuadiam ningum de acorrer a 
Hellenbrand onde se elevavam vozes cada vez mais vigorosas contra as 
frias foradas de Stefan Doerinck. Ir-se-ia ficar privado durante 
muito tempo do "melhor professor" que as crianas j alguma vez 
tinham tido?
Corina, que recebia os doentes durante trs horas de manh e trs 
horas  tarde, estava to exausta no fim do dia que o Dr. Hambach no 
pde deixar de intervir energicamente.
- Isto assim no est nada bem, Corina. Pensa na tua criana. Ainda 
no adquiriste nenhum sentido das tuas responsabilidades maternais.
Mas, apesar da fadiga que a pregava numa cadeira  noite, de olhos 
quase ariscos e com as faces encovadas, respondeu:
- Esto l fora doentes que posso socorrer. Tenho de o fazer...
Na semana que precedeu o Natal, ou seja, oito dias antes do seu 
casamento, saiu uma das duas grandes revistas onde se reproduziam os 
quadros de Marius em seis pginas duplas a cores. No texto figurava, 
naturalmente, a informao de que Corina Doerinck se ia casar com 
aquele genial pintor ainda desconhecido. Corina no se tinha 
enganado: a reaco foi extraordinria. Vrias galerias de Colnia, 
Berlim, Munique, Hamburgo, Hanver, Estugarda e Francoforte enviaram 
cartas a Marius propondo-lhe datas para exposies. Dois 
especialistas de Paris disputaram a honra de ter a exclusividade 
mundial de todas as obras de Marius Herbert, enquanto uma galeria de 
Londres lhe abria as suas portas. Mas um telegrama de Nova Iorque 
anunciou a visita dum representante da firma Morrison e Sons, o que 
relegou tudo o resto para segundo plano.
Marius apertou longamente Corina nos seus braos.
- O meu corao bate tanto que tenho a impresso de sufocar. Um 
artista de que Morrison se ocupe deixa de ter preocupaes: o seu 
futuro est assegurado. Tenho a impresso de estar a sonhar, Corina.
Mas no era um sonho. O agente da Morrison e Sons, um tal James 
Harris, chegou mesmo a tempo de ser convidado para o casamento. Olhou 
longamente para as telas de Marius e declarou num alemo hesitante:
- Melhor ainda do que nas reprodues da revista! Ficamos com tudo, 
com toda a coleco em troca dum contrato de exclusividade, certo? 
Primeiro, faremos uma grande campanha de publicidade e a seguir uma 
exposio itinerante em Nova Iorque, Washington, Chicago, So 
Francisco, Los Angeles, Dallas e Bston. Amanh voc ser o expoente 
do "novo impressionismo", de acordo?
Corina, que se mantinha ao lado de Marius, interveio.

- D-lhe ao menos tempo para ele primeiro se casar! As telas no vo 
desaparecer...
- No, mas talvez apaream outros concorrentes. Negociemos 
imediatamente: no ter razes para lamentar ter escolhido Morrison e 
Sons, pode crer. Pinte que ns venderemos!
O casamento provocou vrios rangidos de dentes em Hellenbrand. 
Primeiro, a hora escolhida para o casamento civil, nove da manh, no 
era muito propcia  presena de basbaques. Mesmo assim l estavam 
cerca de quarenta curiosos que aplaudiram e lanaram flores aos ps 
de Corina quando esta saiu do carro diante da cmara. Mas o grande 
acontecimento, a cerimnia religiosa, no se realizou em Hellenbrand, 
mas em Coesfld. Uma indiscrio do florista Werremann revelou o 
facto com vinte e quatro horas de antecedncia. Tratava-se duma 
afronta deliberada e o rancor fez soltar as lnguas: "Fizeram muito 
bem em impedir esse tal Doerinck de ensinar. Vai casar a filha em 
Coesfld!"
Os padrinhos eram Erasmus Roemer e uma personagem inesperada, o Dr. 
Wewes. Numa das ltimas visitas que fizera a Corina, de cabea 
levantada e sem se esconder, este tinha declarado:
- Perdoe-me a cobardia dos primeiros dias. J a deixei ficar para 
trs. Na nossa ltima reunio semanal abandonei para sempre a mesa 
reservada dos mdicos, aps uma longa e penosa discusso, que me deu 
a satisfao de ter posto os pontos nos iis. Willbreit acabou por me 
chamar traidor e respondi-lhe que ele era to ignorante como os 
frades ignorantinos que recusavam qualquer acesso ao conhecimento!
Espontaneamente, Corina tinha-lhe pedido para ser padrinho de 
casamento.
O copo-d'gua realizou-se no Castelo de Sunderfeld, um Wasserburg em 
modelo reduzido, onde o proprietrio, que Corina tinha curado duma 
citica rebelde, tinha insistido para organizar a festa. S havia 
alguns convidados  volta da grande mesa redonda e foi Erasmus Roemer 
quem se levantou por altura da sobremesa para felicitar os noivos no 
seu estilo particular.
- Se olhar  minha volta, s vejo sentados a esta mesa antigos 
doentes que as mos de Corina libertaram dos seus males. 
Consideremo-nos, durante um instante, como uma amostragem do gnero 
humano, tal como os que permitem aos computadores prever, antes duma 
eleio, as percentagens dos diferentes partidos. Com efeito, na 
minha opinio, a humanidade inteira est no mnimo to doente como 
ns j estivemos e seria necessrio, para se curar, que existissem 
centenas de milhares de Corinas! Mas s h uma e  a nossa! Assim, 
esperemos que o tempo pare para ela. Sim, esperemos que ela viva para 
sempre! E como o tempo foge sem ns querermos, celebremos, pois, este 
dia de festa, visto esta no ser igual a nenhuma outra no mundo!
 noite, um pequeno fogo-de-artifcio iluminou o Castelo de 
Sunderfeld. A seguir, o dono da casa, segurando alto um candelabro de 
doze velas, precedeu os recm-casados at ao quarto nupcial, decorado 
com tule branco e com rosas.

No rs-do-cho, Doerinck, o Dr. Hambach e Roemer, sentados diante da 
chamin, onde crepitava um bom lume, conversaram longamente, fumando 
cada um o seu havano e bebendo um Borgonha tinto que preferiam ao 
champanhe que estava a ser servido um pouco mais longe, na mesa onde 
se encontrava Ludinila, o Dr. Wwes e os donos da casa.
- No dia dezassete de Janeiro - anunciou Roemer de repente - sero 
pronunciados dois divrcios. O dos casais Roemer e Willbreit.  o 
cmulo da amizade obter o divrcio na mesma data. - O seu riso 
ressoou na sala como um trovo. - Mas o pobre Willbreit est 
completamente desmoralizado. Fez com que lhe arranjassem um quarto na 
clnica, para grande dano e clera do pessoal mdico, dado que ele se 
levanta s sete horas da manh e quer logo comear a operar. O 
professor HeIbrecht, o chefe, decidiu ignorar o conflito. Pensa 
reformar-se e props ao conselho de administrao a nomeao de 
Willbreit para o substituir. Pois bem, tambm eu penso reformar-me, 
comprar uma casinha para estes lados e mandar construir, de acordo 
com todos os princpios da arte, uma cave que encherei de bons 
vinhos. Passarei os anos de vida que me restam a viver sentado ao sol 
e a dizer para com os meus botes: "Mas, meu caro, vais viver mais 
este dia! Que felicidade! Dmos graas a Deus!" - Olhou para Doerinck 
e curvou-se para lhe dar uma forte palmada na coxa. - Ento, Stefan, 
quando  que vocs mandam construir uma casa para a Corina?
Doerinck encolheu os ombros, desencorajado.
- Ela no quer. Quando a criana nascer, partir para um stio onde 
ningum a conhea. Comunicou-no-lo ontem.
- E dizes-me isso calmamente, como se se tratasse de me fazer beber 
um copo de vinho. Para onde  que ela quer ir?
- No fao ideia. O Marius vai confiar a sua produo a um agente 
americano e seremos os nicos, alm deste ltimo, a conhecer a morada 
deles. Mas no te preocupes, Erasmus, vais v-la quantas vezes 
quiseres.
O gigante tinha recuperado a disposio que lhe era habitual.
- Era s o que faltava. Que ideia a dela de se casar to 
precipitadamente. Nem esperou que eu me curasse. Podamos ter falado 
do assunto! Ela tem trinta e um anos e eu quarenta e nove. Dezoito 
anos  a diferena ideal para um casal! - A gargalhada deles chamou a 
ateno dos que estavam perto e Roemer dirigiu-se de longe a 
Ludinilla: - Ludinila Davidovna, "mezinha", como se diz no teu pas, 
 pena: achamos todos que no tens o genro de que precisas!

Numa manh de Janeiro, s 11 e 22 exactamente, quando se encontrava a 
tratar dum doente vindo do Sul da Holanda que sofria duma gastrite 
crnica, Corina sentiu bruscamente no ventre a criana, que, pela 
primeira vez, se mexia. Foi uma sensao extraordinria: a da 
irrupo duma vida. Durante um breve momento, Corina fechou os olhos 
para melhor se dar conta do que nela se passava, enquanto as suas 
mos continuavam a ir e a vir por cima do doente, no stio onde 
localizara o mal. De repente apercebeu-se de que com o despertar da 
criana dentro de si o contacto com a paciente cessara subitamente. 
Foi exactamente como quando se apaga um candeeiro accionando um 
interruptor.
Estupefacta, olhou para as suas mos durante um instante. Depois 
aproximou-as lentamente da doente, at a tocar. Nada. Com uma voz 
diferente, Corina dirigiu-se quela que seria a sua ltima doente:
- Est bem... Pode ir-se embora.
- Devo voltar depois de amanh ou noutro dia?

- No sei...
Dirigiu-se de imediato para a porta, como um autmato, para se 
retirar na diviso que transformara em quarto de dormir desde o seu 
casamento. A deixou-se cair sobre a cama, olhando fixamente para a 
frente, com os olhos perdidos no vazio.
Um minuto depois, Marius foi ter com ela. Pedira desculpa  holandesa 
pela indisposio da mulher e prevenira os doentes de que teriam de 
esperar alguns minutos.
- O que  que se passa, Corina?
- O nosso filho mexeu-se pela primeira vez - disse ela docemente.
-  maravilhoso, Cora.  verdadeiramente um grande momento, tanto 
para ti como para mim - e beijava-a na testa e acariciava-a com uma 
ternura infinita.
Mas ela olhava para ele com um olhar indecifrvel, respirando 
profundamente e mais rapidamente do que de costume.
Sem ter ainda compreendido, viu-a dar um salto da cama, ir buscar um 
copo extremamente estreito e pous-lo em cima da mesa. Fechando as 
plpebras, concentrava toda a sua energia com tal intensidade que o 
seu rosto tornara-se numa mscara de lbios contrados de 
proeminentes malares, que pareciam querer romper a pele que os 
cobria. Fazia as mos irem e virem por cima do copo, cada vez com 
mais nervosismo, de dedos afastados, procurando no fundo de si 
prpria a fora que irradiava dela desde sempre, mas de que - sabia-o 
agora - no tinha sido mais do que fiel depositria. Nada! Aquele 
copo de cristal fino no explodia. Estariam os seus dedos mortos? 
No, faziam simplesmente parte duma mo que voltara ao normal.  
fora de se crispar, iam simplesmente esmagar o copo.
Estupefacto, irritado, Marius s recuperou a fala ao ver os bocados 
manchados com algumas gotas de sangue que tinham voltado a cair sobre 
a mesa.
- Mas tu cortaste-te, Corina! Espera, vou buscar um penso rpido. Mas 
porque  que esmagaste o copo daquela maneira?
Ela tinha inclinado a cabea para trs. Estava de olhos fechados, 
estupefacta, transtornada, mas sorridente. Pouco a pouco, o seu rosto 
voltava a ter o aspecto normal.
- Manda todos os doentes embora, Marius - disse numa voz cava. - 
Todos!
- Ainda esto nove  espera. O que  que lhes devo dizer?
- Que se vo embora! E que nunca mais voltem! - A sua voz, 
inicialmente irreconhecvel, comeava a tornar-se outra vez normal, 
cada vez mais calma e clara, mas as palavras saam to rapidamente da 
sua boca que eram quase incompreensveis. - j no posso... j no 
consigo... j no tenho a fora... Desapareceu... As minhas mos 
esto vazias...
- Cora!
Tinha corrido para ela, apoiava-a e apertava-a contra ele. 
Apercebeu-se de que ela chorava com a cabea encostada ao seu ombro. 
No se mexeram durante algum tempo, como se no conseguissem conceber 
o que lhes estava a acontecer. Foi Marius quem reagiu primeiro.
- Como... como  que te deste conta? - gaguejou.
- No exacto momento em que o beb se mexeu. A partir desse momento, 
tudo acabou... A fora que as minhas mos possuam abandonou-me...
- Queres dizer que a criana... - apertou-a mais contra si - captou a 
tua fora...

- Sim, essa fora tornou-se na sua vida. - Ainda chorava, mas 
sorrindo ao mesmo tempo. - Marius, no fundo estou feliz... Eis-me de 
novo um ser humano, uma mulher como as outras. j no sou a 
"feiticeira siberiana"... As minhas mos j no produzem 
irradiaes... Sou a Corina Herbert e vou ter um beb...  
maravilhoso...
Foi preciso uma semana para convencer toda a gente de que as mos de 
Corina j no podiam curar. Chegavam carros e autocarros, as pessoas 
desciam, juntavam-se e discutiam longamente diante do letreiro 
pregado  porta.
LAMENTAMOS CONFIRMAR QUE CORINA DEIXOU, INFELIZMENTE, DE PODER 
SOCORR-LOS. PEDE-LHES QUE VOLTEM PARA CASA E AGRADECE A TODOS.
Durante alguns dias, os comes-e-bebes e as barracas ainda fizeram bom 
negcio: era simultaneamente necessrio alimentar e acalmar o 
sentimento de decepo e de excitao que todos sentiam. Comearam a 
circular os boatos mais estranhos: Corina fora proibida pelo tribunal 
de se ocupar dos doentes. Os mdicos tinham triunfado. Sim, fora da 
cidadela deles, era proibido curar! A Polcia tinha selado a tenda. 
(Pouco importava que os selos fossem invisveis!) A justia ameaava 
prender Corina.
Um grande e gordo espertalho barbudo subiu para uma cadeira diante 
da porta fechada e dirigiu-se  multido.
- Se  assim, se as carcaas velhas que nos dirigem nos impedem de 
nos tratarmos, ento resta-nos organizar atravs das ruas de M'nster 
um grande desfile de protesto at ao palcio do governo local. 
juntemo-nos todos! No podemos deix-los fazer o que querem!
A imprensa e a televiso acorreram de novo e comprimiram-se diante 
das grades do pequeno jardim dos Doerinck, que, entrincheirados, no 
deixaram entrar ningum. De nada valeram os desmentidos oficiais das 
autoridades governamentais e judicirias afirmando que nenhuma medida 
proibia Corina Herbert de continuar a receber os doentes. Doerinck, 
interrogado cada vez que saa ou entrava, limitava-se a responder: "A 
Corina j no pode ministrar tratamentos! Sem comentrios!" A massa 
dos jornalistas aprendeu a temer os rugidos de Erasmus Roemer: "A 
representao acabou! Agora tm de habituar-se a mijar nas prprias 
botas! A Corina no est presa, nem sofreu nenhum acidente ou ficou 
maluca. Vou dizer-lhes a verdade: quis tratar um jornalista e desde 
ento tem constantemente vontade de vomitar! E agora, tropo  tropo, 
como dizem os Italianos!"
A situao piorava a cada passo. Que esconderia o sbito 
desaparecimento de Corina? A partir do quarto dia, os doentes 
organizaram atravs da cidade um desfile com tochas que se imobilizou 
diante da grade do jardim dos Doerinck. S Ludmila apareceu durante 
um instante, afastando os braos num gesto de desolao. Houve um 
jornal dirio que publicou a toda a largura da primeira pgina: "A 
tragdia abate-se sobre os Doerinck." O professor Van Meersel 
telefonou da Holanda para propor os seus servios. Dois dias depois, 
Nerochenko mandou um telegrama: "Que se passa? Quer vir  Rssia?" O 
correio de Hellenbrand estava submerso em cartas e telegramas vindos 
do mundo inteiro: de Tquio, Sydney, Los Angeles, Ontrio, Quebeque, 
Miami, Honolulu, Seul, Pequim, Nova Deli, etc.

Corina refugiara-se com Marius no seu antigo quarto de criana, 
folheando os catlogos dos construtores sem encontrar a casa dos seus 
sonhos.
- No fundo, que  que queremos? - resumia Marius. - Um stio onde 
ningum nos conhea. No h muitos,  parte a Gronelndia, a floresta 
virgem do curso superior do Xingu, no Brasil, uma das mil ilhas 
Fidji, no mar de Suva, ou, ento, no alto dos Andes, resta-nos as 
runas duma cidade inca. H ainda os planaltos da Birmnia, reino da 
droga... Fora isto, no vejo mais nada.
- A Sua agradar-me-ia - disse finalmente Corina. - Uma casa num 
stio qualquer das montanhas onde ningum se preocupe connosco. Sers 
um pintor que cultiva o seu jardim, corta madeira para a lareira e 
bebe de vez em quando um copo com os camponeses da aldeia e passars 
quase sempre despercebido. Esse pintor ter uma mulher, como  
natural, uma tal Corina, e um filho. O que nos interessa, de facto,  
estarmos rodeados de calma e, para mim,  importante ser uma mulher 
como as outras.
- E se, depois de o beb nascer, isso volta?
- Isso no volta nunca mais. Sinto-o.  por isso que fico ainda mais 
feliz por te ter curado
Doerinck tambm se congratulava com a "normalizao" da filha. Tinha 
declarado sem rodeios ao genro:
- Visto teres conseguido a proeza de fazer de Corina uma verdadeira 
mulher, tenho de fazer com que me perdoes por muitas coisas... Mas 
porque  que querem ir para to longe?
- Aqui nunca mais teremos um segundo de repouso...
E Corina interviera, abraando com um gesto largo o planeta inteiro.
- Hoje j no h distncias, papuchka, bastaro algumas horas para 
que voltemos a estar todos juntos.
"Decididamente, ela tem sempre a ltima palavra", pensou Doerinck.
A casa elevava-se num prado inclinado, por baixo de uma montanha 
fendida cujo mpeto quase vertical na direco do cu era 
impressionante. Chamavam-lhe o Hammerhornli, porque, quando se olhava 
de baixo para a sua crista inclinando a cabea, tinha a forma de um 
martelo (hammer) de cabo curto. No vale corria um ribeiro. Havia uma 
ponte de madeira que permitia ir  aldeia que fora construda na 
outra vertente. Depois de uma semana de idas e vindas nas montanhas 
suas, j quando estavam prestes a desistir de procurar, visto s 
encontrarem casas que no lhes convinham e que ficavam sempre 
demasiado perto da civilizao, vislumbraram o chal dos seus sonhos. 
Apresentava, mesmo  entrada da ponte, um letreiro deteriorado pelas 
intempries: VENDE-SE. Saram logo do carro e, depois dum instante de 
silncio, sem sequer terem trocado uma palavra, tinham-se abraado.
A casa pertencia a um habitante da aldeia que negociava em madeira. O 
preo nem se prestava a discusses. Como bom suo consciencioso e 
respeitador das leis, o proprietrio convocou imediatamente as 
autoridades competentes relativas a vendas a estrangeiros, desde o 
presidente da cmara at ao notrio. A seguir, tirando dum armrio 
uma garrafa de aguardente, tinha declarado: "E agora, tudo est 
arranjado!"

Um adiantamento da Morrison e Sons permitira a Marius concluir o 
negcio. Na Pscoa, a primeira exposio de Marius Herbert, o "Van 
Gogli do sculo xx", como era dito num descontrolo publicitrio, 
devia realizar-se em Nova Iorque e tudo deixava prever um enorme 
xito.
Depois da assinatura da escritura, tinham ido para o chal e ficado 
muito tempo de p, mo na mo, na grande sala vazia e fria com 
paredes de pinho e com a grande salamandra central circundada pelo 
tradicional banco circular. As persianas das janelas batiam com o 
vento e as lmpadas elctricas balanavam, suspensas no tecto por 
simples fios.
Com as mos cruzadas sobre o ventre, que se lhe arredondava 
visivelmente, Corina declarou com solenidade:
- Vamos instalar-nos logo a seguir s formalidades de registo. 
Gostaria que o nosso filho nascesse aqui, na paz e na beleza deste 
mundo.
Mudaram-se em Abril com mveis novos comprados num grande armazm.
O chal ainda cheirava a madeira fresca e a pintura. A nova cozinha 
estava instalada e o electricista tinha efectuado as ltimas 
ligaes. Marius experimentou o telefone: funcionava. O vasto mundo 
estava ao alcance deles.
A primeira pessoa a quem telefonaram foi ao mdico da localidade, um 
tal Ruedi Zinimerli.
- Estou grvida - disse Corina. - No oitavo ms. Onde vou dar  luz?
- Irei v-la amanh depois do almoo - respondeu o mdico. - 
Falaremos ento.
O Dr. Zimmerli era alto e seco, tinha a cara curtida pelo duro clima 
das alturas e era to avaro de palavras como os camponeses que 
compunham a sua clientela. Chegou num carro preparado para todos os 
tipos de piso, com o qual conseguia chegar aos stios de mais difcil 
acesso. Deteve em Corina um longo olhar pensativo, como se aquela 
cara o fizesse pensar em qualquer coisa de que no conseguia 
lembrar-se exactamente. Ficou cerca de meia hora, bebeu um copo de 
vinho enquanto comia algumas fatias de carne e declarou: , - O 
hospital  bom. No os chame demasiado tarde.  prefervel faz-lo 
demasiado cedo. Aqui j nasceram quatro bebs durante o trajecto da 
me para o hospital. Para trs, isso significou a morte. Telefone 
assim que sentir os primeiros puxes nas costas. O que  que calculou 
como data?
- O meio do ms de Maio, senhor doutor.
- Est bem. As crianas de Maio, dizem, so aquelas de quem se gosta 
mais facilmente. E sempre tive menos complicaes com elas. L porqu 
no sei.
Quando o Dr. Zinimerli comeava a afastar-se no seu carro, atalhando 
atravs dum campo em pousio, Marius levantou os ombros.
- Que mdico esquisito! Olhou-te com um ar estranho.
- Ests a imaginar coisas, Marius.
- Talvez...
Do outro lado do curso de gua, o carro do mdico j se encontrava a 
atravessar a rua principal da aldeia.
- Antes, terias sentido isso imediatamente, Cora...,
- Sinto-me feliz por esse "antes" ter desaparecido.  como se me 
tivessem libertado dum peso. Marius, olha como este pas  bonito. 
Quando todas as montanhas estiverem floridas, chegar o nosso 
filho...

Todos os dias telefonava para Hellenbrand, ou ento era Doerinck quem 
lhes ligava  noite. A conversa versava sobre coisas simples: novos 
cortinados, a compra de loua, um calmo passeio a p at ao cimo da 
montanha "deles", o Hammerhornli, o encontro da Morrison e Sons no 
hotel, que passaria a ser a partir da o seu lugar habitual de 
contacto. Tambm falavam do Dr. Zimmerli, que, na antevspera, 
piscando os olhos, tinha declarado: " uma rapariga. Engano-me 
raramente. Tem ar de quem est  espera duma rapariga. Procure um 
bonito nome para ela."
- E se for uma, como  que vo chamar-lhe? - perguntou Doerinck.
- Svedana. - respondeu Corina sem hesitar. -  o nome da me da 
mamuchka.
- E se for rapaz?
- David, como o meu av Assanurian. Concordas, pai?
- A tua me, que est a ouvir, j chora de alegria!
O Dr. Zimmerli no se tinha enganado. No dia 25 de Maio Svetlana 
Herbert nasceu no hospital. Era uma delicada menina com uma j densa 
cabeleira e de olhos azuis. Corina teve um parto fcil, ao contrrio 
de Ludmila, quando ela nascera. Tudo se passou numa hora e a parteira 
declarou:
- Que linda menina! Ainda ser mais bela do que a me.
Nada se podia comparar com a felicidade dos avs, que, acompanhados 
pelos recados de Erasmus Roemer e do Dr. Ewald, tinham partido 
imediatamente para a Sua. Ao ver a expresso de orgulho de Stefan 
Doerinck com a neta ao colo, dir-se-ia que era ele o protagonista do 
acontecimento. Ludinila olhava para ele, aterrorizada.
- No a deixes cair! E no a apertes demasiado. V se tens 
cuidado!...
Sensao em Nova Iorque! Morrison e Sons anunciava triunfalmente por 
telegrama: "O nome de Marius Herbert entrou na histria da arte. 
Exposies previstas imediatamente: So Francisco e Nova Orlees. A 
sua viagem a Nova Iorque, indispensvel este mesmo ano, de 
preferncia antes do Natal, para a nova grande exposio."
- Em Dezembro! - exclamou Corina. - A Svetlana ter ento sete meses. 
Poderemos ir contigo. Tens de aceitar, Marius...
- Se vierem as duas, fao a viagem.
Mais uma vez, Marius releu lentamente o telegrama. Parecia-lhe que as 
palavras lhe ressoavam nos ouvidos como o repique de um sino 
celebrando uma vitria: "Marius Herbert... entrou na histria da 
arte..."
Com as lgrimas nos olhos, voltou-se para Corina.
- Sem vocs as duas, recusar-me-ia a ir l. Que teria sido de mim sem 
ti, Cora?
- O que s agora, meu querido. Isso dormia em ti, s foi preciso 
despert-lo.

Numa manh de domingo do ms de Agosto, Corina levantou-se para 
preparar o pequeno-almoo, como costumava fazer aos domingos. Aos 
dias de semana Marius encarregava-se disso, sem que nunca tivessem 
combinado nada. Marius gostava de se levantar cedo. Pintava encantado 
as paisagens matinais envoltas numa bruma que os primeiros raios do 
Sol comeavam a atravessar pouco a pouco. Quando Corina aparecia com 
o beb, era acolhida pela casa, que parecia um ninho cheio de 
cheiros: o do caf modo de fresco, o do po mantido quente no forno 
e o do ramo de flores colhido no jardim ou na vizinhana. Mas ao 
domingo era tudo diferente: Marius ficava na cama a brincar com a 
Svetlana e s descia quando Corina gritava l de baixo:
- A p, seus preguiosos! O caf est pronto!
Naquele domingo estava a chover. O ramo de flores, com dois dias, 
comeava a murchar. Corina tirou-o do vaso, que encheu de gua 
fresca. Depois foi at  janela para olhar para a chuva que caa do 
cu invisvel e batia docemente nos vidros. "Com um tempo destes a 
ausncia de flores frescas  natural", pensou. Mas quando ia buscar 
as flores murchas para as deitar fora, parou repentinamente, 
estupefacta, tremendo sob o choque duma emoo terrvel e imprevista: 
as flores erguiam-se erectas, resplandecentes de frescura e beleza, 
nas suas mos.
Ouviu-se dar um grito terrvel. Tinha aberto as mos e recuado dois 
passos e olhava para as flores, que tinham voltado  vida e que 
tocavam o solo. A seguir precipitou-se para a cozinha, tirou um copo 
do armrio, pousou-o no lava-louas, estendeu as mos por cima dele e 
abriu os dedos. De imediato, o copo estilhaou-se em mil bocados.
Escapou-se-lhe um novo grito de horror, to terrvel que nem parecia 
provir duma garganta humana. Ia e vinha na cozinha, mordendo os 
punhos e enterrando profundamente os dentes na prpria carne. Quando 
Marius, transtornado, chegou a correr, olhou para ele com olhos de 
louca.
- Ajuda-me, Marius, ajuda-me! Pega no machado e corta-me estas mos. 
F-lo por ns todos. A infelicidade volta a bater-nos  porta, 
sinto-o, sei-o! No quero ter outra vez esta maldio! Ajuda-me!
Antes de ter tempo para a agarrar, ela inclinara-se para trs e cara 
ao comprido no cho de tijoleira. Estava inconsciente, debatendo-se 
com a boca a espumar e o corpo agitado por bruscos sobressaltos que 
pareciam uma sucesso de choques elctricos.
Repentinamente, a crise de nervos cessou. Ficou ento durante algum 
tempo deitada de lado, dir-se-ia que adormecida, imvel, mas ainda 
sem recuperar a conscincia, mesmo quando Marius a tomou nos braos 
para a transportar para o quarto. Aps alguns minutos, acabou por 
abrir os olhos e olhou  sua volta.
- Tens o copo? - perguntou finalmente. - Viste as flores? - Voltou... 
Mas porqu? A infelicidade vai voltar, tenho a certeza...
- Mas no compreendo... O que  que se passou?
- As minhas mos... A fora est de novo em mim e as minhas mos 
irradiam. Tudo voltou a ser como dantes.
Chorava agora em silncio.
- Meu Deus! - gaguejou ele, e deitou um olhar  sua volta como se a 
infelicidade que ela anunciava estivesse no chal, perto deles.

Ajudou-a a levantar-se da cama e conduziu-a, ainda vacilante, at uma 
cadeira, em que ela se deixou cair. Pouco a pouco, recuperava o 
flego. Ao seu rosto regressava um pouco de cor. "Que podia 
dizer-lhe", pensou ele. "O que  que iria passar-se? Tudo ia comear 
outra vez. Vai fixar o olhar nas pessoas e dizer involuntariamente: 
"Est doente. Venha comigo e cur-la-ei." Voltarei a v-la estender 
as mos em forma de taa na direco dos que sofrem e a seguir 
faz-las ir e vir por cima dum corpo para lhe adormecer a dor e 
secar-lhe o mal? No! Isso, nunca mais! Este vale solitrio ir 
encher-se de caravanas de camionetas e de colunas de carros? O seu 
belo chal iria transformar-se numa fortaleza cercada? Sim, o dom que 
ela recebeu ao nascer no passa de uma maldio!"
Apercebeu-se de que ela respirava, por fim, livremente, fixando nele 
os olhos, nos quais danava uma chama sombria.
- Ningum deve ficar a saber, Marius... Nem o meu pai... Nem a 
mamuchka... Compreendes?
- No direi uma s palavra. Esperemos que no te traias a ti mesma...
Ela abanou a cabea, deixou os braos penderem de cada lado do 
cadeiro e passou a lngua pelos lbios ressequidos.
- Queres ch, querida?
Ela acenou com a cabea, ainda exausta. Marius correu para a cozinha. 
No seu bero de madeira talhado grosseiramente pelo marceneiro da 
aldeia, Svetlana comeava a mexer-se e a gemer docemente. H muito 
que a hora do pequeno-almoo dominical tinha passado e o relgio 
interior da criana chamava-os  realidade quotidiana.
Corina levantou-se suspirando para pegar no beb ao colo, cujo vagido 
se transformou num ronronar de bem-estar. Na cozinha, Marius juntava 
os bocados de vidro partido e as flores, que atirou para o caixote do 
lixo num gesto de furor. No fundo de si mesmo a angstia subsistia. A 
partir dali, sabia-o, nada voltaria a ser como dantes.
Doerinck telefonou  noite.
- Como est toda a famlia?
- Bem, pap...
Era uma primeira mentira proferida numa voz que no tremia.
- E o meu tesourinho?
- O tesourinho j est a dormir, papuchka.
- O que  que fizeram hoje?
- Passemos at  cascata.
Tinha chovido todo o dia e ainda estava a chover. Era impossvel pr 
os ps fora de casa. Era, portanto, uma segunda mentira. Porqu?, 
perguntou-se ela.
- Ento est bom tempo a? Aqui chove imenso. Bom, a tua me j aqui 
est. D beijinhos meus  mida.
Uma conversa telefnica pode s vezes tornar-se um suplcio. Quando 
desligou, Corina sentou-se de novo exausta. Numa voz cansada, sem 
timbre, acabou por dizer:
- Eis o que ser a partir de agora a actividade principal da nossa 
vida, Marius. Mentir. Mentir a toda a gente e a propsito de tudo.  
a nica maneira de assegurarmos a nossa tranquilidade.
No princpio de Setembro, Svetlana acordou um dia com febre. Tinha 
seis meses. Era um beb slido e de extraordinria beleza, com os 
seus cabelos negros e os olhos de um azul brilhante. Quando Corina 
lhe pegava ao colo e o seu olhar mergulhava no da criana, tinha a 
impresso que eram ambas envolvidas por uma nuvem de calor.
O Dr. Zimmerli veio imediatamente. Marius tinha-o prevenido pelo 
telefone, escondendo-o de Corina, que se opusera ao telefonema. 
Quando esta foi abrir, ao ouvir a campainha tocar, recebeu-o bastante 
friamente.,
- Ah,  o doutor! O que  que vem fazer c a casa?
- A Svetlana est doente. Tem febre.
Ele entrou, precedendo Corina, que o viu desembaraar-se do sobretudo 
e pegar na maleta.
- Foi o Marius que o chamou?

- Feliz da criana cujo pai se ocupa dela. No  o que se passa 
noutras famlias. Para algumas, uma vaca doente  muito mais 
importante do que um beb. Posso ver a Svetlana?
Ela aquiesceu com um sinal de cabea e guiou-o at ao quarto, onde o 
deixou sozinho. Quase furiosa, sobretudo pouco  vontade, voltou a 
sair para se precipitar no atelier que Marius tinha arranjado e onde 
mandara abrir uma larga janela pela qual penetrava em cascata a 
claridade vinda do norte - para um pintor era a melhor exposio, 
visto a luz do norte ser neutra.
- Telefonaste a Zimmerli? - disse ela numa voz forte.
- Telefonei. A Svetlana est doente.
- Ela no precisa de mdico e tu sabe-lo bem...
- Mas jurmos esquecer as tuas mos, Cora...
- No, quando se trata de ns!
Dando bruscamente meia volta, voltou a correr para o quarto, onde o 
Dr. Zimmerli tinha tirado Svetlana do bero para a deitar na cama. j 
estava a guardar o estetoscpio. O beb batia com os ps e 
queixava-se docemente.
-  preciso lev-la ao hospital. Trata-se de uma simples precauo.  
preciso p-la em observao. Pode ser uma indigesto, mas o que me 
preocupa  ela ter sinais de hepatite. Uma hepatite num beb no me 
agrada nada... Vou ligar imediatamente para o hospital.
- No - disse Corina numa voz to firme que o Dr. Zimmerli olhou para 
ela surpreendido.
- Como?
- A Svetlana vai ficar aqui.
- Isso  o que a Corina diz. Eu c digo o contrrio. A minha 
responsabilidade est em jogo!
- Eu sou a me e assumo a inteira responsabilidade do que fao.
- Bom! j que  preciso ser desagradvel, vamos a isso. - Abriu a 
maleta, tirou de l um frasco cromado que continha
uma seringa e uma ampola. - Chamam-me na minha qualidade de mdico, 
diagnostico uma doena grave num beb, acho que o internamento  
indispensvel e chamo a ateno para o facto de uma recusa pr em 
perigo a vida da sua filha. Se acontecer qualquer coisa, fica sob a 
alada da lei. - Tinha pegado na ampola e estava a encher a seringa. 
- Enquanto esperamos a transferncia para o hospital, vou dar uma 
primeira injeco  Svetlana.  preciso ganhar tempo.
- Tambm me oponho completamente a isso. Probo-o de o fazer.
Debruou-se sobre a cama e pegou na criana ao colo para a apertar 
contra si. Sentiu uma vez mais uma impresso de calor envolvendo-as a 
ambas como se fossem uma s. O Dr. Zimmerli, com a seringa na mo, 
zangou-se seriamente.
- Repito: talvez seja um caso bem mais grave do que pensa. Quer 
proibir-me de salvar esta criana?
- Aquilo a que chama a hepatite de Svetlana  uma ictercia 
parenquimatosa proveniente de uma hepatite aguda.
- Nunca! Como pode sab-lo?
- Senti-o! Vi-o! Sei-o desde h duas horas.
O Dr. Zimmerli pousou com precauo a seringa na caixa cromada.
- O que  que quer dizer com "senti-o", "vi-o"?
- Senti-o com as minhas mos.

- Ento  isso! - Com um golpe seco, o Dr. Zinimerli voltou a fechar 
a tampa da caixa. - Ento  voc! Quando a vi pela primeira vez, 
interroguei-me sobre onde  que tinha visto a sua cara. Agora j me 
lembro: vi-a na televiso, nos jornais e semanrios ilustrados. A 
curandeira alem! Como  que lhe chamavam? "A mulher das mos 
irradiantes", no era?  voc que cura o cancro com as mos?
- Sou. j concorda comigo?
- De maneira nenhuma!
Tinha-se endireitado todo e o seu olhar hostil preveniu Corina de que 
o combate em que se encontrava h anos se reiniciara: era o da fora 
que existia nela, daquela irradiao que diziam ser milagrosa, contra 
toda a rigidez da medicina oficial.
- A Svetlana deve ser internada imediatamente.
- No. Eu prpria a curarei aqui.
- Mas se se trata justamente de uma ictercia parenquimatosa, como 
diz, tem de ser tratada no hospital.
- Comigo, ela estar curada dentro duma semana, no mximo.
-  pura loucura! Minha senhora, est a cometer um crime contra a sua 
filha!
A sua excitao era tal que continuou a gritar em dialecto suo, que 
era absolutamente incompreensvel para Corina. Esta aproveitou um 
momento em que ele retomava flego para dizer calmamente:
-  melhor ir-se embora, doutor. Tem certamente outros doentes para 
ver.
Corina ouviu o carro arrancar raivosamente. Marius saiu a correr do 
atelier.
- O que  que se passou, Corina?
- Pu-lo na rua.
- Meu Deus! E a Svetlana?
- Queria intern-la.
- Mas, e se for necessrio, Cora! - gritou transtornado.
- Quero tratar eu mesma a Svetlana. Foi o que lhe disse!
Marius, desesperado, limpou o rosto com as mos, pois subitamente 
comeara a suar.
- O que  que acabas de fazer, Cora? O contrrio do que jurramos 
fazer. Agora vai recomear tudo. Vai ser outra vez o inferno.
O que se ia abater sobre eles no era o inferno, mas uma cadeia de 
acontecimentos talvez ainda mais graves. Quatro horas depois, 
ouviu-se de novo o som da campainha. Foi Marius quem abriu. Viu 
imediatamente a ambulncia do hospital distrital com dois enfermeiros 
vestidos de branco. Na primeira fila, o Dr. Zimmerli cumprimentou-o 
em silncio, tendo a seu lado um polcia que levou protocolarmente a 
mo ao bon.
Marius deu meia volta e chamou Corina.
- Esto a... Querem levar a Svetlana...
Ela endireitou-se de um salto e apareceu. Ao v-la, Marius ficou 
paralisado pelo estupor: j no reconhecia a mulher. O rosto 
maravilhoso que ele amava transformara-se numa mscara de traos 
deformados, na qual brilhavam dois olhos. Estava ali, de p, com os 
dedos crispados como as presas duma louca ou dum animal pronto a 
saltar sobre quem quer que quisesse levar-lhe a criana.

O Dr. Zimmerli e o polcia tinham parado na entrada. Trocaram um 
olhar cmplice. A atitude daquela mulher era clara. No era preciso 
ir mais longe. A cara do Dr. Zimmerli traduzia a sua perturbao: 
encontrava-se numa situao no s desagradvel mas igualmente 
aborrecida. A sua voz quase tremia quando comeou a falar.
- Dado ser um caso urgente e visto recusar-se a aceitar as medidas 
que se impem, fui obrigado a pedir a ajuda da Polcia no interesse 
da criana. O chefe da Polcia local recebeu ordem de levar a criana 
para o hospital distrital. - Mostrava um ar manifestamente 
transtornado, mas conseguiu continuar. - No crie dificuldades. 
Ignoro como  que as coisas se passam na Alemanha, mas aqui  a 
Sua. A sua deciso de querer curar esta criana, que est ameaada 
de morte, apenas com as prprias mos  uma loucura. Por isso, somos 
obrigados a tirar-lha. Qualquer tribunal suo me dar razo. Se a 
criana morrer, teremos, pelo menos, feito tudo o que podamos para a 
salvar.
- Mas eu posso cur-la, posso mesmo! - gritou Corina.
Numa voz sem timbre, Marius interveio.
- Pois pode! Sou testemunha disso. Curou-me de um cancro no estmago 
e curou a me de um cancro no clon. E curou centenas de doentes. Leu 
ao menos os relatrios das experincias a que a submeteram? O 
professor Nerochenko...
A cara do mdico do campo contorceu-se de repugnncia.
- Agora vem falar-me dos russos! Do charlatanismo desses 
pseudocientistas!
- Espere! - Corina tinha avanado, juntando as mos num gesto de 
orao. - H uma hora tratei a Svetlana e continuarei amanh e depois 
de amanh. Ela estar curada dentro duma semana. Espere s...
Vermelho de clera, o Dr. Zimmerli j no conseguia conter-se.
- Esta mulher  insuportvel com as suas momices! Chama a isso 
tratar! Vai matar a filha com tanta cegueira. No passa de uma 
anormal. - Voltou-se para o polcia. - E agora, executem as ordens!
O polcia deu um passo em frente e ficou rgido. Ainda comps o 
uniforme verde-acinzentado antes de declarar no tom mais neutro 
possvel:
- Minha senhora, tenho ordem de a prender para proteger a vida da sua 
filha, Svetlana Herbert. Peo-lhe que me siga.
- No vai prender a minha mulher - disse secamente Marius. - Pode 
levar a criana para o hospital...
Corina lanou um grito desesperado.
- Ests a matar a nossa filha, Marius! Ests a mat-la!
Para qu resistir mais? O polcia e um dos enfermeiros fizeram Corina 
sair do quarto. O Dr. Zimmerli e o outro enfermeiro puderam ento 
entrar. Alguns segundos depois, saram levando a criana embrulhada 
num cobertor. Tiveram de se juntar os trs para resistir a Corina, 
que gritava como um animal. Os seus gemidos atrozes redobraram quando 
a ambulncia, depois de ter atravessado a ponte, desapareceu na rua 
principal da aldeia.
- Esto a matar a minha filha! A mat-la! Svetlana!
Com a ajuda de Marius e do polcia, o Dr. Zimmerli deu a Corina uma 
injeco tranquilizante. Parando de gritar, ela ps-se a chorar de 
maneira estranha, numa espcie de queixa montona, ininterrupta, num 
tom quase agudo. Lentamente, caiu num sono profundo, mas agitado por 
bruscos sobressaltos. Marius, sentado perto da cama, pegava-lhe na 
mo. Ainda no se mexera, quando tocou o telefone. Era o mdico que 
dirigia o servio de pediatria no hospital.
- Como est a Svetlana, doutor? - perguntou logo Marius, cujo corao 
j comeava a entrar em pnico. - Examinou-a?

- Telefono-lhe justamente por isso, para o tranquilizar. - A voz era 
calma, to tranquilizante quanto possvel. - No se preocupe, senhor 
Herbert. Trata-se duma simples perturbao alimentar acompanhada por 
acidez. Vamos simplesmente modificar-lhe a alimentao e tudo correr 
bem. Onde est a sua mulher?
- Dorme.
- Ento  a si que devo dizer-lhe: seria prefervel, dado o seu 
estado e os seus antecedentes, que ela se abstivesse de vir ao 
hospital durante os prximos dias, pelo menos at conseguirmos 
controlar a situao.  necessrio conseguirmos levar a nossa terapia 
at ao fim. Compreende, no  verdade?
Marius esforou-se por engolir a saliva, mas tinha a garganta 
completamente seca.
- Sim, compreendo... Vou tentar convenc-la. Quanto tempo ficar a 
Svetlana hospitalizada?
- Cerca de dez dias. Sobretudo, no se preocupe, senhor Herbert.
Apesar de tudo, subsistia nele uma dvida: "E se o diagnstico da 
minha mulher for exacto?..." Estas palavras queimavam-lhe os lbios, 
mas conteve-se para no indispor aqueles homens, que, longe dele, 
reinavam como mestres absolutos sobre a vida e a morte da sua filha. 
Ao pousar o auscultador, Marius ouviu atrs de si um ligeiro rudo, 
uma espcie de raspagem. Corina, em p na ombreira da porta, olhava-o 
fixamente. Tinha uma palidez mortal e o seu rosto parecia ter ficado 
flcido.
- Que dizem eles?
- Que  apenas um problema digestivo. Hiperacidez. E que no nos 
devemos inquietar.
- Esto a matar a nossa filha, Marius. Vo mat-la.
- So mdicos experimentados.
- Sempre houve mdicos experimentados e, no entanto, quando estes 
ficavam impotentes vinham ter comigo para que os curasse. Marius,  
preciso recuperarmos a Svetlana. Ela no pode ficar no hospital. 
Temos de encontrar algum que nos ajude: a polcia, um advogado, um 
magistrado, sei l... Meu Deus, em que mundo vivemos sem haver nem 
direito nem justia?
- Tudo o que fizermos agora prolongar-se- no tempo e tornar mais 
longa a permanncia de Svetlana no hospital. Que julgas que diro 
quando afirmares que todos aqueles mdicos esto errados e que vais 
curar a tua filha com as mos? Vamos deparar com um muro firme, como 
nos asilos para alienados! Acabas de dizer uma verdade: para ns no 
h direito nem justia, visto eles no admitirem que curaste doentes 
condenados  morte pela medicina oficial e porque eles perturbam a 
ordem estabelecida e as bruxas so objecto de reprovao! Sempre foi 
assim e continuar a s-lo at que a espcie humana, por causa da sua 
parvoce, se destrua a si mesma...
Beijaram-se longamente, chorando.
Desde h quatro dias e quatro noites que Corina no se afasta da 
janela, de onde o seu olhar mergulha no vale. Quase no dorme e 
quando isso acontece  apenas por duas horas e sem abandonar a 
poltrona, inclina-se apenas para a frente para apoiar a cabea no 
rebordo da janela. Marius aproxima-se logo dela e toma-a nos braos.
Ento, numa voz sem timbre, ela repete sempre as mesmas palavras 
desesperadas:

- A nossa filha sofre. Sinto que a Svetlana est pior. Chora na sua 
pequena cama. Na noite passada, gemeu e vomitou tudo o que lhe deram. 
Chama-me, Marius. Ouo-a... "Acalma-te", disse-lhe, "a tua me est 
contigo e vai trazer-te em breve para a bela casa da montanha... 
Estars curada. A tua mam quer que te cures, no te abandona e no 
te abandonar..." Ento, Marius, peguei-lhe ao colo e acariciei o seu 
corpinho to magro... Os mdicos enganam-se, mas eu sou mais forte do 
que eles, consigo estar com ela.
Na noite do quinto dia, Corina comeou a agitar-se estranhamente. 
Andava dum lado para o outro no quarto, corria para a porta da casa, 
olhava para longe para voltar a sentar-se  janela respirando com 
dificuldade e comprimindo o corao com ambas as mos. Exclamava:
- O que  que se passa, Marius? No consigo respirar. Svetlana,... 
Passa-se qualquer coisa com a Svetlana.
Ele viu-a de repente levantar-se dum salto, correr at  porta, que 
abriu como se ouvisse a filha a chamar. Ps-se a gritar na noite:
- SVETLANA! A tua me est aqui! Svetlana...
Com os dedos a tremer, Marius discou o nmero do hospital.
A enfermeira da noite acabava de entrar ao servio e a sua resposta 
foi a que se podia esperar de uma pea mecnica bem oleada: "No,  
impossvel contactar com o doutor neste momento... No, no posso 
fazer nada. S o mdico pode responder-lhe... Assim que conseguir 
contactar com ele, ligar para si... "
Contudo, no quarto n.o 9 do servio de pediatria, dois mdicos, com 
os olhos finalmente abertos, tentavam em vo opor-se ao avano 
inexorvel do destino. No corpo j esqueltico da criana, cuja pele 
ficara repentinamente de um amarelo-escuro, tentavam injectar gota a 
gota, por meio de uma minscula agulha e de um fino tubo, uma mistura 
de cido aminado e de argimina. No bero, o beb j no se mexia, 
pois o coma heptico j comeava a paralisar-lhe todas as funes. 
Uma ltima anlise mostrava um afluxo sbito de amonaco no sangue e 
tratava-se agora de uma corrida desesperada contra a morte. 
Aterrados, os dois mdicos calavam-se para no terem de confessar que 
a "curandeira das mos irradiantes" tinha tido razo e que eles 
tinham ignorado o seu diagnstico apenas por ele provir dela. 
Admitiam-no, finalmente, mas trs dias era demasiado tarde. Agora, 
mdicos e enfermeiras admiravam-se da rapidez vertiginosa, 
inexplicvel numa criana daquela idade, daquela evoluo fatal. 
Todos pensavam j que nisso encontravam uma desculpa que poderia no 
implicar, eventualmente, a sua responsabilidade...
Em casa, Corina, cada vez mais agitada, tremia com o corpo todo, o 
sangue batia-lhe nas tmporas fazendo com que ela tivesse a impresso 
de que o seu crebro no passava dum aglomerado de substncia 
incandescente. Marius preparara-lhe um caf bem forte, mas ainda 
quase no tinha respirado o seu odor e j se tinha precipitado para 
fora para gritar numa voz inumana: "Svetlana! Svetlana!"

Arrepiado de medo, ele tentara faz-la parar duas ou trs vezes, mas 
ela usara ento duma fora incrvel e tinha-o empurrado sem 
dificuldade contra a parede, a alguns metros dela, para voltar a 
lanar na noite de Novembro um apelo que as montanhas vizinhas 
repercutiam e que gelava o sangue do pai impotente.
Cerca da meia-noite, ela ficou subitamente muito calma, sentou-se na 
poltrona perto da janela e cruzou as mos sobre a barriga como se 
estivesse  escuta de algo que se passava dentro de si. Depois os 
olhos vacilaram, perderam o brilho e, meio cobertos pelas plpebras, 
pareceram enterrar-se nas rbitas, no interior da sua cabea...
Ainda respirava? Precipitou-se de joelhos, fixando aquele rosto 
estreito e parado numa expresso apesar de tudo descontrada.
- Vou telefonar imediatamente ao mdico - teria ele querido dizer.
Inclinando-se para ela, ele viu ainda, distintamente, nos ltimos 
suspiros que ela emitiu, as palavras que repetia desde h vrios 
dias:
- Minha querida Svetlazinha... Estou aqui, perto de ti. Sou eu, a tua 
mam... Ela nunca te deixar sozinha... D-me a tua mozinha... 
Assim, est bem...  to bom estarmos as duas juntas... Vs, tudo vai 
correr bem a partir de agora... A mam fica ao p de ti, meu amor. 
Estamos to bem aqui. Tudo  to maravilhoso... Minha Svetlazinha...
Ainda exalou um suspiro e ele viu o seu rosto descontrair-se num 
sorriso feliz.
- Cora... Cora... - Quase no ousava pronunciar o seu nome, pois as 
suas mos tocavam um corpo que j no reagia s suas carcias. - Mas 
o que  que se passa, Cora?
No mesmo instante, no hospital, os dois mdicos levantaram-se com o 
rosto alagado em suor. A enfermeira desligou automaticamente o 
conta-gotas intil e deixou cair o lenol sobre o corpo, de um 
amarelo-ocre, do beb supliciado.
Nos lbios de Corina continuava a ver-se o mesmo sorriso e a mesma 
expresso de felicidade. O seu corpo tinha-se apenas abandonado sobre 
si mesmo, como se quisesse sentar-se mais comodamente. A cabea 
simplesmente cara para o lado ao passo que as mos cruzadas tinham 
voltado a cair lentamente sobre as coxas.
Marius, ainda de joelhos, levantou a mo na direco do seu rosto 
para lhe fechar completamente as plpebras. E ouviu-se repentinamente 
a implorar quela que deixara de existir:
- Leva-me, leva-me, Cora... No me deixes sozinho, sozinho...
Mas ainda vivia e encontrou-se de repente a percorrer a casa e depois 
a abrir a porta e saindo na noite como ela fizera para gritar: 
"Svetlana, Cora! Levem-me! No me deixem sozinho! Sozinho!" Tudo em 
vo. O destino seguia o seu curso. Finalmente, foi sentar-se na 
cadeira que ficava em frente  de Corina, tentando encontrar consolo 
no sorriso enigmtico da morta, sem conseguir compreender o que se 
passara.
Na manh seguinte, o Dr. Zinimerli chegou. Perturbado, ficou muito 
tempo de p diante da morta, que continuava sentada. No lhe tocou, 
mas telefonou  Polcia e a uma agncia funerria. A seguir tentou 
dirigir algumas palavras a Marius, sem obter resposta da parte do 
homem prostrado, cuja mulher e filha talvez ainda estivessem vivas 
se...

Quando chegou o carro funerrio e puseram o corpo de Corina no 
caixo, Marius no se mexeu. Nem sequer levantou os ombros quando 
Zinimerli quis fazer-lhe compreender que era necessrio proceder  
autpsia da mulher. Isso era absolutamente indispensvel para obter a 
autorizao para a inumar. Quando o carro comeou a fazer marcha 
atrs para partir, Marius voltou para o seu quarto e l se fechou.
O enterro pde realizar-se cinco dias depois. O resultado da autpsia 
criava um enigma. No havia quaisquer sinais de ataque cerebral ou de 
enfarte. Aquela morte permanecia um mistrio. O corao tinha 
simplesmente parado, sem causa aparente, como certificou o mdico 
legista. Na autorizao de inumao, teve de resignar-se a indicar: 
paragem cardaca, causa desconhecida.
No cemitrio da pequena aldeia, depositou-se na mesma cova um caixo 
de carvalho e um pequeno caixo lacado de branco. Marius assim 
decidira. Queria continuar a viver naquela casa que era a de Corina e 
de Svetlana: acreditava no que Nerochenko tinha afirmado: estava 
certo de que elas estariam sempre  sua volta e viveriam com ele 
naquele mundo de mltiplas dimenses de que Corina se tinha 
aproximado. Quando estivesse sozinho continuaria a falar com elas, 
mostraria a Corina as suas novas telas e perguntar-lhe-ia como 
antigamente: "So boas?" Mesmo que nunca ouvisse a resposta, teria a 
impresso de no estar sozinho, visto que aprendera que a solido s 
 um espao vazio para aqueles que no compreenderam o que  a 
eternidade.
O Prof. Van Meersel, que viera ao enterro de Corina com os Doerinck e 
alguns raros amigos ntimos, tomou Marius pelo ombro no momento da 
despedida.
- No paras de te perguntar como e porque  que Corina morreu, no  
verdade?
- Ningum o poder explicar...
- No entanto, existe uma explicao. A medicina j assinalou casos da 
morte simultnea de gmeos a distncias considerveis.  um fenmeno 
a que se deu vrios nomes, mas que se pode conceber do ponto de vista 
parapsicolgico pela existncia duma irradiao, dum campo de foras 
que liga estreitamente dois seres de tal maneira que, quando um 
morre, o segundo desaparece automaticamente. - Van Meersel deitou uma 
olhadela ao vasto vale que a primeira neve transformava numa paisagem 
de conto de fadas. -  assim que imagino o elo que uma Corina e 
Svetlana. Estavam ligadas de maneira indissolvel. Como eram dois 
plos da mesma irradiao, nada as podia separar. Lembra-te que 
quando a criana comeou a viver nela, Corina perdeu a fora interior 
que curava. Essa fora desapareceu no momento da fuso, que era uma 
fuso eterna. Vivemos num mundo de milagres, Marius...
Apertando Marius contra si, Van Meersel avanou alguns passos no 
jardim que estava coberto de neve. Ludinila e Stefan Doerinck, o Dr. 
Hambach e Erasnus Roemer olhavam-nos pela janela no interior do 
chal.
Com uma voz estranhamente baixa e doce, Roemer disse:
- Tenho medo por este rapaz. Ir-se- abaixo...
No mesmo instante, Van Meersel perguntava-lhe:
- E agora, que vais fazer?
- Dentro de uma semana tomo o avio para Nova Iorque... Foi Corina 
quem o quis... Estava to feliz por ir fazer esta viagem comigo. 
Teria ficado to orgulhosa do pintor Marius Herbert... No , Corina?

Voltou-se bruscamente e enfiou a cabea no ombro do holands: ainda 
era demasiado cedo para que a Eternidade pudesse substituir no seu 
corao a lembrana da felicidade desta pobre vida.
No dia 1 de Dezembro realizou-se em Nova Iorque a inaugurao da 
exposio de Marius Herbert. De p, mais de quinhentas pessoas 
aplaudiram longamente o jovem pintor quando este entrou no hall da 
exposio no meio do zumbido das cmaras de televiso e dos clares 
dos flashes fotogrficos. O mundo acolhia a revelao dum novo 
expoente da pintura.
Um pouco embaraado, Marius inclnou-se para um lado e para o outro, 
agradecendo a todos o que o aclamavam. A seguir deu consigo com uma 
taa de champanhe na mo, que um desconhecido lhe dera quase  fora, 
e fez o gesto de beber  sade de todos. E como um movimento da 
multido o tinha isolado por um momento a um canto da sala, levantou 
a taa, uma segunda vez, dizendo docemente:
-  tua obra, Corina!
E sem que ningum compreendesse porqu, depois de a ter esvaziado dum 
trago, atirou a taa contra a parede para a partir,  maneira dos 
Russos.
Era uma mania de artista, sem dvida, e todos se puseram a aplaudir.

Fim
